Volume 1 – Arco 6

Capítulo 49: Impossibilitado

Diego e Rafaela estavam do lado de fora do prédio principal, próximos a um dos inúmeros jardins do Craveiro. O garoto estava surpreso e indignado com a ruiva a sua frente, que havia acabado de lhe negar um favor.

A Raposa não parecia nem um pouco decepcionada por negar o pedido, era como se estivesse falando algo simplesmente, como um bom-dia. Na verdade, tudo que ela fazia era o encarar com aquele sorriso divertido e impassível, como se nada do mundo pudesse acabar com seu humor.

Entretanto aquele era o fim da linha para Diego, pois ele não tinha mais nenhuma outra ideia de como poderia ajudar Margô caso não conseguisse a foto da Prof. Rúnica, e para isso ele precisaria da ajuda da ruiva, já que não conhecia tão bem os truques para subir até o último andar como ela.

— Como assim “não vai dar”? Esse é o primeiro favor que eu te peço! Quebra essa, vai.

— Impossível — disse ela, agora fazendo uma careta. — Depois do diretor nos pegar naquele dia ele dificultou subir até lá. Agora para entrar lá você precisa estar acompanhado de um professor.

Parecia uma desculpa.

— É só ir pela escada de emergência, aquela do lado...

— Também é impossível. Eles colocaram vigias lá, fora que estão usando outro tipo de tranca na porta.

Diego fez uma cara de preocupação. Quem diria que o diretor iria tomar medidas tão drásticas para Rafaela parar de fazer aquilo? Na verdade, o diretor seria bobo caso não o fizesse, e este não parecia ser o caso.

— Tá! Mas vai dar para subir lá em algum momento? — Quis saber. — Não hoje, mas talvez outro dia.

— Sim. Mês que vem.

— Isso tudo!? — explodiu o rapaz.

— Eu só jogo o jogo, quem dita as regras são os diretores. — Ela deu de ombros. — Esse dia é sua melhor chance de subir lá. Soube que vai ter uma reunião de Executivos no prédio de cartas, aí todos os seguranças vão estar. Não vai ter ninguém no quinto andar para te pegar.

Diego mal deu ouvidos, colocou a mão no rosto e começou a esfregar os olhos, pensativo. Era impossível conseguir a foto naquele tempo. Margô já estaria louca, e o rapaz também, ou no mínimo expulso, pois sabia que iria pular em cima da professora caso ela continuasse a perturbar a vida de sua amiga.

 

D

   I

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Depois de alguns dias passando por aulas entediantes, como a do Prof. Riddley e da Prof. Borstmann, Diego foi bombardeado por todos os outros professores a melhorar suas notas. Eles lhe passaram ainda mais deveres de casa para fazer. 

Gutierrez já estava começando a ficar preocupado, o que era praticamente uma raridade visto que o professor era o mais indiferente com relação a notas, pois Diego ainda não havia conseguido a sua cor até ali. O fim do período letivo já estava chegando, e conseguir uma cor com a sua Hagar Selar era tudo que ele iria precisar para passar de ano.

Mas por mais que Diego ficasse pingando gotas e mais gotas de sangue em cima da pedrinha fosca, nada acontecia. Ele acabou se irritando com as tentativas e deixando isso de lado. Também deixou de lado os estudos, já que não considerava importante aquilo no momento.

O que realmente importava seria a próxima aula de Rúnica. Ele tentou elaborar um plano com Tiago e os seus colegas de quarto, porém todos disseram para o rapaz ficar quieto e não fazer nada, já que isso apenas iria piorar ainda mais a situação. Não seria apenas Margô quem iria sofrer, como todos da sala.

Diego os achava muito covardes por estarem com medo da professora. Ela não era um adversário impossível de combater. Era uma humana com um poder estranho e que todos temiam. Mas, certamente, combatível. Porém ele não podia derrota-la sozinho.

Certa noite, quando já estavam todos em suas camas, Diego pulou na cama de Tiago para conversarem.

— O que tá fazendo? — perguntou Tiago, pegando seus óculos.

— Quero te falar da minha ideia. — Diego estava deitado de barriga para cima, encarando o teto enquanto falava com o amigo. — Eu preciso levar uma suspensão da professora. Daí consigo ir para a sala dela e pegar a foto.

— O quê? Não! — Tiago falou alto de mais, fazendo com que outros começassem a prestar atenção. — Não faz isso. Só vai acabar com todo mundo levando uma suspensão também!

— A gente vai levar uma suspensão? — perguntou Lauro, se levantando da cama, assustado. — Que história é essa, parceiro?

— Quê? Não é nada disso…

— Ah, pelo amor. — Dani se levantou, aborrecido por terem lhe acordado. — Diego, será se você não entende que já estamos marcados pela professora? E diga-se de passagem, isso foi culpa sua. Então, não piorar a situação é muito importante.

Diego deu um salto da cama, enfurecido com os colegas.

— Vocês são uns covardes! Acham que eu ficaria parado vendo vocês sofrendo?

— Mas deveria — concluiu Dani, com seriedade, embora os outros tenham ficados sentidos com a pergunta. — Veja o caso da Margô, ela se vira muito bem sozinha, sem sua ajuda. Se você não tivesse defendido tanto ela, não estaríamos assim.

Diego deu um passo para trás, era como se tivesse tomado um soco no estômago. 

— Vocês só pensam em vocês?

— Eu sim — disse Dani, com simplicidade. — Eu estou tentando construir um futuro aqui dentro. E não vou deixar uma professora estragar isso só porque um colega se meteu onde não devia.

Agora ele não recuou, foi para cima de Dani, com passos lentos, um olhar ameaçador. Estava começando a cogitar bater na cara dele, porém ainda tinha muito o que falar. Podia falar sobre como ele, intrometido daquele jeito, conseguiu fazer os Baderneiros pararem de agredir Tiago. Ou podia falar sobre como ele enfrentou Alastor.

Porém seus pensamentos não acharam o caminho de sua boca para virarem palavras. Elas ficaram presas em algum lugar; no meio do caminho, talvez. 

— Será se você não consegue ficar quieto por um segundo, Diego? — perguntou Dani, de braços retos para baixo. Estava o encarando, porém não parecia estar com raiva, apenas frustrado. — Você já é famoso o suficiente, não precisa chamar a atenção.

— Eu não chamo a atenção… — murmurou o rapaz. Mas ele sabia que aquilo era mentira. Na verdade queria dizer que não chamava a atenção por querer.

— Diego, você é um Murdock, sobrinho do Dragão Negro. — Dani começou a contar nos dedos. — Dançou com a Margô, a Selena e a Lorena. — Com a mão totalmente aberta, ele bateu palmas. — Parabéns, você realmente chama a atenção.

Inveja. Talvez aquilo fosse inveja, Diego não saberia responder. Dani tinha um jeito engraçado de ser. Era como se não tivesse nenhuma ambição, como se fosse apenas um grande nerd que se achava mais do que realmente era. Egoísta, prepotente, ou arrogante?

Talvez ele não estivesse errado no fim das contas. Talvez Diego gostasse de chamar a atenção. E pensar naquilo o irritou.

O rapaz se aproximou de seu colega e lhe deu um soco no nariz, que quebrou seu nariz e o fez cair de bunda no chão. Lauro chegou para separar, Tiago puxou o rapaz da cicatriz para longe.

Enquanto Dani tampava o sangramento nasal com uma meia, ele olhou para o seu agressor. Aquele não era um olhar de raiva, nem de ressentimento. Era um olhar de pena.

— Sabe porquê as pessoas gostam de violência? — perguntou o rapaz, a voz anasalada por conta da pressão no nariz. — Por que dá prazer. Mas não dá para fazer o que dá prazer o tempo todo. Às vezes a gente tem que fazer o que é lógico.

E enquanto Dani era arrastado pelo corredor, para ir em direção a enfermaria, outras pessoas do andar OP saíram para ver a situação do rapaz. Diego ficou no seu quarto, enfurecido. Estava não apenas com raiva dos outros como também de si mesmo.

Tiago não falou nada para ele, apenas o observou fingir dormir com cara de preocupação. Quando Dani e Lauro voltaram, eles também foram se deitar. E no meio da madrugada, no silêncio, o rapaz da cicatriz ouviu Sanches cochichar para Fabio:

— Eu não quero que a professora me machuque.

— Não vai — respondeu Fabio, que raramente falava.

Mal notou quando dormiu. Apenas acordou de mau-humor, com a cara amassada. Hoje era o dia da aula. Ele se arrumou e foi o primeiro a entrar na sala da professora, 1-R. Ele estava sentado atrás, longe de sua cadeira habitual. Se tivesse de aguentar ficar parado, observando tudo calado, então que nem estivesse perto.

Margô foi a segunda a entrar na sala. Estava com um olhar horrível, como se estivesse vindo de um velório. Suas mechas estavam azuladas novamente. Assim que seus olhares se encontraram, porém, ela deu um sorriso e seu cabelo voltou ao habitual louro e preto.

— Di! — Ela acenou, indo em sua direção. — Olha, eu já sei o que você fez. E já vou dizendo logo, não preciso da sua ajuda. — Diego bufou. — Estou falando sério. Você só vai pirar as coisas para todo mundo. E eu já falei que aguento. 

Ela fez uma pose, querendo mostra que estava plena. E ela realmente parecia estar. Sempre que estava na frente de alguém tentava ficar o mais radiante possível, do mesmo que jeito que sempre foi. Mas quando ninguém estava olhando, ela tinha aquela cara de quem já estava morto.

Por conta disso, Diego sabia que aquilo era apenas fingimento.

— Di! — Ela estendeu o mindinho para ele. — Promete que não vai fazer nada? Eu dou conta, juro.

Ele encarou a menina com fúria.

— Não vou prometer nada, garota!

— Para com isso, promete logo. — Ela estava mesmo se esforçando para parecer energética. Mal sabia ela que as bolsas embaixo de seus olhos estragava toda a sua pose. 

— Humpf! Tá!

Ela deu um sorriso cansado, que apenas fez o rapaz ficar irritado por prometer algo como aquilo, mas ela mudou de assunto e enquanto a turma chegava eles conversaram sobre qualquer outra coisa.

Todos foram entrando na sala, todos com os olhos vidrados no rapaz, como se estivessem com medo de que ele fizesse alguma besteira. E bom, essa era a cara dele. O dono do assento que ele estava não reclamou, pois entendeu que Diego precisaria muito mais do que ele.

Quando a professora chegou na sala, o rapaz colocou a cabeça para baixo e apenas ouviu o que ela dizia. Não via nada, apenas ouvia os gritos dela, os resmungos e as ofensas estranhas para a menina. Depois de um tempo, Margô foi quem começou a gritar e a gemer de dor.

Era sempre o mesmo “Para, para, por favor” de sempre. Até parecia que ela via a mesma coisa aterrorizando diversas vezes. Esse era o poder da professora? Fazer os outros vivenciarem situações ruins? Bom, Diego caiu de uma altura absurda, porém altura não era seu maior medo.

Aquilo não importava. Margô precisava de sua ajuda. E ele estava logo ali, poderia fazer qualquer coisa.

Sem aguentar mais nenhum segundo, ele se levantou.

— Professora! — gritou ele, o rosto enfurecido. 

Os alunos o encararam de volta, os olhos saltados, desesperados. Embora ninguém falasse, ele sentia que, se pudessem, implorariam para que ele continuasse sentado, sem fazer nada.

— O que foi, senhor Murdock?

O rapaz continuou encarando a mulher, apertando a sua mesa o máximo que podia. Então abriu a boca para falar e tudo que conseguiu sair foi um ruído seco do fundo de sua garganta que soou mais ou menos como um: — Posso ir ao banheiro?

Ela deu um sorriso.

— Sim, senhor Murdock.

Ele andou rapidamente em direção a porta.

— Feche a porta com cuidado — disse a professora.

Diego fechou a porta com tanta força que o estrondo deu de ser ouvido nas outras salas ali perto. 

Ele foi caminhando rápido até o banheiro, carregando em seu peito uma raiva que logo iria explodir. Socou a porta para poder entrar. Outro garoto que estava ali tomou um susto e saiu correndo.

Ele andou de um lado para o outro na frente do espelho. Quando encarou seu reflexo, sentiu nojo por ser um covarde e raiva de não ter feito nada. Com o corpo quente, ele quebrou o vidro com um soco.

Rafaela abriu a moldura para ver o que acontecera.

— Caramba! Você vai levar uma suspensão por isso, amante-de-portas.



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