A Machine-Doll Inigualável Japonesa

Tradução: Artemis

Revisão: Yuuki


Volume 6

Capítulo 6: Fio de Ariadne

Parte 1

 

Em um canto do jardim, em um local cercado por flores, Raishin colocou uma caixa.

E gentilmente depositou os restos mortais dela lá dentro.

O rosto da falecida Epsilon não estava pacífico de modo algum.

No entanto, ela tinha um rosto digno que escondia sua determinação habitual. Ele usou os dedos para afrouxar as sobrancelhas enrijecidas, restaurando seu olhar terno. Enquanto Komurasaki soluçava pesadamente, ela ofereceu flores recém-colhidas para ela.

Era um ritual modesto, mas certamente uma despedida.

Após o luto por Epsilon, Raishin foi para a cidade com a [Invisibilidade Perfeita] posta sobre si mesmo. A aparência da cidade estava claramente diferente. Quase ninguém estava andando pelas ruas, estava em um silêncio mortal. Com medo de alguma coisa— ou melhor dizendo, preparado para alguma coisa, ele prendeu a respiração, permanecendo imóvel.

Aqueles homens de preto estavam diante do portão da delegacia.

A polícia estava totalmente sobre seu controle. Raishin deliberou um pouco e então se dirigiu até a estação de trem.

Ele atravessou a rua e se aproximou do antigo hotel. Depois de explorar os arredores e confirmar que não havia nenhum sinal de vida, ele empurrou e abriu a nova porta de vidro.

A proprietária do hotel estava atrás do balcão e olhou assustada para a porta que aparentemente havia aberto sozinha.

Era tudo ou nada. Raishin cancelou o efeito do Yaegasumi.

A proprietária pareceu surpresa. Ela se sobressaltou—

Ela silenciosamente se levantou de sua cadeira e sem fazer barulho abriu a porta dos fundos.

Ela trocou olhares com Raishin e o guiou, indo para os fundos. Raishin rapidamente a seguiu.

Atrás da porta havia uma sala de jantar com uma mesa e um armário instalado.

— Raishin-kun... era isso mesmo, não era? O que foi essa magia? Eles não o encontraram, certo?

— Não. Embora eles tenham descoberto que eu estava voltando.

— Nossa Senhora está segura?

— A pessoa em questão, sim, ela está segura. Mas Epsilon foi assassinada.

— Entendo.

— Eu gostaria de saber mais sobre as circunstâncias. O que está acontecendo?

— Por favor espere um momento. Vou fazer um chá primeiro.

Um pouco forçado, mas Raishin foi autorizado a se sentar em frente à mesa. Quando a água para o chá já estava fervendo, o mesmo foi servido de imediato.

— Pegue alguns biscoitos.

Ele esticou a mão para os biscoitos conforme orientado.

Uma textura crocante. Uma fragrância doce e suave espalhou-se em sua boca, e ele sentiu-se relaxado.

Parando para pensar nisso, ele não tinha comido nada desde a manhã.

Vendo Raishin abrir bem a boca e comer dois, três deles com gosto, a proprietária abriu um grande sorriso.

— Eles são gostosos?

— Sim, eles são.

Por um momento, o olhar da proprietária se sobrepôs ao olhar de sua mãe, fazendo com que Raishin ficasse um pouco confuso.

Eventualmente, quando Raishin ficou satisfeito, a proprietária cruzou os braços,

— Agora, sobre o que você gostaria de falar...?

— Quem são esses homens de preto? O grupo que atacou este hotel no outro dia?

— Eles não estavam atrás de mim. Eles estavam atrás de você, Raishin-kun.

— Por que— Não, antes disso, me desculpe. A culpa foi minha.

— Garoto tolo. Eu não me importo com isso. Eu ganhei uma porta nova, então estou feliz.

Ela balançou as mãos e riu. Em seguida,

Ela voltou a mostrar uma expressão séria.

— Essa empresa nojenta é composta por chefes do governo.

Não importa como ele olhasse, aqueles caras não pareciam oficiais civis. Pensar em oficiais do governo que possuíam experiência de batalha era fácil pois ele próprio, é claro, também era um soldado.

— Eles disseram que você é um mensageiro de uma organização clandestina. Isso é verdade?

— Que tipo de piada é essa? Quero dizer, que tipo de organização clandestina?

— Não é óbvio? Um grupo de rebeldes com o objetivo de derrubar o governo.

— Derrubar o governo? Existem caras assim?

Não— Sim! Existem!

— Edmund— isso é coisa dele, hein.

Sim, houve algumas pessoas dentro do Exército Britânico que libertaram Edmund após ele ter sido preso.

— Você ter vindo para esta cidade foi uma prova de que a Senhorita Weston também é uma conspiradora.

— Eu não sei nem como responder a isso...

Era uma premissa estranha. Raishin estava, sim, do lado que era contrário à Edmund.

— Então, minha oshishou-sama foi acusada de ser uma rebelde?

— Sim... mas não é apenas isso dessa vez. Quando se trata desse grupo, eles são mais como um bando de ladrões e golpistas. Eles só querem incriminar a Senhorita Weston para poderem roubar suas terras.

Ela os amaldiçoou com irritação. Seu tom forte fez com que Raishin ficasse cheio de emoção.

— Você é uma aliada dela ou algo assim?

— Não há ninguém nesta cidade que seria subserviente ao governo e venderia nossa Senhora. Sinto que os policiais têm esse mesmo sentimento. Todos foram protegidos pela Baronesa Weston.

— Protegidos...? O que houve?

— Há cerca de dez anos houve uma grande escaramuça por aqui.

Escaramuça. Uma palavra inesperada. Raishin largou a xícara e se concentrou nas palavras da proprietária.

— Uma multidão de soldados veio de Sheffield e disseram: “Esta cidade produz muita poluição devido a mina. A mesma será fechada antes que o problema chegue à Sheffield. Abandonem as colheitas. O gado também será completamente abatido.”

Raishin ficou chocado. Se eles fizessem algo assim, a própria cidade desapareceria!

— O grupo estava preparado e disposto a usar todas as suas forças. A Baronesa pediu ao governo permissão para mediar a situação, mas mesmo tendo esperado muito tempo ela nunca obteve uma resposta. Enquanto isso, as tropas se enfureceram e uma disputa se iniciou.

A proprietária suspirou e balançou a cabeça.

— O resto da história é uma tragédia sangrenta. O grupo de Sheffield estava obviamente do lado do governo.

— O governo... os ignorou?

— Se não o tivessem feito, o jornal teria noticiado o ocorrido com grande destaque. Minha Senhora também.

Uma série de perguntas foram esclarecidas. Como, por exemplo, o motivo pelo qual as pessoas da cidade estavam acostumadas a lutar. O respeito por Griselda. O fato de Griselda viver sozinha e o plano de fundo para isso—

— A batalha durou cerca de um mês. Apenas uma década atrás, uma guerra certamente aconteceu aqui. Uma secreta... isso é. Mesmo com a existência de jornais e telefones... você não acha que isso é um anacronismo?

Ele não conseguiu responder. Dizem que as pessoas tendem a falar. No entanto, se as massas forem indiferentes, então o discurso torna-se algo irrelevante.

— A Senhorita Weston teve sua primeira luta ainda aos dez anos. Uma garotinha de apenas dez anos de idade precisou vivenciar uma luta real.

— Naturalmente, o outro lado também tinha marionetistas. O irmão mais velho e o tio dela morreram. Após um mês, nós defendemos nossa terra ao custo da morte de várias dezenas de pessoas.

Sua narrativa continuou clara. Seu tom de voz parecia não conter nenhum tipo de emoção. Os sentimentos reprimidos em sua voz fizeram com que Raishin sentisse dificuldade para respirar, como se ele tivesse sob a influência de um [Fio].

— A batalha terminou, mas os problemas não pararam. De uma forma ou de outra... grupos no mesmo estilo deste grupo de ladrões e também os chefes de Sheffield apareciam de tempos em tempos. A Baronesa Weston nos deu proteção— todas as vezes.

— É... mesmo?

Era natural que estivessem acostumados a lutar. Eles ainda estavam lutando, mesmo agora.

Contra inimigos desconhecidos. E o exército deles se resumia unicamente a Griselda.

Quando ela terminou de falar, a proprietária deu um tapa na mesa e abriu um sorriso gentil.

— Agora, quando terminar de beber isso, vá para casa.

— ...Eu vou. Estou preocupado com o que está acontecendo no castelo.

— Não, não. Não para lá, volte para a Academia.

— O que vocês vão fazer?

— Isso vai depender do movimento que o outro lado fizer.

Palavras impotentes, mas seriamente determinadas.

Com isso, ele se decidiu. Raishin bebeu seu chá e se levantou.

— Ficou com vontade de sair da cidade?

— É justamente o contrário.

Limpando os lábios com o polegar, Raishin declarou rispidamente.

— Por favor, me empreste um telefone. Algum que não esteja sendo vigiado por eles.

 

Parte 2

 

O vento passando pela janela ficou mais frio, mas ela nem sequer notou a mudança.

À tarde, Kimberley estava concentrada nos mapas enigmáticos em seu escritório.

Contornos haviam sido desenhados ao redor de um edifício quadrado. Um edifício semelhante a um templo construído em uma cratera? Fórmulas e descrições que pareciam códigos preenchiam quase todo o espaço.

Subitamente, o telefone tocou ruidosamente e Kimberley o atendeu, parecendo incomodada.

“Como você está, Professora Kimberley?”

— Samantha? São férias de verão, mas ainda assim, obrigado por seu trabalho duro.

“Você também. Você recebeu uma ligação de fora da Academia.”

Kimberley franziu a testa. Uma vez que sua carreira como professora ainda era recente, ela tinha poucas interações fora da Academia. E o princípio adotado pela Nectar para troca de informações era o de [Reuniões Presenciais].

“Edward é um garoto com sotaque provinciano. Você também não deveria ser subestimada.”

— Aquele cara. Coloque-o na linha.

Com um tilintar, a linha mudou completamente.

Kimberley se antecipou a outra pessoa.

— O que você quer, [Penúltimo]? Você não está no meio de suas férias?

“...Como você soube que era eu?”

Ela ouviu a voz de Raishin como se fosse algo realmente desagradável.

— Uma falha como você, que negócios você tem a tratar com uma professora? Falhar na matéria de Física Mecânica é... muito provável. Ou será que você está metendo o nariz em outro problema ou coisa assim novamente?

“...Isso mesmo.”

Então era isso?

Bom, ela teve esse pressentimento desde o momento em que soube de quem era a ligação.

Tempo era precioso. Raishin falou depressa e foi imediatamente direto ao assunto.

“Você conhece um homem chamado Räikkönen? Ele é um mago do governo, deve ter cerca de 30 anos.”

— Claro que o conheço. Em vez disso, fico surpresa que você não conheça.

“Quem é ele?”

— Ele é um marionetista um pouco conhecido. Entre o público, ele é conhecido como [O Carmesim].

“Um Wiseman—”

— Sim. Ele ficou no topo, a três Festas Noturnas atrás.

Sentindo-se como o próprio ápice da imprudência, Raishin mergulhou no silêncio.

— Então? Qual o problema com esse Räikkönen?

“...Um autômato foi assassinado por ele.”

— Mesmo? E o que você quer fazer com ele?

“Eu quero cortá-lo e transformá-lo em carne picada... mas essa é minha vontade egoísta. Eu quero fazê-lo pagar. Não podemos denunciá-lo ou algo assim?”

— Impossível. Ele é um homem muito poderoso agora. Um humilde e simplório estudante está questionando o que o Tenente General Räikkönen fez?

“Tenente General? Então isso é verdade?”

A voz de Raishin virou do avesso. O princípio dizia que um Wiseman ocupava a mesma posição hierárquica que um Comandante. O fato era que mesmo sendo tão jovem ele já ocupava um cargo de Tenente General.

— Você conhece alguma Agência de Inteligência Britânica?

“MI5— essa. A Charl falou sobre ela antes.”

— Isso mesmo. Em breve, uma agência especializada em países estrangeiros será inaugurada como um órgão separado do MI5.

“Países estrangeiros? Isso significa que vão mandar agentes secretos para outros países?”

— Não. A nova agência irá controlar aqueles que já foram enviados. Eu me pergunto se essa agência vai se chamar MI6. O estabelecimento dela só foi possível graças a assistência do Tenente General Räikkönen.

“Então aquele cara é...”

— Ele é considerado o primeiro secretário. Ele é jovem, mas no fim, ainda é um Wiseman.

Mesmo que fosse uma agência secreta de inteligência, os líderes chamariam a atenção de um jeito ou de outro. Pensando nisso, se um Wiseman estivesse na linha de fogo, ele seria uma isca falsa para o mundo— uma cortina de fumaça perfeita. Era valioso que se pudesse realizar avançados experimentos mágicos dentro da agência.

Havia montanhas de coisas que as agências de inteligência desejavam pesquisar, como poderosas drogas da verdade, dispositivos de escuta e câmeras ocultas.

Räikkönen era um Wiseman, um Tenente Gereral e, além disso, um especialista em informação.

— É impossível denunciá-lo. Mesmo que tenha sido um ato criminoso do Tenente General.

“Mas ele a destruiu bem na minha frente!”

— Seu testemunho é o equivalente a um monte de merda. Se você fizer isso, provavelmente vai conseguir apenas alguns favores dos inimigos políticos dele... mas não deixa de ser impossível. As consequências seriam as piores entre as piores.

“...Foi um alívio ouvir isso.”

— O quê?

“Graças a você, não preciso hesitar em recorrer a meios ilegais.”

Kimberley percebeu. Do outro lado da linha, Raishin estava sorrindo!

Assim que percebeu, Kimberley também abriu um sorriso espontâneo.

— Nesse caso, pergunte o que deve ser feito. Quais atividades ilegais você quer que eu pratique dessa vez?

“Eu gostaria que você falasse abertamente sobre os erros do Räikkönen.”

Hou.

Ela pensou. Aquele era um cara que sempre dizia algo inesperado.

“Quando eu gritei, ninguém me deu ouvidos. É por isso que eu quero que você— se aproveite do poder de influência de Nectar.”

— Mesmo que seja apenas uma piada, sua Excelência o General não fica calmo diante de delitos. Existe alguma evidência disso?

“Não. Mas minha suspeita é forte. Se eu der uma sondada, alguma coisa vai aparecer... eu acho.”

— A base para sua declaração é...?

“Você conhece a Wiseman chamada Griselda Weston?”

— Ela acabou de se tornar [O Labirinto] — quatro anos atrás, e ela é a mais jovem Wiseman.

“Eu estou fazendo um trabalho de meio período como funcionário e vivendo no castelo dela no momento.”

— Ora, ora, isso me surpreendeu.

“Sua mentirosa sem-vergonha! Você a conhece, não é!?”

Embora não parecesse que iria conseguir fazer isso, Raishin se acalmou e continuou falando.

“A Griselda está sendo enganada pelo Räikkönen. Ele provavelmente tem algum poder sobre ela.”

 — E você vai expor isso? É melhor parar. Se ele tiver algo contra ela, isso pode acabar trabalhando contra você no final.

“Isso é—”

— Bem, ouça. Pode ser que tenha sido a própria Griselda quem cometeu algum crime. Tornar-se Wiseman não é uma realização qualquer. Não é algo que possa ser alcançado apenas com o uso da força. E se por acaso ela tenha se envolvido com práticas ilegais para chegar ao trono de Wiseman?

“Para que você acha que a Griselda está usando o trono de Wiseman que ela obteve dessa forma?”

— O relatório diz que ela está levando uma vida reclusa.

“E você acha que ela precisava do trono de Wiseman para levar uma vida assim?”

O tom de voz de Raishin mudou. Kimberley prendeu a respiração e ouviu com atenção.

“Não tenho nada além de uma péssima impressão sobre os Wisemen. Eles têm um tremendo poder, fama e fortuna para fazer o que seus corações mandarem e todos mergulham em pesquisas questionáveis... mas ela é diferente.”

Raishin continuou falando com uma voz sólida e cheia de convicção.

“Uma pequena senhora de uma moderna, quase incomum e simples zona rural. Ela é fã de lutas, uma sádica e uma bárbara que puxa sua espada imediatamente... mas ela ama a cidade e, acima de tudo, valoriza as pessoas que vivem nela. O que ela está tentando proteger não é a si própria. Mas sim outra pessoa. Mesmo que eu tenha que fazer todo o trabalho por conta própria por algum motivo, devido as circunstâncias atenuantes, eu posso fazer.”

— Você acredita nela?

“A Griselda é uma pessoa digna de confiança.”

Kimberley suspirou profundamente, sentindo-se desesperada.

— ...Poxa, você me espanta. Sempre que você fica assim, acaba arriscando a vida por alguém que você nem sequer conhece direito. Lembre-se do caso do outro dia. Ionela Eliade estava prestes a derrubar a nação, não estava?

“Você está enganada! A Io estava sendo usada!”

— Nossas opiniões divergem. Acho que Ionela e Charlotte eram culpadas.

Ela trouxe um caso anterior à tona e disse como se o estivesse encurralando.

— Ignorância é um crime. Se elas foram enganadas ou ameaçadas, o peso de seus pecados não se altera. Você será inocente se for forçado a matar alguém? Os mortos foram salvos? Todos os seres humanos devem agir e pensar sobre os efeitos de suas ações. Eu posso dizer isso sobre você. Seu modo de vida está intimamente conectado ao perigo. Você não pode simplesmente ficar se arriscando. O que estou dizendo é que algum dia suas ações irão ajudar algum vilão e tomarão a vida de uma pessoa inocente. Eu não acho que você consiga suportar os pecados de outra pessoa. Você é—

*Fufufu*

O som de sua risada soou.

Raishin estava rindo do outro lado da linha!

— ...Qual é a graça?

“Não é nada disso, Kimberley-sensei. Não me dê lições.”

Parecia que um inseto havia sido colocado dentro de sua boca. Certamente, não era como se a [Professora Kimberley] estivesse tentando dar uma lição de vida para um jovem.

— Uma vez que tenho um estudante incomparavelmente simplório, mesmo eu preciso dar uma lição de vez em quando.

Ela se dirigiu a ele enquanto sorria ironicamente.

— Mas ao menos lembre-se disso. Se você agarrar o braço de um homem que está se afogando, você também vai acabar sendo arrastado para as profundezas. Mesmo que a outra pessoa seja apenas uma criança, suas habilidades de natação são terríveis. Sem falar que você é jovem, imprudente, ignorante e pobre.

“Sim, vou me lembrar disso. Levando essas palavras a sério, vou saltar em águas profundas.”

— ...Você vai pagar por isso?

“Sobre isso, eu concordo tanto que já nem aguento mais.”

Ele disse como se não fosse nada.

Um sorriso preencheu o coração dele. Já havia algum tempo que ele estava com Kimberley, então isso parecia prazeroso.

— ...Bom, é injusto que isso simplesmente se adeque à conveniência do [Imperador da Espada].

“O que você quer dizer com isso?”

— O assunto que estamos discutindo. Ele sabe sobre isso. Devíamos tentar inventar algo relacionado ao Tenente General Räikkönen. Se o homem que você encontrou for realmente ele, isso seria uma vantagem. Espera-se que o Tenente General Räikkönen esteja de serviço em Buckingham atualmente.

“No Palácio Real? Aconteceu alguma coisa?”

— Estou impressionada— Estou mais do que comovida por sua despreocupação.

O clima agradável se desfez rapidamente e, como se tomasse seu lugar, uma dor de cabeça surgiu.

— A Capital Real está fraca agora porque um certo alguém não matou Sua Alteza, o Príncipe Edmund. Teme-se que o Príncipe fugitivo e traiçoeiro esteja planejando assassinar Sua Majestade.

“Ó, pare, do modo como você fala fica parecendo que a culpa disso é minha. Aquele que o deixou fugir é o verdadeiro culpado—”

Com uma expressão de surpresa, Raishin de repente se calou.

Ele ponderou por alguns segundos.

“De jeito nenhum… será que pode ser… isso?”

— O que foi? Você pensou em algum plano estranho de novo?

“Kimberley-sensei. Eu gostaria de pedir o impossível. Até amanhã…”

Ele declarou seus pensamentos com um tom de voz formal.

Ao ouvir as palavras de Raishin, Kimberley ficou verdadeiramente impressionada.

Ela arregalou os olhos espantada com as informações que a Nectar já havia teorizado como suposição, de como ele saltou até essa conclusão mesmo com tão pouca informação, e com a intuição afiada do garoto.

— Você realmente acredita que exista tal conexão? Qual é sua base para isso?

“Um palpite.”

— Foi o que pensei. Minha conclusão é de que isso é impossível. Se o seu olfato canino farejou a verdade, então esses caras não são idiotas o bastante para deixar evidências conclusivas.

“Nesse caso, o que devo fazer? Tem algo que eu possa fazer?”

— Ei, acalme-se. O assédio tem várias formas, mesmo que não haja evidências. Você... certo, você já operou uma câmera?

“Uma câmera? Bem... se for algo simples, eu já toquei em uma no Exército.”

— Já que é este o caso, ouça com atenção o que direi a partir de agora.

Ela contou algumas possibilidades e explicou alguns planos.

— É assim que as coisas podem dar certo. Consegue fazer isso? A outra parte é um Wiseman, é uma missão impossível que não pode ser materializada. Isso sem mencionar a elite do Departamento de Inteligência.

“Possível é o bastante. Tenho a Komurasaki comigo.”

— Então faça— Quase me esqueço, me ligue novamente daqui a doze horas.

Dizendo isso, ela encerrou a ligação.

Imediatamente depois que desligou o receptor do telefone, uma presença humana surgiu parada perto do batente da janela e atrás de Kimberley.

— Você teve uma conversa interessante.

Como esperado, Kimberley estava apavorada.

Mesmo que eu estivesse distraída com a ligação, eu não senti a presença dele.

— ...Entrar no quarto de uma dama não é nada louvável, irmão de Yamabato.

Um homem estava sentado no batente da janela.

Ele vestia uma capa preta com capuz, costurada com fios de ouro. Embora estivessem no verão, ele não parecia estar com calor. Olhando para Kimberley com olhos frios, o homem,

— Essas palavras são realmente impróprias para uma dama, irmã de Uguisu.

— Isso era para ser um insulto? Devo reclamar com nosso pai?

— Vou reportar ao meu padrinho. Isso pode ser interessante.

Kimberley ficou pasma.

— Você pode me ajudar com este assunto? Ou você será apenas um espectador?

— Os espectadores costumam ter uma curiosidade ardente.

Como se seu peso tivesse desaparecido, ele flutuou e colocou os pés sobre o batente da janela.

Ele imediatamente tentou saltar escada abaixo, mas parou no meio do movimento como se tivesse se lembrado de algo.

— Você se lembra? Das palavras que você costumava dizer? “Sob as estrelas”?

— Elas estão relacionadas ao [Penúltimo], hein.

— Eu finalmente entendi o significado delas. Dessa vez o cara da [incineração] é o oponente... Se Deus existe, parece que ele quer matar esse garoto.

— É mesmo? Para mim, parece que ele quer mantê-lo vivo.

— Um desafio de sobrevivência... você quer dizer? De todo modo, é interessante.

Ele abriu um pequeno sorriso no canto de sua boca e saltou no céu vazio.

Kimberley se despediu dele, sentindo-se animada e assombrada.

 

Parte 3

 

Depois que o sol se pôs completamente, já por volta das 21h, Raishin voltou para a Residência Weston. Ele desapareceu na escuridão da noite e passou pelo portão do castelo como se estivesse entrando sorrateiramente.

O terreno estava silencioso. Não havia muitas luzes acesas, para começar, mas o lugar havia mergulhado em um completo silêncio, como se o fogo literalmente tivesse sido extinto.

Ele passou pelo corredor vazio e subiu as escadas gastas pelo tempo até o quarto de Griselda.

Sem obter resposta mesmo após bater na porta, ele girou a maçaneta e a porta se abriu sem resistência.

Ele entrou no quarto por conta própria e foi para a área mais interna. A câmara da lareira estava escura. As luzes estavam apagadas. Raishin acendeu um tipo de ferramenta mágica de iluminação usando seu poder mágico.

Embora ele estivesse preparado para— ser cortado a qualquer momento, Griselda apenas manteve-se apoiada em uma poltrona enquanto olhava pela janela.

Seu corpo parecia extremamente pequeno. Desamparada como uma garotinha.

— ...Eu disse para você não voltar a este quarto. Idiota.

Quando ela falou, Raishin suspirou um pouco aliviado.

Raishin aproximou-se dela na janela.

— Passei meio dia na cidade.

— —

— Achei ruim, mas ouvi muitas coisas. Sobre a guerra de dez anos atrás. Sua família protege esta terra há muito tempo.

— Cale-se! Isso não é nada do que se orgulhar!

Uma chama de raiva queimou no fundo dos olhos de Griselda.

— Um estranho como você, falando deste lugar! Você não sabe de nada!

— Sim, não sei de nada. Então, por favor, me conte mais sobre o assunto. Se você fizer isso, eu vou embora. — Por que você não se opôs àquele cara?

— ...Certo.

Uma voz fraca. Ela apoiou o pescoço nas costas da poltrona e falou devagar.

— Parece que você ouviu sobre o que aconteceu há dez anos. Sendo assim, sobre o que você acha que a luta foi?

— Eu diria que é sobre as terras. Elas quase foram roubadas.

— Errado. Se falássemos sobre a cidade de Sheffield, poderia até ser possível, mas você sabe o quanto vale esta terra rural? O que o inimigo estava almejando era o tesouro da Família Weston.

— Tesouro? É algum autômato ou coisa parecida?

— Um livro banido. Está escondido em algum lugar destas terras— essa é a lenda.

— ...Se isso for verdade, então os inimigos são muito loucos. Por que eles apagariam uma cidade inteira por um livro que eles nem sabem se existe ou não? Esse livro banido é assim tão valioso? A ponto de derramar o sangue de um grande número de pessoas? Eles chegaram a encontrar o tal livro?

— ...Não. Ninguém sabe onde ele está.

Isso tinha cheiro de mentira. No entanto, Raishin decidiu não a pressionar.

— A batalha terminou com uma vitória nossa. No entanto, o inimigo não desistiu. Sua má influência cresceu muitas vezes. Se a luta voltar a ser tão grande quanto foi no início, então mais cedo ou mais tarde o Governo não será mais capaz de ignorar a situação... porém métodos mais injustos estão nos mantendo ocupados, estamos perdidos.

Isso explicava muita coisa. Ataques em pequena escala eram feitos repetidamente por criminosos agindo como um bando de ladrões. Os cidadãos eram forçados a lutar sem parar, e não havia como identificar o inimigo.

— Com isso em mente, meu pai traçou um plano e me enviou para Liverpool.

— Para a Academia? Para quê?

— Por duas razões. A primeira foi para que eu me fortalecesse na Academia. A outra foi para que eu obtivesse uma fama inabalável.

Fama— Entendi!

Certamente, a fama que ela obteve serviu para fazer com que o mundo tomasse conhecimento da difícil situação desta cidade.

A fama criava conexões pessoais. Se Griselda construísse uma reputação para si mesma como uma marionetista, tudo que ela fizesse atrairia atenção. A Família Weston tentou tirar vantagem de algo que normalmente seria irritante.

— Os estudos foram extremamente difíceis. A ponto de eu precisar de um professor particular de primeira linha. No entanto, a Festa Noturna foi mais ou menos. Desde o começo, eu não era como os inexperientes que estavam competindo. Eu já tinha a prontidão e experiência de batalha. Eu estava acostumada com os cheiros de sangue e pólvora, e essa era a chave.

Um sorriso aparentemente solitário surgiu em seu rosto, como se ela estivesse zombando de si mesma.

É isso mesmo...?

Raishin pensou. O horror que Griselda usava como manto era algo característico de um filho ilegítimo da guerra. Uma calma semelhante à resignação que apenas aqueles que já vagaram entre a vida e a morte poderiam usar. Ela podia já estar equipada com tudo isso mesmo antes de se tornar uma Wiseman.

Ela queria ser uma burocrata de alto escalão ou queria ter sucesso como pesquisadora—

Sua opinião sobre a vida e a morte era diferente se comparada a dos prodígios comuns. Quando se tratava de estudantes comuns, eles pareciam querer desistir apenas para não terem que encarar Griselda.

— Eu comandei a Festa Noturna e me tornei uma Wiseman.

— ...Então, o inimigo parou de atacar?

— Eles pararam de repente. A cidade ficou conhecida como o lar de uma Wiseman, então os canalhas e afins não ousavam se aproximar. Se algo acontecesse a uma Wiseman, a Nectar não ficaria em silêncio— então o inimigo não poderia se mover publicamente. Contudo...

*Phew*

Ela suspirou.

 — Já se passaram alguns anos desde que meu pai morreu. Desde então, outro desenvolvimento começou a me preocupar.

— ...É sobre você entrar para o exército?

Ela assentiu debilmente. Em seguida, Griselda sorriu com ironia.

— Você perguntou por que não há autômatos nesta residência. A resposta é simples. Eles foram confiscados pelo Governo.

— !

Desarmamento. Eles duvidaram dela devido a suas intenções de se rebelar, então ordenaram que ela demonstrasse sua lealdade.

— Quando me recusei a entrar no exército, primeiro tiraram minha influência. A seguir, tiraram meus autômatos. Em seguida, os soldados foram dispensados. O número de servos também foi limitado, e agora isso. Não sobrou nem sequer trinta por cento de tudo que tínhamos.

— Então tudo que resta é a Stratocaster, certo?

— ...Essa coisa.

Ela puxou a espada da bainha e riu como se estivesse zombando da mesma.

— Isso é uma espada barata que estava mofando no depósito.

É falsa!

Raishin estremeceu. Então aqueles golpes não eram o poder da arma...?

— A verdadeira foi roubada há muito tempo. A Stratocaster era poderosa o bastante para cortar o chão. Quanto mais eles me deixavam possuir esse tipo de coisa, pior ficava a situação.

— ...Estou enojado. Isso não é como no caso do Castelo de Osaka?

— Osaka?

— Você está construindo um fosso enorme ao seu redor, hein. Por que você aceita uma situação assim tão transparente? O objetivo deles claramente é tirar os armamentos de suas mãos. Eu entendo não querer pensar no que eles querem ao reduzir tanto assim seu poder de resistência—

Ele não chegou a terminar de falar.

Griselda ouviu calmamente as palavras de Raishin, parecendo um pouco entristecida.

Raishin sentiu vergonha de si mesmo e desistiu de suas palavras que mais soavam como uma crítica. Griselda também entendia isso. Entendendo isso, ainda assim ela não podia fazer nada além de aceitar a situação.

— No fim das contas, o que está escrito nesse livro banido? O que esses caras desejam tanto assim— sem chance, é o [Fio de Ariadne]!?

Griselda não respondeu.

No entanto, este silêncio era o mesmo que uma afirmação.

— ...Se eu soubesse que isso iria acontecer, teria sido melhor se eu tivesse resultados exatos de alguma pesquisa. É exatamente o que você apontou. Eu não tenho conexões com o serviço militar e nem estou trabalhando em nenhuma pesquisa. No passado, eu era tratada como se estivesse cometendo assassinatos aqui. Não há nenhuma razão para que eu seja apontada como alguém com intenções de se rebelar.

— Isso não tem lógica alguma!

— Mas é a verdade. Nesse sentido, não posso negar seu argumento. Se eu fizesse parte de alguma organização, eu poderia obter apoio da mesma...

— Então por que não fazer isso? Você não deveria se juntar ao Exército Britânico? Você é britânica. O serviço militar do seu país não irá feri-la, certo?

— ...O segredo do [Fio de Ariadne] não pode ser revelado nem mesmo para minha própria pátria.

Uma resposta dura. Raishin continuou insistindo.

— Eu pedi que você me ensinasse sobre isso. Então por que não contar a eles? Qual foi a sua conclusão para ser capaz de confiar em mim?

— Eu não sei dizer.

— ...Eu sei, certo?

Não estava claro. Considerando que se tratava de Griselda, era raro vê-la vacilar.

Por fim, Griselda interrompeu o momento de hesitação e olhou para Raishin.

— Sua técnica secreta é diferente da minha. O [Fio de Ariadne] não é uma [técnica que manipula Fios].

— O quê? Então o que você está apontando é...

— Veja.

Os dedos de Griselda tocaram o rosto de Raishin—

Ela puxou para cima o longo cabelo que cobria a metade esquerda de seu rosto.

Vendo o que foi revelado, Raishin ficou sem palavras.

Um padrão delicado surgiu ao redor de seu olho esquerdo.

Era uma tatuagem. Era geométrica, mas também orgânica. À primeira vista, ele não entendeu o motivo. Era algo misterioso e sinistro. O próprio design tinha traços de poder mágico.

O padrão estava inscrito até mesmo em seu olho. Ao que parece, ele foi feito através de algum procedimento cirúrgico.

— Esta [Marca] é a arte secreta conhecida como [Fio de Ariadne].

Agora que ela disse isso, é verdade, o desenho era complexo tal qual um labirinto.

— É uma espécie de circuito mágico que trata o corpo humano como se fosse mecânico. Ao esculpir esta [Marca] no corpo, qualquer um pode manipular [Fios]— não, [qualquer um] é um pouco exagerado. Aqueles que não possuem talento o bastante não seriam capazes de aumentar seu poder mágico ou acabariam sangrando até a morte.

No entanto, se fosse uma pessoa talentosa.

Por exemplo, os garotos e garotas matriculados na Academia poderiam ser capazes de dominar essa técnica.

As figuras de Charl e Loki vieram à sua mente. Os dois que estavam listados como [Números] tinham um controle de poder mágico muito melhor do que Raishin.

— Se esta arte secreta cair nas mãos do Exército Britânico—ou nas mãos de qualquer potência mundial— é fácil imaginar o que aconteceria, não concorda?

Os joelhos de Raishin tremeram enquanto ele olhava fixamente para o padrão esculpido até dentro do olho de Griselda.

Um grande batalhão da divisão mecânica seria bom, mas tudo bem quando se imagina todos os magos se tornando iguais a Griselda. O poder de oprimir um marionetista sem usar um autômato. Se eles fossem acompanhados por um grupo de vários autômatos feitos para a batalha...

Fosse uma unidade de corpos mecanizados ou um enorme navio de guerra, eles seriam facilmente esmagados.

Era inevitável que uma nação que obtivesse um poder ofensivo assim logo almejasse o posto de império global... e as hostilidades logo começariam. E se uma disputa começasse agora, o frágil equilíbrio que estava mantendo a paz iria se romper de vez.

Esta pequena cidade não era a única coisa que Griselda estava tentando proteger.

Ela estava tentando impedir que a guerra se propagasse no mundo inteiro.

Ela, que vivia repetindo que sua conduta fedia a sangue e que dizia que suas palavras favoritas eram guerra e campo de batalha.

Na verdade, ela evitava a guerra e o campo de batalha mais do que qualquer outra pessoa...

 Griselda baixou o cabelo e falou como se estivesse exausta.

— Eu te mostrei algo feio.

— Não é nada feio. É uma prova de força para proteger as pessoas da cidade por todo este tempo.

— ...Não entenda errado, seu idiota.

Ela baixou a cabeça por três segundos. Então Griselda voltou a mostrar sua expressão arrogante habitual.

— Agora, com isso, mesmo um idiota como você conseguiu entender, não? Eu não tenho intenção de entrar para o Exército ou criar problemas para o Governo. Se entendeu isso, vá embora.

— Responda uma última coisa, por favor. Por que a Epsilon estava no castelo?

Griselda desviou os olhos como se estivesse tentando fugir da pergunta, mas respondeu em voz baixa assim mesmo,

— ...Eu inevitavelmente a comprei depois que os demais foram retirados. O que houve com ela... foi lamentável. Eu tinha... acabado de comprá-la.

— Você está errada. Ela estava feliz. Ela gostava de você mais do que qualquer outra pessoa. Seu erro não foi comprá-la. Seu erro foi fazer o que aquele bastardo dis—

— Calado... não diga mais nada.

— Se você aceitar isso passivamente assim, ela vai se revirar no túmulo. Suas ações são nobres, mas ela não queria que você sofresse fazendo exatamente o que os militarem a mandam fa—

— Que barulhento! Basta, aluno idiota!

Griselda gritou como se não pudesse mais suportar.

Ela bateu no braço da poltrona. O apoio de braço se quebrou facilmente e estilhaços voaram para todos os lados.

— Eu luto pela cidade, não por seus cidadãos. E por mim mesma! Se ao menos a Família Weston não tivesse uma arte secreta... sangue não teria que ser derramado na cidade. A fonte de tudo isso é meu nome Weston... e essa maldita arte secreta!

— Você está errada! A culpa é dos caras que assassinaram e tentaram roubar seu segredo!

— Cale-se já...!

Ela reclamou com uma voz embargada.

Os ombros de Griselda tremeram ligeiramente e várias gotas transparentes começaram a cair sobre suas coxas.

Soluços vazaram.

Griselda, que era temida como uma Wiseman e que era invencível com uma espada, estava soluçando como uma garotinha.

— Se eu não resistir e continuar suportando... a cidade será salva. Por outro lado, se eu perder a paciência ou ceder a alguma ameaça e entregar minha arte secreta, sangue será derramado no mundo inteiro...

— E você, você também consegue suportar. E se esqueça sobre a... Epsilon!

Engolindo à força as palavras presas em sua garganta, Raishin assentiu.

— ...Entendido.

Ele se virou e saiu do quarto. No momento em que fechou a porta, ele ouviu uma voz soluçante.

A desajeitada Griselda, mesmo seu lamento era desajeitado.

 

Parte 4

 

Komurasaki estava sozinha em um dos cantos do jardim, olhando para a lua.

Este era o lugar onde ela treinava com sua pequena espada. Ela ficou sozinha e olhou para a grama pisoteada. Suas costas estavam tão rígidas que parecia que iriam quebrar e seu cabelo solto balançava ao vento.

— Komurasaki.

Quando Raishin chamou por ela, Komurasaki se virou lentamente.

Ela pensou que ele não fosse notar, mas os resquícios de lágrimas brilharam sob a luz da lua.

— Raishin... onde você foi?

Ela sorriu fracamente. Os olhos que ela secou provavelmente ainda estavam tão vermelhos quanto os de um coelho.

Raishin respirou fundo e disse algumas palavras que tinha preparado.

— Eu descobri a identidade daquele bastardo.

— ...Identidade?

— [O Carmesim] — o Tenente General Räikkönen.

— Um Wiseman…

— Empreste-me sua força, Komurasaki. Eu vou derrotar esse cara amanhã.

Komurasaki ficou pasma. Então ela voltou a si,

— Isso é impossível! O oponente é tão poderoso quanto a Griselda-san, não é!? Primeiro e acima de tudo, se algo acontecer a um soldado tão importante, isso vai acabar virando um problemão! Além disso…

Sua expressão fácil desmoronou. Ela gritou com uma voz de partir o coração.

— Você está dizendo que alguém como eu pode fazer isso!?

— Você pode!

Os ombros de Komurasaki se ergueram. Colocando as duas mãos sobre os ombros dela, Raishin disse,

— Confie em mim. Com você, vamos mostrar o inferno para aquele cara.

Olhando para ele, Komurasaki baixou a cabeça.

Raishin esperou pacientemente até que Komurasaki se acalmasse.

Eventualmente, e provavelmente porque o que ela ouviu causou impacto em sua mente, Komurasaki murmurou,

— Mas... o que vamos fazer? Vamos matá-lo?

— Não, não vamos matá-lo. Vamos fazer aquele cara perder sua posição.

— Perder sua posição...?

— Aquele desgraçado colocou a polícia da cidade sob seu controle. Ele obviamente exerceu o poder do governo usando de sua posição. Se o Räikkönen perder a posição dele, aqueles caras vão perder a ferramenta chamada [Tenente General].

— Mas… como vamos fazer isso?

— Causando um escândalo, é claro.

Komurasaki baixou os ombros. Ela parecia desanimada.

— A menos que as circunstâncias sejam boas, um escândalo não acontecerá…

— No momento, a Kimberley-sensei está procurando por algo que possamos usar. Se minha ideia estiver correta, sempre há uma brecha. Mas, para chegar a isso, temos que trabalhar em segredo. Vamos abordar e criar algo sem sermos notados pelo Wiseman— isso é algo que só você pode fazer.

Ele disse claramente, olhando fixamente para Komurasaki, que estava diante dele.

— Não a Yaya ou a Irori. Mas você, Komurasaki.

— ...!

— A Epsilon era uma garota gentil. Ela certamente não iria querer se vingar. Mas ela amava muito a Griselda, sabe?

Komurasaki se virou para o olmo em um canto do jardim.

— Vamos salvar a Griselda. E esta será uma vingança pela Epsilon.

— ...E quanto a Griselda-san?

— Ela me mandou esquecer a Epsilon e resistir.

— E o Raishin vai...?

— Eu disse a ela que faria isso.

— Então...!

— Sabe, Komurasaki, eu sou o pior tipo de mentiroso que existe.

— Mas... o Raishin pode morrer, não?

— Não é um pouco tarde demais para isso?

— A Griselda-san certamente vai ficar irritada. Ela não vai mais te ensinar nada, certo...?

— Quando a hora chegar, eu vou entender a arte secreta por conta própria.

Eles se entreolharam. No fim, Komurasaki esfregou os olhos e ergueu o rosto.

Ela viu que Raishin tinha uma expressão nítida e um rosto sorridente.

— Vamos fazer isso!

— Sim!

Eles cerraram os punhos e bateram no punho um do outro.

E assim a vingança dos dois começou.



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