A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 15: Imutável

Encarando-o de cima, Jessie cuspiu as palavras aproveitando a escuridão que escondeu suas lágrimas. O detetive fitou-a por alguns segundos e então desviou o olhar para o chão.

— Po-por que?

Seus sussurros quase não alcançaram a garota que, escondida nas trevas, julgou-o com um olhar penetrante.

— E por que eu deveria te dar detalhes?

— É que- que você… A situação!

Ela resmungou furiosa, e gritou tão alto quanto nunca fez em sua vida: — QUE SE DANE A SITUAÇÃO!

— Já não é o suficiente? — continuou — Olhe ao seu redor! Estamos completamente cercados, e mesmo assim… mesmo assim você ainda se preocupa com detalhes?

James não era capaz de erguer sua cabeça, sentiu como se não comesse há dias, o que não era exatamente uma mentira, mas ao se comparar com Jessie que se encontrava na mesma situação, pôde ver um altar formar-se abaixo dela, levando-a ainda mais alto.

Ainda sentindo algo preso em sua garganta, ela persistiu:

— Perdoe o meu pecado.

— O quê? — cochichou ele, ainda encolhido. — Que cê falou?

— Você precisa me perdoar, se fizer isso, tudo vai acabar e a gente vai sair daqui. Depois disso… você decide o que fazer. — Sua raiva disfarçou outro sentimento, as lágrimas pararam de escorrer, mas sangue passou a caminhar por seu punho fechado.

Tomando força e coragem, James levantou o rosto gravado por rios de lágrimas e uma careta. Resmungando entre os soluços, tentou se colocar de pé.

Como um aviso, uma quarta rachadura surgiu nas estátuas, seguido de uma faísca elétrica visível que percorreu todos os altares, até que findou no homem. O ataque se manifestou em forma de descarga elétrica, que gerou um grito instintivo do seu único alvo.

— AAAHHH!

Jessie saltou para trás em um susto, vendo o colega cair novamente.

A visão de James ficou turva, quase triplicando o número de esculturas no salão. Desmaios momentâneos lhe atormentaram, e quando recuperou-se o bastante para se erguer mais uma vez, foi simplesmente sobrepujado pelo mesmo ataque.

A garota nada fez além de observar o parceiro tornar-se em um ser de luz por breves momentos, cuja luz alcançava cada ponta do salão.

O grito soou mais alto, mas acabou abafado pela movimentação das estátuas. Sincronizadas, essas ergueram seus punhos com cautela, para então colidirem contra o próprio peito, logo acima de onde estaria o coração, um movimento que se repetiu diversas vezes, como uma espécie de sinal que a dupla não foi capaz de compreender.

—Você tá… — Ela contraiu os lábios.

Esforçando-se para manter a consciência, o detetive se manteve ajoelhado. Seu corpo inteiro estava trêmulo, a respiração ofegante já parecia rotina e a falta de dor lhe incomodava cada vez mais.

— Te… perdoar? Tá falando sério?

— E você acha que não estou? É a nossa última chance de sair daqui!

— Então… olhe para o altar. — Ele levou um olhar baixo até o mesmo.

Ao fazer isso, a garota se deparou com o mandamento talhado “Não trairás”, sendo surpreendida.

“A luz dourada… Apenas confessar foi o suficiente? Isso significa que o último mandamento na verdade é!!”

Antes que pudesse procurar pelo último altar, James atraiu sua atenção ao socar o chão, forte o bastante para seu punho sangrar.

— EI! Você tá maluco? Não vê que é o mais ferido aqui?

— Não importa! — bravejou. — Com isso, nós vamos realmente sair daqui…

Ele flexionou os joelhos, falhando algumas vezes em levantar, parecendo um bebê aprendendo a andar.

— Te perdoar? Eu até poderia fazer isso, mas a questão não é mais aquele mandamento.

A estátua pareceu reagir aos movimentos de James, manifestando uma nova fissura em seu torso. Um quinteto se revelou na escultura, alinhados como guerreiros que surgiram das sombras para dar suporte ao soldado da linha de frente.

— Depois de tanto sofrimento, eu tirei a minha própria conclusão sobre essa mansão.

As diversas estátuas espalhadas por todo o salão, de repente desapareceram, restando apenas uma de pé, posicionada logo atrás do homem.

— Não é questão de perdoar ou se tornar alguém puro… Nós fomos colocados à prova para ver o quão longe um iria para salvar o outro…

A estátua alada ergueu seu braço, formando não o seu clássico punho julgador, dessa vez, seus dedos estavam alinhados e esticados, como se imitassem uma lâmina.

— Diante de tudo isso, como você ainda ousa pensar que eu te colocaria acima Dele?

Os olhos da garota se arregalaram, mesmo com o próprio marido beijando a morte, suas convicções mantinham-se fortes. Mas agora, a certeza de estar correta tornou-se em um falso sonho, destruído pelas últimas palavras de James.

— Jessie… com toda a força que me resta, eu só tenho uma coisa pra te dizer…

— Eu posso até esquecer, mas eu nunca vou te perdoar.

Cortando de vez um laço entre os dois, James pela primeira vez se manteve sério diante da mulher. 

Por fim, a mão da estátua cortou o ar, um golpe que apesar de desarmado, causou estragos inimagináveis. Um corte se abriu no ombro esquerdo de James, traçando uma linha reta até quase decepar seu braço. 

O membro ficou pendurado por pouca pele, diferente da esperança da garota que fora rompida pela mais poderosa força que existia naquele mundo.

Enquanto uma chuva de sangue banhava o último sobrevivente, uma terceira voz se manifestou, aflita, mas ao mesmo tempo, realizada.

— Finalmente... acabou.



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