A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 16: Portão para o novo mundo

O sangue de James escapou pela imensa lesão, desenhando rios carmesins ao seu redor e não permitindo que Jessie escapasse da tempestade, pois antes que o corpo do parceiro encontrasse o chão, sua roupa e rosto foram manchados, desenhando em seu semblante a face de um fantasma.

Atônita, ela caiu de joelhos. Sua percepção do mundo ao redor simplesmente desapareceu. As batidas de seu coração pareceram cessar, e diante uma realidade tão chocante, qualquer tentativa de escapar era agora impossível.

O anjo, poluído pela vida em sua mais pura forma, desfez o seu punho, afinal, a sentença que tanto aguardou foi finalmente aplicada, tendo o resultado aos seus pés na forma de um corpo imóvel.

Por outro lado, todos os dez altares agora emanavam aquele brilho dourado. O rosto de pedra caminhou lentamente por cada um, após isso, terminou na garota cujo corpo era a única coisa que restava naquele local.

Encarando aquela pessoa, a estátua não avistou nada dentro dela, seu olhar era inexpressivo, sendo fácil dizer que não havia uma alma ali, mas apenas os sentimentos negativos que uma vez fizeram parte dela quando ainda era viva.

— Trágico — disse a escultura, enfraquecida. — Não pensei que essas seriam minhas primeiras palavras depois de tantos séculos.

Os batimentos que alertavam o início da Silhueta se propagaram pela mansão mais uma vez. A onda de choque foi intensa, quase derrubando o corpo mole de Jessie.

— Eu não acredito que dois não abençoados conseguiram me libertar — continuou. — Estou realmente impressionado, mas é uma pena que não possamos conversar.

As ondas invisíveis, ao atingirem a estátua, formaram grandes rachaduras em sua superfície, essas se uniram com as cinco fissuras já existentes, completando um caminho que levou a casca de pedra que cobria o busto ao chão.

Ao contrário do corpo exterior, o abdômen translúcido de aparência jovial exibia um fraco brilho misterioso como se fosse feito de luz.

Conforme os fragmentos se separavam do corpo, mais a imagem de um anjo se tornava real. O grande par de asas ganhou um brilho semelhante ao do corpo, intensificado pela luz natural do sol que invadiu o salão quando a grande porta principal se abriu.

Entretanto, mesmo com diversas coisas que tanto ansiou acontecendo ao seu redor, Jessie não se moveu um centímetro sequer. Fitando a mulher de olhos vazios e o cadáver aos seus pés, o anjo falou:

— Você quer voltar com ele?

A garota demonstrou reação, mas ainda se recusou a levantar a cabeça.

— Essa mansão não é um lugar resguardado por boas entidades. — Com as próprias mãos, agarrou a chama que até então era protegida pelo lampião. — Se você deixá-lo aqui, a alma dele será puxada por uma força maior em direção ao mundo abaixo de nós.

Ela levantou a cabeça lentamente, atraída por um calor aconchegante. Seu olhar se deparou com aquela chama eterna, que mesmo em contato com a pele de pedra, não se apagou. Por instinto, ela estendeu as mãos quando a brasa lhe foi oferecida, e para sua surpresa, não se queimou.

— Essa chama foi um presente entregue para mim quando fui castigado a ser uma estátua. Pressione ela contra o coração de seu companheiro e, talvez, ele volte. Se vai fazer isso ou deixá-lo atravessar A Passagem, é uma escolha sua.

A estátua se virou, caminhando na direção das escadas enquanto aquele peso extra que carregou durante incontáveis anos finalmente se esvaiu de seu corpo.

Jessie contraiu os lábios e sussurrou: — Por que você não faz isso? Por que me entregar algo assim?

— Somos seres em estados distantes um do outro. Um morto não pode decidir as ações daqueles que ainda vivem. — Ele parou no pé da escada, encarando o céu através do vitral. — Meu eu de carne e osso, D. Rossi, morreu séculos atrás, e a maioria daqueles que tiveram contato comigo nessa época já me esperam além do céu.

Longos cabelos negros foram libertados, seguidos de um par de olhos esverdeados, os quais se destacavam no rosto luminoso.

— Sei que você quer fazer diversas perguntas, mas não se preocupe, com certeza vamos nos encontrar novamente em algum tempo. 

Sem a necessidade de um bater de asas, o anjo começou a levitar e seu corpo a desvanecer.

— Estarei aguardando-os lá em cima, e digo mais uma vez, do fundo da minha alma. Obrigado.

Nem mesmo um sorriso foi necessário para acalmar o coração da detetive. O olhar estreito e brilhante que colidiu consigo lhe trouxe uma paz que nunca havia imaginado existir, como se fosse envolvida por braços quentes ou tranquilizada pelo fraco sol de uma planície verde.

Jessie fixou sua atenção naquela entidade, buscando apreciar a chance única ao passo em que o mundo novamente ganhava cor. Após a troca de olhares, D. Rossi desapareceu no ar, deixando nada além da casca de pedra para trás.

Alguns instantes se passaram com a garota encarando o céu além do vitral, vendo o sol agora estagnado naquela imensidão azul. Ela abaixou sua cabeça novamente, atraída pela chama viva em suas mãos.

Uma brasa fraca e imortal que não queimava, mas trazia calor. A chama tornou-se em um coração quase pulsante, dançando na direção do único corpo que carecia de uma alma.

Jessie admirou a labareda enquanto todas as situações que viveu naquele local maldito abarrotavam sua mente. Gradualmente seus dedos fechavam, diminuindo o espaço da chama e ameaçando sua vida.

Porém, não muito longe dali, a floresta silenciosa foi transformada em um tumulto sem igual de um momento para o outro.

— Por que estamos avançando assim do nada? — perguntou um dos policiais, tentando acompanhar a corrida do grupo.

— Ordens dos superiores — disse o membro da tropa especial.

— Mesmo assim, ainda não faz sentido!

— Mansão avistada! — avisou o líder.

Logo, a dita surgiu no campo de visão de todos os homens ali, saindo da névoa como um monstro de outra dimensão.

— A porta está aberta! Avancem com cuidado!

Se dispersando ao redor da estrutura, os membros que entraram pela porta da frente averiguaram os arredores enquanto miravam com os fuzis, para só então notarem a pessoa ajoelhada sobre o tapete vermelho.

— Ei! — O líder se aproximou. — Jessie, certo? Você está bem?

O soldado não recebeu resposta, e ao notar James debruçado sob os braços da garota, averiguou-o, sendo antes necessário mover a jovem que mantinha suas mãos pressionadas sobre o peito do parceiro.

— Ainda tem pulso, fraco, mas ainda existe! — disse, aliviado. — Equipe médica!

Diversos profissionais correram até a dupla, priorizando James que estava inconsciente.

— Vo-vocês estão… vivos? — falou um dos médicos, procurando ferimentos que explicassem o sangue que cobria Jessie. — Nenhum de vocês tem feridas… Como ficaram encharcados de sangue?

Jessie nada respondeu, levando seu olhar vago até a casca de pedra no pé da escada, para então cambalear e desmaiar ali mesmo, amparada pelos médicos.

— Rápido! Levem os dois para o hospital! 

A equipe se retirou tão rápido quanto chegou, levando as duas novas vítimas da mansão para a cidade. Quando os médicos desapareceram na névoa, uma outra figura entrou na mansão, esbanjando um largo sorriso.

— Sr. Potestades, é perigoso ficar aqui! — falou o soldado, usando o corpo de barreira.

O velho analisou o salão, rapidamente aterrissando o olhar estreito na casca de pedra.

— Hehehe! Não há mais com o que se preocupar. — Ele empurrou o soldado, indo direto para o segundo andar.

O abrir violento da porta dupla ecoou por toda a mansão, mas foi superado pelas potentes batidas do coração de Potestades ao se deparar com aquela biblioteca.

— Assim como esperávamos, tudo parece intacto! Hahaha! Não acredito que aquele maldito Trovão pensou que seria capaz de esconder algo desse calibre… Finalmente conseguimos acesso a ela! A Biblioteca dos Sete Maestros!

A exaltação do velho contagiou aqueles ao seu redor, uma sensação única que seria mantida naquela floresta. 

Além das nuvens e em algum lugar abaixo da realidade, espectadores especiais do mundo deleitavam seus olhos naquele momento, ansiosos com o futuro.

***

As notícias correram como água em um rio, a cidade entrou em alvoroça, buscando notícias o mais rápido possível.

— Jessie e James retornaram! Jessie e James retornaram! — gritou o jornaleiro.

Na porta do hospital, uma multidão de repórteres curiosos eram barrados por grandes seguranças, todos clamando de pé junto por uma entrevista com a dupla de detetives.

Dentro de uma das salas do grande hospital, o casal era vigiado por um médico, o qual acreditava estar, na verdade, sendo mantido ali para ser torturado pelos dois.

— Acredite em nós! A culpada por tudo naquela mansão era a estátua! — esperneou James.

— Isso mesmo! Sei que é loucura ouvindo dessa forma, mas a estátua e os mandamentos estavam conectados, a estátua era na verdade uma pessoa! — acrescentou Jessie, ganhando um resmungo como resposta.

— Apenas descansem, suas mentes estão cansadas depois de ficarem trancafiados em um prédio abandonado. — O médico se levantou, caminhando até a porta.

— Espere... — James leu o crachá do homem. — Thomas… TG? — Arqueou a sobrancelha.

— Já falei, não se preocupem. É só descansar e deixar os remédios fazerem efeito, assim tudo pelo que vocês passaram vai parecer ter sido apenas um sonho ruim.

O doutor bateu a porta, parecendo correr para longe do quarto. Jessie suspirou, enraivecida, enquanto James assumiu um semblante pensativo.

— Minha cabeça ainda dói — disse ela, tombando sobre a pilha de travesseiros. — Acho que vou só dormir como ele disse, ele é médico, afinal.

A mulher encarou de canto seu parceiro, estendendo a mão para o mesmo.

— Algum problema? — perguntou ele, incapaz de retroceder ao perceber que deu as mãos com sua mulher.

Jessie analisou, sentindo o aperto forte da mão do companheiro envolver a sua em um calor aconchegante.

— Nenhum, mas acho que fiz a escolha certa. — Ela escondeu o rosto. — Isso é realmente melhor do que uma chama.

James, confuso, focou sua atenção na mão da garota e ponderou, totalmente silencioso. Uma lembrança lhe acertou, da primeira vez em que deu as mãos com uma garota que no futuro tornou-se sua mulher, podendo apreciar o mesmo calor daquela época, com uma intensidade e conforto que não mudaram em nada.

Com o coração mesclado em emoções que tentava, em suma, ignorar como sempre fez, disse: — Acho que também vou dormir, minha cabeça tá começando a latejar.

Os travesseiros acolheram sua cabeça, e encarando o teto branco, teve um último pensamento.

“TG… Acho que já vi isso em algum lugar… Bem, não importa mais, já acabou...

Antes que seus olhos fechassem, James vislumbrou a finalização de um filme na TV do quarto, onde a contagem regressiva. Ao mesmo tempo que os números zeraram, o detetive apagou completamente.

Enquanto isso, em uma sala particular, aquele mesmo médico atendeu uma ligação.

— Eu segui as instruções para o medicamento, ambos já estão dormindo.

— Ótimo. Não precisamos mais nos preocupar com aqueles dois então, isso já é um problema a menos para Utopia.

— Qual é o plano para a mansão? Fiquei sabendo que já estão recolhendo os livros.

— Sim, é verdade. Fiquei sabendo que Alamut pretende demolir-lá, então só estamos terminando de confiscar algumas coisas.

— E depois disso? O que vamos fazer com os espólios?

— Isso é algo que devemos conversar em pessoa, Thomas. Lembre-se, a família tem poder, mas por enquanto, não somos imunes à lei.

— S-sim, me desculpe! — O médico desligou, saindo da sala o mais rápido que conseguiu.

Seus passos ecoaram pelos corredores vazios, chegando novamente até o quarto onde os detetives descansavam sem qualquer preocupação. Dentro do cômodo, um desconhecido situava-se na entre as camas, encarando de cima os humanos frágeis.

Sua roupa era incomum, uma vestimenta totalmente escura e que brandia calmamente como se tivesse vida própria. Mesmo com uma aparência humanóide, ainda era difícil acreditar que aquilo se tratava de uma pessoa.

Demorou, mas realmente aconteceu.

O homem sorriu, levando seu olho vermelho para o céu além da janela do quarto. 

Em meio à sua conversa solitária, a televisão no local transmitiu as últimas notícias.

— Jon Alamut XIII acabou de anunciar a demolição da mansão que foi construída séculos atrás. Diversas pessoas tentam convencê-lo a leiloar o local, mas tudo parece ser em vão.

Não foi nada perto do que eu imaginei, talvez essa seja a graça de não ter total controle sobre o mundo. Mesmo assim, foi realmente divertido observar tudo acontecer tão de perto.

— Dentro da Federação das Nações de Solum, a família ThunderGold entrou com uma ideia inovadora, mas não mostrou intenções de revelar detalhes ao povo no presente momento.

Você finalmente se afastou de mim, e duvido que sejamos capazes de nos ver novamente.

— Por fim, o Presidente Potestades anunciou uma nomeação para a cidade na qual Alamut mora atualmente, deixando para o mesmo a escolha do nome. O nobre, conhecido por todo o país, escolheu de imediato o nome para sua bela cidade.

Foi uma longa jornada até que esse dia chegasse, e admito que duvidei das capacidades desses fantoches. A força para contrapor a calamidade é forte apenas em alguns deles, e estes, sempre ganham destaque.

— Dentro de três meses, a “cidade sem nome” de Utopia, será nomeada como Paradise.

Seu sorriso demoníaco se intensificou, e pelo olho banhado em ouro, uma faísca elétrica que ansiava pelo futuro iluminou o quarto momentaneamente.

Espero que esteja feliz agora, irmãozão.

 

 

 

 

Notas do autor:

Além dos agradecimentos aos que chegaram até aqui, tudo que posso dizer é que estou muito empolgado para contar a história do meu mundo, da mesma maneira que anseio para ver os comentários e reações de vocês, leitores.

A Mansão de Alamut é apenas a minha primeira obra publicada na Novel Mania. Com toda certeza, eu voltarei aqui para reescrever a obra… algum dia. Até que esse momento chegue, vamos apenas continuar seguindo em frente. 

Espero que esteja pronto para embarcar nessa jornada comigo.

Muito obrigado por ler!



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