A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 2: Entrada (2)

Pouco tempo após o seu abandono, a mansão tornou-se um ponto turístico entre os adolescentes aventureiros. No entanto, com o rápido início de relatos estranhos acerca do local e o que havia lá dentro, foi necessário a criação de um decreto que proibia e punia quem se aproximasse da estrutura.

Atualmente, poucos quilômetros ao norte da Floresta do Pecador, a localidade que abriga não só Alamut como também a dupla de detetives contratada pelo próprio, é conhecida como “Cidade Sem Nome”.

De todas as formas, o proprietário da velha residência desviou a atenção do local, dando mais espaço para que sua própria cidade começasse a crescer. Mas naquele momento, onde se passaram apenas alguns minutos desde a partida da dupla de investigadores, Jon Alamut encontrava-se com um semblante baixo.

O barulho da fonte ao seu lado disfarçou aquele produzido por seus soluços, o céu da cidade se preencheu de nuvens que traziam gritos furiosos na forma de trovões longos e intensos, os quais soavam como uma ameaça dos céus ao pobre senhor de meia idade.

Seus resmungos eram levados pela brisa gelada até os ouvidos despreparados de todos aqueles que passavam por ali, atraindo suas atenções até o causador do som, invisível por causa da alta cerca-viva.

Um dos serventes, alertado pelo rosnar entristecido do homem, se aproximou com cautela, temendo ser alvo da raiva de seu senhor.

— Sr. Alamut? Qual é o incômodo?

— Eu… Q-quero dizer! Eu não acho que você deva se referir a mim como se eu fosse uma pessoa… Disfarçando como uma investigação, eu acabei de enviar duas grandes pessoas para a morte. — Cobriu o rosto.

— Mas senhor, estamos falando de uma simples mansão abandonada — disse o servente, sacolejando a mão. — É realmente necessário ficar tão preocupado?

— VOCÊ DIZ ISSO PORQUÊ NUNCA ESTEVE LÁ!

O mordomo saltou para trás em um susto, encarando o nobre se levantar exasperado com aquela fúria repentina em seu semblante.

— ”É apenas uma mansão abandonada”... Eu também pensei a mesma coisa quando meu pai, preocupado comigo, avisou sobre os perigos que se escondem lá dentro. — Cerrou o punho fortemente, encarando todos ao seu redor com a face vermelha. — No entanto, eu como uma criança curiosa, fui para lá escondido pouco tempo depois do aviso…

Ele se lembrou de quando viu o local pela primeira vez, uma criatura escondida pela névoa que até mesmo as árvores pareciam temer, estando todas um pouco afastadas.

— Vasculhei os quartos, gavetas, estantes e até panelas. Depois que não encontrei nada, lembro perfeitamente que descontei minha decepção em um louva-deus que encontrei no salão. Eu matei o pequeno com minha mão esquerda.

— Uma criança tola como eu, jamais imaginaria que aquele inseto seria o maior erro que poderia cometer em toda a vida. — Seu olhar foi para o chão. O mordomo engoliu seco. — Depois que o inseto morreu, a coisa ficou feia de verdade.

O servente encarou os outros funcionários ao longe, curiosos, mas que não demonstravam nenhuma intenção de se aproximarem.

— Tão rápido quanto um piscar de olhos, o dia claro tornou-se em uma noite sem lua. Depois, eu pude ouvir passos nas minhas costas, que soavam cada vez mais pesados conforme se aproximavam.

Usando o braço direito, Alamut levantou sua capa, expondo o membro esquerdo que faltava.

— Eu só lembro de ter levado um forte golpe na cabeça. Assim que abri meus olhos, já estava em um hospital, com meu pai ao meu lado e meu braço esquerdo desaparecido... O mesmo que usei para matar o inseto. — Ele desabou novamente.

A brisa gelada mais uma vez atravessou o jardim, carregando até os ouvidos do nobre, sussurros distantes daqueles que lhe seguiam até então.

— Então foi assim que ele perdeu o braço?

— Ele mandou aqueles dois mesmo sabendo disso?

— Como pensei, ele não tem compaixão pelos outros.

Memórias daquele momento passaram diante dos olhos de Alamut velozmente, a sensação daquele punho pesado colidindo com sua cabeça atingiu-lhe mais uma vez. Ao pressionar sua testa fortemente, suspirou devagar e levou seu olhar entristecido para o céu acinzentado.

— Por favor, vocês dois... — hesitou, envergonhado de dizer tais palavras — voltem vivos!

Aquela curta prece, por mais inconsequente ou sem noção que pudesse ser, atravessou o céu e o tempo, chegando de forma quase audível aos detetives que, no futuro próximo, iriam descobrir qual era o verdadeiro perigo que residia naquela mansão.

 

***

 

Logo após lerem brevemente o conteúdo do diário que estava com a estátua, Jessie se sentiu tão entediada que voltou para dentro do local, em direção ao segundo andar. James, acreditando que o livro poderia conter algo útil, buscou o conforto de seu carro para continuar sua leitura.

Era fácil perceber que se tratava da mesma pessoa, mas os sentimentos calmos emanados pelas primeiras páginas, desapareceram gradativamente.

Hoje, fui apresentado para uma prática muito envolvente, acho que é a primeira vez que realmente quis me aprofundar em algum assunto. Me sinto como uma nova pessoa.

(…)

Ele acabou saindo de casa, algo que não é uma surpresa. Espero que retorne logo.

(…)

Essa noite foi complicada. Acabei ficando preso dentro do sonho, literalmente! Haha! Acho que vou demorar um pouco para conseguir dormir de novo… Ha!

(…)

Os abençoados estão malucos nos últimos tempos, mas isso não é surpresa, aquele buraco infernal continua aberto, e o interesse alheio no mesmo se mostra cada vez maior.

(…)

Contudo, a ajuda de “TG” mostrou-se essencial desde o início. É impressionante o quão eficientes essas pessoas conseguem ser.

Cada parágrafo, linha e palavra pareciam desconexos de alguma forma para James. Preso no sonho? Abençoados? Buraco infernal? A cabeça do detetive começou a rodar com tantas informações.

— Que bosta! Eu não vou conseguir decifrar essas frases de merda sozinho — falou, massageando as têmporas. Ainda esperançoso, continuou, não demorando para alcançar as últimas páginas.

Parabéns! Se está lendo essa frase, significa que realmente cumpriu sua promessa. Eu fui derrotado. Estou orgulhoso de você.

Eu não sei em que dia você vai ler isso, na verdade, é provável que você sequer fique interessado neste caderno.

Caso tenha, obrigado. Na próxima página, você encontrará as minhas respostas para as várias perguntas que me fez naquele dia.

O semblante de James explodiu em animação. A frase que soou como se fosse apenas para si, lhe fez arregalar os olhos enquanto virava a página lentamente. Quando o pedaço de papel moveu-se por completo, seus olhos famintos se deleitaram naquela grande página vazia.

“Hein?”, pensou, inexpressivo.

Ele analisou com mais atenção, logo notando as marcas de uma página que foi arrancada do diário. Sua face ficou branca, como se a vida não fizesse mais sentido.

— E eu pensando que encontraria um relato histórico… Ah! Doce ilusão.

Quando fechou o livro com força, notou um pequeno pedaço de papel caindo em seu colo. Sem qualquer expectativa, pegou e desdobrou a folha, encontrando uma nova frase com a mesma letra presente em todo o diário.

Se você que está lendo o aviso desobedecer um dos mandamentos, coloque a causa dessa desobediência em seu respectivo altar. Até que faça isso para todos os dez, busque sobreviver, ou então rezar para que seja uma pessoa de sorte.

James rangeu os dentes, furioso. Ao se levantar, falou: — Tsc! Toda essa leitura pra nada. Será que a Jessie deu mais sorte?

Saindo do fusca, caminhou lentamente até a entrada principal. Seus lábios secos moviam-se devagar, prontos para chamar pelo nome da mulher. Mas antes que pudesse, sua atenção foi levada para uma mudança inesperada no ambiente.

No auge daquele curto lance de escadas, a grande janela encontrou caminho livre de obstáculos. Os raios de sol atravessavam o salão e atingiam o detetive, iluminando sua mente com um soco de realidade.

— Ué! Cadê a estátua? — Coçou a cabeça. — Ah, cacete! Não me diga que você quebrou aquilo, Jessie… 

Milhares de possibilidades passaram por sua cabeça em um turbilhão infinito, mas nada parecia fazer sentido. Seu corpo começou a tremer de forma que ele não era capaz de controlar, a força colocada sobre o livro por seus dedos causava a impressão de que a capa dura do diário estivesse prestes a ser atravessada.

Algo começou a transbordar de todos os lados, uma aura invisível e ameaçadora, como se a mansão fosse uma animal intimidadando o homem.

"Esse lugar... Eu sinto que tem algo diferente aqui, mas o quê?"

Essa distração, por mais curta que tenha sido, foi o suficiente para que aquela coisa desse seus primeiros passos na direção do palco que, mais uma vez, abriu as cortinas e iniciou uma peça inédita com os novos atores que acabavam de chegar.

O som de algo pisando nas folhas secas ecoou ao lado de James. Ele virou seu rosto lentamente, e deu de cara não com uma árvore, mas com algo que à primeira vista parecia uma muralha.

Antes que pudesse analisar, um golpe acertou em cheio seu abdômen, com um impacto tão sobrenatural que fez seu corpo ser arremessado para dentro do salão, parando ao colidir com um dos altares. Tal encontro fez novamente um imenso choque percorrer todo seu corpo. Seus membros tremeram como se assumissem vida própria.

Quando algo subiu por sua garganta, ele abriu a boca por instinto, tossindo pesadamente uma poça de sangue misturada com sua saliva.

“O-o que- f-foi isso?” Ao retomar o controle de seu corpo, levantou um pouco a cabeça, o suficiente para ver aquela imagem entrar no salão.

A luz que entrava pela porta foi tampada por aquela muralha móvel, uma criatura que esbanjava orgulho em sua postura e tamanho, destemida o bastante para avisar sua chegada usando o lampião em sua mão esquerda. Ao dispor seu olhar vazio na direção do humano atônito, as portas se fecharam sozinhas em um impacto que atingiu diretamente o coração de James.

“A... A ESTÁTUA?!”

Os batimentos do investigador aceleraram e o tempo ao seu redor pareceu desacelerar, como se o mundo inteiro tivesse parado para assistir aquele embate inesperado. A estátua encarava-o como um predador, desapontado com a presa burra o suficiente para invadir a sua toca.

“Que força absurda… S-se essa coisa me acertar de novo, eu v-vou no mínimo desmaiar…!” 

Ele começou a salivar de forma descontrolada, uma ânsia de vômito deu sinal em seu estômago, mas não havia tempo para reclamar disso. A dor de simplesmente se mover naquele momento transcendia qualquer outra que James havia experimentado até hoje, tornando quase impossível se importar com outra coisa.

Entretanto, em um ritmo lento, a estátua deu os primeiros passos em sua direção, e só assim o detetive foi capaz de ignorar aqueles choques em seu corpo para então levantar-se apressadamente.

Ele cambaleou de um lado para o outro, colocando-se atrás do altar em busca de proteção, logo descobrindo que sua atitude foi totalmente em vão, pois como se fosse uma criança quebrando um palito de dente, a escultura golpeou o altar com seu punho, transformando aquela bela peça decorativa em uma pilha de destroços.

“E-Essa coisa! Ela!!” Ele encarou o ídolo por um instante, desviando no último segundo do próximo soco.

Uma imensa dose de adrenalina encheu cada centímetro das veias do detetive, seus olhos se arregalaram e seu cérebro ficou tão focado quanto nunca esteve. Apesar de trêmulas, suas pernas ainda eram capazes de fazer o corpo desviar dos ataques fatais.

Quase caindo diversas vezes, ele esquivou dos vários golpes consecutivos por pura sorte. Os socos poderosos que atropelavam o vento colidiram com os altares na maior parte do conflito.

“O que eu d-deveria fazer em uma situação dessas?”, pensou, entre os desvios. 

O suor frio que escorreu por seu rosto era arremessado para longe a cada golpe que passava de raspão, acompanhado dos batimentos cada vez mais rápidos de seu coração. 

James já ofegava tanto que acreditou ter desmaiado por um instante. Um pequeno arrependimento por ter escolhido fumar ao invés de praticar exercícios o acertou, e ao mesmo tempo que o punho de pedra era direcionado para ele mais uma vez, sua mente mais do que agitada ainda buscou uma solução prática para o problema.

“Aquele pedaço de papel… Aquela ‘dica’ que estava lá!”

“O pecado que eu cometi!” Ele colidiu com um dos altares, ficando sem uma rota de fuga para o próximo soco já em posição. Ele leu o mandamento talhado naquele altar: “Não Roubarás!”.

“É difícil acreditar, mas que outra escolha eu tenho?”

“Preciso confiar naquele papel! Eu não vou morrer aqui! EU NÃO QUERO MORRER AQUI!”

Em uma rápida troca de olhares com aquela figura de pedra, deu as costas e ergueu o diário e atacou o altar apressadamente, fazendo uma nuvem de poeira voar.

Por um segundo, a sensação do punho áspero atingindo suas costas fez sua mente parar. Um calafrio percorreu seu corpo e seus olhos foram fechados em um medo inexplicável. 

Contudo, no mesmo momento que esperava ter seu corpo atravessado, o mandamento, de maneira desconhecida, brilhou intensamente em uma luz dourada, essa que logo se apaziguou.

“Eu estou… morto?”

Ele abriu os olhos lentamente, suspirando aliviado ao perceber que seu corpo continuava como antes, incluindo a dor no abdômen.

Enquanto as batidas de seu coração voltaram ao ritmo normal, percebeu que a estátua, um segundo atrás bem nas suas costas, havia retornado para seu lugar em frente a janela. Imponente, com seu punho preparado e o lampião agora apagado.

— M-Mas... — Ele olhou ao seu redor, confuso. — como?

Paralisado, o homem não fez um movimento sequer de onde estava. Uma breve lembrança dos altares sendo destruídos pelos golpes surreais da imagem levou sua atenção até eles, mas quando os encarou, a surpresa de vê-los novos em folha foi tanta que não houve reação digna.

“Ela havia destruído eles, tenho certeza disso!” Aproximou-se, tocando o mármore gelado. “É como se nunca tivesse tocado neles. Não! na verdade, é como se tivesse… ignorado o golpe.”

Perdido em seus pensamentos, não notou Jessie surgir de um dos corredores no andar de cima.

— Que barulheira foi essa? — disse em alto tom, assustando o parceiro. — Eu pensei que você tinha ficado maluco e começado a quebrar tudo por aqui! — Ela desceu as escadas lentamente.

Rapidamente, James alertou: — ESPERE! NÃO SE APROXIME DA ESTÁTUA!

— O que? O pó da mansão te deixou drogado, por acaso? — Ela franziu o cenho, pulando alguns degraus até alcançar o ídolo imóvel.

Despreocupada, ela analisou de perto a imagem, não chegando a notar a mão direita que agora fazia um punho.

— Por favor, apenas fique longe dessa coisa, sempre que possível. — Incapaz de ignorar a dor na barriga, sentou-se ao lado do altar que salvou sua vida.

— Esse brilho… Como que o altar está brilhando assim!? — perguntou a garota, fascinada.

Aproximou-se entusiasmada, mas na metade de sua caminhada, uma criatura horrenda bloqueou sua passagem.

— É UMA BARATA!

James encarou o inseto brevemente, levando um grande susto quando a sola do sapato de Jessie despencou em cima do pequeno. A mulher golpeou diversas vezes, como se fosse um herói de quadrinho lutando contra o vilão final. Ela bufou a cada pisão, enquanto seu parceiro observou inexpressivo.

— Essa passou perto — disse, ofegante e limpando o suor de sua testa.

— Do que exatamente você tá falando? Você fez a maior cena só pra matar uma barata.

— “Só uma barata”? Guarde minhas palavras, essas coisas ainda vão ser capazes de matar pessoas um dia.

James revirou os olhos. Porém, o momento descontraído foi logo tomado pelo desespero do homem mais uma vez quando a estátua voltou a se mover segundos depois.

— JESSIE! — Seu grito a assustou, por consequência lhe fez perceber o que se passava.

O corpo da mulher paralisou ao presenciar aquela cena. Com passos curtos e inaudíveis, o ídolo se aproximou da dupla. Seu lampião aceso exibia a chama que passava uma estranha sensação aconchegante, mas a aparência do portador não remetia a nada além da morte.

— E-Ei! Será que sou eu quem está f-ficando louca?

— Jessie, pega a barata e coloca no altar Não Matarás!

Ela o encarou, confusa e um tanto atormentada com tudo que acontecia ao seu redor.

— Do que você tá falando? Tá todo mundo drogado nessa merda?

— Mas que... — resmungou ele, tentando ignorar a dor. — Não tem tempo de explicar, só faz isso!

Os olhos trêmulos da mulher correram entre James e a estátua. Ela rangeu os dentes e reclamou. 

— Se ferrar, este trabalho é uma merda!

Com muita hesitação, ela pegou os restos do corpo da barata rapidamente, livrando-se daquela gosma no mesmo ritmo que pegou ao jogá-la no altar. Assim como aconteceu com James, o mandamento foi envolvido em luz, essa que logo consumiu o altar por inteiro, deixando-o com um leve brilho da cor do ouro.

Quando os olhos de Jessie voltaram para a estátua que já deveria estar ao seu lado, não encontrou nada além das paredes do salão. Quando vagou sua atenção até o auge das escadas, lá estava ela, como a bela decoração de pedra que deveria ser.

A dupla se entreolhou, ambos inquietos, sendo difícil apenas se manter de pé. A porta fechada lhes causou aflição, nenhum som do lado de fora conseguiu entrar no local, sequer o cantar dos pássaros.

Presos na mansão e acompanhados de uma estátua "amaldiçoada''. Apenas um questionamento era feito pela dupla.

“Mas que merda está acontecendo?”



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