A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Safe_Project


Volume 2

Capítulo 1: Alguém à Espreita

Em um salão escuro e vazio, paredes avermelhadas cercavam o humano perdido, enquanto mãos negras e esqueléticas tentavam alcançá-lo das sombras.

Então é você?

Inabalável no trono, uma figura humanoide encarava o ser decrépito aos seus pés. Seu olho dourado era capaz de paralisar os inimigos de maneira inexplicável, da mesma forma que os dentes afiados causavam tremores nas almas alheias.

É triste pensar que algo tão cruel te aguarda nos próximos dois meses, mas o irmãozinho aqui vai adorar observar tudo.

Um sorriso maligno se formou na face escura e, logo acima dele, um outro ainda maior emergiu da escuridão, tornando aquele Rei no tamanho dos caninos do guardião. Risadas humanas que se sobressaiam ecoaram daquela enorme boca, ao mesmo tempo em que a silhueta descomunal se inclinou na direção de seu alvo.

Antes que a mandíbula lhe alcançasse, o ambiente começou a se transformar lentamente. As mãos negras se afastaram e pedaços da terra aos seus pés emergiram em espaços isolados, tomando formas familiares.

Por fim, o Rei que ainda observava do trono sorriu uma última vez e acenou em despedida.

Até qualquer hora.

O que pareciam móveis terminavam de se formar ao seu redor a partir de terra e areia, e antes que a criatura o abocanhasse, diversos tentáculos negros escorreram a partir do teto, envolvendo-o num casulo asfixiante e puxando-lhe para cima de súbito.

AAAHHH! DESGRAÇA!!

Hector saltou da cadeira num susto. Com rapidez, vasculhou os arredores, e ao reconhecer o ambiente, teve certeza de que estava acordado.

 — Bosta… é sempre esse mesmo sonho… — disse, massageando a testa.

Ao invés daquele cenário infernal, o rapaz se viu agora num escritório abafado e rodeado por imensas pilhas de documentos.

Muitos do seu ramo o conheciam. Hector Wanderlust era um rapaz de vinte e sete anos que iniciou sua carreira como investigador na FESOL, Federação de Solum, o local mais almejado por qualquer um que buscava um bom emprego.

O jovem permaneceu na Federação pelos dois primeiros anos de sua carreira, mas acabou transferido para um local mais pacato por um motivo simples…

— HECTOR!!

O chefe Morgan invadiu a sala, usando seu grito como um balde de água fria para acabar com a sonolência do rapaz.

O detetive esfregou os olhos e encarou com um olhar despreocupado. Agora acordado, perguntou: — Qual foi, gordin?

— Você invadiu meus arquivos e enviou respostas para a polícia sem minha permissão!! Acha que tá aonde, moleque?? — Em sua testa, veias saltavam uma atrás da outra.

— Ora! Devia me agradecer, eu facilitei teu trampo!

Morgan bufou, ajeitando um papel em sua mão e para lê-lo em voz alta.

— “Caso do cachorro desaparecido. Situação: Solucionado. O animal foi raptado por um árvore que, no ato da prisão, revidou contra o agente da lei, o que permitiu que este fizesse uso das armas ao seu dispor em razão de autodefesa.”

Quando voltou a atenção ao jovem, se deparou com uma sobrancelha arqueada.

— Não entendi qual o problema.

— TÁ DE BRINCADEIRA COMIGO?! — Ele amassou e jogou o papel contra o indiciado. — Não quero saber dessas suas maluquices, arrume essa merda e me dê uma resposta o mais rápido possível!!

O chefe não aguardou qualquer justificativa, simplesmente deixou a sala e retornou para a sua mesa, largando toda a baderna nas mãos de seu único empregado.

“Caramba, não é atoa que foi expulso da FESOL, na verdade, não sei nem como esse demônio foi aceito lá…”

Entre seus resmungos, ouviu o ranger ao abrir da porta, seguido dos lentos passos de Hector. Morgan estalou a língua e franziu o cenho, com uma certeza de que ouviria algum xingamento.

No entanto, foi surpreendido no instante que uma folha de papel recém-impressa lhe foi entregue. Conferiu o conteúdo e ficou pasmo na mesma hora.

— I-isso é o caso que acabei de falar pra arrumar… Vo-você já até respondeu a polícia?? Como fez isso tão rápido!? Leva no mínimo três dias pra qualquer um!

Um sorriso torto surgiu no rosto do jovem, que colocou ainda mais denúncias resolvidas na mesa do gordo enquanto alargava a expressão sádica.

— Gegege! É assim que um cara da FESOL trabalha, otário!

E foi dessa forma, com o dedo do meio exibido e enraivecendo o próprio patrão, que Hector deu um verdadeiro início a mais um dia de trabalho na pacata cidade.

08/04/2002

O índice de criminalidade está como sempre, baixíssimo.

Tal frase era propagada pelo mesmo carro quase todas as manhãs, afinal, Paradise não poderia ser definida de outra forma. Além de ser uma cidade litorânea e com uma vasta natureza a poucos quilômetros de distância, era também considerada a mais calma de seu país, Utopia.

No entanto, a calmaria estava longe de ser uma realidade naquela agência.

— Morgan! Porque eu não tenho acesso ao Caso Alamut?? — gritou Hector do escritório.

— Se você não tivesse sido rebaixado, poderia acessar, pena que não é o caso… — Riu e entrou no cômodo, onde viu o garoto com a mesma cartola de sempre. — Mas afinal, qual o motivo pra estar tão fissurado com isso? Esse mistério foi solucionado a mais de 130 anos.

Furioso, o garoto continuou teclando e, num pico de raiva, jogou o mouse contra a parede.

— Já falei, não? Eu quero informações daquela história pra me ajudar com meu caso atual!!

Morgan suspirou e respondeu: — Fala dos desaparecimentos? Tsc! Eu já te mandei esquecer isso, não é pra gente do seu escalão. Minha resposta é não e ponto final. Arranje outra coisa pra fazer.

O chefe se retirou, abandonando Hector com sua raiva emergente. O rapaz cerrou um dos punhos e encarou a tela do computador, ao mesmo tempo, buscou por um mouse reserva em sua gaveta.

Seus olhos esmeralda voltaram à tela, onde encontraram o mesmo texto de sempre. De longe, esse era o maior motivo da falta de sono que lhe assolava.

Nos últimos dois meses, o Hospital Santa Estrela recebeu alguns poucos pacientes em estados que desafiavam a humanidade. Os indivíduos apresentavam pele roxa e flácida, sendo que, na maioria das vezes, parte do corpo estava parcialmente, senão inteiramente derretido. Nenhum outro padrão foi notado até o momento. 

Havia se passado quase três semanas, e sequer uma linha tinha sido escrita pelo rapaz acerca do mistério que caiu em suas mãos.

“Zero relatos; testemunhas… Não tem nenhuma pista, absolutamente nada!”

Ele deitou o rosto na mesa e se pôs a pensar. A dor de cabeça começava a dar sinais de piora. No decorrer de tantos dias, seu corpo tornava-se cada vez mais pesado, e a simples tarefa de se levantar da cadeira parecia impossível. 

“Mesmo se eu apresentar os documentos do meu último trabalho, não vou conseguir as permissões. Só me resta contatar aquele cara…”

Como se tomasse impulso, ele se ajeitou na cadeira e tirou o celular do bolso. Então, com movimentos ligeiros e uma curta hesitação, mandou uma mensagem para um colega, cujo respondeu quase de imediato, assim como era de costume.

Bah! Fala aí, parceiro! Eu imaginei que você estava enganchado nesse caso. Eu sei algumas coisas sobre Alamut, mas só posso te falar pessoalmente. Aguarda aí que vou passar no seu escritório.

O detetive saltou da cadeira, agora sem um pingo daquele cansaço de segundos atrás, e caminhou apressadamente para o lado de fora, um tanto indignado com a facilidade que resolveu o impasse.

— Hector — iniciou Morgan —, está saindo? Eu vou fazer uma ligação importante, então a porta vai ficar trancada por uns quinze minutos.

Com as mãos naquela mesma maçaneta, o rapaz levantou a cartola e encarou de canto.

— Qual é a dessas ligações, afinal? Você tranca a porta e sempre garante que não tem ninguém, por acaso eu deveria saber?

— São assuntos dos superiores, moleque. Agora vaza.

Sem muita escolha, ele obedeceu. Ao colocar os pés na calçada, ouviu a porta ser trancada, e por causa do isolamento das paredes, sabia que seria impossível ouvir qualquer coisa.

— Esse gordo ainda me paga… um dia.

Dessa vez, controlou sua raiva, pois havia algo mais importante prestes a acontecer. Se tinha uma coisa que Victor não fazia direito, era cumprir horários.

Caminhando pela larga calçada da Avenida Romantusk — onde ficava seu trabalho —, Hector fazia diversas anotações em um pequeno caderno preto que sempre carregava consigo.

O detetive vestia-se de forma discreta, mas ao mesmo tempo era um tanto extravagante. A roupa se resumia em um terno que mesclava preto e um verde ofuscante, assim como o sobretudo que ia por cima. No entanto, aquilo que mais chamava a atenção era a cartola em sua cabeça, também com uma tira verde, da mesma forma que uma mecha de seu cabelo preto escapando numa franja.

Argh!! Que hora que esse arrombado vai chegar? Ele acha que eu tenho tanto tempo livre assim? — Seu olhar vagou alguns metros adiante.

Escorado numa parede de concreto e rodeado de gatos de rua, estava o homem conhecido como “Mendigo da Romantusk”. Excluindo toda a aparência padrão de um sem-teto, sua única peculiaridade era que uma máscara branca escondia-lhe o rosto, essa munida de apenas dois buracos que o permitiam enxergar.

“Esse maluco aí... certeza que é um Espírito! Eu nunca vi ele comendo, então já é prova mais que suficiente. Espera só pra ver seu puto, vou provar pra todo mundo!”

Com um olhar fixo no mendigo, Hector rangeu os dentes, correspondido por uma olhada de relance do sujeito mascarado. O detetive então bufou, voltando a olhar o movimento da avenida.

“Qual é… Eu sei que cê não é bom com horários, mas tudo tem limite, Victor!”

Hector coçou o queixo sem parar devido ao nervosismo, pois o hospital em que as ocorrências foram registradas era o mesmo onde a sua melhor amiga trabalhava, logo, uma constante preocupação lhe assolava. Seu olhar vagava por cada carro, procurando desesperado pelo Celta Preto do colega.

TRIIIM!! O celular tocou de repente, e não demorou até que a ligação fosse atendida.

Fala aí, Hector! Desculpa, mas eu não vou conseguir aparecer, imprevistos, saca?

— Tô pouco me fudendo! Eu quero mais detalhes sobre o Caso Alamut, vem pra cá agora! — bravejou, quase atravessando a tela do aparelho.

Bah! Esquentado como sempre, né? É como eu disse, não posso te falar nada se não for pessoalmente. Pra compensar, pega isso aqui…

Uma nova notificação soou pelo celular na caixa de mensagem de Victor.

Esse documento tem informações especiais sobre algo que eu estou investigando. Eu já dei uma olhada no caso que está sob seu comando e, sinceramente, acho que algumas coisas podem estar conectadas. 

Comece a procurar pistas através delas e me informe conforme avançar. Té mais, tchê!

Bip! Raivoso, o rapaz só não arremessou o celular contra o chão graças às mensagens que recebeu, um documento digital. Ele então baixou o arquivo e se deparou com apenas uma frase.

Procurar por Lucas Silva. Centro da cidade.

Finalmente, foi como se uma chama reacendesse em seu coração. Ainda não foi capaz de superar completamente a frustração acumulada, mas pelo menos, agora tinha uma direção a seguir. 

Pensando na outra informação que Victor comentou, desceu até alcançar uma segunda página. Rapidamente encontrou a última frase, seu corpo arrepiou no mesmo instante, pois só havia uma; bem destacada e que ocupava apenas a primeira linha.

O OLHO DE OURO LHE ESPREITA

A memória foi imediata, havia apenas uma pessoa conhecida pelo detetive com uma característica tão marcante. Sua mente retornou ao salão infernal e as mesmas mãos esqueléticas amaciaram sua carne, enquanto no trono, a figura diabólica o encarava como um verdadeiro deus.

O que estava ocorrendo em Paradise? Porque as vítimas derretiam? Quem se escondia por detrás das cortinas? E afinal de contas, quem era o demônio do trono? A partir daquele momento, Hector ganhou um norte para buscar tais respostas, sequer imaginando que se envolvia em uma investigação que, no futuro, ficaria conhecida como Caso 47: Um lugar seguro.



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