Volume 1

Capítulo 4: TENTANDO SER MELHOR

Muitos dias se passaram desde que a invasão aconteceu. Naquele dia em que o curandeiro contou para Kai sobre sua deficiência, Lorde Murphy lhe fez uma visita.

Contou tudo o que Kai perdeu após seu apagão. Pensou que deveria isso ao rapaz, pelo menos.

Os mercenários, ao que parece, caíram um a um. Aquele que chamavam de Viteli perdeu a consciência logo depois de Kai e, os oponentes de Lúcio Fal, Servent Moraes e Cedrico Fellner foram mortos.

Em dado momento, no entanto, houve um início de batalha entre Gilliard e Enoryt Murphy. Foi uma batalha breve pois, como disse o modesto lorde, o líder mercenário perdeu um braço logo no início.

Vendo que não teriam qualquer chance, bateram em retirada. Um grupo especializado ainda tentou segui-los, mas perdeu o rastro depois de horas de perseguição.

Kai permaneceu calado durante toda a conversa e, no fim, deu os detalhes que acreditou serem pertinentes ao lorde da cidade, como os mercenários terem sido contratados por alguém. Nada passou pela mente de Kai, uma vez que o Lorde não disse nada e saiu logo em seguida.

Agora ele estava em sua cabana, nas bordas da Floresta de Bulogg, tão antiga quanto o próprio reino.

Nada poderia piorar, pensou Kai. Tinha como plano ser um mago, quem sabe seria um dos melhores. As pessoas nunca cansavam de dizer o quanto ele era bom manipulando mana. Isso amaciava seu ego.

Ele poderia encontrar algo que o satisfizesse, mas não ficou empolgado com a ideia de tomar a caça como profissão, ou mesmo ser um mentor. Ele ainda poderia entrar no ramo militar, mas nada que pensou lhe agradou muito.

Sentado numa cadeira de frente para a lareira, fitava sua mão direita, sem gazes. Uma cicatriz funda e vermelha riscava sua pele, como se a tivesse banhado em lava. Lembrou do rebote que sofreu no último ataque que tentou. A mana perdeu consistência e se desequilibrou. Isso é o que acontecia quando se perdia o controle de algo tão voraz.

A mana era como parte de cada ser vivo e, como uma fera, precisava ser domada. Por isso que ser um manipulador de mana exigia totalidade com sua mana, pois se você, porventura perdesse o controle, poderia acabar gerando uma explosão de mana, e a história recente contava que isso não seria bom. Eram poucos os humanos que tinham tamanha afinidade com essa magia.

Lembrou de todos os dias de treinamento, cujo tentou controlar uma energia tão incomum. Os elfos e os anãos eram mais conhecidos por ter uma verossimilhança maior com essa magia, com seus feitiços e atributos. Ainda os aasimar tinham certa vontade sobre; eram tocados diretamente pelo plano. Mas havia muito sobre esses seres que permanecia em mistério. Séculos se passaram desde que um humano viu este último. Até onde sabia, poderiam ter sido extintos ou voltado para sua terra sagrada.

Mas agora nada disso fazia sentido: viver aqui. Não tinha nada para agregar à cidade de Neve Sempiterna. Sempre pensou que faria sua vida por aqui, ao lado do lorde Murphy. A voz de lady Ardara veio à sua memória, todos os dias em que ela choramingava por não ter um controle tão bom sobre a mana.

Agora, pensando melhor, ela deveria estar satisfeita, uma vez que estava em Minas Cinzentas, cidade regida por seu tio, Brutus Carraig; segundo suas cartas recentes, estava avançando muito bem em magia elemental e, dentro de um ano poderia prestar o exame e obter a licença para mago. Quando passasse, teria um lugar especial dentro do Senado Bruxo de Algüros.

Provavelmente um cargo de prestígio; todos sabiam que seu sonho era ser uma general, aqueles grandes líderes dos exércitos do reino, abaixo somente do regente atual, Drimos Walsh, que assumiu o trono quando seu pai adoeceu, há 14 anos.

O sonho dela já estava meio caminho andado. Ela podia usar magia, no fim.

Uma pontada de amargura cresceu em seu peito e com isso veio a sensação de inveja. Se martirizou por sentir o que sentiu; nunca fora invejoso.

Contudo, isso não parava de martelar em sua cabeça, a ideia de ter que se reestruturar, aprender a conviver sem mana, que lhe auxiliara em tanto e em tudo. Agora que sua mana enfraquecera, um pouco de frio o assolou também. Era como se o manto de energia que aprendeu a usar como quem respira, estivesse fraco. Um cansaço lhe perpassou e, pela primeira vez em quase dez anos, parou de forçar sua mana como proteção para o calor. Nem lembrava mais a sensação angustiante.

Fitava sua mão, uma tremedeira constante, quando ouviu alguém bater em sua porta. Mais uma vez uma sensação de vazio lhe inundou, pois costumava saber quando alguém entrava no raio de 15 metros de sua cabana. Era patético.

Se levantou, sem a menor vontade, e apanhou um manto para se cobrir agora que não conseguia fazer isso normalmente.

Ao abrir a porta, um frio avassalador adentrou o lugar, uivando ao bater nas paredes; não ficou surpreso com sua visita, no entanto. Um rapaz baixo de ombros largos e cabeleira loura sorriu para ele; numa mão segurava uma garrafa de hidromel e, na outra, uma cesta com flores. Era o irmão mais novo de Clay Dito, Gunter.

– Clay me deu um dia de folga. Os últimos dias foram um porre; estivemos pelejando para reforçar as defesas de toda cidade.

Gunter, assim como Kai, tinha o sonho de ser militar. Como era um ano mais velho que ele, já tinha prestado o exame para licença em magia, na Capital Azul, e passou. Agora fazia parte do exército de Dito; igual a todos os outros da família, como sua querida mãe gostava de dizer.

– Vai me convidar para entrar, ou...

Kai se afastou da porta e caminhou até a cadeira, se jogando nela. Gunter sentou na cadeira ao lado e bufou. Soltou a cesta aos pés do outro e se encostou. Sussurrou alguma coisa e dois copos apareceram em sua mão. Esse era um dos privilégios de se ter licença; podia fazer feitiços sem se preocupar com qualquer punição aparente.

Se não fosse pela provisória que Kai recebeu de um dos anciões do Instituto, não poderia ter usado magia na luta do castelo.

O Instituto era responsável por lidar com as leis da magia nos territórios do homem, dos anãos e elfos. Era eles quem organizavam os testes para mago. Ao virar um mago, uma licença era emitida, com a cor da categoria e o rank do sujeito em questão.

O cargo mais baixo nesse rank era Mago, seguido por Grão-mago, Arquimago e Regente Arcano, este sendo o ponto mais alto. E ainda existiam categorias dentro de cada rank. Sendo D, C, B, A e S.

Gunter era um mago de categoria C. Kai se lembrou do dia em que o amigo ganhou sua licença; sua mãe fizera uma festa enorme. Ficou irritada com o valor cobrado (pago com 15 moedas de ouro), mas feliz ainda assim.

– Essa cesta foi mamãe que mandou, você sabe como ela te adora – Gunter tomou um gole de seu copo. – Mandou te avisar que deveria ir jantar lá em casa qualquer dia desses, disse que faria um assado de panela.

O outro apenas assentiu, fitando o fogo. Gunter encheu os dois copos e deu um para o amigo; este aceitou e tomou um gole enorme.

Alguns segundos de silêncio constrangedor se passaram; então, para quebrar qualquer tensão, Gunter tornou a falar:

– Eu queria ter estado lá, sabe. Acho que você não precisaria ter tomado a pílula caso... enfim. Não pude ir, estava em uma missão. Sinto muito, Kai, muito mesmo...

Kai virou o rosto e se deparou com seu amigo encarando o fogo, a expressão brincalhona distante de seu rosto.

– Não há o que fazer, Gun, é a vida – disse, um sorriso não chegando aos olhos.

– Bom, mesmo que você não possa usar magia, pode ser um Mestre...

– Não sei... nunca passou pela minha cabeça treinar magos. Você sabe como eles são orgulhosos.

– Mas existem combatentes, Kai. O exército não se resume a magia e o quanto alguém consegue lançar feitiços – Gunter se empertigou, tomando um gole de seu copo. – Não. Lá existem combatentes, pessoas que precisam de um destaque a mais. Pessoas que usam apenas sua força e armas para lutar.

– E ainda assim necessitam de magia...

– Isso mesmo. Preste exame para ser consultor ou mentor. Tenho certeza que Lorde Murphy...

– ... Lorde Murphy é egocêntrico, Gun. – Kai cortou, em tom de desgosto. – Ele usa as pessoas para finalidade própria. Muitas vezes essas pessoas são beneficiadas. Se essas pessoas triunfam em seus objetivos – objetivos esses que muitas vezes são escalonados pelo próprio Enoryt, ele é quem recebe as dádivas, as glórias por confiar em homens e mulheres tão capazes. Mas e quando fracassam? A história não mente, Gun.

– Isso é injusto, Kai. Você sabe que o pai de Ardara...

– O pai de Ardara é uma pessoa – Kai ergueu um dedo. – E o Lorde Murphy é outra. Acredite, eu não tenho mais nada a lhe oferecer.

Alguns minutos se passaram, Gunter fitando o fogo, incompreensível.

– Tenho certeza que ele faria isso por você. É como disse, Kai, ele é sobrinho de Siobhan, pode lhe ajudar...

– Não escutou o que eu falei? São pessoas diferentes, Gun. Enoryt Murphy aceitou que eu ficasse em suas terras porque foi seu tio quem pediu, uma última súplica antes de se mandar para a capital. Mas isso não foi em troca de nada, foi?

Gunter piscou, parecia que tinha deixado alguma coisa escapar.

– Que quer dizer com isso?

– Enoryt apostou em mim, viu um potencial avassalador. Mas nunca me olhou de verdade, não como o velho Shiv. Não... ele visou o ganho pessoal, o fortalecimento de suas tropas. É tão arrogante quanto qualquer um deles.

– Então agora você culpa o Lorde Murphy por sua enfermidade? Não foi ele quem...

Gunter não precisou terminar a frase.

Não foi ele quem lhe fez tomar a pílula pensou Kai. Não podia evitar que esse tipo de pensamento passasse pela cabeça do amigo; não podia evitar que esse tipo de veneração estivesse dentro de seu peito, afinal, Enoryt era uma lenda para a atual e nova geração. Era o ‘Touro Negro do Norte’.

Ficou amargurado; no fim, seria ele por ele mesmo.

– Desculpa... – Gunter bufou depois de alguns minutos.

– Não tem problema, amigo. Não adianta tentar achar possibilidades, isso é o que é.

Gunter encarou o fogo, seu copo e então o rosto do amigo. Uma carranca franzindo o rosto.

Então é assim? Vai desistir do que sempre quis? Do que sempre esteve destinado a fazer? Vai se acovardar?

– O destino não é nada mais do que caminhos irregulares e escorregadios, Gun. Não há graça em chegar ao fim de algo, sempre sabendo que aquele era o único caminho a ser percorrido. O destino não se encarrega de nossos passos... não é o destino quem anda por nós, quem sofre nossas dores... somos nós. O destino dá apenas escolhas, caminhos. Nós sempre devemos ser nossos mediadores e condutores do nosso próprio destino. O destino é vago e, ainda assim, infinito.

Gunter piscou, não compreendendo o que seu amigo lhe dissera. Ficou um tanto confuso. Kai riu; estava mais leve do que esteve nos últimos dias.

– Ficarei bem, Gun. Não precisa se preocupar ou se culpar... eu sempre soube o que fazer em seguida, não é? Confesso que pouco antes de você chegar estava muito confuso, furioso..., mas meu caminho se iluminou.

– Que quer dizer?

– Há um mundo inteiro aí fora, não é? Por que me prender a amarras quando posso desbravá-lo?

Então Kai tomou a garrafa do amigo e encheu o copo. Depois de tomar outro gole, foi arrebatado por possibilidades e pensamentos. Uma dúzia de coisas lhe passou na cabeça, coisas que o esperava. Quando Kai pensou estar preso a grilhões, ele na verdade estava se soltando. Estava longe de tudo aquilo, sem amarras, sem obrigações para com Lorde algum.

Na verdade, o sonho de ser militar e obter uma licença mágica sempre foi pra provar que era capaz. Devolver na mesma moeda aquilo que muitas pessoas pensavam a seu respeito; dizer que venceu.

E, apesar da falta de magia, tinha essa opção, essa vantagem. Estava livre, poderia voar.

Um mundo inteiro o aguardava, longe de uma guerra que assolaria aquele lugar que ele nunca chamou de lar; que, agora mais do que antes, via-se desconexo.

Tinham pessoas que gostava ali... Lúcio Fal, a família Dito, Ardara Murphy..., mas precisava viver e, finalmente, essa janela se abriu. Uma saída da qual ele nunca pensou que poderia cruzar antes de obter tanto poder, estava em sua frente. E, caso fosse pertinente, quem naquele reino o impediria? Estava livre, isso era mais vitorioso do que ele jamais pensou ser. 



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