Volume 1

Capítulo 13: Um por Todos, Todos por Um?

Seria algo inédito tudo aquilo que estava acontecendo: um lugar que lembrava um coliseu, uma enorme quantidade de goblins sentados na arquibancada e algumas mulheres humanas com roupas típicas de um mundo de fantasia. Porém, apenas para mim.

Pelo jeito, depois que a batalha terminou, todos passaram a estar mais tranquilos e aquela surpresa de antes desapareceu como um passe de mágica. Também não é como se o medo e o pavor desaparecessem por completo – não depois daquela batalha, mas, de certa forma, todos conversavam entre si como se estivessem no intervalo de algum grande show. E agora aguardavam o reiniciar do evento.

Depois da conversa pós-luta e certos segredos revelados pelo “líder” Yaga, tínhamos novos caminhos para prosseguir, ou melhor, eu deveria decidir o que fazer a partir de agora. E seria idiota se não levasse isso em consideração.

O “Pacto de Sangue” – também conhecido como Contrato Demoníaco – seria uma maneira segura de eu ter a autoridade de que preciso ao mesmo tempo que daria a eles um pouco desse poder.

Eu tinha “poder”, e realmente parecia poderoso, coisa de outro mundo. Além disso, tanto os avisos quanto os testes do Sistema estavam ridiculamente quebrados. Não preciso lembrá-los da quantidade absurda de pontos que tenho disponível e de todo aquele bônus que ganhei para qualquer teste realizado... portanto, considerando tudo isso, não tenho como falhar, certo?

Então, há uma coisa que preciso me preocupar agora: o próprio Contrato Demoníaco.

Sistema: [Contrato Demoníaco – concede à outra parte deste contrato, parte de seus poderes ou conhecimento em troca de lealdade às condições impostas].

Não está explicando nada, na verdade... será que preciso por alguns pontos antes? Vejamos, vamos colocar até o máximo primeiro. Ótimo, e agora conferir se mudou algo na descrição.

Sistema: [Contrato Demoníaco – ... O Contratante pode distribuir especificamente habilidades, vantagens ou poderes entre todas as partes, livremente ou de acordo com as condições impostas. O Contratante pode permitir aos contratados descobrir sua localização e compartilhar seus sentidos. O Contratante pode controlar as partes livremente, usando seus próprios sentidos de acordo com as condições impostas].

Que loucura é essa? Seja por causa da Tradução Automática, seja por causa do meu conhecimento anterior, a forma como está descrito, tal como as possibilidades, isso tudo não está parecendo um contrato empresarial?

Talvez eu esteja pensando muito sobre o assunto e isso pode ser apenas impressão minha, porém... eu estou a um passo de criar minha própria empresa aqui, certo?

Enquanto estava em meus devaneios, vi quando as outras garotas entraram pela caverna e desceram os degraus da arquibancada. As goblins estavam auxiliando-as em seus movimentos e mesmo com dificuldade, conseguiram chegar até uma fileira livre.

Como as garotas goblins possuem uma aparência mais humanizada e “bela”, não é estranho estarem acompanhando-as sem muita resistência, porém, duvido que elas sejam capazes de andar lado a lado com os outros goblins machos, não quando elas são constantemente lembradas do que aconteceu por causa da gravidez.

Ainda assim, as três garotas e as outras goblins se sentaram e sinalizaram com as mãos quando me notaram. Apenas retribui o aceno e tentei dar um sorriso genuíno. Apesar de estarem na primeira fileira, por causa da iluminação ruim, não sei se aquilo serviu de algo.

Depois, virei-me e olhei para Yaga.

— Yaga, venha comigo e traduza para os goblins — enquanto caminhávamos, continuei: — e eu falarei diretamente para as humanas.

— Como desejar, Yami.

A arena se transformou em uma espécie de palco e eu e Yaga seríamos os apresentadores.

Nós dois éramos pequenos — eu ainda mais — e olhar para toda aquela quantidade de goblins, era um tanto estranho e até posso dizer assustador. São criaturas com traços humanos, porém, ainda são monstros.

Na minha vida passada já tinha me acostumado a conversar e palestrar para muitas pessoas, no entanto, nunca de uma forma tão humilhante quanto essa. Não só pela aparência e tamanho de criança, mas também com aquelas roupas e naquele estado.

Respirei profundamente e organizei as palavras que precisava para aquele discurso. Espero que Yaga consiga traduzir obedecendo o mesmo sentido e espírito.

Olhei para todos que estavam discutindo e murmurando coisas entre eles. Havia tanto barulho na caverna que não dava para começar, não como eu gostaria. Por isso, levantei meus braços, igual ao que Yaga tinha feito antes, e bastou fazer aquele movimento que todos pararam com a algazarra.

Não havia nenhum pio e de tão silencioso que estava, podíamos escutar desde o barulho do gotejar d’água caindo do teto até a respiração pesada de alguns.

Mas, que diabos? E eu pensando que esse gesto só era estranho e desnecessário. No entanto, se considerarmos coisas vindo desse goblin Yaga, é certeza que ele tenha ensinado alguma coisa a respeito dessa ação para eles. De qualquer forma, eu preciso começar:

— Todos devem saber quem sou eu. Me chamo Yamitsuki Ottoe... — Olhei para as humanas e, não dá para esconder o lance de “princesa” para sempre, certo? Continuei: — Sou a “Princesa Demônio”. Yaga confirmou minha autoridade e todos vocês viram hoje que nem aquela humana conseguiu me ferir. Eu busco aliados para me ajudar a entender e me adaptar nesse Mundo. Qualquer um pode ser meu aliado, tanto vocês, goblins, quanto as humanas que estão aqui. Àqueles que aceitarem estarão sob minha proteção.

Yaga estava traduzindo? Maldição, nem isso consigo comprovar, a [Tradução Mágica] é tão automática que ele está literalmente repetindo tudo o que estou dizendo. Com uma pausa para que ele terminasse, dei alguns passos me aproximando da plateia e Yaga me acompanhou.

— Eu não peço essa aliança de graça, pois, há uma maneira de todos vocês se beneficiarem com isso. Por que não usar parte do meu poder para ajudá-los com seus próprios objetivos e sonhos? Vocês não gostariam de ser mais fortes? De superar seus limites? — depois olhei para Samy e as outras garotas. — E se precisarem recomeçar ou reconquistar seu propósito de vida, também posso ajudá-los.

O silêncio de antes continuou intocável.

Ainda que pudesse ver tanto os goblins quanto as garotas surpresas pelo que eu estava dizendo, não ousaram falar ou soltar qualquer tipo de som. Até as aventureiras mudaram suas feições e expressões em silêncio.

Essa história de Princesa Demônio era algo novo para elas, mesmo que estivesse nas entrelinhas, porém, isso não pareceu abalar o respeito que consegui antes. Ótimo.

— Já não bastava se chamar de demônio-real, ainda tem essa história de Princesa? — perguntou Ninx de maneira debochada.

— Fique quieta, não atrapalhe a Yami agora — disse Meril dando-lhe bronca.

— O que foi, do nada se tornaram melhores amigas? — Levantou os braços e os colocou atrás da nuca, caminhando despreocupadamente. — Só estava me perguntando se...

Shiiii! — fez um gesto para que ela apenas calasse a boca.

Ninx fez uma cara feia para Meril e deu-lhe a língua quase como se fosse uma criança do primário, depois disso, fez um sinal negativo com a cabeça e suspirou, olhando para o vazio do outro lado da caverna.

A incerteza pairava no ar e quando dei uma pausa para deixá-los assimilar o que tinha dito, era possível analisar seus movimentos inquietos.

Se me lembro bem, na Terra, histórias que envolviam goblins deixavam claro sua necessidade de segurança no poder, ou seja, sempre buscavam seguir criaturas mais poderosas que eles, até mesmo seguindo-os cegamente.

Está muito cedo para comprovar tal afirmação, porém, pelo que vejo, é fato. Claro que, seguindo o comentário de Yaga na primeira vez que nos encontramos, sobre o Acordo Demoníaco e tal, por parte deles não terá nenhum problema. No entanto, quando vejo as garotas e as aventureiras, essa certeza já não existe.

Aparentemente, apenas Meril deseja fazer isso de bom grado. Já as outras, mesmo que ficassem do meu lado, ninguém tinha mencionado algo sobre um contrato antes... e para piorar a situação, um contrato com demônios.

Fiz um sinal para que Yaga me acompanhasse novamente para o centro da arena, afinal, teríamos que fazer o mesmo ritual de antes.

— Não precisa traduzir a partir daqui. Deixe-os pensar no que fazer.

— Certo, Yami. Ainda que isso não seja necessário, é bom ver que você aprecia o sentimento de liberdade — afirmou Yaga.

— “Liberdade”, é? Acho que sim. — Tentei contornar o assunto. Não que eu fosse um tirano ou algum “demônio” na vida anterior, porém, para mim, liberdade valeria apenas com o quanto você é capaz de oferecer para sociedade.

Pessoas que só trouxessem problemas não deveriam ter liberdade alguma. Já aquelas revolucionárias ou que os outros pudessem se inspirar, aí sim, elas deveriam ser livres para agir de acordo com suas ideias, afinal, elas iriam de alguma forma ajudar os outros.

É um pensamento meio extremo, porém, se eu quero viver da melhor maneira possível, essa “liberdade” dos outros não deve me atrapalhar. Suspirei e fui até as aventureiras primeiro.

— Independentemente do que acontecer, saiba que isso não irá interferir no que eu disse antes. É um caminho opcional. Não que eu precisasse disso, já que Meril concordou em me ensinar sobre esse mundo, porém... Como vocês podem ver, vocês também podem se beneficiar com isso, certo? — minha máscara de boa-garota caiu por um momento — Além disso, eu poderia fazer meus peões ainda mais fortes. Uma estratégia válida para meu jogo, sem dúvidas.

Todas olharam para si como se estivessem pensando “que porra foi essa, Yami?”. E antes que eu pudesse explicar minha escolha de palavras, Ninx deu uma risada tão falsa quanto vergonhosa de se ver e ouvir:

Hahaha, desde que a gente não tenha que ser sacrificado, nem nada do tipo, vocês viram antemão o que aconteceu aqui... — deu alguns passos ficando de frente para as outras garotas. — Esse poder não é de se jogar fora.

Admito que deixei escapar um pouco dos meus interesses reais aqui, no entanto, não é como se eu precisasse de sua ajuda, Ninx.

— Isso poderia acontecer — disse baixinho para ela.

Hahaha — riu de maneira forçada, novamente, e colocou as mãos em meus ombros, apresentando um sorriso tímido antes de continuar: — Você poderia mentir como os outros demônios. Tornaria tudo mais fácil.

Sheyla, não escutando o que estávamos discutindo, deu alguns passos para frente.

— Tudo bem que seja um demônio, Yami, mas, aceitar um contrato com demônios... — disse Sheyla com certa dificuldade de se expressar. — É tão antinatural para mim que não sei se... eu deveria? — perguntou, me encarando.

— Você não precisa se preocupar com isso...

— Sim, mas eu jurei que...

— Tudo bem, tudo bem... — tentei acalmá-la.

Meril também se aproximou para participar da conversa. Ela fez um sinal para que Sheyla se tranquilizasse e depois virou-se para Ninx com seus olhares avulsos para a caverna. Como alguém que não gostaria de fazer isso, Meril tentou tomar liderança daquela conversa:

— De qualquer forma, garotas, ainda precisaríamos ver as condições iniciais. Lembre-se que as condições não podem ser alteradas em um contrato vigente. Sendo assim, decidam se vão aceitar ou não depois de vê-los, certo, Yami?

— Sim... entendi.

Apesar de ter visto Yaga fazer todo o ritual antes, não é como se tornasse as coisas mais fácil. É preciso pedir para a tal Yman Tuaei, ?

Como já estava no centro da arena, fiquei um tempo analisando como deveria começar. Yaga, vendo isso, fez um sinal e disse que iria me ajudar.

 Com sua ajuda direta, consegui refazer os mesmos passos, criando aquele círculo de antes. Fizemos o maior possível já que aqueles que aceitassem deveriam entrar no círculo e eu não queria ter que fazer um para cada goblin ou humana, portanto, que todos entrassem juntos.

Deve ter pelo menos uns 50 goblins aqui e todas as humanas totalizam 6 garotas.

Yaga confirmou que eu poderia aceitar o contrato com todos nessa caverna sem problemas e por isso fizemos um círculo capaz de colocá-los juntos.

Yaga me deu outro cristal de mana e eu o quebrei naquele pó e passei a recitar o cântico mágico:

Oh, deusa dos acordos, deusa das promessas: Yman Tuaei. Conceda a mim o poder para selar um contrato. Para todos que desejarem, subam no palco e fiquem dentro do círculo demarcado. Para aqueles que recusarem, permaneçam em seus próprios lugares. Eis as condições para terem parte do meu poder...

Desde que ouvi sobre ter que criar as cláusulas do contrato, tudo que veio em mente foi meu trabalho. Maldito seja aquele meu “amigo”, se ele não tivesse me apunhalado, eu certamente não precisaria passar por nada disso que estou passando agora.

Ainda que ninguém tivesse entrado no círculo, as runas e as marcas brilharam o suficiente para destacar todo o lugar, tal como se uma poderosa magia estivesse sendo conjurada – e realmente estava.

— Isso é tão... magnífico! — exclamou Meril.

Oh, quanto tempo não vejo esse nível de poder? — balbuciou Yaga.

— Mais um motivo para não se tornar inimigo da Princesa, check — brincou Ninx.

— Isso é muito diferente do que o Yaga fez... — comentou Sheyla.

Depois disso, como se uma janela do Windows aparecesse do nada, foi o aparecimento de uma daquelas interfaces que eu costumo ver, só que maior e ao fundo da caverna. Todos deram um salto de susto. O que há com essa janela gigantesca do Sistema? E... eles estão conseguindo vê-la?

Sim, estavam.

Dentro da janela as cláusulas que eu tinha pensado foram pipocando na tela como se alguém digitasse diretamente no word ou em algum outro editor de texto. Não tenho nem palavras para descrever o quão absurdo isso parecia. Além disso... Olha esse conteúdo...

Eu pensei um pouco no que gostaria e aparentemente o Sistema resolveu por conta própria criar o contrato. E por que diabos ele iria colocar provérbios japonês como nome dos benefícios?

[Contrato Demoníaco]

Esse contrato, nomeado de Contrato Demoníaco, declara o acordo entre as partes nomeadas, a saber, de um lado a Yamitsuki Ottoe com título de Princesa Demônio e no cargo de CEO da Empresa, e do outro o Funcionário, àquele que entrar na Empresa mediante a aceitação das seguintes cláusulas e condições:

1)  Natureza, denominação, sede e objetivo

Contrato mágico-sobrenatural do tipo Especial aprovado pela deusa Yman Tuaei denominado de Contrato Demoníaco-Empresarial.

Sede não definida. A escolher futuramente pela Princesa Demônio.

Esse contrato determina o vínculo entre as partes em uma hierarquia vertical, sendo a maior e mais alta posição denominada CEO, atribuído a Princesa Demônio, e depois a níveis decrescentes: Diretores, Vice-Diretores, Líderes de Setor, Gerentes, Supervisores e todos outros subordinados nomeados como Funcionário.

Além de receber os benefícios descritos no setor Benefícios, esse contrato também determina as Punições, no setor de Punições, em descumprimento das condições atribuídas no setor de Condições.

2)  Prazo de Duração

Esse contrato tem o prazo de duração indeterminado, tendo início a partir do primeiro Funcionário.

3)  Benefícios

3.1) Compartilhamento de Poder

寄らば大樹の陰

se é para buscar abrigo, que seja sob uma árvore grande

Sob a Liderança dos Poderosos: Você terá até 50% (10/20/30/40/50%) do acréscimo do seu próprio poder sempre que seguir as ordens diretas de um Funcionário com um cargo superior ao seu.

虎穴に入らずんば虎子を得ず

se não entrar na toca do tigre, não vai pegar o filhote

Sem Riscos, Sem Petiscos: Você terá até 50% (10->50%) do acréscimo do seu próprio poder em virtude da dificuldade da tarefa atribuída a você ou que tenha desejado ser responsável.

失敗は成功のもと

O Fracasso é a Origem do Sucesso: Caso falhe em uma tarefa atribuída a você ou que tenha desejado ser responsável, receba até 50% (25/50%) do acréscimo do seu próprio poder para refazê-la até dar certo.

初心忘るべからず

não perder o objetivo inicial

Funcionário do Mês: ser considerado o funcionário do mês para um cargo ou categoria com pelo menos três funcionários lhe concederá prementemente até 30% do poder adicional além dos seus limites básicos.

石の上にも三年

três anos em uma pedra

Seu Esforço será valorizado: para cada promoção, ou seja, cargo acima do seu inicial, lhe concederá permanentemente 20% do poder adicional além dos limites básicos.

継続は力なり

perseverança é poder

Quanto Mais Esforço, Mais Poder: Para cada temporada ou escolha de acordo com a decisão da CEO, receba até 20% do poder adicional além dos seus limites básicos.

3.2) Habilidades Compartilhadas

蛙の子は蛙

filho de sapo é sapo

Filho de Demônio, Demônio é: Você conseguirá entender outros funcionários desde que eles utilizem [Linguagem de Monstros] ou [Linguagem Comum] ou qualquer Linguagem aprendida pela CEO.

人のふり見てわがふり直せ

observe o comportamento de uma pessoa e corrija seu próprio comportamento

Conhecimento que pode Ver: Você conseguirá receber ou entender [Conhecimentos] de acordo com aqueles determinados pelo CEO.

能ある鷹は爪を隠す

um falcão hábil esconde suas garras

Os Segredos da Princesa: Você não precisará se preocupar com [Analisar] de terceiros, suas informações serão protegidas pelo Contrato.

4)  Condições

A seguir as condições e regras no qual você deve aceitar:

4.1) Trabalhar arduamente para evoluir suas próprias habilidades.

4.2) Trabalhar arduamente para evoluir sua própria família ou grupo social.

4.3) Trabalhar arduamente para merecer sua próxima promoção.

4.4) Trabalhar arduamente para honrar seus próprios títulos.

4.5) Trabalhar arduamente para o bem e crescimento da Empresa.

4.6) Aceita que o funcionário acima de você tem a responsabilidade por suas ações ao mesmo tempo que a decisão de como agir ou prosseguir diante de uma situação.

4.7) Aceita que a CEO tem a última palavra em considerar uma situação boa ou ruim para a Empresa.

4.8) Sempre irá dizer a verdade para a CEO.

4.9) Permite conceder informações privilegiadas e controle absoluto a partir de um pedido prévio da CEO.

5)  Punições

Não cumprir as condições ou qualquer ato indevido considerado pela CEO acarretarão as seguintes punições:

             5.1) 1º Aviso para situações leves ou não pré-estabelecidas.

             5.2) Punição de revogação dos poderes de maneira temporária a depender do nível de gravidade da situação.

             5.3) Punição de Rebaixamento do Cargo ou perca de um bônus previamente adquirido ou incapacidade de adquirir um bônus futuro.

             5.4) Demissão da Empresa e perda permanente de qualquer título, poder ou privilégios concedidos pela Empresa e adquiridos durante o período de Funcionário, mesmo para aqueles obtidos por evolução pessoal.

             5.5) Caso o Funcionário recuse a dizer a verdade – ou essa omissão traga problemas para a Empresa – estará de acordo em sofrer dor física-muscular até que resolva dizer a verdade. A intensidade dessa dor será definida pela importância da situação mais o tempo de negação. Observação: Morte desabilitada.

[Fim do Contrato Demoníaco].

Que loucura foi essa? Não só foi criado um contrato social, como também foi estipulado valores numéricos por conta própria. Mesmo eu não consigo entender muito bem o que ele está oferecendo ou a medida da punição. É algo como... deixa eu ver se entendi.

Se o “funcionário” trabalhar para o bem da empresa, ele irá receber parte do meu poder, no entanto, ainda limitado pelos seus próprios valores. Ou seja, eu consigo fornecer para cada funcionário até 150% dos seus valores base.

Isso significa que eles seriam até 2,5 vezes melhor na teoria... e os outros benefícios parecem melhorar esses números de maneira multiplicativa...

Quer saber, foda-se. Resumindo tudo isso... Eles ficam mais fortes se seguirem minhas ordens e ainda mais fortes se subirem de cargo ou ganharem algum tipo de bônus.

Vendo tudo isso, encarei as aventureiras para ver qual seria suas reações, mas antes que elas pudessem falar ou agir, Yaga se aproximou de mim e comentou baixinho:

— Yami... essas condições... elas não parecem muito abertas?

— Você acha? — Bem, não é como se fossem as melhores condições do mundo, mas, parecem servir para esse propósito inicial. Mesmo que eu não consiga mudar, nada impede de apenas cancelar esse contrato e começar um novo.

Meril se aproximou daquela janela flutuante e tentou encostá-la, porém, apenas desmanchou brevemente como se fosse uma fumaça mágica até que voltou ao seu estado original. A janela por ser um tanto transparente, poderíamos ver através dela.

— E pensar que algo pudesse ser feito dessa maneira, pior ainda através de um contrato de Escravidão... — Meril balançou as mãos mais algumas vezes e até mesmo tentou interagir com a janela usando sua magia, sem sucesso, virou-se para mim antes de continuar: — Você tem certeza de que isso está certo, Yami? São condições estranhas.

Sheyla se afastou um pouco para ler aquela janela com maior facilidade e depois se aproximou de mim antes de perguntar:

— O que seria... “Empresa”, é tipo uma Guilda?

Não sei dizer se [Tradução Mágica] está influenciando no entendimento dessa parte, porém, não há muito o que eu possa fazer. Não existiam empresas nos mundos de fantasia medieval? Acho que preciso procurar um correlacionado para elas entenderem.

— Sim? Pensa como se fosse...

— É tipo a Associação dos Mercadores, Sheyla — comentou Ninx. — A garotinha está nos oferecendo um “emprego”, pelo jeito.

— Vocês possuem Associações? Ótimo... algo como isso.

— Só que... — Ninx se aproximou das “condições” e colocando a mão no queixo pensativa, apontou para elas. — Só para evitar quaisquer tipos de aborrecimentos, Yami. Essas condições... elas não parecem, sabe... nos obrigar a te obedecer nem nada disso. E, inclusive, a punição não é muito leviana?

— Considerando o que foi discutido antes, sobre o contrato de Escravidão levar até à morte dependendo do caso, acho que sim. — Afirmou Meril.

Bem, por causa do Sistema, nem eu sei dizer o que isso significa, porém, dá para tirar alguma lógica de trás. Melhor do que quebrar a cabeça, por que não usar o próprio Sistema para resolver esse problema?

Sistema: [Você deseja utilizar Teste Persuadir?][Sim][Não].

Sim.

Sistema: [Você jogou 1d20 e obteve 7+99, resultado: Sucesso].

Opa, o que o Sistema vai fazer? Vamos esperar e... Por um momento achei que ele iria brevemente explicar o uso das palavras, mas, pelo jeito criou seu monólogo estendido:

— Certo, vejo que vocês parecem surpresas. É como eu disse antes, não quero conquistar o mundo ou agir como um Rei Demônio, portanto, a primeira coisa é não obrigar vocês a nada, nem mesmo se aceitassem esse contrato. Eu prezo que meus aliados não sejam limitados ou controlados por minhas palavras ou desejos...

O Sistema realmente engana as pessoas. Apesar de estar tentando explicar de uma maneira fácil para que elas pudessem entender, ele escolhe as palavras de um jeito que a máscara da “garota inocente” permanece firme como uma rocha. Ainda que com o pequeno deslize que dei ali atrás, isso reforça minha imagem de frágil e ignorante.

O Sistema continuou:

— Então, deixe-me explicar esse contrato. Eu quero que aqueles que aceitarem consigam se aproveitar dos meus poderes, no entanto, eles mesmos devem evoluir. Eu irei atribuir funções para cada um, e dentro dessas funções teremos níveis de hierarquia. Quanto mais o funcionário se destacar trazendo resultados e o bem da Empresa, mais poderes eu irei dar a ele. Vamos supor que...

Veja meu corpo andando sozinho, mexendo sozinho, falando sozinho... que conveniente.

Ele foi até algumas pedras sobressalentes e as aproximou.

— Essas pedras representam sua força, estão vendo? 10 pedras? 10 é seu nível de força. Se você seguir uma ordem direta minha, sendo a CEO, você teria a metade de pedras como um adicional de força e passaria a ter 15 de força. Agora, e se você tivesse 12 pedras? Então eu te entregaria 6 a mais ao invés de 5. Isso porque estou lhe dando até 50%... e isso apenas do primeiro benefício. Se apenas os três benefícios estivessem ativos, ao invés de 10 pedras, você teria na verdade 25 pedras!

Desenhando dessa forma, até os goblins deveriam entender... mas, Yaga não está traduzindo isso para os outros. E nem o culpo, que chatice.

— Entendi. Basicamente, ganharemos uma parte dos nossos poderes como um adicional entregue por você..., porém, poderíamos ganhar muito mais se conseguíssemos melhorar essa “base”? — perguntou Ninx.

— Sim. Isso mesmo.

— De qualquer forma... sabe, isso não abre brechas para te trair? Quero dizer, hipoteticamente falando, é claro, não seria melhor ter uma condição para evitar a traição antes de tudo? Não é nisso que os contratos de escravidão tentam focar?

— Diferente dos outros contratos, não quero limitá-los. Inclusive, se o funcionário achar que conseguirá se safar depois de agir contra mim ou a Empresa, ele provavelmente terá um plano mirabolante, afinal, se você observar ali... há uma condição clara que impede que qualquer tipo de mentira seja dito para mim.

— E sobre essas punições... — Ninx cruzou os braços e pôs a ler novamente as linhas que faziam menção a punição. — É ótimo que não tenha nada relacionado à morte ou coisa do tipo, mas, é só isso mesmo?

— Agora, sobre a punição, entenda dessa forma: Todo poder que você conquistar enquanto estiver aceitando esse contrato, não será seu após o término do contrato. Inclusive se você passar a ter 12 pedras ao invés de 10, essas 2 pedras que você tinha conseguido serão entregues para mim. Claro que eu, como sua aliada, não gostaria que chegasse a esse ponto, mas, não posso deixar que alguém ganhe poderes por minha causa e tenha a possibilidade de usar esse poder contra mim.

— Interessante, Yami... Quem iria imaginar em usar o contrato dessa forma?  Nem mesmo meu antigo mestre teria essa audácia. Você não está simplesmente oferecendo poder, você está motivando os outros a evoluírem ao mesmo tempo que fortalece o vínculo com esse contrato, ou seja, você.

— É... não dá para largar o osso depois de conquistá-lo.

— Está nos comparando a cachorros, Ninx? — perguntou Sheyla.

— Não é isso que quero dizer. Sabe como é, desde o momento que vimos esse poder, sabemos o que poderíamos fazer com eles em mãos. E assim que o aceitarmos, certamente não gostaríamos perdê-lo, pelo menos eu não quero... Como eu disse, não vou largar meu osso.

Aparentemente o sistema terminou com seu controle automático e voltei às minhas próprias decisões. Será que eles vão ou não aceitar?

— Eu tenho uma dúvida, Yami... — disse Sheyla e depois apontou para a parte onde falava sobre os cargos. — Diretores... seriam como diretor de uma escola?

— Hmmm... Acho que podemos colocar desse jeito. Pense em uma Empresa como uma grande família com um objetivo em comum, um clã ou guilda como você disse antes. Se usar o exemplo da Associação de Mercadores, provavelmente nessa associação tem aquele que a lidera ou aqueles que decidem como prosseguir. Diretores estariam nesse nível e para cada outro nome que você pode ver, está em um nível menor.

— “Funcionários” de uma Empresa — afirmou Meril, dando um sorriso — que loucura.

Ah, Sheyla, você é de uma ordem de cavaleiros, logo, você segue uma hierarquia, pode usar isso como base também. Como cavaleira-comandante, provavelmente você está acima dos outros cavaleiros e eles deveriam obedecê-la, certo? Todos que estejam abaixo devem seguir as regras e condições de seus superiores.

— Compreendi. Agradeço pela explicação.

— E pensar que uma garotinha está nos dando aula desse tipo. E é você que gostaria de saber mais sobre esse mundo? Daqui a pouco eu vou querer saber mais de onde você veio, Yami — brincou Meril.

Meril tinha uma aparência séria de uma professora, mas, agora parecia tão feliz quanto uma exploradora descobrindo novos lugares para explorar.

— Isso ficou ainda mais interessante. Então, se eu estiver em um cargo superior aos outros funcionários, eu poderia ordenar que eles fizessem coisas... eu mandaria neles?

— Err... algo como isso, só não exagere nessas expectativas.

— Anotado.

— E o que deveríamos fazer se aceitássemos, Yami? Pois no que parece ser as condições ou no próprio contrato, não há nada declarando isso.

— É, ficou um pouco vago... mas é isso. Não há nada descrito com rigidez, até porque dependendo de vários fatores, essas tarefas poderiam ser diferentes. Veem as outras garotas? As roupas que elas estão usando... eu pedi para que as goblins fizessem suas roupas e isso poderia ser considerado uma tarefa. Agora, se eu precisar que vocês me falem sobre algo específico, como por exemplo... aquela cidade que vocês falaram antes... isso também seria uma tarefa.

— Onde você... tão jovem, aprendeu sobre estas coisas? — perguntou Meril.

— A princípio, de onde eu vim, trabalhava com Recursos Humanos...

As garotas pararam de fazer quaisquer coisas que estivessem fazendo e me encararam.

— Isso soou bem estranho — comentou Ninx.

— Você fazia algo com humanos, Yami? — perguntou Sheyla triste como se eu falasse algo realmente cruel.

Ah, não se preocupem — fiz um sinal com as mãos. — Não dessa maneira... deixe-me trocar as palavras... Como eu posso dizer isso. Eu analisava pessoas para ver o que elas eram boas e ruins e depois disso, eu as direcionava para onde melhor se encaixavam. Nesse caso alguém forte se torna um guerreiro, alguém inteligente se torna um mago?

Apesar desse outro “incidente”, elas sorriram e acharam engraçado minha tentativa de piada, mesmo que esse não fosse o objetivo inicial. Fiquei meio sem jeito e apontei para o contrato antes de falar:

— De qualquer forma... este é o contrato.

Após eu dizer aquilo, elas voltaram a encará-lo, como se estivessem lendo e relendo várias vezes. Claro que, não poderia culpá-las por isso, afinal, qualquer pessoa minimamente inteligente não pularia as cláusulas antes de aceitar um acordo ou termos.

Se você estivesse concordando em vender sua alma para o diabo sem nem saber disso, era um problema exclusivamente seu... e, pelo jeito, eu era o demônio das histórias delas.

Agora... eu preciso esperar para quem decidir concordar com os termos subir no círculo, certo?

Falar algo no qual eu dediquei boa parte da minha vida para ser “O Melhor” me trouxe uma certa sensação de felicidade e estar vivo além do normal. Claro que eu conseguia me movimentar, falar e sentir as coisas com esse corpo, porém, ainda tinha minhas lembranças e experiência da outra vida como se fosse ontem.

Poderia perder várias horas apenas discutindo sobre as cláusulas do contrato, benefícios e vantagens em aceitar minha oferta, no entanto, quanto tempo isso vai levar?

Sistema: [Você deseja ativar a Confirmação dos Termos de maneira direcionada?][Sim][Não].

O que é isso? “Confirmação dos Termos?” Sim. Aceito.

Após concordar, a janela do Contrato deu uma leve balançada – como se algo mudasse sua estrutura diretamente – e apareceu em baixo algo como:

[[ X ] Aceito todos os Termos e  Condições e gostaria de entrar na Empresa].

[Aceitar]

Oh, agora tem um botão e... mas... que porra é essa! Uma dor de cabeça súbita me atingiu e como se o mundo começasse a girar, eu desmaiei.

Antes de desacordar totalmente, eu podia ver Sheyla, que estava próxima de mim, estender seus braços para me segurar antes de cair no chão. Além disso, podia ouvir as vozes de todos gritando pelo meu nome.

“Yami!”

 “Princesa Yami!”

Merda. Logo agora, por que teria que ficar tão fraco? Aliás, por que isso aconteceu depois de tudo que passei?

Pelo jeito, antes mesmo de começar a subir os degraus da fama desse mundo, já estou sendo “cancelado”.

No momento que as aventureiras perceberem que eu não poderia fazer nada contra suas ações, o que elas fariam? Acabariam com os goblins por que são monstros? Ou matariam o demônio-real, eu, antes dele acordar? E se não conseguissem me matar, fugiriam com as garotas igual aqueles outros aventureiros?

É... não há muito o que fazer agora. Pois, tudo está sendo engolido pelo breu.

De qualquer forma, tentei. Foi uma boa tentativa... acho que isso é... um adeus.

[Boa Sorte, Princesa!]



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