Volume 1

Capítulo 16: Depois de Tudo, me Tornarei a Escrava? – Parte 2

— Agora eu sei que você não é uma pessoa má e por isso não há porque fazer as escolhas no calor do momento.

— Certo, entendi. Pode se levantar — e coloquei a mão sobre seu ombro. — E não precisa voltar a se ajoelhar.

Ela fez um sinal positivo com a cabeça e levantou-se. E as outras? Olhei para as outras duas garotas e depois para Ninx.

— E vocês?

Ashley foi a primeira a cortar o silêncio que se prosseguiu durante um breve momento:

— Yami, se eu aceitar, você poderia me transformar tão forte quanto você? Quero dizer, eu não tenho nada para oferecer...

Andei até Ashley e segurei suas mãos, tentando confortá-la – e porque você deve estar se perguntando. É óbvio: eu tinha que permanecer no papel de amiga da vizinhança até que tudo se resolvesse e todos pudessem confiar em mim sem quaisquer tipos de dúvidas.

— Não diga isso, Ashley. Você tem que ser mais forte por si mesma. O primeiro passo ainda depende de você, no entanto, é claro que eu vou te ajudar nesse processo.

— Eu agradeço de coração, Yami.

— Não se preocupe, só não esqueça que eu te ajudarei a caminhar, mas será você que precisará dar os passos.

— Sim, eu entendo. Eu... — ela começou a chorar, mas não era bem de tristeza, eu acho. — Eu quero continuar a viver...

— Está certo, está certo... — coloquei a mão sobre sua cabeça e comecei a afagar seus cabelos.

Sistema: [Você deseja incluir Ashley, a humana, na sua Empresa?][Sim][Não].

Ué? Não é ela que precisa aceitar os termos?

Sistema: [Ashley, você concorda com os termos deste contrato e assim deseja, por convicção própria, aceitar entrar na Empresa da Princesa Demônio?][Sim][Não].

Oh, agora acabei escutando a tal “voz”... e ela é tão robótica quanto assustadora.

Ashley fez um sinal positivo. E eu segurei suas mãos em seguida.

— Sim, eu aceito.

Então Ashley começou a sentir seu corpo dar pequenos espasmos, não só seus pés contorcem como também ela apertou minhas mãos com força. Apesar de estranho, era como se esse arrepio passasse algum instante depois e por fim soltou um suspiro. Seu rosto estava vermelho e repleto de lágrimas.

— Está bem? — perguntei, surpreso pelo que aconteceu.

— O que... o que foi isso? Meu corpo todo se aqueceu...

— É a energia da Yami passando pelo seu corpo — comentou Meril. — Agora que você aceitou o contrato, recebeu parte do seu poder. Como uma garota comum, seu corpo precisou ser ajustado para ser capaz de usá-la.

— Nunca senti algo parecido...

— O que foi? Doeu? — perguntei novamente.

— Acho que... sim? No início..., porém, depois senti-me tão leve. — Ela enxugou os olhos e voltou a atenção para mim. — Muito obrigada, Yami!

— Não me agradeça agora, afinal isso é apenas o começo de tudo.

Olhei para Luane que estava ao seu lado. Antes que eu pudesse iniciar a conversa, Luane perguntou:

— Olhe, pequenina, só poderíamos... terminar isso rápido?

Ah? Acho que sim... quero dizer, se para você não tiver problemas...

— Tem um grande problemão aqui... — apontou para a própria barriga avançada da gravidez — quero dizer, enquanto ele estiver chutando tão forte.

Sistema: [Luane, você concorda com os termos deste contrato e assim deseja, por convicção própria, aceitar entrar na Empresa da Princesa Demônio?][Sim][Não].

— E eu pensando que tinha escutado coisas... mas, essa voz... é só aceitar, certo?

— Sim, só lembre que...

— Eu aceito — ela me cortou.

Luane sentiu o mesmo que Ashley e pude ver seu rosto com algumas expressões de dores, porém, nisso eu não tinha certeza se era por causa da criatura em seu ventre ou por causa do contrato. Assim que aquilo terminou, ela sentiu-se aliviada tal como a outra garota.

Oh, hoho... até a dor dos chutes pararam — comentou, rindo.

— Está... sentindo-se melhor? — perguntei, porém, qual seria a resposta certa neste caso?

— Sim... sim, ao menos ganhei um pouco de tempo para pensar noutras coisas que não dores.

Errr, sim? — olhei para Yaga. — Gigi irá cuidar dela, ?

Yaga deu alguns passos para trás e fez um sinal para que a Gigi aparecesse.

Ela apareceu do meio da plateia.

Sua aparência me lembra vagamente uma mulher séria, porém, ainda com certas características infantis, tal como as outras duas goblins.

— Me chamo Gigi. Eu irei ajudá-la. Sinto muito que... tenha chegado a esse ponto.

— Agora estou conseguindo entendê-la? Engraçado... bem, se vai me ajudar, poderia começar me dando uma ótima cama para dormir, certo? Afinal, acho que tenho dormido no chão há muito, muito tempo.

Como essa garota consegue fazer piadas a essa hora?

Olhei ao redor, ninguém acha isso estranho?

Olhei para Sheyla.

— Vocês estão conseguindo se comunicar? — perguntou Sheyla.

— Também te entendo, humana — comentou Gigi com um tom áspero.

Ah, pelas deusas, agora ela está falando Linguagem Comum?

Se eu não explicar isso direito, vai se tornar uma confusão... suspirei antes de entrar no meio das duas:

— Por causa do contrato, Sheyla, algumas de minhas habilidades são compartilhadas entre aqueles que aceitarem o contrato. Uma dessas habilidades é minha capacidade de me comunicar entre eles... — apontei para os goblins — e vocês. Então, bem resumindo: meus funcionários são capazes de se comunicar usando a Linguagem de Monstro ou a Linguagem Comum.

— Quê? Do nada?

Errr, bem... “magia”? — afirmei debochadamente.

— Os mistérios da magia do outro mundo, magnífico — comentou Meril já se imaginando estudando todos esses “mistérios”.

—  De qualquer forma... — olhei para Ninx. — Só falta você.

— Sabe, Yami... quando você caiu, eu pensei em fugir rapidamente.

— E por que não o fez?

— Como poderia? De uma hora para outra, os verdes se tornaram inteligentes e até mesmo poderosos — disse ela, olhando para Yaga e as outras três goblins. — Sem ofensas, é claro.

— Bem, Ninx, se limite ao assunto principal, por favor — comentou Meril.

— Sim... sim — ela tentou se desculpar. — A questão é que me senti sem saída, se eu tentasse fugir e... bem, seria capturada novamente. Então pensei, é melhor esperar aquela garota se levantar e eu mesmo falar com ela, diretamente.

— Que jeito estranho de...

Oh, não se preocupe. Nosso acordo ainda está de pé, — ela piscou o olho — certo?

— Que acordo? — perguntou Meril.

— Isso é entre mim e a Yami — respondeu Ninx.

— Sua...

—  Espere, Meril, deixe que eu resolvo isso, ok? — A encarei seriamente e ela apenas concordou, se afastando um pouco. — Então, Ninx... sobre o que você disse antes, saiba que eu sou muito vingativo, ainda mais para aqueles que ousarem sabotar meus planos — falei baixinho para ela.

Ninx que se agachou para conversar comigo, confirmou.

— Não se preocupe, Yami. Eu sei identificar o time que vence, e sem dúvidas alguma, esse time é o seu.

— Você não mede suas palavras, né?

— Ah... eu fico assim enquanto estou nervosa.

— Bem, não vejo problemas, afinal os termos são iguais para todos aqueles que aceitaram o contrato. Se você aceitar, que assim seja. Além disso, você afirma que tem muito a oferecer, certo?

— Claro! Apesar de eu não ter tanta influência quanto as duas — olhou de canto para Sheyla e Meril. — Eu tenho minhas próprias habilidades que tenho a certeza de que serão úteis. Sabe, também tenho meu valor.

— Tudo bem.

Sistema: [Ninx, você concorda com os termos deste contrato e assim deseja, por convicção própria, aceitar entrar na Empresa da Princesa Demônio?][Sim][Não].

— É a segunda vez que escuto essa voz e... não acho que vou me acostumar tão cedo — comentou Ninx.

— Concordo. Ela é um pouco estranha.

— Sim, concordo com os termos.

Ninx, apesar de ter aceitado o contrato, não demonstrou as mesmas características e reações que Ashley e Luane, portanto, não pude confirmar se o processo de “adaptação” tinha acontecido com ela.

— Pronto... e parece que as duas não estavam mentindo, essa sensação foi bem... única — se levantou, saindo daquela posição e esticou os braços, alongando-os. — Isso significa que todas estamos trabalhando para uma pequena princesa aqui?

— Não precisa me chamar assim...

Ah, mas é assim que estavam te referindo, tanto no contrato, quanto o que aquele verde disse, certo?

— Por que você fica os chamando de verde? — perguntei a fim de entender isso, por acaso seria algum tipo de preconceito?

, eles não são verdes?

— Quê? Só isso?

— É, . Não sou muito boa com nomes e classificações...

— Aí então você dá-lhe nomes e classificações próprias?

— Isso. Perfeito, não?

Apenas ignorei o fato que Ninx não parece bater bem da cabeça. Ela por outro lado, sentindo-se revigorada, começou a se movimentar de um lado para outro como alguém querendo gastar o excesso de energia.

— O que aconteceu com a Ninx? — perguntou Sheyla.

Ah, aquilo? Bem, ela é... diferente.

— Diferente você diz “maluca”? — comentou Meril de maneira sarcástica.

Apenas a encarei seriamente e ela recuou.

— Então, Sheyla... sua última chance, você não irá aceitar o contrato, certo?

— Neste momento, eu preferiria que não...

— Tudo bem.

Então eu olhei para a janela flutuante, e pelo jeito, assim que Sheyla negou seus termos, o contrato e aquela magia visual desapareceram. Não só o brilho da magia que estava ativa cessou como aquele estranho som mágico.

Ao olhar para os arredores, vendo como tudo tinha terminado, estávamos nos momentos finais de um grande evento. Como estávamos próximo das arquibancadas, fui até o palco e pedi para que Yaga, Meril, Samy e Sheyla me acompanhassem.

Quando todos nós subimos no palco e ficamos de frente para os outros goblins, havia silêncio.

Dei alguns passos para frente e Yaga fez o mesmo.

— Vejo que todos vocês aceitaram o contrato, portanto, fazem parte da minha Empresa. Eu agradeço que vocês confiem em mim e na minha liderança e espero que essa confiança perdure por muito tempo. Meu objetivo é simples, viver essa vida com qualidade e do melhor jeito possível.

Comecei a dar alguns passos, prolongando meu discurso.

— Também quero deixar claro que, mesmo sendo um demônio como vocês podem ver, eu não pretendo seguir o papel do rei demônio. Isso significa que não há lados para nos juntarmos nesta guerra — olhei para Sheyla esperando que ela também entenda isso. — Se for para escolher, escolham o meu lado dessa história. Eu buscarei ajudá-los no que for preciso, entregando-lhes parte dos meus poderes e até mesmo minha experiência, porém, eu espero retorno. Como funcionários dessa “empresa”, vocês irão trabalhar para mim.

Não havia nenhum murmúrio ou sinal de descontentamento, todos estavam escutando atentamente cada uma de minhas palavras.

— Primeiro, irei começar analisando o que cada um de vocês tem a me oferecer. Quero saber o que vocês são bons e o que não são. Depois, eu irei verificar se este lugar é válido para começarmos... quero dizer, para eu começar a viver. Não que eu deseje invadir nenhum território ou lugar, porém, eu quero o melhor para mim.

Um goblin levantou a mão, como se quisesse perguntar algo.

— Como ousa interferir no discurso da Princesa Yamitsuki... — iniciou Yaga, porém, logo o impedi que ele continuasse.

— Acalme-se, Yaga. Vamos ouvir o que ele tem a dizer primeiro.

Por causa do contrato, suas capacidades “intelectuais” aumentaram drasticamente, não seria nenhuma surpresa eles serem capazes de expor opiniões diferentes do meu ponto de vista. Bem, se considerar o que aquele deus disse, vale a pena eu explorar as opções.

— Sinto muito, senhora.

— E novamente... sem senhora, apenas “Yami”, Yaga.

Ele concordou com a cabeça e voltou à posição inicial.

Então eu apontei para aquele goblin da arquibancada e dei-lhe a palavra:

— Diga... Zoro. — E que nome imbecil é esse?

Zoro parecia um goblin “normal” em todos os aspectos, porém, diferente da maioria que eu tinha encontrado, ele tinha uma classe especial que não era nem guerreiro ou caçador, era um Explorador.

— Princesa Yamitsuki, obrigado por permitir a este falar. — E que porra de educação é essa? Assim eu fico perdido em tratar goblins como goblins e humanos como humanos. — Sobre a questão do seu território, a gente tem vivido por muito tempo nesta caverna que provavelmente já nos acostumamos com a precariedade do lugar...

— Um goblin falando tão rebuscado... — comentou Meril baixinho.

— Outra surpresa para considerar — completou Sheyla.

— Continue. — Afirmei.

— Certo! Continuando... eu me chamo Zoro e sou o explorador-veterano dos Goblins da Montanha.

— Explorador-veterano? — Então é por isso que ele tem esse título.

Olhei para Yaga.

— Como ele diz, Yami. Zoro é um habilidoso goblin e sua principal função é marcar os passos dos humanos e das criaturas consideradas perigosas para nós. Com seu trabalho, consegui reduzir e muito as mortes dos nossos enquanto procuravam comida ou recursos lá fora.

— Entendo. — Olhei novamente para Zoro. — Então, Zoro, o que você tem a dizer sobre isso?

— Há um antigo castelo seguindo para o Oeste que seria perfeito para iniciarmos nossa base... quero dizer, seu território, Princesa Yamitsuki.

— Não precisa ser tão requintado com as palavras, Zoro, muito menos ficar tão tenso. Sinta-se livre para falar comigo normalmente. Aliás, para todos vocês: entendam que eu odeio pedras no meu sapato, desde que vocês não sejam essas pedras, eu não me preocupo com honoríficos ou com etiqueta.

Ops, mais um deslize do personagem. Bem, eu quero que eles me vejam como um amigo e não um rei perverso ou um uma “princesa” arrogante...

Zoro levantou e afirmou com a cabeça.

— Então, Yami, há uma criatura...

— Zoro, tem certeza de que ela ainda está lá? — perguntou Yaga, cortando-o.

— Sim, Chefe Yaga.

— O que é essa criatura? — perguntei para Yaga.

— Pela descrição anterior do Zoro e de alguns outros poucos goblins, é uma Serpe.

— Serpe? O que seria isso?

— Como posso explicar isso... Você já ouviu falar dos dragões? — perguntou, me encarando seriamente.

— Sim, quem não?

— Então, a Serpe é um parente distante dos dragões. É como um, só que bem menor e sem asas.

— Um dragão-de-komodo. — Afirmei.

Errr?

— Ah, pode continuar...

— É uma criatura que a gente não conseguiria enfrentar, nem mesmo recebendo parte dos seus poderes, Yami.

— Sério? — olhei para as aventureiras. Será que elas saberiam mais sobre isso? — Já ouviram falar dessa tal Serpe?

Para minha surpresa, elas também estavam surpresas pelo que escutaram.

— Está me dizendo que aquele goblin conseguiu escapar de uma Serpe? — Indagou Ninx.

— O que foi, por acaso é tão ruim assim?

— Ah... Yami, a Serpe é uma das criaturas mais perigosas, até mesmo para aventureiros de alto nível — completou.

— Nem mesmo os Cavaleiros de Lóthus seriam capazes de enfrentar uma tão facilmente, na verdade, nunca ouvi falar sobre algum cavaleiro que tenha conseguido enfrentá-la de igual para igual — afirmou Sheyla.

Ouxi, para que esse mistério todo... Seria bom vocês começarem a falar um pouco sobre ela além do quão perigosa é.

— Certo... assim como Yaga disse, uma Serpe é uma criatura muito perigosa. Ela não é perigosa especificamente por suas habilidades de combate... — Meril deu uma pausa, e tentou se corrigir: — Bem, até é, mas esse perigo vem do seu veneno.

— Veneno?

— Sim. As serpes costumam expelir um veneno poderoso no ar que dificultaria e muito acabar com elas, até porque, normalmente ficam escondidas em algum tipo de caverna ou lugar fechado.

— Ah, e não pode esquecer do seu tamanho — disse Ninx.

— Como assim?

— Elas são tão grandes que até mesmo cavalos seriam considerados pequenos próximo a elas. Já ouvi rumores que uma única serpe foi capaz de abocanhar toda uma carroça com sua mandíbula.

— Sério?

Elas não parecem estar mentindo nem mesmo superestimando o poder dessa criatura..., porém, porque Zoro iria sugerir isso?

— Neste caso... poderíamos fazer algo para nos livrar dela?

— Demônios são imunes ao veneno das Serpes — respondeu Meril. — Além disso, eu seria capaz de derrotar uma se não precisasse me aproximar da área de seu veneno. Elas também são fracas contra magia. Porém, se essa fortaleza for antiga, temo que minhas magias poderiam afetar a estrutura do lugar.

Olhei para Yaga.

— Sabe algo sobre esse lugar?

— Pelo que sei, era um antigo forte construído por ordens de Abramax...

— Abramax, esse nome...

— O que foi? — olhei para Sheyla.

— Abramax foi um dos mais perigosos generais do Rei Demônio. É dito que ele foi o último a ser derrotado já que sua especialidade era estratégia militar e manipulação — explicou Sheyla.

— E não só isso, foi esse demônio que apresentou para os homens as Artes das Trevas — completou Meril. — Posso até dizer que minha família existe por causa dele.

Apesar de Sheyla encarar Meril, ela voltou a atenção para mim. E eu, por outro lado, olhei para Zoro.

— Então, Zoro... o que me diz? Valeria a pena a gente ir para lá?

— Sim, minha senh... Yami — ele deu alguns passos para frente, descendo da arquibancada. — Por algum motivo, é como se eu adquirisse uma nova perspectiva... Não... Não é só isso. — Ele olhou para mim, seriamente. — Depois que aceitei o contrato, eu tenho a convicção de que estou mais forte e mais habilidoso, por isso sei que vale a pena conseguirmos o forte para nós.

— Hmmm, interessante — pelo jeito, o contrato não só aumentou seus “números”, posso dizer que eles são até novas “criaturas”. — Continue.

— Seja por sua posição fortificada, seja por suas possíveis rotas e recursos ao redor, eu... peço que você considere este lugar como um bom início do seu império, Yami!

— Império? Quê? Não é para tanto... — olhei para outras que ficaram desconfiadas dos meus “planos” iniciais — Cof Cof, sendo assim, o que sugere?

— Antes eu não poderia me aproximar tanto, pois não é apenas a Serpe perigosa naquele lugar, porém, como sinto-me capaz agora, eu poderia explorar o lugar com muito mais detalhes e voltar com essas informações.

— Você é o único batedor?

— Não...  o mais experiente.

— Então, Zoro, você ficará encarregado de fazer essa investigação. Eu confio que você não só tem as habilidades necessárias como a experiência para isso, portanto, verifique com os outros batedores aqueles que serão úteis para essa missão.

— Sim, Yami!

— Só isso que tem para dizer?

— Sim.

— Então, assim que estiver pronto, pode partir.

Ele fez um sinal com a cabeça e logo se virou, indo em direção a “plateia” e selecionado a dedo certos goblins. Por estarem longe, eu não pude ativar as janelas de stats, mas, pelo pouco que vi, todos eram batedores.

Olhei para os outros goblins.

— Mais alguém quer sugerir algo?

Tina levantou os braços.

— O que foi, Tina?

— Desde que aceitamos o contrato e Samy nos ajudou com a confecção dessas roupas, Yami... eu poderia... fazer nossas roupas também? Se não me engano, no depósito existem alguns panos velhos que poderíamos usar para as roupas.

O que há com essa questão? De certo que em algum momento, para que esse lugar não se tornasse uma região selvagem, eles deveriam aos poucos se tornar “civilizados”, mas não esperaria que isso acontecesse tão rápido.

— Ou seja, você deseja se tornar a chefe-costureira?

— Quê?! — ela ficou surpresa, mas, depois de se acalmar, concordou. — Sim... eu adoraria ser nomeada para um cargo desse tipo.

“Cargo”? Oras bolas, agora eu mesmo não saberei dizer se a [Tradução Mágica] está influenciando no meu entendimento. De qualquer forma, é bom que eles mesmos estão se atribuindo as funções certas, o que é realmente conveniente para mim.

— Entendo. Então... Tina e Saga cuidarão desse assunto, ao menos no que diz respeito aos goblins. Samy...

— Sim, Yami?

— Posso confirmar que você as ajudará quando estiverem envolvidas?

— Como desejar.

As duas sentiram-se bem felizes com seus “cargos” e olhando para o menu de Empresa, parece que se criou alguns avisos especiais, quase como notificações. Tenho a certeza de que novas informações aparecem aí e eu poderei usar o Sistema para saber o que fazer.

Será que isso é usar o sistema de maneira “justa”?

— De qualquer forma... deixe-me continuar — levantei meus braços e voltei ao discurso inicial. — Já devem ter percebido que há goblins e humanos neste lugar e tais humanas aceitaram fazer parte da minha empresa, independentemente do passado que vocês tiveram, a partir de agora, teremos um recomeço. Claro que não vou impedir que vocês resolvam seus problemas por contra própria, porém, se isso for me atrapalhar, tenham a certeza de que não vou pegar leve na punição.

— Certamente não é uma criança... — comentou Ninx.

Apenas a encarei por um momento e ela virou o rosto, pensando que eu não tinha escutado.

— De qualquer jeito, eu preciso de alguns representantes: um para tratar das obras e construção, outro para cuidar da higiene e água, algum para comida e por último, Togo, você será aquele encarregado da segurança do lugar.

— Sim, senhora! — fez uma reverência militar.

— Entendo que você cuidava disso antes meemos de eu aparecer.

— Sim, com os conselhos do Chefe Yaga, estava no controle da segurança.

— Por último, espero que vocês compreendam isso: Eu estarei no topo dessa hierarquia, porém, abaixo de mim... — apontei para cada um enquanto dizia seus nomes: — Yaga será o chefe dos goblins. Se vocês tiverem qualquer reclamação ou comentário, que passem para os representantes dos setores e eles irão passar para o Yaga.

— Eu agradeço a confiança e o cargo, Yami. — respondeu Yaga.

— Samy será a representante das humanas. Além de ajudar Tina e Saga com as roupas e os uniformes, vocês podem considerá-la como minha primeira secretária. Qualquer coisa, caso precisem conversar comigo e eu não estiver disponível, conversem com ela primeiro.

— Como desejar, Yami — afirmou Samy.

Ela continua com essa aura sinistra, no entanto, bem melhor do que aquele otimismo exagerado de antes.

— Meril será minha segunda secretária e minha principal conselheira mágica. Vocês puderam conferir de antemão que ela é poderosa... uma poderosa maga. Sendo assim, caso precisem de informações ou conselhos sobre magia, ela será a responsável por isso.

—Yami, então é isso que você pretendia — comentou Meril.

— Não gostou? — questionei.

— Claro que gostei, é perfeito... como você disse, cada um tem seus pontos positivos e negativos — afirmou olhando para Samy.

Então apontei para Ninx.

— Essa é Ninx, apesar do seu jeito, ela será meus olhos e ouvidos fora daqui. Zoro e sua equipe também farão parte desse mesmo setor, o qual vou chamar de Investigadores.

— Investigador, é? Curti o nome, apesar que espião também seria algo tentador  — retrucou Ninx.

— Se algum lugar precisa ser investigado por nós, eles serão aqueles enviados para este lugar antes de qualquer outro.

— Interessante seu jeito de pensar, Yami... — disse Sheyla.

— Por último, das mulheres humanas, esta é Sheyla. Ela é a única a não aceitar o contrato, no entanto, não entendam errado. Ela ainda é nossa aliada. Espero que ninguém ouse iniciar uma batalha contra ela... — olhei para Sheyla e disse baixo para ela: — e espero que você não ataque os goblins.

— Tudo bem, Yami, não o farei.

— Sheyla tem seus próprios motivos e eu entendo e os aceito, porém, podemos atribui-la como representante dos humanos... dos humanos que não fazem parte da Empresa, certo, Sheyla?

— Não sei se chegaria até tanto, até porque não tenho nenhuma influência externa.

— Como não, por ser a Comandante dos Cavaleiros de Lóthus, já é uma coisa, certo? — afirmou Ninx.

— Mesmo eu não posso negar essa afirmação. Os Cavaleiros de Lóthus são bem respeitados por diferentes famílias e organizações, até o reino de Gryndal não ousaria ir abertamente contra eles — explicou Meril.

— Tão importante assim? — perguntei. — O que acha, Yaga?

— Já escutei sobre esse grupo antes, Yami... eles realmente possuem sua própria influência e poder dentro do reino dos humanos.

— Então, Sheyla, parece que não há erro se tratarmos dessa maneira.

— Certo, porém, eu deveria levar essa observação para meus superiores. Não é como se eu tivesse o poder ou mesmo o reconhecimento da “humanidade” para ter essa responsabilidade toda.

— Não precisa se preocupar com esses pequenos detalhes...

— Detalhes? — questionou Ninx. — Bem, se tratando de você...

— Falando nisso, garotas... vocês disseram que há uma cidade por aqui, certo?

— Eu não diria que é uma cidade, está mais para um forte onde as famílias começaram a construir suas casas ao redor durante alguns anos e... depois foi chamado de cidade — afirmou Ninx.

— Próximo daqui há a Cidade da Fronteira, a cidade mais afastada da capital do Reino de Gryndal que ainda faz parte do Reino. A cidade faz fronteira com a floresta de Erthemon e o território dos demônios e bestas.

— Então estamos no território dos demônios? — perguntei.

Meril fez um sinal negativo, depois explicou:

— Ainda estamos dentro do Reino de Gryndal, Yami. Pelo menos é o que os cartógrafos dizem. Se não me engano, ainda estamos dentro da Floresta de Erthemon, certo? — Meril perguntou ao Yga.

— Isso mesmo, sra. Meril — afirmou Yaga. — Essa montanha fica localizada ao Norte da Floresta de Erthemon. Ao Leste está a Cidade da Fronteira como um dos últimos bastiões humanos a se manter de pé depois das guerras contra o antigo Rei Demônio. — Como todos passaram a dar atenção ao velho goblin, ele continuou: — O Reino de Gryndal se expandia mais para o Oeste, inclusive pegando toda floresta, porém, com as guerras, foram obrigados a recuar. Devido a localização, a Cidade da Fronteira funciona tanto como uma cidade quanto um forte caso os demônios voltassem a invadir seu território.

— Você... tem razão, Yaga. E continuo me surpreendendo com seu conhecimento — disse Meril.

— Agradeço o elogio.

Hmmm... interessante, gostaria de visitar esta cidade.

Todos que estavam “curtindo” a explicação logo se viraram para mim, me encarando.

— Quê? — comentou todos.

— Me desculpe, Princesa Yami, mas creio que isso seria imprudente de sua parte — disse Yaga.

— Sim... você ainda é... como posso dizer, um demônio, Yami. — explicou Meril.

— Eu... eu não poderia permitir que você invada a cidade, Yami. Mesmo que eu morra! — disse Sheyla convicta.

— Eu pagaria para ver... — disse Ninx.

— Acalme-se, vocês! Que merda foi essa, o que acham que eu faria se fosse para lá? Primeiro... Sheyla — olhei para a mulher que tinha ficado em estado de alerta — eu nunca disse que iria atacar a cidade ou qualquer coisa do tipo.

— Mesmo que você não tenha esse objetivo, Yami, por ser um demônio, a primeira coisa que iriam fazer seria te atacar no mesmo instante que te vissem.

— Ah, isso... — memórias recentes voltaram como um verdadeiro soco de realidade. — Mesmo com essa aparência? Quero dizer, eu não acho que eu seja uma monstruosidade...

— Err... bem, você está fofa — comentou Meril — ainda assim, há os traços demoníacos. Ah, e pelo amor de tudo que seja sagrado, não ative aquela sua aura.

— Sim, isso é óbvio — suspirei. — Falando na minha aparência, eu conseguiria esconder esse rabo? Ou esses Chifres? — perguntei, segurando o rabo e balançando ele.

— Creio que não. — respondeu Meril.

Yaga, no entanto, levantou o braço.

— Acho que tem um jeito, Yami, porém...

— Yaga, se tem algo a dizer, que diga até o fim.

Ele se aproximou de mim e pediu que eu fizesse o mesmo, quase como se quisesse manter isso escondido dos outros. Sendo assim, eu apenas concordei.

— É que isso seria... humilhante, princesa.

— Corte essa... apenas diga o que é, além disso, não precisa fazer todo esse mistério, fale para que os outros possam ouvir também.

Ele fez um sinal positivo e se afastou, logo continuou falando em um tom normal, permitindo que todos pudessem ouvir.

— Sinto muito... Então, pelo que eu sei, meios-demônios ou demi-humans podem entrar nas cidades humanas se estiverem marcados como propriedade de um humano... tal como... um escravo.

De novo esse assunto de escravo? Porra, toda hora, independentemente do contexto, vamos retornar a esse assunto? E agora quando olho para todos ao redor, eles ficaram apreensivos e pude ver em seus rostos o medo quase como se estivessem a um passo de serem repreendidos, no entanto, para mim, isso era indiferente.

Meu orgulho já tinha escorrido pelo ralo há muito tempo, desde quando acordei nesse mundo no corpo de uma garotinha. Sendo assim, já decidi fazer o papel da garotinha frágil, qual seria o problema em ter um “título” a mais.

— O que há com essa reação? Por mim, ok — respondi já sem esperanças que houvesse outra alternativa.

— Quê? — indagou todos, novamente.

— O que foi? Basta eu fingir que sou uma escrava, certo?

— É... mas, como você... ah! — Meril entrou em conflito interno, de várias maneiras.

— É impossível! — afirmou Sheyla.

— Quê, por quê?

— Qualquer novo escravo não reconhecido será levado para análise para comprovar o ritual de escravidão. Se você fosse com eles, é claro que saberiam a verdade, no mesmo instante. Afinal, um escravo sem mestre, não é um escravo.

— Pois bem, precisamos encontrar esse “mestre” então... E você, Sheyla?

— Eu? Como assim?

— Até agora você não aceitou o contrato.

— Eu já disse... eu só não aceitei pois...

— Não é isso que quero dizer.

— Não? — perguntou sem entender.

— Façamos o seguinte...

E agora, será que minha sugestão será aceitável para elas? Eu realmente preciso verificar como é essa cidade “humana”, tenho a certeza que se ver como ela é, a ficha definitivamente irá cair para mim. E não terei nenhuma amarra que me impeça de agir.

Além disso, se eu apenas vivesse dentro dessa caverna, não teria nada além das sombras feitas na parede. Como eu conseguiria determinar o que eu sou ou não capaz, ou mesmo, se considerar o uso do Sistema, como poderia usá-lo de maneira a me trazer apenas vantagens e não suas desvantagens?

Se até mesmo aquele deus falou para eu explorar esse mundo antes de cometer o “mesmo erro de antes”, isso significa que eu não posso apenas ignorar essa cidade e deixá-la para lá.

Bom... vamos ver se isso vai dar certo de qualquer forma..



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