Dívida a Quitar Brasileira

Autor(a): The Mask

Revisão: TheMask


Volume 1 – Parte 3

Capítulo 20

Se para cada momento de estresse da minha vida eu tivesse tomado um gole de uísque…

A estrada estava vazia, uma ocorrência rara. 

Talvez fosse a noite fria, que fez tudo e todos se manterem em casa; Goldberg não sabia dizer, mas agradecia de toda forma. Uma brisa entrava pelo vidro levemente aberto de seu carro, que fazia seus ossos enrijecerem. Porém, não tinha vontade de fechar a janela, nem achava incômodo aquilo. 

Ansiava por um momento elucidativo como aquele. Agarrava com força ao volante, como se estivesse constantemente prestes a bater. Seus olhos vagavam com rapidez pela pista, por mais que estivesse sozinho. 

Se para cada decisão errada eu tivesse tomado um copo bourbon… 

Lembrava-se de quando começou a trabalhar no banco, de quando leu seu primeiro livro de registros econômicos do século passado na biblioteca da escola e pensou “Vou fazer história!” Tolo, devia ter feito economia. Tolo mais ainda, devia ignorar isso tudo e voltar para casa naquele momento. 

Mas não conseguia. 

Era incapaz de estacionar em sua garagem. 

Já fazia duas horas que estava na estrada, rodeando o seu bairro repetidas vezes, sem um aparente fim, tudo com o intuito de perder tempo e se perder, mas não conseguia. Sabia aquele caminho de cor e salteado e em todos os momentos que se distraía, seu corpo de maneira automática retornava a mesma rua que levava para a frente de seu lar. Estava cansado… exausto. Ansiava por uma colher de açúcar e uma boa noite de sono ao lado da esposa. Acima de tudo isso, porém, também ansiava por uma epifania. Sonhava e delirava com o momento em que descobriria como roubar a casa sobre o enorme nariz daquele crioulo

Porém, nada veio. Na realidade, parecia cada vez mais acabado e sem forças para pensar em algum plano. Sua estratégia mirabolante consistia em entregar os planos de Lorenzo para alguma autoridade, mas não sabia se isso derrubaria toda a estrutura daquele prédio ocupado ou se seria apenas mais uma “alcantarilla volviendo” 

Duvidas, duvidas e duvidas. 

Já era a nona vez que passava em frente a sua casa, quando viu um vulto parado na calçada em frente a ela. Reconheceria aquele vulto, mesmo na noite mais escura, com a neblina mais densa e sobre as lentes mais desfocadas de todas. 

Desacelerou, já pensando no que dizer. Sua esposa carregava uma expressão de confusão e raiva que ele conhecia muito bem, queria uma explicação.

Mas se mal fui capaz de pensar numa possibilidade para meu problema com a casa, como posso resolver isso agora?

Sem possibilidades, ele desacelerou e manobrou o carro para que estacionasse em sua garagem empoeirada. Tudo parecia ranger conforme o portão se abria e a passos lentos sua esposa se aproximava do carro. 

Instantes depois, ambos se olhavam, separados apenas pelo Short Sedan do banqueiro. Goldberg conseguia responder ao olhar excruciante de sua esposa, apenas com acenos de culpa e relances rápidos para o chão ou o teto. 

— Desculpe… — Disse por fim. 

— Por que está pedindo desculpas? — Ela retrucou, sem esconder a irritação na própria voz. 

— Por ter… me atrasado… — Disse Samuel, soando mais como se perguntasse. 

— Não é o seu atraso que me chateou. 

— Então o que…

— Eu te vi dando voltas pelo bairro. 

— Oh. — Goldberg nada disse para isso. Não esperava que sua esposa o tivesse visto, muito menos que ela se irritaria. Mas é claro que se irritaria. Como não poderia! — Não é pelo motivo que você tá imaginando.

— Pelo que foi então? — Caminhou a passos largos até ficar frente a frente de seu marido, com seus olhos já marejados e se piscando vagarosamente, como se o cansaço lhe atormentasse os fundos da mente. — Te vi rodeando a casa faz uma hora e tenho quase certeza que você já estava fazendo isso antes. Fiquei na sala esse tempo todo, te esperando e nada… Nada! Se não foi para evitar uma recaída todas essas voltas que deu, pelo que foi então? 

— Foi por conta do serviço… — Disse, contando a ela mais uma meia-verdade. Quantas dessas eu já contei para ela? — Hoje o dia foi insuportável, me acidentei enquanto avaliava uma casa. Serviço que não era para ser meu, mas estávamos sem pessoal! — Na verdade ninguém queria fazer por que a casa dizem ser “Assombrada” — Uma estupidez. Voltei pro escritório e tive de ficar ouvindo do meu chefe, o dia inteiro! sem parar! — Desta vez, apenas resolveu mentir. Não tinha como dizer que foi para o hospital, nem que havia viajado para o Brooklyn ao invés de estar no banco. — E ainda por cima ele quis que eu continuasse trabalhando, por conta do tempo que perdi! Um velho estupido se você me perguntar… 

— Você foi tão breve na ligação… e por que me ligou de um telefone público? 

Droga… esqueci disso. 

— Te liguei assim que meus colegas foram me buscar na casa. Imaginei que se precisasse, poderia ir para o hospital. 

— E você foi? — Ela perguntou, como se já soubesse a resposta. Será que o seguro ligou para ela, por causa dos gastos? 

— Fui… — Resolveu revelar, enfim. — Mas não foi nada, sério! A casa estava abafada demais e eu me esforcei demais. Minha pressão caiu e acabei tropeçando e me machucando… — Mostrou as feridas que tinha na mão, seus dedos estavam roxos e as unhas em carne viva. Eram de quando desesperadamente tentou abrir a porta, arranhando-a, para fugir daquele lugar. — Fui ao hospital apenas para garantir que não era nada demais. 

— Só isso? — Ela perguntou.

— Só isso… — E ele confirmou, temendo que sua mulher soubesse ler mentes. 

O assunto parecia ter se encerrado. Goldberg e sua esposa seguiram para dentro de casa, em um silêncio desconfortável. Se trocaram para dormir, sem olhar para os olhos ou o corpo um do outro. Eu não tenho esse direito… Pensou o banqueiro, sem se lembrar do fato de que ele e ela eram marido e mulher.

A cama rangeu com o peso dos dois, como se o que eles levassem para o leito fosse algo muito maior e mais pesado do que apenas os seus corpos. Uma aflição rodeava as pálpebras de Samuel. Ele piscava várias vezes, como se tentasse afastar este inseto que rodeava seus globos oculares. Não surtia efeito, que inferno!

Devo contar a ela sobre a casa…? Pensou, duvidando se essa era realmente a decisão correta. Duvidava, pois em sua cabeça o fato de a casa “aparentar” estar amaldiçoada, a tornaria um lugar impossível de se viver.

Para sua esposa, no caso. 

Ele tinha a plena certeza que podia consertar aquela casa. Ordenava e enumerava os serviços necessários para reconstruir o palácio. Lá não tinha energia elétrica, nem qualquer tipo de aquecimento a gás. Os móveis eram velhos e a pintura das paredes estava desbotada, além das janelas externas estarem trincadas. Ratos caminhavam por aqueles corredores e provavelmente havia outras pragas. A maçaneta interna da porta de entrada estava enferrujada, e se as outras também estiverem? 

Do que importa, eu sei que vou conseguir!

— Meu amor… — Disse, finalmente quebrando o silêncio. Ela olhou para ele, apenas com o canto dos olhos. — Está satisfeita com essa… casa? 

Posso chamar esse lugar pequeno e nojento de… “casa”?

— Claro que estou… — Ela respondeu, ainda sem olhar ele nos olhos. Sua insatisfação se tornou ainda mais óbvia quando virou as costas encobertas para o marido. 

Ela não está satisfeita… Pensou. Porém, não imaginou que essa insatisfação era direcionada a ele, e sim direcionada a sua casa. 

— E se tivéssemos uma casa maior… 

— A nossa casa não é pequena, Goldberg. — Me chamou pelo sobrenome de novo… — Está perfeita para nós dois. 

Não, não está! Como pode achar isso? 

— Sinto que falta tanta coisa aqui… — Murmurou, pensando no corredor apertado e estreito do lado de fora do seu quarto, que levava até a cozinha, nas manchas esverdeadas que se assemelhava a mofo, e as rachaduras próximas ao rodapé. O encanamento vazam… as luzes piscam… tem cheiro de gás… os sons de ratazanas… 

— Falta um pouco de atenção sua… — Sua esposa disse, mas ela nunca foi de fato ouvida. Samuel estava ocupado em uma ilusão que forçava em si mesmo, retirando todas as coisas ruins da casa e as colocando na sua.

A casa era imperfeita, errada, quebrada, amaldiçoada, empoeirada, perigosa, assustadora, asfixiante e range. Não tem maneiras de morar aqui. Prefiro mil vezes me mudar. 

Eu vou embora daqui. 

Vou me mudar para aquela casa. 



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