Dívida a Quitar Brasileira

Autor(a): The Mask

Revisão: TheMask


Volume 1 – Parte 3

Capítulo 22

Lorenzo sentia os olhares em sua nuca. Sempre os sentia. Não importava se ele se vestisse como eles, todos naquele recinto cor de cobre e recheado de madeira, vidro e luxo, o encaravam como um estranho, alguém de costumes completamente distintos e distantes. Era “enfadonho”, ele costuma dizer. Já estava acostumado, mas nem por isso a sensação se tornou menor ou o incômodo se tornou menos palpável. Sentia um cala-frio sobre seus ombros, mãos, nariz, cabelo, pele, tudo que o torna “distinto e distante”.

— “O preto treme porque sente frio…” — Recitou para si, por mais que não estivesse sozinho. 

— O que disse, Lorenzo? — Big Tom perguntou, ficando lado a lado com o italiano. 

— Ele recitou Fanon, Thomas. — Comentou o homenzarrão, atrás dos outros dois. O trio aguardava diante da mesa da secretária do banco onde Goldberg trabalhava. As funcionárias, disseram a eles, haviam saído para almoçar e voltariam em breve. — Eu te disse para ler mais. Somos muito pequenos e limitados para ficarmos aqui, presos e pouco informados. A leitura abre mundos de conhecimento vastos demais. Posso conhecer a europa sem nunca ter estado lá, sabia? 

— O livro que você me emprestou não tem nada haver com a Europa!

— Que livro ele te emprestou? — Perguntou Lorenzo, ao mesmo tempo que Jerry ria do comentário do menor deles. 

— Ele me emprestou o Crônicas de Nárnia! Que diabo isso tem haver com a Europa?!

Agora Jerry ria ainda mais alto e até mesmo Lorenzo se juntou a esse momento leve, abrindo um sorriso de divertimento. Os olhares já não pareciam tão densos e frios assim. 

Aqueles dois o acompanhavam há muitos anos. Não se lembrava de como conheceu um ou o outro — eles dois sempre estiveram juntos — mas se lembrava da viagem. Seis anos atrás, em 63, havia retornado de uma viagem a Cuba. Fez essa visita justamente para ajudar antigos colegas guerrilheiros e ajudar os coletivos da região. Não foi um trabalho fácil e que durou meses — havia chego lá poucas semanas antes do início da crise dos mísseis — porém, apesar do cansaço, era satisfatório. 

Seu retorno aos Estados Unidos foi como um tiro no estômago, misturado a uma enorme pratada de macarrão e molho. Odiava aquele país, por todas as suas razões políticas, pessoais e instintivas, mas Cuba não caminhava em bons lençóis. Energia, comida, água, saúde, todos podiam  receber o mínimo, mas a luta para se manter isso era imensa. Aqui, nessa terra capitalista e desigual, a comida podia ser melhor e as roupas também, mas Lorenzo não tinha nem casa, nem maneiras de tratar da simples gripe que o incomodava. Notou também que não podia saciar a fome que estava sentindo naquele momento. 

Foi em meio a essas preocupações, dores do corpo e da alma que Lorenzo viu a dupla. Uma enorme coincidência — não há outra forma de chamar isso — colocou o trio sobre o mesmo caminho.

Se o italiano tivesse alguma singela fobia social ou vergonha para se comunicar, não teria perguntado a aqueles dois desconhecidos se conheciam algum alojamento para um homem sem dinheiro, e se não fosse pelo pequeno e pelo gigante já estarem envolvidos na reforma do prédio ocupado no Brooklyn, não teriam dito aquele desconhecido que sim, eles tinham um lugar. 

O bom senso teria feito Lorenzo — um comunista em terras capitalistas — se afastar e tomar cuidado, mas ele tinha fome, tinha sede e um leve toque de desespero. Assim como a desconfiança também teria feito a dupla incomum se afastar daquele estranho. Um estrangeiro, europeu, com sotaque italiano e ainda por cima que vinha de Cuba. A tendência era problema. Não necessariamente vindo do homem estrangeiro, mas e se a policia visse um trio de homens negros e começacassem a fazer perguntas? Para que se tornassem “espiões comunistas” bastaria dois suspiros mal feitos. 

Ainda assim, apesar de tudo isso, o trio caminhou por toda Nova York até chegar ao metrô e então partiram para o Brooklyn. Conversaram como se não fossem estranhos, reclamaram das mesmas coisas e sentiram os mesmos olhares frios em suas nucas enquanto caminhavam pela rua.

Assim deveria caminhar a humanidade, em solidariedade, em prol do bem conjunto e coletivo. Ter a chance de um lar, de uma vida decente, sem que a fome, doenças ou a cor de pele seja um empecilho. Porém, pessoas ricas e pobres existem, negros e brancos. Existe essas diferenças, e que valorizamos ou desvalorizamos mais que a própria vida. O trio sabia disso, sentia na pele escura e nos olhares afiados como uma cortante brisa invernal.

Seis anos de amizade ligou os três a uma irmandade não decretada, assim como a constante luta por uma vida cada vez mais justa fez se tornarem mais que meros amigos. Ansiavam por uma mudança.

— Senhor Goldberg não está atendendo o telefone… — Disse a secretária, que finalmente havia chegado após quase quarenta minutos de espera. Eram 11:35. Ela era uma moça nova, com um cabelo loiro e liso, cortado até os ombros. Lorenzo percebeu que era a exata mesma secretária que o ajudou de manhã e marcou na agenda de Goldberg seu “único compromisso do dia”. — Porém, como ele o aguarda, monsieur. — Ela continuou, com um forte sotaque canadense. — Pode seguir até o escritório dele. Te mostrarei o caminho. 

Instantes depois, caminhando através dos gélidos olhares, o trio estava parado no meio do corredor que levava para o escritório de Goldberg. A secretária os deixou sozinhos e eles se viram em um impasse. 

— Vai… Bate. — Sussurrou Tom, se aproximando do italiano. — Ele deve estar dormindo na mesa dele. Duvido que ele sequer trabalhe!

Jerry riu do comentário do amigo, mas Lorenzo nada disse. Bateu no escritório do banqueiro e nada ouviu, além do som da própria respiração e do seu baque leviano na porta de madeira. Chamou o banqueiro, dizendo “senhor Goldberg!” e nada, silêncio puro e simples. 

— Ele deve ter te abandonado. 

Se aproximou da porta, ao mesmo tempo que pediu silêncio ao pequeno homem. Tentou ouvir através da madeira, aproximando seu ouvido. Ao fundo, de maneira tão singela e fraca que mais parecia o som do vento, ouviu um lamento. Seus olhos se arregalaram e de imediato tentou abrir a porta. Em desespero, notou que ela estava trancada. 

— Aconteceu algo com ele! — Disse, um tom mais alto que o do da calma. Não queria chamar atenção desnecessária naquele momento. — Jerry, derruba! 

— É pra já! 

Diferente da situação na casa, a porta do escritório caiu num único esbarrão dos enormes ombros de Jerry. A tranca cedeu com facilidade, e com agilidade o trio entrou no cômodo, fechando a porta mais uma vez. Todos arfaram em desespero, aguardando alguma movimentação do lado de fora, mas nada. Quando a calmaria dominou Lorenzo, ele finalmente se virou à procura de Goldberg, e o viu!

Ali, largado no chão em posição fetal, estava o banqueiro. Próximo a sua mesa de escritório, vários objetos estavam espalhados, caídos, pelo chão, incluindo sua própria cadeira. Uma xícara de café foi derrubada e quebrada, e seus cacos estavam espalhados próximos ao homem, assim como a bebida que restava no objeto quebrado. 

Agora, dentro daquela sala, todos podiam ouvir o lamento de Samuel, um gemido sofrido, infantil e cansado. O tipo de lamúria que se ouviria em um enterro, como o choro de uma viúva.

Em meio aos papéis manchados de café e as lascas de porcelana, Lorenzo também notou os respingos de sangue. 

— Samuel! — Gritou, pouco se importando se alguém podia ouvi-lo. 



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