Dívida a Quitar Brasileira

Autor(a): The Mask

Revisão: TheMask


Volume 1 – Parte 4

Capítulo 24

O ar em seus pulmões tinha um odor doce, como o cheiro de um enorme campo de flores no verão. No entanto, não era quente, nem apaziguador. Tão doce quanto o açúcar que comeu pela manhã no dia anterior, Goldberg levou as mãos até a própria boca quando mais uma vez sentiu… Aquele gosto! 

Tentou olhar ao redor, mas apenas viu o sabor doce. Cegado, tentou sentir algum odor ou tocar em algo — cheirou apenas um melado enjoativo e tocou em algo molenga e pouco resistente, que esfarelava em suas mãos. 

Seus sentidos pareciam dilatados, como quando ficava embriagado, ao mesmo tempo que notava tudo em detalhes.  

Mas tudo é doce!

Tudo é úmido! 

Onde estou?!

Não consigo respirar… 

Mãe!

— Samuel! — Ouviu ser chamado, tão distante que pensava ter sido apenas um sussurro. 

Chorava, mas a água agarrava-lhe a pele. Nada escorria, tudo parecia inerte, mole, viscoso e insuportavelmente doce. Suas roupas, como se estivessem encharcadas, pesavam toneladas e colavam em seu corpo. Sufocado, encarou mais uma vez o vazio adocicado a seu redor. Era delicioso, como uma garrafa de vinho.

— Tom, ergue a cabeça dele! — Ouviu distante, mais uma vez. 

No instante seguinte, sua cabeça pareceu mais leve. Ela se mexia, mas não era ele quem a movia, como se fossem coisas separadas — seu pescoço, sua cabeça e sua mente. Suspirava, aliviado, mas as lágrimas ainda se prendiam em sua face. 

Ah… Pensou, mexendo a boca em completo silêncio. Como pode ser tão doce… tão bom!

Algo então escorreu em sua garganta e desesperado, começou a se afogar. Tossiu, sem realmente ouvir sua própria tosse. Olhou ao redor, sem realmente ver. Já não sentia a inundação de sabores doces, mas o delírio ainda estava ali. 

— Devagar, droga! — Ouviu, com ainda mais clareza que antes. Reconhecia aquela voz. 

Um sentimento azedo e amargurado inundou seu íntimo, ligando um rosto aquela voz grave e suave — que soava desesperada naquele momento, no entanto. 

Seus olhos se abriram várias vezes, lentamente as cores retornando, assim como as sensações. O sabor doce sumiu e foi substituído por um  cheiro enjoativo de guardado misturado a café derramado. Abriu os olhos uma última vez, para ver o lustre da sua sala. Cegado pela repentina luz, levou as mãos ao próprio rosto, sentindo em seguida algo pingar em sua bochecha. 

— Onde… 

— Samuel?! 

— Quem… onde… — Tentou erguer a cabeça, mas uma dor em seu pescoço o imobilizou. 

— Em seu escritório. Sabe que dia é hoje? 

— 23… não… 20 de novembro. — Falou, sua língua parecendo grande demais para a sua boca. O que é isso no meu rosto? Quando tocou a coisa grudenta que estava em seu rosto e parou para verificar seu indicador, viu que a ponta de seu dedo estava manchada de vermelho. O desespero fez sua percepção e seu olhar se expandir, e quando olhou a palma de sua mão, viu uma enorme mancha vermelha. O banqueiro então, gritou. — Por mil diabos!

Se debatendo em desespero, sentiu três pares de mão o segurarem — braços, pernas e cabeça. Com uma imensa força, esse triplo par de mãos tentava evitar que o banqueiro se machucasse mais. Queria se levantar, abrir a porta e correr até o seu carro, dirigir para não importava aonde. Porém, ouvia ao longe os pedidos angustiados e irritados, todos vindo do trio de homens que vieram para ter uma reunião com Samuel. 

— O que diabos está havendo, alguém pode me dizer?! Por que estou sangrando?!

— Se acalma primeiro, porco de merda! — Falou Big Tom, agarrando-se aos pés do único homem não-retinto do ambiente. Seu corpo pequeno e a falta de massa muscular fez a tarefa se tornar ainda mais árdua. 

— Thomas! Não tá ajudando! 

— Que me importa ajudar esse banqueiro, oh grandão?! Por que estou segurando os pés desse nojento?! 

— Me soltem de uma vez, crioulos! 

— Já chega! — Gritou o italiano, acima dos outros três e de qualquer outro som ali perto. Sua voz soou como um tambor dentro daquele ambiente apertado e abafado. Com o suor escorrendo-lhe por sua testa, continuou a dizer. — Thomas, solta os pés dele, e Jerry, pega alguma água pro nosso querido Samuel. 

— Eu não quero água! Quero…

— E você, Samuel… — Disse, cortando a fala do banqueiro e o olhando nos olhos. — Vai se levantar, se sentar e bem quietinho me deixar cuidar desse corte na sua mão. 

“Entenderam?”

Os três acenaram positivo, as carrancas se fechando numa mistura de medo e pressa.

Todos se levantaram, exceto pelo banqueiro. Ele precisou ser carregado pelo italiano até a sua cadeira de escritório, que foi reerguida pelo homenzarrão. Quando se sentou, foi como se todo seu peso se multiplicasse. Viu que várias partes da sua roupa estavam manchadas de marrom-café e vermelho-carmim. Sua garganta se fechou numa sensação nojenta, misturada com medo e da lembrança do gosto doce.

— Quer falar sobre o que aconteceu? — Perguntou Lorenzo, ele também disse algo para Jerry, pedindo ao amigo que buscasse panos, gaze e álcool, com alguma faxineira do lugar. “Uma das nossas, se possível” ele completou. “pra ter menos perguntas”. Quando o terceiro se afastou, o comunista se voltou mais uma vez para o banqueiro. — E então? 

— Não tenho nada a dizer.

— Duvido que não tenha. — Retrucou, ficando de cócoras para olhar o machucado de Goldberg mais de perto. — É um corte bem profundo para alguém que não tem nada a dizer. Se tiver cortado um nervo, vai ter de ir ao hospital. 

— Não entro naquele lugar nunca mais! Vão me sugar até o dinheiro que não tenho!

— Eu sei, por isso torço que não seja nada além dum corte um pouco profundo. — Disse enquanto apertava ao redor do machucado, evitando o contato direto com a ferida. — O que sente quando eu aperto? 

— Dor!

— Isso eu sei, quero saber de que tipo. É só nos lugares que eu aperto, ou sente algo puxar? 

— Eu vou te puxar para longe de mim se continuar me apertando! — Afirmou, apertando os dentes e tentando tirar a mão. Lorenzo, porém, segurou firme no pulso do banqueiro e olhou-o nos olhos. 

— A dor que sente, é quando eu aperto? ou sente algo puxar? — Perguntou com mais firmeza. 

— É quando você aperta… — Cedeu o banqueiro, grunhindo e suspirando de dor mais uma vez. 

— Então não cortou os nervos, mas está sangrando bastante. Quero acreditar que não vai precisar de pontos. — Pontuou, virando a mão do banqueiro para cima e se levantando também, distanciando-se dele e indo em direção a pequena bancada no canto do cômodo, onde estava a garrafa de café e o açucareiro. 

— Tem formação nisso? 

— Em que? 

— Medicina. — Explicou. — Você fala como um médico. 

— Posso falar de muitas formas, Samuel… Parecer muitas coisas. — Falou, abrindo o pote de açúcar. — Mas não. Só tenho experiência, não formação.

Ele então se reaproximou de Goldberg. Colocou um enorme punhado de açúcar em sua mão e, de palma aberta, estendeu-a para o banqueiro. Samuel olhou para ele e em seguida pousou o olhar sobre aquela pequena pilha branca na mãozorra negra. Pensou que era uma visão estranhamente artística e desconcertante, o branco feito a neve naquilo que é escuro como carvão. Porém, pior foi a sensação memorável quando se lembrou do sabor doce da casa e do seu vício que não havia saciado pela manhã. Engoliu em seco, antes de perguntar:

— Para quê isso?

— Para estancar o sangramento, até Jerry trazer a gaze. Aperta a minha mão. 

— Estancar com açúcar?!

— Agradeça que é com açúcar, e não tabaco, terra ou areia. — Ironizou, com seu nojento sorriso de canto de boca. 

Não se aproximou inicialmente — na verdade, estava bem claro em seu rosto uma expressão de repulsa, Lorenzo só não entendia o motivo de tanto nojo. 

As razões eram várias, claro. Das racialmente dissimuladas, as traumaticamente postas em sua mente. Tudo parecia irreal ainda, quando observou o seu escritório e temeu que mais uma vez o sabor doce retornasse. Eu prefiro limpar essa ferida com cerveja!

Porém, levantou sua mão cortada em direção ao italiano. Lorenzo, no mesmo instante, agarrou-o e apertou o membro machucado. Goldberg abriu a boca e sentiu todo seu corpo repuxar, porém não gritou, sendo silenciado pelo restante de orgulho que restava em seu âmago adocicado. 

Viu no mesmo instante os blocos avermelhados se formarem e caírem no chão. O aperto não se desfez, ele está espalhando o açúcar, esse miserável! E não quer me soltar! Porém, em dado momento, sentiu que o sangue estava parando. Foi só então que Lessley soltou Goldberg, a mão de ambos suja do mesmo sangue vermelho misturado ao branco. 

— Tinha necessidade dessa sujeira?! — Reclamou, olhando para a própria mão e para o chão. — Seria excelente um pedido de desculpas, pela bagunça de vocês três.

— É você quem vai limpar? — Perguntou Big Tom, parado no canto da sala. Ele nada havia feito até agora, além de bufar e grunhir a cada instante que Lorenzo ajudava o banqueiro. — Aposto que nunca passou um pano nesta sala. 

— Minha sala nunca precisou ser limpa! Eu não sou um porco!

— É um porco sim, seu banqueiro! Ou sua lixeira está sempre vazia?!— Reafirmou o pequeno homem, se aproximando da dupla. A cada passo, suas costas cresciam e seu peito inflamava, enquanto Goldberg cada vez mais se encolhia. —  Alguém limpa esse piso áspero, alguém limpa as suas estantes e aquele seu estupido quadro! Já viu o rosto dessa mulher?! Já conversou com ela?!

— Por que eu conversaria com uma faxineira?

— Uma faxineira não, porco miserável! Ela não é só “uma faxineira”! É uma mulher! Trabalha mais que você pra receber muitas vezes menos, eu aposto! — Gritava, seu rosto quase colado ao do banqueiro. — Eu rezo para que esse dinheiro seja o suficiente para ela no mínimo viver!

 — É sim, docinho. — Disse uma repentina voz doce, vindo das costas do trio barulhento. 

Quando se viraram, viram Jerry parado à porta do escritório, acompanhado de uma mulher pequena — mais baixa até mesmo que Thomas — vestindo um uniforme branco, sujo de poeira. Em seu rosto redondo, mantinha um sorriso amarelado, singelo e energético, porém tinha olheiras enormes e extremamente profundas. Dando um fraco passo adiante, ela continuou:

 — Obrigado pela sua preocupação. 



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