Farme! Brasileira

Autor(a): Zunnichi


Volume 2

Capítulo 73: Rei

— Demorou, chefão. Eu tava começando a ficar entediado, sabia?

Lucas abriu um sorriso diante do homem, meio ansioso por partirem tão cedo para o prato principal. A aura ao redor do rei demônio era bastante pesada.

Era meio difícil respirar, sinal de que aquela pessoa não era pouca coisa. Ainda estava abaixo do nível de Amora, mas não poderia ser subestimado de nenhuma forma.

Lucas derramou uma nova garrafa de água benta sobre sua katana, apertando o cabo com mais força.

Sua cabeça estava cheia de adrenalina, uma nova poção de energia tirou parte de seus pensamentos desconcentrados para longe e permitiu uma avaliação mais clara da situação.

Um dos generais estava caído imóvel no chão, no caso o copião que não soube usar suas habilides corretamente e que no final fez quase nada.

A outra estava encharcada de água e havia caído não muito longe do campo de batalha, fazendo Lucas até se sentir culpada por estragar a roupa fofinha e o livro dela.

O único que continuava de pé era o minotauro esqueleto, que mal havia sido afetado pela sequência de golpes. Aquele cara era duro como pedra, se tivesse que lutar contra eles, se livraria primeiro do minotauro se possível.

Aegis, a maga com um cabelo de sereia que não perdia a forma mesmo molhado, se aproximou do homem e se ajoelhou na frente dele, abaixando a cabeça o máximo possível.

— Mil desculpas, Alteza! Não conseguimos fazer nada! O inimigo é muito forte. Tentamos de tudo, e mesmo que Philomeu copiasse suas habilidades, ainda não fomos capaz de vencer!

— Está tudo bem… — O rei demônio colocou sua mão no ombro da moça e a empurrou para fora do caminho. — Saiam daqui, agora. Eu não quero ter que lidar com vocês, inúteis, enquanto luto. Faça o favor de me ver mais tarde na sala do trono para termos uma conversa.

A mulher mordeu os lábios e começou a chorar de frustração. A tal “conversa” que teriam seria seu maior pesadelo, ao ponto de fazer Aegis querer fugir.

No entanto, ela não o faria, do contrário sofreria mais ainda se ousasse ir contra a vontade da Majestade, tendo que ficar com a ideia reclusa em sues próprios pensamentos.

Ela levou seu grimório sujo consigo e fugiu o mais rápido que pôde, acompanhado de Krevo que também correu conforme as ordens de seu lorde.

Ambos assistiriam a luta de muito longe, de forma a não serem afetados por aquela força da natureza chamada rei demônio.

Quanto a Philomeu, só tinha como ficar deitado de bruços completamente parado. Mover um músculo era semelhante a passar o braço por um túnel cheio de cacos de vidro.

— Meu lorde! — gritou, estendendo sua mão na direção dele. — Essa pessoa tem um poder de aprimoramento físico muito forte, mas não possui nenhuma magia realmente poderosa! Ele também depende puramente de seus equipamentos, a espada que verde que ele carrega é muito perigosa! Permaneça longe dela! Os punhos dele também são muito poderosos, não subestime-os!

— Bom trabalho — agradeceu o lorde, apontando sua lança na direção do soldado caído e o revestindo com uma aura vermelha, que serviu para tirá-lo dali e mantê-lo longe. — Agora, como eu devo matá-lo por ter causado tanta desordem? Empalamento? Cortar sua cabeça fora? Queimá-lo vivo?

— Não acho que você vá conseguir me matar, mesmo querendo. Vou com a quarta opção: eu te desço o sopapo e saio vivinho da silva.

Lucas sorriu, aumentando ainda mais o efeito da provocação que já agia no cérebro do rei demônio, e como esperado ele caiu direitinho. 

O rapaz bloqueou a lança que voou em sua direção, apenas para Igibris se impulsionar na direção de Lucas e atingí-lo com um soco na barriga, o que o afastou a tempo de recuperar sua arma que rodopiava no ar.

O sorriso no rosto do garoto aumentou, era desse tipo de coisa que precisava! O treinamento constante com Amora e a repetição com os elfos de gelo encheram seu saco, ele precisava disso.

Seu abdomen foi marcado pelo golpe e a região estava quente, o que só serviu para aumentar a adrenalina já atuante no cérebro.

Lucas se jogou contra a luta, usando ambas as espadas para desferir sequências de ataques que eram prontamente bloqueados pelo longo cabo pesado da lança.

Igibris não economizava em força, qualquer janela de fraqueza ou sinal de que a guarda do inimigo abaixou era um momento para contra-atacar, no entanto, o pensamento de seu oponente era igual.

Uma das coisas que mais aprendeu quando lutava contra Amora era a importância de certos momentos no combate. Poderia ser um milésimo sequer, esse momentinho seria usado para vencer.

E era impossível que alguém não deixasse uma brecha escapar, nem que fosse por esse período extremamente curto.

 

A Postura de Contra-Ataque foi ativada

 

Lucas largou a espada comum na outra mão, a lança de Igibris estocou contra sua cabeça, mas tudo o que arrancou foi fiapos de cabelo. 

Ele projetou o corpo por baixo da ponta da arma e deu um passo em frente, aproximando-se mais do que deveria e se viu quase diante do rosto do lorde.

 

A Arte Um Dois Potencializado foi ativado

A habilidade de Contra-Ataque foi ativada.

 

O  punho do rapaz voou contra o rei demônio, um atingiu em cheio a sua cara, enquanto o outro foi aparado pela palma aberta do inimigo.

Um suave filete de sangue escapou pelo nariz de Igibris, cujas veias estavam em tempo de estourar ao longo do pescoço e rosto.

Ele não estava pouco furioso. Sua face perfeitamente arrumada havia sido ferida, e agora todo o processo de beleza teria que ser repetido mais tarde.

— Você é o humano mais ousado que já encontrei… — disse, apertando mais ainda o punho. — Teve a ousadia de arremessar e humilhar meus súditos, então veio ao território do meu reino e socou o meu rosto… Sem contar no absoluto caos que tem causado nas últimas horas. Você é mesmo uma praga, e por isso me diga, qual seu nome?

— É Lucas, e dá pra desgrudar de mim?! — Ele apoiou um dos pés contra a barriga do rei demônio e empurrou, tendo força o suficiente para se empurrar para trás e se livrar do aperto. — Eu não gosto de ficar perto de ninguém, tá doido? É meu espaço pessoal!

— Você tem um jeito engraçado de se expressar… Levando em conta que quem se aproximou foi você, anjo Lucas.

O rapaz estranhou o apelido. Teria sido chamado de anjo por ser bonito? Por que justo naquela hora precisava de um elogio? Isso deixou Lucas meio sem jeito.

Igibris encaixou a lança sobre o ombro, antes de mais uma vez seguir com uma nova estocada que obrigou Lucas a virar para o lado, mas era isso o que queria.

Girando rapidamente o calcanhar, o rei demônio fez a ponta da lança seguir o movimento de Lucas e rasgou o tecido da armadura num corte limpo.

Os olhos do rapaz se arregalaram com a visão, aquele golpe não passou muito longe de sua roupa por baixo da armadura, e pior, aquele rei demônio nem estava na sua segunda fase de chefão ainda.

Uma batalha extremamente difícil o aguardava, e ele sabia que se morresse ali, teria que passar pelos mesmos perrengues de antes, sem contar na perda de todos os seus itens e memórias.

Ele não queria retornar muitos meses no passado só para repetir tudo de novo, ainda mais quando as coisas se desenrolaram tão bem quanto agora.

E também, farmar tudo de novo era uma das coisas mais frustrantes para um jogador empenhado e em constante progresso.

Uma parte das poções guardadas no cinto de Lucas caíram por terem o saco rasgado. Ele então pegou as diversas águas bentas que despencavam de uma em uma e arremessou na direção do rei demônio.

Ao menos não gastaria nenhuma quebrando no chão. Quando uma cortina de fogo azul subiu, significando que estava causando algum dano no demônio, ele pegou três tônicos.

Um era laranja, outro verde e o último era dourado. Ingeriu os três juntos, a onda de poder contida naqueles frascos correu por suas veias.

Traços coloridos passaram por baixo de seus olhos e em direção aos braços, fortalecendo seu corpo.

 

Tônico de Força, Tônico de Velocidade e Tônico de Resistência ingeridos.

Os atributos Força, Velocidade e Resistência aumentaram em 50 pontos.

 

— Que piada é essa? — perguntou o rei demônio, limpando as brasas azuis com um movimento da lança. — Oh, você ficou um pouco mais forte. Adoraria saber o que fez.

— É segredo, ‘cê sabe. — Lucas então bebeu uma poção de cura, quebrando o frasco vazio no chão. — Cai pra dentro!

Igibris avançou com um novo golpe de lança, mas inesperadamente sua arma não atingiu o alvo de nenhuma forma, pelo contrário, quem foi atingido era ele.

Um corte de cima para baixo abriu seu terno em duas metades na frontal, a katana nas mãos de Lucas se ergueu quase na altura da cabeça dele, e em seguida despencou na tranversal costurando um novo corte.

“10%, já vai facilitar um pouco mais… Que tal a gente ir além?” Enquanto o inimigo se recuperava do golpe repentino, Lucas sacou a varinha e esfriou o clima uma segunda vez.

A segunda conjuração da magia transformou o campo de cinzas em um tipo de lago congelado cinzento, ao mesmo tempo que travou os pés da Majestade no chão.

Lucas usou essa oportunidade para encaixar um gancho na guarda aberta do demônio, tão forte que sua cabeça parecia que sairia do corpo ao voar tão alto para cima.

O rapaz quebrou o gelo que também prendia suas pernas e respirou fundo, concentrando a Lâmina de Vento em sua arma ao ponto de criar um fio esverdeado.

Ele realizou mais um corte, mas dessa vez contra o vento. Ele estava repetindo o que Philomeu realizou mais cedo, a pressão do ar criou seu próprio projétil em forma de meia-lua.

Ainda era um feitiço de 1° nível, no entanto, quando somada a força astronômica, essa classificação poderia ser reajustada para o 4° nível num piscar de olhos.

No entanto, assim que o projétil tocaria a pele do rei demônio, chamas negras explodiram de seu corpo, tomando quase por completo o oxigênio presente no ambiente.

Lucas viu uma grande cruz de fogo surgir, erguendo-se aos céus e derretendo o gelo ao redor. O rosto do demônio não parecia nada amigável, na verdade, era algo sedento.

Seus olhos em formato de cruzes brilharam como diamantes, labaredas escapavam pelas pontas e o fogo dançava junto com o cabelo longo do rei demônio.

— Uau, eu devo ter deixado ele muito puto… Que bom, assim as coisas ficam mais fáceis! 

Lucas, sem se importar muito, cortou o vento mais vezes e disparou diversas Lâminas de Vento Potencializadas — nome que inventou de última hora. —, mas os esforços pareceram fúteis.

Igibris consumia cada um dos golpes com seu fogo negro, andando em linha reta sem se importar com o dano minúsculo que causavam.

O rapaz teve certo medo por conta da aparência que o rei tomou, mas talvez devesse ter esperado que algo assim aconteceria cedo ou tarde.

Como o combate a longa distância não causava nada, então só poderia ir batendo de frente. Por não ser nenhum tipo de idiota, Lucas fez o que era mais sensato: ativou um de seus trunfos.

 

A configuração escolhida para morfar foi: total

Alterando completamente a fisiologia do usuário.

Os atributos aumentaram em 50%.

 

Luas sentiu pontadas ao longo de todo o corpo, seus olhos e boca se transformaram no mesmo instante para algo semelhante a de um monstro submarino.

Seus braços e pernas ganharam uma forma completamente diferente, e mesmo que humanoide, as escamas e guelras no pescoço indicavam ser de uma espécie completamente diferente.

A katana na sua mão agora parecia como uma faca, a armadura se modelou para caber exatamente de acordo com a transformação corporal.

— Agora vamos levar a sério… — Sua voz também ficou diferente, ganhando um tom mais grosso e intimidador. — Eu vou afundar a tua cabeça no chão!



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