O Meu Caminho Brasileira

Autor(a): Rafael AS

Revisão: Rafael-AS


Volume 1

Capítulo 49: Família

Acordei com uma tosse horrível que tentava colocar meu estômago para fora da boca. Felizmente, esse objetivo não pôde ser concluído, e o máximo que a tosse conseguiu foi fazer um líquido ácido arder o esôfago. Mas, assim que parei de me contorcer...

— Olha o que você faz com ele! — gritou uma voz feminina muito familiar, enquanto uma mão pequena acariciava meu braço. Era... Aithne? Não sabia bem. Só sabia que o grito doeu no fundo do meu ouvido, sensível logo após acordar.

Tentei enxergar, mas minha visão estava terrivelmente embaçada, e uma dor de cabeça infernal me fazia sentir como se minha cabeça tivesse sido explodida por uma bomba. O que era isso?...

— E você espera o que, que o leve à enfermaria, onde sabe-se lá o que farão com ele?! — resmungou Violette, num tom nervoso como nunca ouvi igual.

Meu Deus... Era barulho demais. Estava aturdido com tudo aquilo, e, para completar, meu corpo estava fraco, sem força alguma.

— Qualquer lugar é melhor que com você, sua molestadora de merda! — berrou Aithne, o suficiente para estudantes vizinhos ouvirem também.

— Molestadora?!

— Vai me dizer que essa sua mana nojenta no corpo do Flamel é só para curar ele? Espero que vinte caralhos te destruam na porrada, sua puta nojenta! Tá vendo, Flamel... — A voz dela se aproximou do meu ouvido e ficou mais carinhosa. — Isso que ganha por se envolver com a primeira piranha que oferece a boceta... AI! POR QUE ME CHUTOU, SUA VAGABUNDA?!

— Se você veio aqui só pra ficar falando essas merdas, cai fora logo daqui. Meu quarto é de nível muito alto para uma anã como você.

— São essas palavras que têm para revidar? — Aithne riu de forma quase doentia. Minha visão começava a se tornar mais nítida, suficiente para ver a face vermelha de raiva dela, um sorrisinho afiado de quem se delicia com vingança. — O Flamel tinha que ter escolhido a Guinevere... Ela é melhor que você em tudo. O Flamel seria tão bem melhor tratado nos braços de...la....

A lâmina de uma adaga negra de repente surgiu no pescoço da Aithne, milímetros impedindo o fio de cortar a pele dela. A velocidade foi tal que a maga não pôde reagir.

— Já deu, criança? — A voz da Violette era fria, com a mesma seriedade que a vi cortar o monstro em pedacinhos.

Com um pequeno movimento, a cabeça da Aithne sairia rolando...

— Parem vocês... — ressoou minha voz tão baixinha e fraca que elas não pareceram escutar.

— Sua vadia louca. — O rosto da Aithne se contorceu de nojo. — Vai chupar um canavial de rola, sua tabuada do caralho.

— Vaza logo de perto dele. Não é seu lugar. Não de uma “tábua-da” como você.

— Hahaha. Fala isso de mim, mas nunca vai ter os seios da Guinevere pro “Flamelzinho” se deliciar todinho com-

Um filete de sangue escorreu pelo pescoço da Aithne, se infiltrando no uniforme branco.

Agora.

— Você não teria coragem...

— Não? — Violette sorriu em ironia. — Sua sorte é que o Flamel ficaria decepcionado se sua querida amiga sumisse da noite para o dia...

A mão de Aithne se aqueceu, e incontáveis partículas laranjas flamejantes se formaram ao redor de si. Seus olhos marrons brilharam como o pôr-do-Sol, os cabelos levitando. O ar se fez denso e quente, difícil de respirar.

— Que coincidência, porque posso dizer o mesmo de você. — Aithne colocou a mão no fio da adaga e apertou, fazendo sua palma pingar sangue.

Tentei falar de novo para fazerem as duas pararem com essa palhaçada, mas não consegui. Merda... Merda...

O que me restou foi tossir descontroladamente, como se tivesse pego uma tuberculose pesada. As duas imediatamente olharam para mim.

— Flamel?! Você tá bem? — Violette se sentou na cama às pressas, colocando a mão no meu peito, logo acima do coração. — Tá tudo bem... Tá tudo bem...

— Tá tudo bem o caralho, sua piranha de mer-

Tossi mais alto ainda, e até a Aithne se calou. Também se sentou cama, do meu lado em silêncio. Diferente da Violette, cujas coxas já estavam ao lado da minha face, ela se satisfez segurando meu pulso, mais distante.

— Roi — sussurrei, sorrindo para ambas. Com a quietude se restaurando, minha voz se recuperando aos poucos era mais audível. — E que surpresa... — disse, olhando para a Aithne com um sorriso feliz.

Enquanto eu cumprimentava a Aithne, Violette plantou um beijo molhado no meu pescoço, antes de observar meu rosto de perto, examinar meus olhos, abrir meus lábios e observar o interior da minha boca, quase como uma médica.

— Você está surpreendentemente bem — proclamou ela. Então a mão dela acariciou a região do peito, os dedos indo e vindo, como se tentasse fazer um cafuné no coração... — Os batimentos estão fortes e estáveis. As pupilas estão normais, a boca saliva moderadamente e sem sinais de infecção de garganta. O rosto está vermelho de vergonha, sem a palidez de antes. Tá vendo, Aithne? Ele tá seguro comigo.

— Sua álgebra do diabo. Flamel, é verdade que ontem vocês enfrentaram um monstro gigante? — falou a pequena maga, com as sobrancelhas caída sobre os olhos em preocupação.

Surpreendi-me um pouco pela forma com que a Aithne parecia desconfiar por completo da Violette.

— Sim — respondi, deixando a dúvida de lado por enquanto. — O bicho era enorme. Parecia um tigre vestindo armadura de dragão e com rabo de escor- — interrompeu-me uma onda de tosse fervorosa.

— Desculpa, Melzinho. — Violette me deu um beijo na testa, que me fez me desmanchar no travesseiro com um sorrisinho feliz e soltar um suspiro relaxado. — Descansa bem. Vamos te incomodar mais não. Não sei como você é amigo dessa delinquente, mas tudo vai-

Aithne limpou a garganta ruidosamente, interrompendo a jovem ruiva.

Uma risada tentou escapar da minha garganta, mas a segurei, com medo de tornar as coisas piores.

— Desculpa por ter te incomodado também. — Aithne ajeitou os óculos, que quase caíam do nariz. Foi engraçado observar seus olhos se tornando maiores quanto mais as lentes se aproximavam. — Diferente dessa meretriz, não vou me justificar. Caí ao nível dela, e peço desculpas pela... AI! — Ela de repente começou a pular enquanto segurava um pé. — VIOLETTE!

Ops. Deixei cair da cama o livro de alquimia por acidente. Desculpaaaa.

— Eu vou te matar! — disse Aithne enquanto pulava igual o Saci Pererê.

Quanto mais eu tentava segurar a risada, pior ficava, até que não aguentei e caí na gargalhada. As duas pararam e ficaram me olhando enquanto eu chorava e me contorcia de rir.

Só que teve um problema. Minhas risadas não cessaram. Continuei, me encolhendo cada vez mais, sem perceber me aproximando da Violette, que permanecia sentada ao meu lado. Acabei encostando a testa nas coxas dela, e... Era tentador me esgueirar no colo dela, mas com a Aithne ali do lado... Mesmo rindo tive decência e me preparei para me afastar.

Assim que ia deitar de volta no lugar, porém, Violette acariciou meus cabelos e me puxou para seu colo, me escondendo em suas pernas. Minhas risadas pararam por alguns segundos, encarei o rosto vermelho e feliz da Violette. Tão linda... Mas logo vi a Aithne ainda pulando feito o Saci Pererê, e voltei a gargalhar descontroladamente. Se qualquer um soubesse o quão errada era essa comparação, eu estaria morto...

Por mais de um minuto, o único som do quarto eram minhas risadas. Minha barriga já ardia, não tendo mais força para continuar se contorcendo, mas aquilo não parava. As pernas da Viol eram o abrigo perfeito, porque lá podia enfiar minha face e não ter que enfrentar a vergonha de encarar as duas. Só de imaginar o rosto de vergonha e confusão delas me fez explodir de rir outra vez.

Talvez, naquele momento, se não estivesse com as pernas dela bloqueando minha visão, veria que o rosto enraivecido de Aithne se desmanchou como água, revelando a superfície bela do sorriso caloroso. Talvez notaria como a Violette, pela primeira vez, olhou para a Aithne e suspirou em desistência, admitindo uma trégua momentânea. Uma trégua que, em um mundo de se’s, poderia se tornar uma amizade num dia distante. 

Talvez teria notado também como a Aithne se sentia um pouco fora de lugar, observando os dedos da Violette afagando minha cabeça como se carregassem todo carinho do mundo. Mas talvez também teria percebido como isso deixou a maga de cabelos castanhos com um olhar caloroso e nostálgico, agridoce, vendo o corpo de Flamel recebendo amor e proteção como nunca os teve, como merecia ter...

Na verdade, não precisava de me virar para perceber tudo isso. Essas imagens foram coisas que passaram pela minha cabeça naqueles instantes de gargalhada. Talvez fosse efeito de brincar com magia da alma. Talvez...

Virei-me, o topo da minha cabeça sentindo a barriga fofa da Violette, e sorri para Aithne, embora algumas risadinhas súbitas ainda revivessem em mim.

— O Flamel está bem. — Fechei os olhos, meu sorriso se tornando mais sereno e sem a turbulência da diversão exagerada.

— Sim... Ele está. — Aithne riu, e jurei que via uma lágrima descendo dos olhos, embora minha visão captasse apenas um rosto seco e fechado.

— E muito. — Violette sorriu, se inclinou sobre mim e beijou minha testa.

— Hmmm... — Agradeci o beijo com um carinho na coxa dela.

Para ser sincero, não gostava de receber tantos toques enquanto alguém olhava. Fazia-me sentir mal pela pessoa, que não podia desfrutar do mesmo. Só que...

Um sorrisinho envergonhado se abriu nos meus lábios. A Violette era meio possessiva, e achava fofo como ela fazia isso agora para mostrar à Aithne que eu era dela.

Segurei a mão da minha mulher e a beijei, tentando lhe dizer para não se preocupar. Essa boba...

“Sou sua. Só sua”, as palavras dela depois de derrotarmos o monstro se reproduziram como uma bela música na minha mente.

Olhei para ela, para quem talvez fosse ser o amor da minha vida. Vendo-a de cima assim, ela parecia mais uma deusa perfeita a ser contemplada, tão bela quanto naquele dia. Na verdade, tão bela quanto nunca...

— Ah é — Aithne limpou a garganta e interrompeu nosso momento especial. — Vocês faltaram à aula de Sábado. Só vocês dois. Foi um tópico e tanto na Academia... — Os olhos de Aithne se estreitaram, nos encarando como se fôssemos criminosos foragidos. Engoli em seco, mas os dedos da Violette na minha cabeça não hesitaram ou se fizeram menos quentes em momento algum.

— Enfim — prosseguiu Aithne —, ontem nos disseram que hoje, excepcionalmente, teremos uma reunião na arena de treinamento de combate corporal.

— Quê? — Violette pareceu espantada, muito mais que ao saber que nosso relacionamento não é mais tão secreto. — Como assim?

— Só falaram que o Zonto, que estará conduzindo a Missão da Floresta desse período, tem uma mensagem para as turmas. Será na hora do almoço, daqui... duas horas.

— Puxa vida... — Suspirei. Nem tenho tempo para descansar direito...

Como se tentando me confortar, a Violette mudou o ritmo do carinho e passou a acariciar desde a testa até a nuca.

— Ainda dá para dormir por mais uma hora, Melzinho. — Violette beijou minha testa de novo com aqueles lábios doces e macios que eu começava a criar vício de beijar.

Realmente estava criando vício em beijá-los... Não pude resistir. Antes que ela saísse da minha testa, segurei a cabeça dela com carinho e me contorci até enfiar os meus lábios nos dela. Senti nossas manas se misturando, aquele calor delicioso descendo pela garganta igual álcool destilado. Hmmmm, aquilo era divino...

Violette riu, animada, mas ouvi o pé de Aithne rangendo contra o chão.

Melzinho? — disse a jovem de cabelos curtos. — E vão ficar se pegando na minha frente mesmo, porra?

Meus lábios ficaram trêmulos nos da Violette, segurando uma gargalhada. Os dela se curvaram ainda mais, e...

Começamos a nos quebrar de tanto rir. Aithne suspirou, escondeu o rosto nas mãos e se jogou na parede, embora os cantos sorridentes dos lábios provassem que não estava tão frustrada quanto tentava parecer.

— Certo, certo. Vamos nos aprontar... Espera... — Percebi que as duas já estavam vestidas. — Só eu?

Como sempre, Violette havia me vestido em outro roupão confortável. Dessa vez era laranja e felpudo, grosso igual um cobertor. Já as duas, estavam com o uniforme padrão, com exceção da Aithne, que, além do chapéu de feiticeira, tinha uma capa preta a envolvendo parcialmente. Enquanto a Violette parecia uma estudante de academia militar, Aithne era como uma maga tirada dos livros de fantasia.

— Mas você fica tão lindo nessa roupa... — falou Violette com uma vez anormalmente profunda. — Laranja combina com o preto dos seus cabelos. E... com a intensidade dos seus lábios. — Ela repousou o dedo indicador nos meus lábios, brincando com eles.

— Nem preciso dizer nada, né? — Aithne cruzou os braços.

— Certo... Certo... Vocês duas poderiam me dar licença, então?

— Claro. — Aithne prontamente se virou e tornou a andar até a porta, apesar de que...

— Não. — Um largo sorriso sem brilho, quase que medonho, se abriu no rosto da Violette. 

— Não? — Aithne a fitou, os olhos voltando a pegar fogo. — Como assim?

— Não.

O sorriso da Violette se fez ainda mais assustador. Já a Aithne...

Fagulhas laranjas começaram a eclodir da sua aura. O ar se fez quente outra vez. Mas que porra...

No meio do caos nascente, improvisei qualquer coisa:

— E-eu preciso de ajuda da Viol. Ainda estou muito fraco...

Não tinha ideia do que ela planejava com isso. Mas tive que defendê-la, senão uma luta de vida ou morte explodiria aqui...

— Você nunca perdeu esse hábito, né, Flamel? — O tom da Aithne se fez baixo e seco, quase com raiva, o que me pegou de surpresa.

— Eu?

— Apertar a mão direita quando mente.

Só então prestei atenção na minha mão, e de fato o fazia. Engoli em seco, Aithne suspirou fundo e um silêncio constrangedor recaiu entre nós.

Sem hesitar, os pés da jovem maga caminharam à porta de saída. Ela segurou a maçaneta e...

— Desculpa... — Minha fala atravessou o corredor e a atingiu.

A mão que segurava a maçaneta paralisou-se. Encarou a madeira da porta por longos segundos, sua respiração inaudível. Saindo do transe, abriu a porta e disse, sem se virar:

— Entendo. Eu que peço desculpas. 

Saiu e fechou a porta, deixando a sós eu, a Violette e suas mãos, que permaneciam acariciando minha cabeça como se nada houvesse acontecido.

— Ela é sempre essa bomba? — falou a Violette.

— Olha quem fa-

A garota pressionou meu queixo para cima, me impedindo de falar.

— Às vezes você é muito mais fofinho calado.

Depois da súbita lição de moral, ela soltou meu queixo. Meu orgulho doeu com aquilo. Ela me trataria como criança?

Como minha pequena vingança, prontamente a mostrei como havia aprendido a me comportar:

— E você também, quando não é essa brutamon-

Violette de novo forçou minha boca se fechar. Essa filha da...

Bonzinho... Bonzinho... — Seus dedos parara de empurrar o maxilar e acariciaram meu rosto, explorando cada linha das bochechas e da boca, como se houvesse em mim letras de braile. 

— Vai ficar me tratando igual cachorrinho agora?

— Mas você tem dona, não tem? — Aquele sorriso tenebroso voltou à vida em seus lábios, embora... Um tom rosado fizesse as bochechas dela muito mais fofas e vivazes.

Meu coração deu um nó com aquela frase dela. Nossos rostos ficaram igualmente vermelhos. 

— Igual você tem dono.

Ela riu. Achei que ela me censuraria de novo, porém afagou meu rosto ainda mais intensa.

— Você às vezes se acha tanto...

— E não tenho esse direito? — Minha voz saiu com um tom de veneno, desafiando-a.

Sorri e mordi meus lábios descaradamente enquanto fitava o rosto dela, tendo toda liberdade do mundo para provocá-la.

— Não me lembro de ter te dado.

Ela aproximou o rosto do meu, nossa respiração aquecendo a pele um do outro e se tornando quase uma.

— Nem eu te dei.

A respiração dela ficou mais pesada; a minha se fez reflexo dela.

— E preciso?

— Mhm... Tenho meus direitos.

Violette abriu os lábios, exalando ar direto nos meus, tão próxima...

— Que pena. Porque eu sou a juíza desse tribunal. E declaro...

— Protesto.

Minha boca se abriu, ofegante... Meu coração cavalgava de expectativa para sentir logo aqueles lábios quentes e delicados. Eu precisava deles...

— Protesto recusado. Agora, me deixa provar o quão culpado você é...

Os lábios dela se aproximaram ainda mais. Meu coração pulou, cheio de expectativa, e...

A boca dela tocou meu queixo, gastando todo tempo do mundo em um longo beijo, enquanto suas mãos acariciaram meu pescoço, quase o apertando.

Esperei até o último segundo para sentir aquela conexão das nossas manas de novo, para me embriagar mais daquele álcool delicioso. Porém, não aconteceu. Ela se afastou de mim, um sorriso repleto de autoridade e de rubor.

Não entendi. Levantei-me do colo dela, sentando-me na cama, segurei as maçãs de seu rosto e, faminto por ela, mergulhei em seus lábios.

Finalmente tendo aquele beijo, meu corpo explodiu em ondas de prazer. Meu peito se abriu e pulsava, o coração nunca batendo tão forte, como se pulasse, embriagado de vida. Queria beijá-la mais e mais, porém ela segurou meu peito e me empurrou de levinho para longe. Seus olhos profundos e brincalhões, em meio ao cabelo bagunçado e às bochechas vermelhas, eram divinos de se ver.

— Vai com calma. Vai me devorar viva assim.

Sorri, talvez o sorriso mais diabólico que já mostrei a alguém.

— Não rejeitaria isso.  

Se ela me mantinha longe empurrando meu peito, segurei firme a cintura dela e a arrastei até se encaixar em mim, deixando o lençol um caos.

— Você é minha, Viol.

Ela sorriu com o brilho de quem é desafiado e abraçou meus quadris com as pernas, prendendo-me contra seu corpo, enquanto suas mãos pararam de resistir e me envolveram num abraço, uma aterrissando na nuca e a outra segurando meu cabelo. Puxou minha cabeça para si até nossos lábios se encontrarem e ela me dar um combo tão extenso de beijos que minha estamina foi zerada em segundos.  

Só quando nossos lábios partiram uns dos outros por centímetros, um fio de saliva nos conectando ele, que ela disse, ofegante:

— Não mais que você é meu.

— Então... Se você for minha dona, aceita eu ser seu dono também? — Minha lábios se curvaram em vitória.

Já considerava ter ganho a disputa, até de repente ser pego pelo tsunami dos lábios dela, que destruiu todas as defesas do meu país. Tudo que sobrou foram suspiros e respirações brutas e cheias de desejo por ela. Queria ela mais que tudo...

Meu corpo reagia àquilo tudo, e ela me prender assim, com as pernas em volta da cintura e nossas virilhas conectadas, era...

— VEM LOGO! — Aithne bateu na porta, fazendo-a tremer como um saco de pancadas.

Violette começou a rir e desprendeu do beijo. Ela se afastou de mim e, rastejando para trás com os joelhos na cama, me encarou com olhares afiados e um sorriso voluptuoso, como se dissesse que ainda desfrutaria mais desse prato chamado eu.

Toda majestosa, ela se levantou, alisou as roupas e bateu no meu uniforme que jazia em cima da mesa de estudos.

— Quando seu probleminha passar, seu uniforme está aqui. Vou ir lá distrair um pouco a Aithne enquanto isso.

Deu-me um “tchauzinho” com a mão e, balançando a cintura de um jeito tão animado que quase saltitava, foi embora do quarto, me deixando sozinho comigo mesmo e com o resultado do nosso desejo.

— Ahh...

Caí de costas na cama, encarando o teto. A respiração ainda estava desordenada e profunda, o roupão já absorvia um pouco de suor. Essa garota...

Essa garota ainda vai me matar. Mas...

Ainda estava sorrindo. Toquei meus lábios, como se tocasse o rosto de um estranho. Esse sou eu? Rindo, sorrindo tanto? Desejando tanto? Alguém que vivia no eterno e mórbido mundo cinza, sem cor?

Se os lábios se abriam para mostrar a felicidade... Desci a mão ao peito. Este também se abria. Derretia como se fosse líquido. Pingava amor como uma vela em chamas.

Isso é viver? Existe mesmo uma vida em que um coração pode bater tão feliz e inocente?

Levantei-me e encarei as linhas das mãos. O que construí com a Violette foi obra minha, das minhas escolhas? Tudo parecia tão natural... Não parecia ter sido uma decisão. Era igual a um rio, que flui como deve fluir. Só que...

Não havia dúvidas. Houve escolhas. No rio, quando decidi a abraçar em meio à confusão. Em seu esconderijo, quando aceitei o carinho dela. No duelo, quando a beijei. Só que...

Tirando a parte do rio, em que tive dúvidas sobre o que fazer, as outras escolhas foram naturais e só expressaram meu coração. Talvez, no fim, eu e ela somos só uma confusão. Uma confusão de sentimentos, de paixões, de porquês.

Ela era uma bagunça. Um caos. Comigo era impulsiva, imprevisível, voluptuosa, emotiva. Com os outros, pelo que ouvia falar, era fria, distante, calculista, arrogante. Claro exemplo disso era a Aithne. Ela jamais compraria briga sem razão com alguém, mas com a Violette era excepcionalmente cabeça dura...

Olhei-me no espelho da Violette e me lembrei de quando me encarei no espelho do banheiro do meu quarto, enquanto ela esperava por mim do outro lado da porta. Naquela época, quando nos conhecíamos há pouco tempo, ela era inexplicável. Era como se mudasse de personalidade a cada momento. Já hoje...

Hoje conseguia entendê-la muito melhor. A metáfora de ela ter várias máscaras já não cabia mais. Ao invés disso, eu contemplava a carência do coração dela, o medo da vulnerabilidade, a necessidade de me possuir, a tristeza profunda, o desejo intenso de conexão e a busca por me surpreender. Havia ainda mais sentimentos profundos que não conseguia definir, mas existiam. Ela era tão complexa, mas tão linda de decifrar...

Meu sorrisinho bobo só cresceu a cada pensamento. Contudo, logo abanei a cabeça e segui em frente. Não era hora para perder tempo. As duas me aguardavam.

Coloquei as roupas e saí do quarto, dando de cada com as duas paradas num silêncio constrangedor, a única coisa as mantendo juntas sendo eu.

Elas notaram meu sorriso. Violette inclinou a cabeça para o lado, como uma raposa fofa, e a Aithne me encarou com olhos grandes. Não consegui segurar minha risada. Elas realmente estavam ali por mim. São pessoas que, mesmo tendo relacionamentos tão diferentes, ainda estariam comigo se qualquer coisa acontecesse. Aquilo...

Essa sensação quente era a de ter um lar? Era o que deixei para trás na Terra? De ter pessoas me esperando, como essas duas, e até se segurando para não se matarem por minha causa? 

— Obrigado — disse-lhes, meu coração se apertando no meio num sofrimento aliviante.

— Por? — Os olhos de Violette se conectaram nos meus, como se um nó invisível nos ligasse um ao outro.

— Por esperar por ele, sua idiota. — Aithne sorriu, as mãos se segurando nas costas.

Não era bem isso. Porém a mão da Violette se encontrou na minha, e vi em seu olhar...

O infinito. O infinito que clamava para ser explorado e confiado somente a mim. O infinito que presenciei desde o dia que nos encontramos no refeitório, que tanto conversamos sem falar uma palavra.

— Vamos? — Violette sorriu, seus cabelos dançando ao vento.

— Vamos. — Sorri, o sorriso mais largo e espontâneo da minha existência.

— Vocês dois são insuportáveis. — Aithne revirou os olhos.

— Que foi? Quer minha mão também? — Ofereci-a, rindo.

— Vai se foder.

Ela virou as costas e andou mais depressa que nós, ficando na nossa frente. Não tinha jeito...

Sussurrei no ouvido da Violette:

— Vamos deixar isso para quando estivermos a sós.

Meus dedos soltaram a mão dela. Só que depois de dois segundos ela entrelaçou nossos dedos de novo, impossível de eu soltar, talvez nem com força.

— Que pena para ela.

Suspirei fundo... Não gostava de deixar outras pessoas excluídas. Era diferente um grupo de três se comportar como três pessoais iguais em relação a agir como um casal e uma menina avulsa. Não era justo.

“Desculpa, Aithne. Não quis te deixar sozinha.”

De repente a feiticeira olhou para mim, sorriu e continuou caminhando. Seus passos se tornaram mais leves e tranquilos. Ela...

Ela escutou meus pensamentos?

Espera... Minha mana já estava na metade. O tempo inteiro, sem perceber, estava despejando mana em cada interação? Meu Deus...

Puxei a manga da camisa e vi meus pelos arrepiados. Era uma revelação assombrosa. Descobri que usar magia era tão natural e automático quanto respirar: nem se tem consciência de que faz. Mas, se é algo tão solto assim, como diabos iria estudar suas aplicações e ainda fazer treinamentos? Nem tem como saber se estava evoluindo.

Um longo suspirou deslizou pelos meus pulmões. Violette riu, seu dedão começou a acariciar minha mão.

Naquele caminho até o local da fala do professor, uma sensação peculiar me atingiu. Era como um cheiro que se sente, mas não sabe de onde vem. E o cheiro era de algo especial, perfumado, feliz. Por algum motivo, eu sentia que finalizava ali um capítulo da história da minha vida, iniciando as escritas do próximo. Mas por quê?

Pensei, pensei e pensei, porém não cheguei a conclusão alguma. Imaginei que seria ligado a reviver a sensação de família, mas não era bem isso...

Talvez... Talvez, se a magia da alma me permite sentir intuições dos outros, esse seja um novo capítulo não só meu, mas de mim, da Violette e da Aithne. À Aithne, viu em mim o Flamel finalmente sendo feliz e tendo alguém carinhoso ao lado. À Violette, seu dedão roçando meu pulso dizia muito mais que qualquer palavra; estávamos juntos e unidos...

Era isso, mas ainda assim algo faltava...

O quê?

Segui o percurso sem entender muito bem, e, principalmente, sem perceber um sorriso tão natural no meu rosto que nem o sentia. Um sorriso que começava a fazer parte de mim, um pedaço do meu rosto inseparável. Um sorriso que, por tantos anos, nunca viu a luz do Sol. Um sorriso que...

Talvez existisse por causa de mim, pelas minhas escolhas. Mas, acima disso...

Era por causa dela.

E da Aithne também. E da Guinevere. E do Dolgan. E da Hayek. E do Tokewater.

Essa era minha nova família...

Fechei os olhos e fiz uma oração em agradecimento ao meu pai, mãe e Lucas, minha primeira e eterna família, que tanto cuidaram de mim e que me ensinaram o que é o amor.

Muito obrigado...

A Violette notou a mudança na minha aura e, como se fosse atraída por um perfume novo, foi se enfiando cada vez mais perto de mim, até andarmos abraçados pelo corredor. A Aithne seguiu à nossa frente, mas feliz e relaxada.



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