Ryota Brasileira

Autor(a): Jennifer Maurer


Volume 1 – Arco 2

Capítulo 21: Chorando sob o Sol

A tempestade de neve, a essa altura, já tinha coberto todo o território. As árvores e chão estavam totalmente brancas, e o céu cinzento não dava indícios de que aquilo pararia tão cedo. Não enquanto a fúria da garota índigo, da Princesa do Gelo, Fuyuki Minami, também não cessasse.

Eles se aproximavam a passos lentos, encarando um ao outro. A face de puro ódio, remoendo as lembranças do passado, mas também da culpa e remorsos dentro de si era o que a mantinha de pé naquele momento. Detestando cada respirar, cada sorriso, cada palavra daquele homem… De Shai, o Fatiador Mascarado.

— Hm? Ora, vejo que está carregando algo interessante — disse ele de repente, surpreso com a coisa que começava a se moldar em uma das mãos da duquesa. 

Ela, em resposta, apenas estreitou os olhos e apertou ainda mais a empunhadura de gelo, sem parecer se incomodar se a mão escorregaria ou com a baixíssima temperatura da espada.

— Achei que seria justo lutarmos de igual para igual, algo que não pudemos fazer antes.

A voz dura e áspera dela acertou Shai, que apenas assobiou, como que admirando essa decisão. No entanto, não se opôs, uma vez que uma luta entre espadas era o ideal para ele. E, também, tornava as coisas muito mais divertidas.

Como de costume, ele levou a mão ao peito, segurando a espada de fina lâmina. Era quase uma postura que garantia segurança, ou talvez fosse simplesmente uma forma de iniciar um golpe ou luta. 

Fechando os olhos momentaneamente por trás da máscara, começou a falar:

— Autoridade da Insanidade; Shai, o Fatiador Mascarado.

A postura e tom de voz, antes zombeteiras, se tornaram mais sérias quando Shai a convidou apropriadamente para um duelo. Reconhecendo-a, inclusive, como alguém à altura de uma luta ao fazer o cumprimento oficial.

Fuyuki hesitou um pouco. Então, inspirando uma vez, para por fim em suas dúvidas e qualquer tipo de pensamento covarde, sua espada reluziu em azul cristal. 

— Duquesa de Minami e Mestre da Elite Galáxia; Fuyuki Minami, a Princesa do Gelo.

Desta vez, a explosão de chi veio de ambos, causando uma colisão entre trovão e gelo. Entre o frio e a luz. Um brilho alvo azulado como pequenos vagalumes, após a colisão entre as lâminas, pairou ao redor deles.

As espadas deslizavam uma sobre a outra numa dança harmoniosa e feroz. O choque fazia soar um chiado quando as lâminas subiam e desciam, o cristal azul se raspando e crescendo novamente quando necessário. Neste cenário de puro branco em que duas silhuetas velozes se deslocavam e espalhavam cortes de um lado para o outro, um brilho suave azul de gelo, como purpurina, os envolvia.

Uma bela luta, de fato.

A princípio, ela continuou daquela forma, até que a bela garota estreitou os olhos verdes, a uma curta distância do homem, e fez crescer do chão uma estaca de gelo. Habilmente, Shai deu um salto suave para trás antes de investir contra a adversária em uma velocidade absurda. Fuyuki teve um pequeno atraso na reação quando uma escuridão momentânea a cobriu. Foi como se seu cérebro apagasse repentinamente.

Reparando que o kiai de trovão funcionara na duquesa, Shai se aproveitou para avançar e empurrá-la para trás com a espada, e subitamente cortando a lâmina de cristal com a própria. 

O pequeno barulho chegou aos ouvidos deles. Um pequeno “tec”, quase inaudível, mas que gerou uma série de outros estalos maiores. Foi só quando Shai encarou as íris afiadas de Fuyuki que sentiu o braço amortecer, completamente congelado até o antebraço. Em algum momento, havia acordado do nocaute e o tocou no pulso.

— Ora, isso não foi nada gentil — disse ele, após se afastar a uma distância segura, olhando com o sorriso vil de sempre para a situação em que se encontrava.

Após fazer o braço tremer por o que pareceu uma fração de segundos, o gelo rachou e se quebrou, estilhaçando no chão. Nesse mesmo período de tempo, a espada de Fuyuki já havia sido renovada como nova.

— Não é algo que costumo ouvir com frequência — respondeu ela, sarcástica e fria.

— … Definitivamente, minha cara. 

Sem se importar em tentar compreender o que aquelas palavras significavam, Fuyuki apenas investiu e voltou a lançar os projéteis - vulgo dezenas de lanças de gelo que flutuavam no ar - na direção do mascarado. Shai, por sua vez, concentrou chi em sua arma entoando novamente a palavra de conjuração:

Ley.

Não teve grandes dificuldades para desviar e saltar, entretanto, como que em vingança pela outra vez, Fuyuki não lhe deu brechas e empurrou sua espada contra a dele, o mandando para longe - em direção ao penhasco.

— Ainda não.

A voz, vinda de trás, não a surpreendeu e logo o escudo de gelo se formou quando a ponta da finíssima espada tentou atravessá-la. O gelo rachou ao impacto.

— Não é nada bonito golpear alguém pelas costas.

Pisando na neve, estacas de gelo cresceram a tempo de conseguirem perfurar um dos braços de Shai, que apenas resfolegou com a dor. O sangue começou a se acumular no grande buraco, manchando sua roupa escura.

— … Por quê?

O sussurro foi baixo, mas não o suficiente para o mascarado não ouvi-la. 

— Por que fizeram aquilo?

Uma expressão de dor estampava o rosto antes furioso da duquesa. Agora, com seus belos olhos e boca torcidos, como se ainda buscasse manter a seriedade até há pouco, Fuyuki repetiu a pergunta com seriedade.

— Porque era necessário.

Para sua surpresa, sem forçar um tom zombeteiro na voz, Shai respondeu na mesma moeda, sem olhá-la diretamente.

— Era necessário realizar um massacre? Era… Necessário matar todos eles…?

Engolindo em seco a profunda dor e ódio que sentia, Fuyuki deu um pequeno grunhido ao atravessar uma segunda estaca sobre o outro braço. Agora, o mascarado estava praticamente flutuando no ar, e ergueu à força o queixo quando a lâmina cristalizada encostou contra sua garganta.

Fuyuki arfava olhando-o de baixo. O olhando com uma expressão de raiva, com um calor a derretendo por dentro.

Pôde ver, naquele instante, um sorriso amarelo se formar na face dele.

— … Sim, era. 

A carne foi lentamente atravessada, cortada. O estranho, no entanto, era que não fora Fuyuki a responsável por isso. Seus olhos baixaram lentamente.

— Apenas a sua existência poderia causar o fim da Ritus Valorem. Unida a todos eles, seria impossível sequer tomarmos posse da raríssima indigo que você é.

Fuyuki gemeu ao ver algo crescendo de dentro da sua barriga, a atravessando enquanto um líquido viscoso escorria lentamente. A lâmina de esgrima escorria um sangue quente e vermelho. Quase pôde sentir seus pés saírem do chão enquanto era erguida no ar. 

O corpo de Shai, antes preso às estacas, havia desaparecido, deixando somente os rastros de seu sangue nas estacas de gelo. Um fio vermelho escorreu pelos lábios dela.

— Por isso, para que a balança não viesse a se desequilibrar ainda mais, para que a sua mísera existência não trouxesse o completo caos… Apenas nos livramos de algumas peças. Coadjuvantes que nada mais eram do que personagens criados para que uma nova indigo, após presenciar o caos, se tornasse parte dele.

Ela tossiu, engasgando com o próprio sangue. Quando foi que a espada tinha descido e acertado sua coxa? E, espera, seu ombro já havia sido perfurado antes?

Tenho certeza de que não perdi a consciência dessa vez. Não foi a mesma técnica… De antes…! Essa é a velocidade normal dele?

Um simples movimento de cabeça para incliná-la a fez ver que a espada tinha subitamente se encravado em seu peito.

— … Ah… Oh… Ugh…!

O sangue escorria de tantos lugares diferentes, haviam tantos buracos e cortes… Não podia falar. Não conseguia se mover. Sequer podia acompanhar os movimentos de Shai. Nem percebia quando a lâmina entrava e saía de seu corpo, apenas percebia tardiamente a dor e o calor desconfortável que a preenchiam.

— Se tivesse apenas aceitado o seu futuro… Aceitado o seu Destino, nada daquilo teria acontecido — disse ele de repente, à sua frente, a vendo de perto. A duquesa quase pôde ver através da escuridão de sua máscara, até suas sombrias íris escarlate. — Tudo teria sido, definitivamente, infinitamente mais fácil.

Aceitado meu futuro? 

Um riso seco escapou da garganta dela. Foi algo estranho e um movimento nada delicado, uma vez que aquilo a fez engasgar de novo com o sangue. Já nem sentia suas pernas direito. Ou melhor, sequer podia mover qualquer parte de seu corpo. 

— Ah, sim. Se eu tivesse aceitado tudo desde o começo, nada disso teria acontecido. Neste momento, eu poderia estar sentada ao lado de um marido multimilionário, em um grande salão para o almoço… Esperando, provavelmente, dois ou três filhos consecutivos. E então, eu me tornaria uma mãe fria, que deixaria suas crianças à mercê das criadas e continuaria a ficar ao lado do “meu homem”... Ah. Vivendo uma vida solitária e sombria, de cabeça baixa e com um sorriso como o seu no rosto.

Fuyuki deixou escapar um suspiro de lamento, quase que cuspindo para aquela visão do futuro. Algo que poderia, ou melhor, que deveria ter acontecido com ela. 

— Mas não aconteceu, e sabe o por quê?

Ainda se lembrava daqueles dias no passado. Dias pretos e brancos, que passavam uns atrás dos outros. Não havia razão para acordar, ou felicidade em abrir os olhos e lembrar que ainda estava ali. Que ainda estava viva. Não havia sentido em se levantar e limpar o rosto, se vestir e forçar que estava bem, que estava feliz e grata por tudo, que sentia muito quando não sentia… 

A mão, trêmula, se ergueu lentamente e se fechou ao redor da lâmina ensanguentada.

— … Porque, um dia, eu descobri que o céu era azul. Eu percebi que as nuvens não eram todas iguais, elas eram brancas e tinham formas diferentes. Ouvi o canto dos pássaros, e consegui distingui-los do resto do mundo. Eu vi pessoas sorrirem para mim da mesma forma que eu sorria para elas… E odiei aquilo. Odiei tudo aquilo.

Um dia, seus olhos se abriram, e ela percebeu que o mundo girava. Que ela respirava, e seu peito inflava quando o ar magicamente entrava por seus pulmões. Percebeu o quão estranho era sentir o coração bater vez após vez ao tocar em seu peito. Sentiu dor quando escorregava, quando era puxada pelos cabelos, quando era estapeada e empurrada… Sentiu raiva. E, então, sentiu um calor aflorar e se espalhar por seu corpo, sentiu seu rosto esquentar e olhos arderem… Sentiu felicidade.

— … Um dia eu me senti viva. E amei tudo isso. 

Um sorriso frágil brotou em seus lábios carmesim. Jamais se esqueceria de nenhum daqueles dois mundos, daquelas duas formas contrárias e quase alucinantes de se viver. Um dia, foi isolada e escondida nas sombras do próprio mundo; No outro, enxergou a luz do sol e chorou ao ver o quão calorosa ela era.

— Foi por descobrir que amava viver que decidi escolher o meu amanhã.

Os dois lados faziam parte dela: A fria e solitária duquesa; a calorosa e gentil Fuyuki. Um misto de duas pessoas que aceitaram a si mesmas, aceitaram seu “eu” atual e decidiram viver, não importando as dores e problemas que o chamado Destino traria.

Mesmo que, depois de terem tirado tudo dela, sobrando somente as lembranças que se tornariam parte de sua penitência por desejar algo proibido, fossem apenas cicatrizes de seu esforço. Fossem as marcas do seu desejo e pecado de mudar.

Os estalos cresceram e o gelo cobriu toda a lâmina da espada de Shai, que lentamente era puxada para fora pela sua mão ensanguentada. O sangue, conforme jorrava do ferimento, ia rapidamente se solidificando ao contatar o ar.

— Não existe um futuro fácil, Shai. Nem para mim, ou para você. É por isso…

A espada tilintou ao sair completamente de seu corpo, e ela engasgou de novo com a dor, mas abriu um sorriso maldoso para ele. O mascarado, sério, a viu congelar totalmente a fina lâmina da espada de esgrima e a estilhaçar como se não fosse nada com as próprias mãos.

— … Que para impedir que qualquer outra pessoa sofra com as mesmas mentiras e justificativas falsas que vocês proferem, me tornarei o caos que tanto temeram!

Uma determinação fluía pelos olhos esmeralda, que assim o olhavam com fúria. Após algum tempo em silêncio, apenas assistindo o desenrolar de suas palavras, Shai deu novamente aquele sorriso vil e teatral que Fuyuki tanto odiava, largando no chão a empunhadura já congelada em mãos.

— Então, venha.

O que se seguiu foi um embate mano a mano veloz e frio. Com ambas as espadas estilhaçadas em gelo, Fuyuki e Shai avançaram um contra o outro e trocaram golpes com as palmas e pernas. A duquesa, é claro, fazia bom uso de seus poderes de gelo para lançar lanças e demais projéteis afiados em sua direção, ao que o mascarado desviava e devolvia ataques com maestria e uma velocidade absurda.

Sangue espirrava para os lados. Dela, que se movia bruscamente mesmo depois de tomar tantos cortes, e dele, que por vezes era cortado pelas grandes ou pequenas estacas de gelo - usadas pela garota como uma faca em mãos. Os passos de Shai recuavam cada vez mais, uma vez que sua arma havia sido tirada dele e só lhe restara um combate diferente para sobreviver.

Mas, embora estivesse claramente na desvantagem, embora visse o chi daquela garota… Não, daquela mulher chamada Fuyuki Minami apenas crescer conforme o tempo, sem se esgotar, um sorriso de animação se alargava em seu rosto. Risadinhas escapavam enquanto trocavam golpes. Enquanto era, por vezes, cortado e tapeado. 

Nenhuma vez sequer, a partir daquele ponto, ele voltou da morte.

Tomando espaço mais uma vez, o mascarado cambaleou para trás e assobiou, ignorando todos os grotescos ferimentos pelo corpo. 

— Acabou, Autoridade — disse Fuyuki, apontando a pequena estaca de gelo que segurava com as mãos para o rosto do homem.

Shai, por sua vez, ergueu as mãos ensanguentadas e já sem forças para a duquesa, ainda em estado decente para tanto tempo de luta. Vendo-a daquele jeito, juntando as sobrancelhas com raiva para ele, mas também ferida, outra risada escapou de sua garganta. Desta vez, mais alta e clara.

— De fato, de fato! Você era alguém capaz de mudar tudo, não é?

Então, ele suspirou, ainda sorrindo largamente quando abriu os braços.

— E, ainda assim, vai precisar lidar com as consequências disso. Apenas natural.

O pé dele escorregou.

— … Mas a morte segue sendo imutável.

Fuyuki, percebendo as intenções dele após se jogar do penhasco de costas e braços abertos, correu até a beira e olhou para baixo. O oceano azul ricocheteava as pedras com grandes ondas, aguardando sua queda para, assim, levar embora seu corpo que em breve seria estraçalhado…

— NEM PENSAAAAAR!!

O grito que veio de cima fez Shai abrir os olhos, e então tossir quando a espada cristalizada cravou em seu peito, batendo contra algo sólido no chão. Fuyuki, saltando atrás dele, conjurou novamente a arma para matá-lo com as próprias mãos.

Abaixo de ambos, o gelo rachou com a lâmina o atravessando. A empunhadura chegou a entrar no corpo do homem, que espirrava e tossia sangue. Mas como era possível? Ele devia ter caído em direção à água. Como foi que…

— … As ondas… Congela… ram?

Quase que falando para si mesmo, Shai assim observou ao virar o rosto e perceber as grandes ondas os envolvendo quando toda a água solidificou. Com apenas um salto, apenas um mísero pequeno fragmento de tempo, Fuyuki congelou todo o oceano até onde a vista alcançava.

— … Hah. Explên-... dido…

Ele engasgou, dessa vez mais forte, e quase não pode expressar sua surpresa para com o cenário belíssimo proporcionado pela garota índigo. Um mundo branco, em que neve caía e era fitado por olhos esmeraldas frios.

Os dedos de Fuyuki se apertaram na empunhadura da espada ao perceber o gelo começar a se abrir debaixo deles. A rachadura lentamente foi permitindo que a cobertura de gelo se separasse, e a água começasse a inundar a superfície…

Um som de rasgo. Então, foi só ali que percebeu o grande corte na testa do mascarado, anteriormente feito durante a luta, mas que acabou rasgando junto de sua pele a máscara. Ela, após a queda do portador, se abriu por completo e deslizou pelo rosto dele.

Os olhos esverdeados dela refletiram as íris vermelhas e sombrias dele. 

— … Você cresceu muito.

Shai deu um último sorriso antes de cair nas águas profundas e congeladas. Seu corpo afundou, congelando até a morte, enquanto era observado por uma Fuyuki de expressão amarga e lábios trêmulos.

— Agora sim acabou… Não é?

Ela assim sussurrou, erguendo o rosto e suportando o aperto repentino na garganta, antes de cair de joelhos e começar a chorar. Um pequeno feixe de luz do sol se abriu nas nuvens cinzas, caindo sobre seu corpo ajoelhado, iluminando as lágrimas que escorriam uma atrás da outra por seu belo rosto.

Acabou, finalmente… Mãe.



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