Ultima Iter Brasileira

Autor(a): Boomer BR


Volume 1

Capítulo 18: Sanidade Hedionda

 

O cenário que foi revelado após abrir a porta era um grande laboratório, que chegava a ser tão colossal quanto a biblioteca.

Estantes altas com pilhas de folhas e livros, uma iluminação meio fraca e mesas com frascos lacrados, além disso também vi muitas escadas para andares superiores com mais e mais estantes.

A atmosfera mudou totalmente quando dei um passo afrente.

Passos. Passos.

— A-aqui também tem muitos livros... — comentei olhando para as capas de diversas cores e títulos nas estantes.

— De fato, é porque esse local foi feito logo ao lado da biblioteca, para facilitar o trabalho dos pesquisadores em caso de terem de estudar alguma coisa ou fazerem anotações importantes. Muitos dos livros da biblioteca são criações próprias dos pesquisadores daqui.

“Essa família deve ser bem rica mesmo, até tem um centro de pesquisas capaz de criar livros sobre suas descobertas... deve ter sido os olhos da cara!”

Com esse meu último pensamento prosseguimos o Tour pelo laboratório onde conheci alguns pesquisadores — que por sinal eram bem estranhos — e fui introduzido a algumas tecnologias desse mundo como uma espécie de computador alimentado por energia Vitalis condensada, chamada de Vyer.

O processo para gerar a tal da energia Vyer era realmente bem conturbado.

A senhorita Hordrik apenas me disse que era preciso juntar vários usuários de Vitalis, eles concentram suas energias em um catalizador.

Demorava semanas até que o catalisador estivesse cheio de energia para ser condensada e liberada ao uso.

— E-espera um minuto... — Interrompi a explicação que ela estava dando com seu olhar frio.

— Diga. — pôs a mão na cintura com um rosto incômodo.

— Você disse energia Vitalis né? E-então as pessoas que concentram a energia no catalizador... tem seus pontos de vida consumidos quando fazem isso? 

A empregada vestindo um terno elegante me encarou com seus olhos frívolos sem dizer nada por alguns segundos e então, deu um suspiro.

— Sim, isso é óbvio. A energia Vitalis é provida do seu HP.

— M-mas então é praticamente a mesma que o império, o senhor Kaylleon disse, que os mais pobres eram escravizados e no fim do processo morriam, é-é meio que igual. — argumentei em um tom meio aflito.

— Não tem jeito, — A senhorita Hordrik se aproximou com uma face impaciente, — acha mesmo que há maneiras fáceis de conseguir o que quer nesse mundo Jack? — indagou ela agarrando minha gola firmemente.

Gh! Ca-Calma eu...

Minha voz apenas congelou perante os olhos azulados sem nenhum tipo de emoção, me encarando profundamente.

Um arrepio subiu pelo meu corpo quando ela mexeu seus lábios novamente, dizendo: — Mesmo que os métodos do império sejam semelhantes, nós em hipótese alguma matamos os mais fracos para chegar em nossos objetivos, aqueles que cedem parte de sua vitalidade para o catalisador estão bem, eles não são tratados como lixos, feitos de escravos e no fim de tudo mortos por terem trabalhado de forma inadequada perante áreas de perigo.

Eu senti a mão dela ficando mais firme e logo, meus sapatos saíram do chão, fui erguido.  

— T-tudo bem! E-eu entendi, desculpa! — toquei o pulso dela um pouco assustado.

“Droga! O que diabos eu tô pensando fazendo comentários de merda como esses? É claro que a senhorita Hordrik ficaria brava... afinal ela faz parte da mesma guilda que Incis faz.”, me desesperei sentindo todo meu corpo sendo segurado pela mão da empregada.

— Eu só salvei você por que era minha obrigação... então trate de controlar essa sua língua afiada. — completou ela soltando-me com um empurrão brusco.

Hgnh!

Vupt!

Escorregando para trás todo o meu corpo despencou.

O quão forte essa mulher poderia ser?

Sua personalidade fria poderia apenas ser uma máscara para a real natureza dela... sim, foi definitivamente isso que senti. Minha visão se borrou no mesmo instante em que a queda foi parada pelo impacto em minhas costas.

Foi então que um som estridente percorreu pelo laboratório.

Frascos de vidro caíram sobre o chão enquanto respingos reluzentes se espalharam para todos os lados.

— E-está... bem? — perguntou Misa Hordrik com uma face meio sem jeito, talvez estivesse arrependida.

Ugh... a-acho qu... — minha voz foi interrompida pela sensação que irradiou pelo meu corpo.

Meu coração parou. Um pó reluzente emergiu dos líquidos no chão, eles se guiaram pelo ar na minha direção, como uma serpente.

Ventania!

A-aaargh!

Meu corpo apenas se debateu com a dor aguda equivalente a uma agulhada no centro do peito.

— S-senhorita Hordrik, algum problema?! — Um dos pesquisadores que estava próximo se alarmou.

Passos! Passos!

— Hartseer, controle-se! — exclamou Misa Hordrik ao se agachar e agarrar meus braços.

Minha visão embaçou, meu corpo saiu do controle e minha mente... havia quebrado novamente.

Flashes de visões passaram por mim em milésimos de segundos.

Sangue, lâminas, gritos de dor e agonia.

No fim do túnel repleto de memórias desconhecidas havia uma garota, seu rosto triste e suas lágrimas de angústia fizeram meu peito doer.

“Apesar de tudo... você ainda tentou me salvar, que idiota.”, disse a menina.

A mesma voz, a mesma frase, essa maldita frase!

A garota estava nos braços de alguém... nos meus braços.

Além de dizer isso seus lindos olhos se selaram, caindo num profundo e eterno sono, o sono da morte.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH

Meu grito de terror e desespero ressoou por todos os cantos enquanto eu tentava me soltar das correntes de dor e agonia. Eu já havia escutado essa voz várias vezes desde que cheguei nesse mundo, porém dessa vez foi muito mais perturbador do que antes.

Assustador.

A face triste de alguém morrendo em meus braços, o sangue escorrendo pela lâmina no chão... e o luar que consolou aquele momento.

O que diabos eu tinha feito? Por que ver essa garota era tão... desconfortável, tão sofrido?

Shishi! Não fuja do seu passado Jack... saiba que fizemos um trato. A dor agora é sua companheira, eu sou seu companheiro! — disse uma voz destorcida no fundo da minha consciência.

Era ele novamente.

Em poucos segundos os meus arredores não passavam de um vale de sombras retorcidas, oscilando como fumaça, balançando igual ondas do mar, o abismo.

— C-cala a boca... — Meus lábios tremiam quando eu respondi a entonação.

Shishi... Shiahahaha! — Sua risada doentia e despreocupada assolou todos os sentimentos que ainda sobravam dentro de mim.

Meu corpo apenas se encolheu num movimento inconsciente, ficando em posição fetal no meio do vale de sombras.

— Não aja como se nós nunca tivéssemos nos encontrado antes Jack.

Quando parei pra prestar atenção, já estava diante de mim, erguido com suas mãos relaxadas nos bolsos... minha segunda face, o meu Alter Ego.

Seus olhos brilhando em dourado e seu sorriso debochado fizeram-me morder os lábios em desespero.

“Abyssus...”, meus pensamentos se remontaram sobre a imagem que meus olhos vislumbraram.

Ventos gelados percorriam pela planície de grama queimada, a neblina escura e os céus carmesins oscilavam com movimentos crepitantes.

Eu? Quem era eu? Quem era aquele ser diante de mim afinal? eu e ele podíamos ser apenas um?

Nossos corpos eram iguais, porém algo ali era divergente, talvez nossos ideais ou até mesmo algo mais profundo que isso.

— O-o que você quer?

Os olhos reluzentes de Abyssus não possuíam nada perante a minha pergunta, apenas um vazio dourado capaz de engolir qualquer pingo de emoção presente em um ser.

— Não se finja de idiota, sabe bem que agora nós estamos juntos nessa caminhada, estarei sempre aqui para se lembrar de quem realmente é, do lixo de pessoa que se tornou... — ele se agachou diante do meu olhar assustado com seu sorriso debochado, — mas o mais importante, vai se encontrar com aquela vadia chamada Incis, até lá trate de repensar bem sobre como ela se sente Shishi! — completou.

Incis... ela realmente tinha muitos motivos pra ficar abalada depois de tudo o que houve, eu soube bem disso mais do que ninguém, porém eu mal sabia se o senhor Kaylleon estava bem.

— Chega disso... s-some... — Tentei juntar palavras com os lábios tremendo.  

Shishi! — Abyssus segurou uma leve risada entre seus dentes, — que patético, sabe eu odeio ser você, odeio tudo sobre você, porém até mesmo um merdinha assim tem um legado. Lembre-se do seu real objetivo Jack... da sua real... natureza.

Após deixar essas palavras frias de desprezo ele sumiu como fumaça, a neblina negra cobriu-me por completo.

“Socorro...”, era o que eu queria dizer, mas meu corpo apenas não conseguia.

Um aperto no coração, um nó na garganta, um frio na barriga e a sensação de mil agulhas perfurando cada canto do meu corpo.

“Eu sou um... lixo?”, foi meu último pensamento antes de ser emergido do mar de negatividade.

— Jack! — gritou a empregada de terno na minha frente.

H-huh?

— E-está tudo bem? — perguntou Misa Hordrik com uma feição fria e seu tom parcialmente preocupado.

Os pesquisadores limpavam a sujeira que fiz ao esbarrar na estante de frascos.

Minha respiração voltando ao normal, minha mente se instabilizando e o pequeno receio que sobrou no fim.

— D-desculpe, eu falei merda... — Desviei o olhar em desconforto me erguendo do chão ao bater a poeira.

Misa Hordrik me olhou sem dizer nada por alguns segundos e então ergueu-se com um suspiro. Seus longos cabelos negros se realocando por cima dos ombros assim como sua pequena gravata negra caindo por cima de seu abdômen.

“No fim foi minha culpa, eu praticamente acusei a guilda de usarem os mesmos métodos sujos do império... eu deveria calar minha boca.”, pensei meio aflito.

H-hm... tudo bem então, mas estarei dando uma avaliada no que houve aqui, parece que esses líquidos soltaram uma substância e você a inalou, está tudo bem mesmo? Desculpe por isso.

Ela me fez esse questionamento e nem me deixou responder, apenas virou suas costas começando a caminhar novamente.

— De qualquer modo, vamos continuar o Tour. Já estamos quase acabando, poderá descansar logo. — completou Misa Hordrik indo embora calmamente.

“Nem pedir desculpas ela sabe... se ferrar.”, praguejei ela internamente.

Click!

Um som abrupto irrompeu meus pensamentos.

Foi então que um painel vermelho subiu diante dos meus olhos, iluminando minha face inquieta.

[Sua sanidade sofreu 5% de corrupção!]

— Q-quê?

Outro acontecimento abrupto que por ventura mudaria tudo novamente.

“Eu realmente nunca tive uma cabeça muito boa, mas... isso aqui é normal?”, me perguntei com os olhos encarando o painel flutuante que por algum motivo, ninguém aparentava ver além de mim.



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