Um Alquimista Preguiçoso Brasileira

Autor(a): Guilherme F. C.

Revisão: Dante


Volume 1

Capítulo 14: Rua da Confusão?

Depois que Xiao Chu foi embora, Xiao Ning pegou o saco de panos que tinha deixado no chão e conferiu o pote de vidro. Por sorte, continuava intacto. Não havia nem mesmo um único rachado. Sentindo-se aliviado, ele caminhou até o garoto, que permanecia ajoelhado no mesmo lugar. Apanhou a cesta de bambu e disse à Xiao De:

― Aqui, sua cesta.

Xiao De olhou para ele de baixo, virou a cara e bateu a cabeça no chão.

― Obrigado, salvador! Obrigado! ― agradeceu de todo o coração.

― Não precisa agradecer tanto. Apenas se levante. ― disse Xiao Ning, acenando com a mão em um gesto suave. ― A propósito, meu nome não é salvador, é Xiao Ning.

― Xiao Ning... ― murmurou Xiao De, que teve o leve sentimento do nome não ser estranho. Quando enfim se lembrou. ― O vagabundo? ― exclamou, parecendo surpreso.

― O próprio! ― afirmou, assentindo com a cabeça. Ele não ficou nem um pouco chateado em ser chamado dessa forma.

Ah! Perdão. Eu não quis chamá-lo de... ― percebendo a descortesia com que tratara seu salvador, Xiao De já estava para se prostrar mais uma vez, mas foi impedido antes que o fizesse.

Ahh, não precisa se desculpar de novo. ― resmungou Xiao Ning. ― Eu não ligo para a forma com que me chamam.

― ... Entendo! ― Aliviado, Xiao De enfim se levantou. Ele ainda tinha uma expressão assustada em seu rosto e havia sangue escorrendo por sua testa. No entanto, antes de se preocupar com essas pequenas coisas, precisava ter certeza de que o conteúdo da cesta estava seguro.

Xiao De abriu a tampa de bambu e olhou para dentro da alcofa, enquanto balançava a cabeça continuamente. E quando teve a certeza de que tudo se encontrava em seu devido lugar, soltou um suspiro. Havia se dedicado tanto para juntar aquilo.

Conforme Xiao De ainda tentava se acalmar do susto que passara, um par de mãos ligeiras, sem qualquer aviso, arrancou-lhe a cesta dos dedos.

― Deixe-me ver o que tem aqui. ― disse Xiao Ning, empolgado, enquanto arrancava a tampa de bambu. Tinha um bom pressentimento quanto ao conteúdo.

Ele já estava ficando louco para descobrir o que tinha lá dentro. Pela Energia familiar e intensa sendo exalada, sabia que existia uma boa quantidade de Ervas, mas precisava checar com os próprios olhos. Esse era o mal de um Herbalista e Alquimista. Quando viam uma Erva Espiritual interessante, não conseguiam se conter.

Oh! Eu não acredito que há tantas! Como que você conseguiu pegar tantas Damas Clementes? ― perguntou, com olhos brilhantes, não conseguindo tirar a atenção da cesta.

Dentro da alcofa de bambu, havia quase uma centena de Damas Clementes. Com essa quantidade seria possível fazer centenas de poções de cura, entre outras coisas. Para um alquimista fanático como Xiao Ning, esse sim era um verdadeiro tesouro, digno de cobiça.

― É só procurar nas partes em que ninguém olha. ― respondeu Xiao De, com sinceridade e um tom de modéstia. Ele não podia mentir para seu salvador.

― Só procurar na parte em que ninguém olha, hm... ― murmurou Xiao Ning, olhando para Xiao De com um olhar duvidoso e ao mesmo tempo demonstrando certo interesse. ― Ahahaha, de fato! ― sorriu divertidamente. Embora soubesse que não era assim tão simples. Em seguida, ele tornou a entregar a cesta para o dono legítimo e perguntou. ― O que você vai fazer com essas flores?

― Eu vou vendê-las, por quê? ― Recebendo o fruto de seu trabalho duro de volta, Xiao De abraçou a alcofa usando uma força consideravel, para garantir que não seria roubada uma terceira vez.

Ah, veja bem! Eu também tenho algumas Ervas aqui. ― bateu no saco de pano. ― E queria vendê-las, o problema é que eu não sei onde.

― Nesse caso, você deveria ir ao Armazém do Caos. Fica perto do centro da cidade e eles compram de tudo por lá. ― informou Xiao De, de boa vontade.

― Até mesmo partes de monstros? ― indagou Xiao Ning, que também não fazia ideia de onde venderia a pele e as presas do Javali de Pelos Vermelhos.

― Também!

― Entendo, isso é bom! Obrigado pela informação. ― agradeceu Ning. Agora, sabendo o nome do lugar no qual poderia vender suas coisas, ele não tinha mais com o que se preocupar. ― De qualquer forma, nos despedimos aqui, ainda tenho que caçar alguns monstros. ― dizendo isso, ele se virou e começou a se afastar.

― Espere! ― De repente, Xiao De chamou. ― É melhor não subir a montanha. Hoje não é um bom dia para caçar.

― O que você quer dizer?

― Está vendo aquela nuvem densa e escura no topo? ― Xiao De apontou e Xiao Ning seguiu a linha traçada por seu dedo.

A Montanha Ancestral de Jade estava ensolarada, sem uma única nuvem perturbando o céu. Poderia se dizer que fazia um belo dia na Cidade da Fronteira do Caos.

No entanto, no topo da montanha, como se fosse atraída por aquele lugar, nuvens densas e escuras descarregavam relâmpagos a todo momento, mas estranhamente, os estrondos que deveriam ser causados pelos trovões morriam em breves instantes, sem causar grande alarde nas partes mais baixas.

Óbvio, algo tão chamativo, não havia escapado dos olhos de Xiao Ning. Mas esse clima estranho era normal na Montanha Ancestral de Jade. Por isso, ele não deu muita importância.

― Eu não sei o porquê, mas quando as nuvens ficam daquele jeito, as Bestas Demoníacas se escondem. ― explicou Xiao De. ― Mesmo que procure o dia todo, não encontrará nada.

― Então é assim... ― murmurou Xiao Ning, olhando intrigado para o topo do monte.

Ele tinha vindo até aqui caçar monstros para poder juntar dinheiro para comprar um novo Caldeirão Encantado. Mas ao que parece, teria de voltar para casa de mãos vazias.

É claro, poderia continuar juntando Ervas. Só isso seria o suficiente para arrecadar uma boa quantia. Entretanto, dessa forma não treinaria suas Chamas da Essência, que era o outro motivo pelo qual havia optado pela caça aos monstros.

Percebendo que não havia muito a ser feito, Xiao Ning soltou um suspiro pesaroso, deixou os ombros caírem e perguntou a Xiao De:

― Você vai voltar para o território da Família agora?

― Vou sim.

― Nesse caso, vamos juntos.

E assim, os dois desceram a montanha juntos...

De volta ao território da Família Xiao, Xiao Ning voltou direto para a casa. E Xiao De foi sabe-se lá para onde.

Já em seu quarto, ele colocou a faca sobre a mesa de bambu ― guardaria para outra ocasião ― e enfiou a pele e as presas do Javali de Pelos Vermelhos dentro do saco junto ao pote de vidro contendo as Ervas Espirituais. Como não poderia caçar Bestas Demoníacas, iria para a cidade vender o pouco que tinha juntado.

Então, com as roupas ainda sujas da luta ― as únicas que tinha ― e carregando um saco de pano, o qual liberava um cheiro estranho e desagradável de carne crua, Xiao Ning partiu rumo ao centro da cidade.

Apesar de ficar em uma região perigosa, a Cidade da Fronteira do Caos era um lugar movimentado. Comerciantes passavam por essas bandas a todo o momento. Alguns vinham comprar Ervas raras ou partes de Bestas Demoníacas necessárias em alguma medicina e outros só estavam de passagem, pois a capital do Império Dourado, Reluzente, ficava mais à frente.

Obviamente, quem mais desfrutava desse comércio eram as quatro Famílias: Xiao, Xu, Zhan e Qin. Que governavam a região, protegendo a população da imprevisível Montanha Ancestral de Jade e da mortífera Floresta das Mil Perdições.

Seja como for, a Cidade da Fronteira do Caos era um lugar animado, repleto de pessoas e com um mercado rico.

Nesse momento, Xiao Ning cruzava um imponente portal dourado, guardado por dois guardas no Reino Virtuoso, que separava o território da Família Xiao do resto da cidade.

― Para que lado fica o centro? ― perguntou à um dos guardas. Ele carregava nada mais do que o saco de panos. A lança tinha ficado no quarto e o jarro de vidro, contendo as Ervas, estava enrolado na pele do javali.

Antes de responder, o guarda lançou um olhar estranho para Xiao Ning. Que tipo de idiota não sabia onde ficava o centro do lugar em que morava? Depois de um tempo, por fim respondeu:

― Para lá! ― apontou para a direita.

Xiao Ning agradeceu, com seu sorriso descontraído de sempre e seguiu a direção indicada.

Assistindo o garoto se afastar, o guarda que fora questionado olhou para o companheiro e perguntou:

― Quem era aquele? ― Ele nunca tinha visto um rosto mais preguiçoso em sua vida. Apesar de já estar na 4ª Camada do Reino Mundano, seus ombros eram arqueados e a coluna torta, como se andar fosse algo difícil, para não dizer entediante.

Ah, aquele? É o filho de Zhuang. ― respondeu o outro guarda de aparência um pouco mais velha.

― O garoto que todos chamam de vagabundo? Ouvi dizer que nunca sai de casa.

― Eu também! ― assentiu o companheiro, em concordância. ― Talvez tenhamos presenciado uma ocasião extraordinária.

Os dois sorriram e continuaram falando do garoto que todos chamavam de vagabundo. Não havia como culpá-los. Quando se fica num lugar entediante feito aquele, é normal procurar algo para se distrair.

Xiao Ning vagarosamente arrastou o corpo rumo ao centro da cidade. O local no qual se encontrava agora era um dos distritos residenciais, portanto, tudo o que se via eram crianças brincando aqui e ali, nada muito anormal. Mas para alguém igual a ele, que nunca saia do território da Família Xiao, nem mesmo na vida passada, a vizinhança era um lugar exótico, decorado com paisagens pitorescas. Por isso, sem muita pressa, continuou seu caminho, contemplando seu entorno.

Depois de andar por algum tempo e cruzar uma ponte em forma de arco, Xiao Ning se viu em um lugar movimentado, digo, verdadeiramente movimentado. Carruagens iam e vinham de todos os lados. Nas ruas largas, que se tornaram apertadas devido ao grande número de pessoas, barracas eram vistas nos dois cantos enquanto comerciantes gritavam a plenos pulmões.

― Fruta da Alma! Fruta da Alma! Purifica os galhos da Anima! Restam somente duas! 5 moedas de ouro cada!

― Ervas pelo de gato, afasta os monstros! 10 gramas por 15 moedas de bronze!

― Chifres de Antílopes de Canela Cinza! Uma prata o par!

Xiao Ning caminhou entre a multidão, olhando de um lado para o outro. Era um festival de gritarias. Ervas e Frutas Espirituais eram vistas aqui e ali, algumas verdadeiras, outras não. Também se via carnes entre outras partes de Bestas Demoníacas estendidas sobre bancadas de madeira, assim como pedaços das raras Feras Mágicas.

Havia até mesmo Técnicas de Combate sendo vendidas. Se eram verdadeiras ou não, isso era um mistério, já que o vendedor insista em deixá-las lacradas, pois vai que alguém bom de memória as roube, não é mesmo?

De fato, existia de tudo e mais um pouco ali. Enquanto andava, Xiao Ning a todo instante era parado por algum mascate. Mas quando dizia não ter dinheiro os malandros saiam correndo, mais rápido do que se estivessem sendo perseguidos por uma Besta Demoníacas. Perder tempo com um pobretão, quem seria o louco?

Contudo, para Xiao Ning, isso não fazia diferença, pois o que de fato queria era encontrar o tal Armazém do Caos. Ele virou aqui, nesta rua cheia de restaurantes. Contornou ali, na área das hospedarias. Mas nada de armazém. Perguntou algumas pessoas, entretanto, a maioria era de fora, de um lugar distante. E quando enfim encontrava um local, ficava ainda mais perdido. Porque eles diziam algo mais ou menos assim:

― Você tem que virar na primeira à direita, na Rua da Bagunça, e então você vai chegar na Rua do Barulho, chegando lá, você desce para a Rua da Confusão, anda mais uns cinquenta metros, e então chegou. Entendeu?

Confuso com tantos nomes estranhos, Xiao Ning não tinha outra escolha senão acenar a cabeça, dizendo “Sim. Eu entendi!”, embora permanecesse atordoado pelas coisas esquisitas que acabara de ouvir. No entanto, quando percebia o erro, a pessoa já tinha ido embora. E ao perguntar à próxima, a explicação era a mesma:

― Você tem de virar na primeira à direita, na Rua da Bagunça...

Que diabos de nomes eram esses? Em seus cinco mil anos de idade, nunca ouvira mais estranho. Como alguém cujas saídas se resumiam a um cochilo no sopé da montanha, ele nunca tinha percebido antes, mas que cidade estranha era essa na qual morava, certo?

Não se sabia ao certo quanto tempo havia se passado, quando por fim encontrou uma placa que dizia “Rua da Confusão”. E devo dizer, fazia jus ao nome.

A Rua da Confusão era onde os bares estavam. Só de chegar perto era possível sentir o cheiro forte e inebriante de álcool e urina invadindo as narinas. No chão, viam-se cacos de vidros de garrafas de vinho, espalhados por todos os lados. Por sorte, os bares estavam fechados, então não havia nenhum bêbado causando problema, apenas alguns letárgicos, desmaiados nos cantos ou embaixo de um banquinho de madeira.

E como lhe foi dito várias vezes, ao chegar à Rua da confusão, Xiao Ning andou mais uns cinquenta metros. Porém, antes mesmo de percorrer o caminho, ele já podia ver um enorme galpão, com letras gigantes, pregadas no alto de um portal contendo os dizeres “Armazém do Caos: compramos barato e vendemos caro”. Algo raro nos dias de hoje, um comerciante honesto.

Com o saco de pano nas costas, ele entrou no armazém.

Para sua surpresa, do lado de dentro, viam-se dezenas de pessoas. Algumas carregavam corpos inteiros de monstros, outras arrastavam grandes cestas de bambu ou de vime. E junto a cada uma delas havia uma mulher ou homem sorrindo amigavelmente, e o que todos eles tinham em comum era a túnica marrom padronizada cobrindo o corpo.

Com Xiao Ning não foi diferente, no segundo em que entrou, um homem se aproximou, deu-lhe um sorriso cortês e enunciou:

― Boa tarde, querido cliente! Deseja comprar ou vender?

― Comprar... vocês vendem Caldeirões Encantados? ― perguntou Xiao Ning, que não conseguiu se conter.

― Lamento desapontá-lo, mas infelizmente não. ― O atendente deu um sorriso sem graça e balançou a cabeça. ― Nossas especialidades são Ervas Espirituais e Bestas Demoníacas.

― Nesse caso, eu gostaria de vender. ― disse Xiao Ning, mostrando o saco de pano.

― Sendo assim, por aqui, por favor.

 


Niveis do Cultivo: Mundano; Despertar; Virtuoso; Espirituoso; Soberano do Despertar; Monarca Místico; Santo Místico; Sábio Místico; Erudito Místico.

 


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