A Lenda do Destruidor Brasileira

Autor(a): Pedro Tibulo Carvalho


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 19: Sede

Ittai olhava para a mata, o ranger da cadeira de balanço era a única companhia que o velho conseguira. Soltou um suspiro pesado com a ausência de vida no lugar. Olhava para o lugar onde Ethan treinava enquanto se sentia saudosista.

Ainda podia ver o garoto caindo no chão com o esforço, o cheiro de suor e o som de xingamento, seguido pelo esforço e corte da madeira no ar traziam uma pequena e solitária lágrima.

Um som o tirou da terra das memórias e o forçou a olhar para o alto. Chegava perto de si uma bela ave, com penas laranjas como a brasa, bico amarelado e asas de grande envergadura e três belas caudas plumadas.

— Fausto? — Estendeu a mão para a ave, que pousou com um último bater de asas. Ittai ignorou a poeira que se espalhou para focar no pedaço de pergaminho amarrado nas pernas negras da fênix. — O que faz aqui?

— Tenho uma mensagem para o mestre Ittai arght. — A voz esganiçada do pássaro irritou os ouvidos de Ittai, que mantinha a atenção no pedaço de pergaminho. — Meu mestre soube que vai ver o exame arght.

O velho alisou a barba enquanto considerava o que aquilo podia significar para si. Uma vez mais, suspirou com incredulidade ao ver a velocidade que as notícias se espalhavam no Mundo Livre.

“Sério… o Reino dos Mineradores não ficava na Zona Salteada?” O velho lembrou de sua fama, mas não esperava que todo o Mundo Livre já soubesse de seu aprendiz. Pegou o pedaço de pergaminho e começou a ler enquanto sentia mais e mais raiva a cada linha.

— Parece irritado, arght. Peço que considere bem a resposta arght.

Rasgou o papel e então usou Ignire para incendiar o restante, enquanto olhava irritado para o pássaro a frente. O mesmo coçava a cabeça com a pata, sem qualquer preocupação aparente. — Diga para aquele moleque do Sigurd que não o treino por nada nesse mundo!

— Tem certeza arght? Mestre Sigurd é muito rico. Pode ajudá-lo em sua vingança, arght. — Pegou a ave pelo pescoço, a raiva borbulhava dentro de si. Mesmo naquela posição, Fausto se manteve calmo, com um leve traço de satisfação nos olhos negros. — Vá em frente, arght. Mate o mensageiro.

— Cale-se, seu plumado inútil.

Nisso, lançou a Fênix para longe enquanto ignorava o grasnar irritante do animal, que partiu para longe de si enquanto cantarolava sobre Samurais e guerras antigas.

 

Hector cortava, desviava e avançava, mas, para a sua frustração, o oponente não tinha problema algum em se proteger. Contudo, mesmo que desse o melhor de si, reparou em algo estranho.

Jack, que tinha total controle de onde o ladino pisaria, parecia deixar apenas um caminho livre. Mordeu o lábio em receio.

Desviou de outro corte enquanto olhava para as runas que prendiam o Rei. “Merda! Eu sei que é uma armadilha, mas…” Pousou no chão enquanto avaliava as opções que tinha.

O guerreiro atacou de novo e de novo, mas havia algo estranho naquilo tudo. “Seus ataques… estão mais lentos.” Desviou de outro corte e pulou para salvar as pernas enquanto analisava tudo o que viu até então.

Aterrizou na espada imensa e chegou numa conclusão. “Acho que… vale a pena arriscar.” Correu pela extensão da arma com certo nervosismo, que se intensificou com a velocidade que a arma foi levantada.

Foi lançado para frente, mas sorriu com alegria. Estava certo.

— Mire em meus inimigos e acerte-os… Magicae Sagitta! — Com o brilho azulado, os três projéteis mágicos atingiram em cheio as runas que enfeitavam o chão, o que causou uma reação em cadeia.

— O que?

Sigma desviou da espada de luz de Alvaro antes que tivesse a chance de processar o que houve. Protegeu-se com a espada e pulou para trás. Irritado, virou-se para Jack e Hector, mas precisou desviar novamente.

— Então é isso? O motivo de me odiar tanto é a merda de um trono? — O Rei dos Ladrões permitiu que o seu poder preenchesse a praça central enquanto encarava o Infernal. — Não importa… vamos resolver isso de uma vez por todas!

Ativou o Segundo Ciel e correu em direção à Sigma, que se protegia da melhor forma que conseguia. Aquela batalha começou a se mover para longe, o que trouxe alívio para os Bandidos.

— Então… vamos continuar? — Jack olhava para a multidão que vinha e que abria caminho, o que irritou Hector. Odiava ser ignorado.

— Não… sinto muito, mas uma presa mais interessante acabou de chegar.

Aquele que liderava a multidão ergueu a espada, estava muito feliz por enfim chegar até ali.— Vamos resolver isso de uma vez por todas… Jack!

Hector abriu a boca, incrédulo com a visão a frente. Ethan se mantinha de pé com clara fraqueza, tremia com o menor vento, mas parecia tranquilo e confiante.

Era inacreditável.

Soltou um suspiro aliviado e se deixou relaxar. — Ethan! É melhor vencer! — Deu as costas para o amigo, decidido a confiar nele. Foi para um telhado qualquer, sentou-se e relaxou os músculos.

Gemeu com o alívio que era fechar o primeiro Ciel e voltar a um estado mais normal do corpo. Nisso, olhou para os dois abaixo de si com um pouco de preocupação, mas confiança.

“Se você morrer, eu te mato…”

 

— Enfim, aí está você… — O olhar de Jack media cada centímetro da forma frágil de Ethan, o que causou certo desconforto. — Devo admitir, eu gosto do que estou vendo. Mesmo fraco, continua me encarando com toda a força e raiva que consegue usar…

— Antes de começarmos, eu tenho uma pergunta. — Começou a caminhar com calma e segurança renovadas. — Por que não me matou quando teve a chance?

Estreitou os olhos com a gargalhada do guerreiro, que se mostrava feliz. Não pôde deixar de sorrir com isso, sentia-se vivo e poderoso enquanto lutava e sabia que essa luta seria prazerosa.

— Por favor. Ambos sabemos que você sabe o porquê… somos iguais, sabe? — Levantou a espada enquanto sentia o sangue dentro de si ferver. — Meu mestre dizia que os olhos não mentem. Seja numa luta ou na vida, é possível conhecer alguém só pelos olhos… e sabe o que eu vi nos seus olhos?

O som de ferro contra ferro não os incomodava. A batalha continuava e os bandidos que Ethan trouxe ajudavam os Imperialistas, o que causou mais uma mudança no campo de batalha.

— Um desejo intenso de se provar… de não fraquejar… mas, acima disso, uma sede por batalha que não pode ser explicada. Tão forte quanto o choro de uma criança por sua mãe, você clama pela batalha, pois ela é sua verdadeira casa!

Desviou o olhar, que vacilava. Não conseguia negar aquelas verdades e isso o assustava. Por mais que a culpa o consumisse, sabia que aquelas palavras serviam bem para si.

— Bem, isso pouco importa. Somos almas parecidas, buscamos a emoção da batalha… agora, vamos parar de enrolação!

 

Maximillian encarou o monarca a frente com receio. Fazia um tempo desde que não sentia medo, o que só mostrava a força do inimigo.

— Está satisfeito com o que fez? — Alvaro questionou, a Aura ao seu redor começava a se tornar mais e mais densa, até que formou a imagem de um estranho homem, com asas de uma pomba branca invés de braços.

“Então… ele decidiu ficar sério.” Segurou a Katana e permitiu que a energia ao redor moldasse uma forte chama, que assumiu a forma de um Gigante de gelo, atormentado pelo calor. — Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa… foi a teimosia de seu pai e avô que forçaram essa situação.

Nisso, nenhum dos dois moveu um músculo sequer. Ambos observaram o adversário, ambos buscavam algo que os desse alguma vantagem.

Os dois eram mestres, por isso, sabiam bem que um erro significaria a morte.

Continuaram assim por alguns segundos, observavam cada contração muscular do adversário. O foco era tamanho que os dois podiam “enxergar” os próximos movimentos que o adversário considerava.

“Eu venci!” Num instante, Sigma correu em direção ao Rei, que não mostrava nada além de apenas uma coisa.

Apenas um caminho.

Empurrou sua Katana na direção da garganta, a lâmina de Luz defletiu o ataque, mas Sigma mostrou maestria no trabalho de pés.

Por saber o que aconteceria a seguir, usou da força do rei, junto com a agilidade, para ir atrás de Alvaro e puxou a Katana contra o pescoço.

Porém, o futuro que viu foi quebrado num instante.

Para o choque de Maximilian, o adversário flexionou as pernas e se virou. Num instante, a lâmina de luz talhou o peito e lançou o inimigo para longe.

O jato vermelho que escapava de seu peito foi o que ele precisou para perceber a armadilha que foi posta para si.

“Merda… caí num truque tão besta… Ele me mostrou o futuro que queria que eu visse…”

Segurou o corte que sangrava e firmou os pés no chão. Tossiu um pouco de sangue e usou a Katana para se segurar.

O rei olhava para si, impassivo, enquanto a raiva dentro de si aumentava.

— Sinto muito. — Essas foram as últimas palavras que ouviu, antes de ter a cabeça separada do tronco. A última visão que teve foi o rei, que olhava para si com clara tristeza e decepção.

Nisso, o rei olhou em direção a batalha. Estava para correr quando sentiu uma sensação nauseante. Pôs-se de joelhos e arfou.

“Droga… acho que exagerei…” Sentou-se no chão e olhou para o céu com um enorme cansaço estampado no rosto.



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