A Machine-Doll Inigualável Japonesa

Tradução: Artemis

Revisão: Kaito


Volume 6

Capítulo 3: Diário de um Aproveitador

Parte 1

 

Pouco mais de dois anos atrás—

Naquele dia de neve, Raishin, que havia sido resgatado por Shouko, simplesmente desmaiou.

Quando voltou a acordar, ele estava em um futon quente.

Era um espaço de aproximadamente 18 tatames. O calor de um braseiro preenchia o quarto e a luz da lua podia ser vista através da porta deslizante de papel. Raishin deixou o futon vagarosamente e abriu a porta.

Um jardim de estilo Japonês podia ser visto através da porta de vidro da varanda além da silenciosa porta deslizante de papel. A neve estava empilhada nas árvores do jardim e nas lanternas de pedra, dando um efeito sutil e profundo.

Enquanto olhava para a luz da lua refletida, Raishin notou que estava usando roupas novas.

Ele caminhou cambaleante pela varanda com a sensação de estar sonhando.

Ele foi em direção à presença de uma pessoa. Em pouco tempo, ele encontrou uma sala iluminada. O cheiro de gardênia e de tabaco se espalhava. No instante em que sentiu os odores, Raishin despertou.

Como se tomado por um impulso, ele abriu a porta deslizante de papel com as duas mãos.

Havia uma sala. Facilmente com mais de 50 tatames. A parte de trás estava um degrau acima do restante da sala, e uma cortina de bambus estava posta ali, como se aquela fosse a residência imperial de um aristocrata.

Aquela sentada sobre a plataforma era Shouko, obviamente. Seus cotovelos estavam apoiados em almofadas e suas pernas relaxadas diagonalmente.

E haviam três jovens garotas paradas ao redor dela.

Uma garota de cabelo azul-prateado estava bem ao lado de Shouko.

Uma garota de cabelo preto e outra de cabelo avermelhado estavam sob a plataforma.

Havia diferenças em suas auras e tamanhos dos corpos, mas seus traços eram muito similares, fazendo com que ele inferisse que eram irmãs. Padrões muito semelhantes decoravam seus quimonos, embora com conceitos diferentes.

Atraindo os olhares daquelas quatro pessoas, Raishin ficou parado ali e seu ímpeto anterior desapareceu.

A primeira a abrir a boca foi Shouko.

— Que grosseria, jovem. Invadindo o quarto de uma mulher.

— Aquela promessa foi verdadeira?

Ele perguntou com uma voz rouca.

Shouko sorriu graciosamente, sem repreender Raishin, e acenou com a cabeça.

— Era verdadeira. Você, jovem, tem um contrato comigo.

— Se é o caso, então por favor me empreste uma boneca agora mesmo!

— Então, você disse para onde está indo?

Uh!

Raishin ficou sem palavras.

— O tempo é precioso! Vou começar a treinar imediatamente!

— Acalme-se, jovem. Um homem impaciente comete erros descuidados, sabia? Está desgastado devido a dores nos órgãos internos, fadiga física e ulcerações causadas pelo frio. Cure seu corpo primeiro.

— Eu não suporto ficar sem fazer nada! Eu vou matá-lo, quanto antes melhor—

As chamas do ódio acenderam-se em seu coração. Controlado por esta emoção, ele correu pela sala, fazendo uma entrada rude. E no momento em que tentou se aproximar de Shouko com passos violentos—

Ele ouviu um som abafado e sua testa bateu em alguma coisa.

— Wa... ai...!

A menor garota murmurou com uma voz grossa e simpática.

Raishin, que acabou caindo ao não suportar o golpe, ergueu o pescoço enquanto esfregava a testa. Uma porta de treliças brilhante surgiu diante de seus olhos.

Treliças feitas de gelo! Um gelo tão sólido e firme que tinha uma resistência semelhante à do ferro.

A garota de cabelo azul-prateado, que estava ao lado de Shouko, voltou seus olhos apáticos na direção dele.

— Por favor, controle-se, Raishin-dono. Qualquer falta de educação com minha mestra não será perdoada.

Pelo jeito que ela disse isso, parecia que tinha usado magia. Até mesmo o ignorante Raishin podia compreender seu poder. Para conseguir realizar tal magia funcionar sem receber poder mágico de um marionetista...

Significava que ela era um autômato formidável. E, ao mesmo tempo, Raishin se deu conta de seu próprio desamparo.

No momento, Raishin não era nada além de um amador, enquanto aquelas mulheres eram existências divinas.

— Parece que sua cabeça esfriou um pouco.

Enquanto ria, Shouko disse calmamente, ainda que de maneira estrita.

— Será que chorar e morrer em vão realmente será pelo bem daquela garota? Bom, o jovem pode morrer se isso for te fazer se sentir bem.

Ele estava sem palavras.

Raishin desistiu e sentou-se de pernas cruzadas onde estava.

— Fufu... bom garoto.

— Pare de me tratar como uma criança. Então, qual boneca você vai me emprestar? Isso pelo menos você pode me dizer, certo?

Ele queria estudar táticas analisando os circuitos mágicos o mais rápido possível.

— Ó bem... o inimigo é o [Tendou], da Família Akabane, hein.

— Ele não é um Akabane!

— Eu concordo. Aquele que carrega o nome Akabane nas costas é o jovem e apenas o jovem.

Apenas o jovem— ele já sabia disso, mas essas palavras ainda assim feriram profundamente o coração de Raishin.

Seu pai, mãe e Nadeshiko morreram.

Seus tios, tias e primos, todos.

As lágrimas estavam prestes a encher seu coração, mas Raishin entrou em pânico e cerrou os dentes.

Shouko parecia estar vendo através dele, mas prosseguiu com a conversa sem tocar no assunto.

— Se há uma boneca nesta mansão que pode derrotá-lo, elas não são outras além das [Setsugekka]. E a mais adequada para este papel é—

Ela olhou em volta para as garotas ao seu redor e disse à garota de cabelo preto.

— Yaya, você irá servir ao jovem.

Era a garota que fora buscar Raishin junto com Shouko há pouco tempo atrás. Seu quimono preto tinha uma lua crescente costurada com fios de ouro.

Ela é a Lua das Setsugekka?

Ele pensou.

A garota abriu seus pequenos lábios.

— Eu não quero.

Ela respondeu. Uma resposta imediata.

— Mesmo que seja uma ordem da Shouko, a Yaya não quer. A Yaya é uma boneca suprema— ele nem sequer pode compreender o valor disso. Se eu for usada por uma criança assim, então as Setsugekka não serão dignas de serem chamadas assim.

Ela disso isso muito claramente. Raishin foi além de sua raiva e achou aquilo engraçado.

Sim. As coisas que ela disse eram apenas naturais.

Raishin não entendia o quanto valiam as Setsugekka.

E as [Artes de Marionetismo] de Raishin eram extremamente pobres. Ele era muito menos talentoso que suas duas irmãs mais novas. Essa tinha sido a razão pela qual ele havia fugido de sua família de marionetistas.

Ele não era uma boa combinação para as inigualáveis bonecas Karyuusai. Eles eram, sem dúvidas, tão diferentes quanto a noite e o dia.

— Yaya! Não diga coisas egoístas!

A garota de cabelo azul-prateado ergueu as sobrancelhas e a repreendeu severamente.

— Por que você é sempre, sempre assim tão egoísta—

— Eu odeio a Irori nee-sama porque ela é cruel.

*Tsun*

Ela se virou. A garota de cabelo azul-prateado pareceu ter ficado em choque ao ouvir as palavras “Eu odeio”. Seus joelhos se dobraram diante de Shouko enquanto inúmeras lágrimas se formavam em seus olhos.

— Sinto muito, Mestra. Eu serei a assistente pessoal do Raishin-dono no lugar da Yaya.

— Essa foi a decisão da Karyuusai.

A voz de Shouko estava calma, porém intimidante. E claramente não dava abertura para objeções.

O corpo da garota de cabelo preto— Yaya congelou de medo com um sobressalto e olhou para Raishin.

Olhos tão vazios quanto a um poço antigo. Ele sentiu um medo gélido. Era isso que eles chamavam de “intenção assassina”?

Raishin se decidiu e resolutamente olhou de volta para ela.

— Agora, se você estiver satisfeito, volte para o futon, jovem.

Raishin, que fora expulso da sala por Shouko, voltou para o quarto em que estava momentos atrás.

Embora ele tenha se deitado no futon, sua mente estava muito ativa, então ele não conseguiu dormir bem.

Ao amanhecer, ele abriu silenciosamente a porta de vidro e tentou descer para o jardim.

O frio da neve ressoou em seus pés descalços, mas ele caminhou até o centro, ignorando isso. Ele fez gestos simbólicos com os dedos, realçando seu poder mágico— como um primeiro passo, ele direcionou seu poder para um galho próximo.

No entanto, o galho apenas balançou, ele não chegou a se erguer.

Raishin socou uma pedra com força e continuou fazendo gestos simbólicos com o punho sangrando.

— Por Deus, este homem parece mais um vira-latas.

De repente ele ouviu uma voz exasperada vindo de cima. Ele olhou na direção da voz e avistou Yaya no telhado. Ela estava sentada sob a luz que nascia no céu, vagamente como a lua visível no início da manhã.

— Apesar da Shouko raramente mandar alguém ir se deitar. Mesmo os cães entendem suas obrigações e boas maneiras.

— ...O que você quer?

— Nada de você. No entanto, se você for um homem que possui pensamentos rudes, como tentar se esgueirar para a cama da Shouko, então vou esmagá-lo com minhas próprias mãos.

— O quê!? Quero dizer, por que eu faria isso!?

— ...Tsk.

— Por que você estalou a língua!? Você quer me esmagar!?

Yaya escondeu o rosto com as mangas e lamentou sua própria situação com um gesto teatral.

— Ó, que deplorável. Há um homem nesta residência... não apenas isso, ele é um homem vulgar!

— Desculpe por ser vulgar. Mas você vai ser usada por este homem vulgar.

Espalhando faíscas, eles se encararam novamente.

— ...Se o usuário morrer, então a Yaya não será usada... você não concorda?

As pupilas de Yaya se arregalaram de forma pouco natural.

— Cuide-se... tanto quanto possível.

Ela murmurou com ódio e desapareceu para além do telhado, saltando agilmente. Suas habilidades físicas estavam muito além das de Raishin— não, muito além dos limites humanos.

— Ela é perigosa...

Apesar do ar frio da madrugada, suor frio escorreu pelo queixo de Raishin.

 

Parte 2

 

O ar estava quente.

Não, muito quente. Ainda que neste momento ele devesse estar sentindo o ar frio do inverno...

Sentindo-se em dúvida, ele abriu os olhos e o rosto em prantos de uma donzela apareceu.

— Raishin!

Não era Yaya. Este rosto jovem com o cabelo preso nas laterais da cabeça pertencia a... Komurasaki.

— Estou feliz... Raishin... estou feliz!

Abraçada a Raishin, ela chorou, abafando a voz.

Com o peso dela tocando seu peito, a consciência de Raishin finalmente voltou do mundo dos sonhos. Isso mesmo. Raishin havia falhado em usar o Kouyokujin novamente e acabou desmaiando.

Ele fora colocado para dormir em uma cama. As paredes de pedra do quarto eram velhas. Como as de um castelo medieval.

Raishin deu um tapinhas nas costas de Komurasaki, que soluçava convulsivamente, com seu braço direito dormente.

— Não chore mais. Eu sinto muito. Eu fiz você se preocupar.

— Raishin idiota... não pense em morrer por minha causa...!

— Eu não vou morrer. Se algo acontecer comigo você vai se sentir cada vez mais deprimida.

— Isso mesmo! Você é tão cruel! Uwaaaan!

Ela ergueu a voz e chorou. Será que ela a ouviu chorar? A grande porta foi aberta e Griselda apareceu de repente.

— Então você já recuperou a consciência. Estou surpresa com sua tenacidade.

— Minha família é muito apegada à vida.

Raishin sorriu de forma masoquista e respondeu com um tom leve.

— Temos feito coisas sangrentas há mil anos. Graças a isso, sou capaz de lidar com esse tipo de ferimento.

— As causas e ações se acumularam e se transformaram em um espectro, hein... Bom, eu não posso falar sobre os outros.

Ele se perguntou o que ela queria dizer com isso, mas antes disso, tinha algo a dizer.

— Você me salvou, certo? Obrigado por me salvar.

— Esta é minha residência em Weston. Costumava ser um forte, então é um pouco triste, mas— sinta-se em casa, não há necessidade de hesitar.

— ...O que aconteceu com meu corpo?

— Sangrou, mas não o bastante para que fosse necessária alguma sutura. De acordo com a avaliação do médico, você precisará de um mês para se recuperar completamente.

Foi um ferimento muito menor do que da última vez. Raishin agradeceu sua má sorte. Se ele tivesse sofrido o mesmo tipo de ferimento que na última vez, ele não escaparia ileso dessa vez.

— ...Então, sobre aquilo.

A voz de Griselda tornou-se profunda.

— Durante a batalha, o princípio de aplicação de poder mágico que você demonstrou— o que foi aquilo? Sem a menor chance, mas aquilo por acaso era igual as artes secretas passadas de geração para geração dentro da Família Weston?

— Bom, na verdade eu também estou preocupado com isso—

— En-entendi! Você é um filho bastardo do meu pai! Apesar de ter minha mãe, ele tinha que engravidar uma mulher oriental, que imoral!

Ela desembainhou a espada abruptamente. No momento seguinte, a cama foi destruída.

Se ele não tivesse se levantado, naquele momento Raishin teria sido cortado ao meio.

— O que você está fazendo!?

— Perdoe-me, irmãozinho nascido de outra mãe! Vou apagar a vergonha da família!

— Não tente me matar assumindo isso logo de cara! Nós não somos parentes de sangue!

— Isso mesmo! O Raishin nasceu em uma família de marionetistas chamada Akabane!

Komurasaki defendeu Raishin, gritando e estendendo as mãos. Parecendo em dúvida, Griselda disse,

— Akabane...? Esse nome está em minha memória... humm, entendo, do Extremo Oriente.

— Você conhece?

— Quando eu era estudante na Academia, um estudante estrangeiro vindo da China me contou a respeito. “Há uma Família do Extremo Oriente que usa mantos de penas ensanguentados e marionetes misteriosas”.

Raishin arregalou os olhos. O nome Akabane era conhecido mesmo na China?

— Naquela época, me perguntei porque ele me contou uma história assim... mas com certeza foi porque tratava-se de uma família que usava [Fios].

O discernimento de Griselda tornou-se agudo. Ela não parecia sentir afinidade por ele.

— Então, seu bastardo, onde está sua [Marca]?

— [Marca]?

Sem realmente entender o significado daquilo, Raishin expressou sua ignorância.

Griselda arregalou os olhos e ameaçou murmurar algo— mas ela desistiu de dizer seja lá o que fosse.

Como esta era a única chance que tinha, Raishin disse como se pressionasse por uma resposta.

— De todo modo, meu sangue é similar ao seu, então eu devo ser capaz de usar [Fios]. É por isso que estou pedindo a você. Faça de mim seu aprendiz.

Ele pôs as mãos sobre o chão e inclinou a cabeça. Griselda tinha uma expressão claramente enojada,

— ...E se eu disser “Eu me recuso”?

— Eu não vou embora até que você concorde.

— É muito fácil expulsar pessoas como você.

— Eu voltarei. E de novo, e de novo. Até você concordar.

Ele olhou diretamente para ela enquanto orava silenciosamente que seu entusiasmo chegasse até ela.

As bochechas de Griselda estavam tingidas de vermelho.

— Es...esta é a primeira vez que recebo uma abordagem tão apaixonada...

— Bom, com certeza é uma abordagem, mas não esse tipo de abordagem que você está pensando?

— Os mais novos parecem ser muito bons, hum.

— Mas não assim!?

*Aham*

Limpando a garganta, Griselda fez uma cara séria.

— Bom, você e eu somos jovens, o futuro mudará algum dia.

— Mesmo que mude, nada vai mudar...?

— Esforçar-se para nutrir as próximas gerações também é um dever do Wiseman... Nesse sentido, minhas circunstâncias deram a mim a figura de mais experiente. Eu não tenho razões para recusá-lo.

— Então você vai me aceitar como seu aprendiz?

— No entanto, minha orientação mágica não será dada de graça. Isso é lógico.

— ...Haverá condições? Como o quê?

Griselda apontou para Raishin.

— Você será meu criado— não, isso não! Você irá se tornar o mordomo desta residência!

— Isso foi um erro, não foi? Seus motivos ocultos vazaram!

Enquanto Komurasaki observava como se tivesse sido pega de surpresa—

Dessa forma, foi decidido que Raishin tinha permissão para se tornar um aprendiz e ser um empregado residente na mansão Weston.

 

Parte 3

 

— Não seja incompetente, faça isso rápido desuu!

O terceiro dia após se tornar um empregado residente. Entretanto, Raishin, que pacientemente e de forma competente enxugava o amplo terreno, foi abordado com essas palavras.

*Aham*

Aquela que soava arrogante, parecendo muito presunçosa, era uma garota loira de olhos azuis.

Em termos de altura, ela alcançava o peito de Raishin. Seu cabelo era fofo como um coelho, sua aparência adorável como um animalzinho, mas ela estava armada com um capacete, espada e peitoral.

Ela era Epsilon, o autômato de Griselda. Sua aparência era o reflexo de uma garotinha. Ela não era de forma alguma um artigo barato, mas considerando que se tratava do autômato de uma Wiseman, era muito simplória.

Ao contrário de dois anos atrás, Raishin agora tinha um bom olho para autômatos. Quanto a autômatos excelentes, suas próprias existências eram intimidadoras. Sigmund, que normalmente se fazia de tolo na forma de um dragão jovem, não tinha como esconder sua performance e seu formidável diabolismo.

Para fazer uma comparação, Epsilon parecia ser estruturalmente pobre, e seu fluxo de poder mágico não era preciso. Ganhar uma Festa Noturna usando esta boneca parecia impossível.

Sem notar os pensamentos descorteses de Raishin,

— Suas mãos pararam de se mover, seu aprendiz idiota e inútil. Você não consegue nem mesmo fazer uma limpeza satisfatória, seu idiota desuu!

— ...Humm, eu ainda estou meio anêmico, sabia? Quero dizer, se você tiver um tempo de sobra, também poderia ajudar.

— Não diga coisas estúpidas desuu. Tarefas assim foram feitas para pessoas comuns desuu.

— Essa coisa... eu quero tanto desmontar ela...!

— Kyaah, além disso você é um pervertido desuu! Ajude-me, Mestraaaaa!

— Espere um instante! O que diabos você imaginou que eu estivesse dizendo!?

Enquanto dizia “kyaa, kyaa”, Epsilon estava à beira de começar a chorar, escondendo o peito. Como dizer isso... sua mente era fraca. Ela parecia mais e mais indigna de pertencer a uma Wiseman.

— Por que... vocês estão fazendo tanto barulho... tão cedo de manhã...?

Griselda apareceu, dobrando lentamente a esquina no fim do corredor.

Vendo a aparência dela, Raishin rapidamente desviou os olhos.

Griselda vestia apenas uma blusa e calcinha. Sua cintura tonificada espreitava através da blusa aberta. Mesmo assim, ela carregava sua espada em sua mão esquerda.

Ele pensava que ela era viril, mas era também muito indefesa.

— Você acordou muito tarde, Oshishou-sama. Já é meio-dia.

*Swish*

A espada brilhou, roçando a ponta do nariz de Raishin.

— Essa foi por pouco! O que você está fazendo!?

A aparentemente lânguida Griselda,

— Saudações matinais deveriam ser “Bom dia, goshujin-sama¹”... não?

— É meio-dia! Quer dizer, eu me tornei seu aprendiz, não seu escravo!

— É quase a mesma coisa... estou com sono.

*Bocejo*

— Não durma. E vamos parar com essas declarações controversas. Quer dizer, hoje vou começar a praticar com você, afinal.

— Este homem irritante... sério, você quer tanto assim me amarrar ♡?

— Você está errada! Por que sua positividade só é desperdiçada nisso!?

— Aprendiz inútil idiota... você está seduzindo a mestra... is-isso é tão vexatório desuu...!

Ele ignorou— Epsilon começou a morder um lenço.

Griselda apoiou-se suavemente em um pilar e esfregou os olhos incessantemente.

O deitar e o despertar do dia anterior também tinham sido assim. Embora fosse tão sangue quente, ela inesperadamente parecia ter pressão baixa.

Por que... este é o preço por aqueles [Fios]...?

Três dias atrás, Griselda usou seus [Fios] várias vezes. Se o princípio fosse o mesmo do Kouyokujin, então ela devia ter perdido uma quantidade significativa de sangue.

— A limpeza está feita...? Se sim, prepare algo para me animar...

— Ouvi dizer que mordomo seria a palavra mais apropriada, mas na verdade eu sou um simples criado?

— Então mordomo não é do seu agrado? Você prefere ser uma empregada? Eu preferiria isso.

— Não se sinta enérgica do nada! E nunca faça isso!

Raishin deixou Griselda como estava e voltou a limpar o chão.

Como um dos lados do corredor era um átrio, o magnífico pátio ao lado podia ser visto. O jardim de estilo inglês tinha uma serenidade diferente de um em estilo japonês, fazendo com que a quietude do terreno se destacasse ainda mais.

— Ei, Oshishou-sama. Por que não há servos— em um castelo tão grande quanto este?

— Não tenho dinheiro.

Griselda cruzou os braços e declarou, bufando de orgulho. O fato de Epsilon assumir exatamente a mesma postura parecia simplesmente irritante.

— Esta mansão é estupidamente cara de manter. Eu nem mesmo consigo pagar os custos de mão de obra.

— ...Você é uma Wiseman, certo?

— Claro. Atualmente sou a Wiseman mais jovem, mais bonita e mais pobre.

— A mais pobre Wiseman desuu! A propósito, eu me proclamo como a segunda desuu!

— Você quer morrer, Epsilon...!?

— Kyaaah, desculpe desuu!

Griselda agarrou as bochechas de Epsilon e as puxou para a esquerda e para a direita.

Embora estivesse surpreso com a bagunça feita por mestra e serva, Raishin perguntou o que se passava por sua mente.

— Nesse caso, por que o restante de sua família não está aqui morando com você? Eles não estão por aqui?

— ... Eu sou a única nesta mansão.

— Apenas esse autômato, hum. Mesmo que este seja o castelo de uma Wiseman, não parece nem um pouco com isso.

— Esse idiota desuu!

Epsilon sacou sua espada e subitamente veio em sua direção.

Ele deu uma olhada para ela e,

Ó?

Ele pensou. Para combinar com o físico da usuária, a espada era curta, semelhante a um gládio. No entanto, aquela era uma espada um pouco mais fina e ligeiramente curva. Parecia ser feita de prata, e ele podia sentir algum poder mágico nela. Era um item de alta classe.

No entanto, se ele não fosse atingido não seria grande coisa. Raishin agilmente se esquivou e imobilizou a espada contra o chão com o esfregão.

— Não ataque assim de repente. Essa barbárie foi a educação que sua mestra te deu?

— Silêncio desuu! Tratando-me como “esse”... waan!

— Ah, desculpe! Você é um autômato esplêndido!

— Ehehee, é claro que sou desuu ♡.

Ela se animou novamente. Raishin se virou para Griselda com dúvidas bem claras em sua expressão.

— Com licença... Oshishou-sama? Esta... hum, bom...

— Sim. Ela é uma pobre garota com uma inteligência igualmente pobre.

— Não seja tão direta! É o seu autômato, não é!?

— Mas eu a acho ridiculamente fofa.

Ao ouvir que era fofa, os olhos de Epsilon se encheram de lágrimas.

— Mestra...!

— Ei, não fique assim tão animada! Você foi chamada de idiota, sabia!?

Epsilon não deu ouvidos a ele. Ela olhou para sua mestra com uma expressão que deixava evidente que ela estava se sentindo uma deusa.

— Seja ela fofa ou não— não é estranho que ela seja a única?

Era diferente quando um antigo aristocrata se tornava um simples proprietário de terras, mas no caso de uma herança militar como no caso da Família Weston, era comum que a mansão reunisse todos os tipos de artefatos militares e recursos.

Sobre este ponto, a resposta de Griselda foi simples.

— A minha família, os Weston não têm dinheiro.

— Desuu!

*Perdendo força*

Raishin caiu para a frente. Por que um resultado assim?

— Portanto, acabei tendo que me separar da maioria dos meus autômatos. O que posso chamar de ativos são apenas este terreno, esta mansão e essa espada— a Stratocaster.

— Stratocaster? Por acaso isso é... uma ferramenta mágica?

— Eu chamo de Espada Sagrada. É uma espada imperial que meu bisavô ganhou de presente de Sua Majestade, a Rainha.

— Mas eu não sinto nenhum poder mágico nela.

— Você é apenas inexperiente. De todo modo, eu perdi a maior parte dos bens da Família Weston. Quanto a este ponto, sinto-me culpada como a atual chefe de várias gerações.

— Se você não tem dinheiro, então deveria ganhar algum, não? Você é uma Wiseman, afinal de contas.

— Eu certamente sou uma Wiseman, mas antes disso sou apenas uma mulher.

— Eu não entendo. Quer dizer, se você não trabalhar, a sociedade não irá consentir, certo?

O olho direito de Griselda se voltou para ele. Raishin voltou a perguntar.

— Uma vez que você se tornou uma Wiseman, você deve ter sido incluída naquele grupo— formado por um grande número de [Candidatos a Wiseman] presos pelo Código de Ética dos Magos e vivendo sob seus cuidados pessoais. Com você vivendo desta forma, aqueles caras ficaram calados sem fazer nada?

— ...É realmente surpreendente, mas você é relativamente inteligente para alguém com uma cara tão idiota.

— A parte da cara idiota foi desnecessária!

— Eles não ficaram quietos. Mas estou acostumada a lidar com a inimizade deles. Este modo de vida combina comigo, e aqueles que derrotei não tinham qualificações para cobrar qualquer coisa de mim.

Isso era razoável. Raishin cerrou os dentes. Os derrotados sempre tinham que obedecer à razão do vencedor. O mundo funcionava assim.

— ...Mesmo que seja esse o caso, o Reino Unido não ficaria em silêncio. Você é britânica e nasceu em uma famosa família militar.

— Sim. Isso sem falar da minha boa aparência. Funcionários do alto escalão vêm me admirando.

— Não seja pretenciosa. É verdade que você é uma beldade, mas não é nada admirável.

— Você quer morrer?

*Olhar malicioso*

— Viu? É isso! Qualquer um diria que isso foi assustador! Seja um pouco mais feminina!

— Ugh...

Griselda olhou para sua espada e então para o seu corpo. Uma camisa aberta e calcinha— Certamente não era o visual apropriado para uma dama.

Por ter um certo complexo de inferioridade, Griselda enrubesceu e se afastou.

— Eu fui criada como um homem. Ser chamada de mulher... é algo que não entendo.

— Então comece com sua aparência, pelo menos. Você é uma nobre, então deve conhecer o básico da etiqueta feminina, certo?

— Se eu agir como uma dama morrerei no campo de batalha! Isso é idiota!

— Pare de ser uma idiota de guerra! Não mande garotas para o campo de batalha!

— Hum, não aja como uma criança mimada. Este local pode se tornar um campo de batalha.

— Pare de mudar o foco da conversa. De todo modo, vista-se de forma mais feminina e tente se maquiar um pouco.

— O... quê...!? Eu... vestir roupas femininas...!?

— Roupas femininas? Quero dizer, você é uma mulher e tudo. Bom, não há motivos para se forçar a isso.

Esse breve comentário pareceu irritar Griselda, cujo rosto se contorceu.

— ...Pela primeira vez na minha vida, alguém me fez passar por tola dessa forma.

— Eh? O que foi que eu disse!?

— Que barulhento, cale a boca! Termine logo essa limpeza e prepare a comida!

Ela gritou com Raishin, ficou irritada e saiu. Epsilon correu atrás dela como um filhotinho, com passos pequenos e rápidos.

— ...Pensando bem, para onde foi a Komurasaki?

Relembrando, ele não a via desde de manhã.

Uma nuvem negra pairou sobre o coração de Raishin.

 

Parte 4

 

Um jardim extenso dentro das muralhas do castelo da residência Weston.

Em um canto sob a sombra de um grande olmo, Komurasaki estava sentada, segurando os joelhos com os braços, claramente desanimada.

— Komurasaki?

Ela foi chamada por alguém. Komurasaki entrou em pânico e enxugou a área ao redor dos olhos.

— Aconteceu alguma coisa?

Fazendo sua armadura soar ruidosamente, Epsilon entrou no jardim.

— Nada mesmo!! Eu estava só curtindo o ar fresco!

— ...Você está mentindo desuu.

— Eh...

— Eu sou uma idiota, mas exatamente porque sou idiota eu sei disso desuu. A Komorasaki tem os mesmos olhos que eu tinha há um tempo atrás desuu.

Komurasaki, cuja demonstração de coragem fora facilmente vista como falsa, estava confusa.

Sem ser capaz de reagir ao olhar de Epsilon, ela apenas virou o rosto para o outro lado.

Epsilon sentou-se suavemente ao lado de Komurasaki, e se apoiou na árvore como ela.

— Podemos conversar, Komurasaki. Um autômato compartilhando e falando francamente sobre suas preocupações com uma colega autômato desuu.

— Mas...

— Eu não sou forte o bastante, é isso?

Epsilon, que disse tais palavras, sorriu de forma dócil e gentil.

— Mas há coisas que não podem ser ditas a uma pessoa forte e esplêndida. A Komurasaki não teria um rosto assim se pudesse conversar com aquele aprendiz estúpido e inútil ou com qualquer outra pessoa desuu.

Tocada por uma tolerância inesperada, o peito de Komurasaki rapidamente se encheu de ar.

As emoções transbordaram sem que ela fosse capaz de detê-las.

E lágrimas começaram a cair do canto de seus olhos. Parecendo assustada, Epsilon,

— Wawah, sinto muito, Komurasaki! Eu feri seus sentimentos!?

— Uuuuh, não é isso...!

Enquanto esfregava os olhos várias vezes, Komurasaki disse com uma voz trêmula.

— Obrigada... Epsilon-chan.

Epsilon continuou esperando até que Komurasaki parasse de chorar.

Quando se acalmou um pouco, Komurasaki respirou fundo e falou aos poucos.

— Sabe o que é? Eu tenho duas irmãs mais velhas.

— Irmãs mecânicas desuu?

— Sim, nosso design é muito semelhante. A série é chamada de Setsugekka.

— Ooh... isso parece muito legal desuu.

— Eu sei, certo? Minhas irmãs mais velhas já são autômatos incríveis. A Irori nee-sama já destruiu cidades, e a Yaya nee-sama ficou bem mesmo após ser atingida pela arma principal de um navio de guerra.

— Se— Se isso for mesmo verdade, então elas são realmente incríveis desuu! Elas são super armas desuu!

Os olhos de Epsilon começaram a brilhar intensamente. Em contraste, os olhos de Komurasaki escureceram.

— Por que eu sou a única... que é inútil em batalha? Ainda outro dia... o Raishin teve que me proteger... eu não fui capaz de mostrar minha verdadeira força. Ele teve que usar o Kouyokujin novamente e...!

As lágrimas, que tinham parado, começaram a transbordar novamente.

— Se ao menos... eu tivesse uma força incrível...!

— O que você está dizendo desuu!? A Komurasaki é um autômato incrível desuu!

Ela afirmou com uma voz irritada. Epsilon segurou a mão de uma surpresa Komurasaki.

— Viu? A mão da Komurasaki é tão bela e flexível desuu. Isso é algo impossível para mim desuu. Cada vez que movo minhas articulações, minhas engrenagens rangem desuu.

Ela ergueu os braços, abriu as palmas das mãos e mostrou como sua estrutura interna produzia um som mecânico a cada movimento que fazia.

Epsilon sorriu ternamente e envolveu a mão de Komurasaki com as suas.

— Embora você tenha um corpo fantástico como este, ficar se diminuindo assim irá incorrer em punição divina, sabia?

— ...Mas a Epsilon-chan ajuda nas lutas, não?

— Eu sou... inútil desuu.

Ela murmurou aparentemente triste, e acabou ficando abatida.

— Porque a mestra só me manda ficar em casa desuu... A Mestra é mais forte se lutar por conta própria desuu.

Epsilon se levantou antes que Komurasaki pudesse encontrar as palavras para responder.

— Mas eu não vou desistir desuu! Esse é o espírito autômato!

— —!

— Uooooo, eu quero balançar minha espada intensamente desuu! Se você me der licença, é o que vou fazer desuu!

Epsilon desembainhou sua espada de prata e começou a balançá-la bem ali onde estavam.

Na vertical e na horizontal, ela balançou a espada repetidamente, fiel ao básico da esgrima.

Não havia desvios. Mesmo sendo uma amadora, Komurasaki entendia porque ela continuava fazendo aquilo.

——Ela sentiu como se seu peito se apertasse.

O órgão sensorial de Komurasaki era muito sensível, e identificou a afinidade mágica de Epsilon.

Não importa quanto esforço Epsilon fizesse, o problema fundamental não poderia ser resolvido.

Ela era incapaz de suportar os [Fios] em seu poder máximo. Não importa quanto esforço Epsilon fizesse, essa realidade não mudaria. Griselda usando-a ou não...

— Mas, humph! Eu, humph! Acho que você está errada desuu.

Epsilon disse de repente enquanto balançava sua espada.

— Eh...?

— As preocupações da Komurasaki, humph! Eu acho que elas estão erradas, desuu.

Repentinamente, ela parou de brandir a espada e se virou com um sorriso.

— Apenas suas irmãs a superarem é impossível desuu. Humanos são criaturas que se preocupam terrivelmente com o equilíbrio.

— Equilíbrio...?

Naquele momento, os pensamentos de Komurasaki alcançaram as intenções de Shouko pela primeira vez.

A razão pela qual ela havia criado três circuitos mágicos diferentes e o modo como eles formavam a série Setsugekka quando reunidos.

A razão pela qual ela deu nomes sem um senso de unidade para Irori, Yaya e Komurasaki— para todas as três.

Ela começou a entender algo. Uma coisa muito importante.

E uma outra coisa, algo diferente.

 Epsilon podia não ser capaz de suportar os [Fios] de Griselda. Porém, essa era mesmo uma razão para abandonar todos os seus esforços?

Autômatos eram dotados de inteligência. Eram criaturas capazes de aprender. Os movimentos mais eficientes e compactos, e os movimentos que se alinhassem com as intenções do marionetista— todos podiam ser aprendidos posteriormente.

Apenas a habilidade determinaria se tais movimentos seriam úteis ou não...

— Ei, Komurasaki!

A voz de Raishin veio de dentro da mansão. Ele estava acenando para ela do corredor no primeiro andar.

Ele havia tirado uma parte de seu uniforme e erguido as mangas da camisa: uma aparência casual. A gravata afrouxada, algo atípico, mostrava que sua boa aparência estava 20% melhor.

— O que você está fazendo em um lugar como este?

Ele sorriu como se estivesse aliviado. Será que ele estava preocupado e procurava por ela?

Epsilon apontou sua espada para Raishin.

— Você teve coragem de aparecer, seu aprendiz idiota e inútil desuu!

— ...Você também estava aí, Epsilon?

— É assim tão ruim desuu!? Você é muito atrevido para um recém-chegado desuu!

— Por que você é assim tão agressiva? Eu irei embora em breve, então relaxe um pouco.

Enquanto se esquivava dela adequadamente, Raishin se aproximou de Komurasaki.

Mesmo hesitando um pouco, Komurasaki perguntou com os olhos voltados para cima.

— O que foi... Raishin?

— Eu vou fazer o almoço. Eu tenho uma receita, mas, sabe, eu honestamente não tenho confiança... então... será que você poderia me ajudar?

Ele confiava nela. Com isso, o coração de Komurasaki foi encorajado.

— Certo! Deixe isso comigo!

Ela começou a correr alegremente. Depois de se despedir de Epsilon, que tinha voltado a balançar sua espada, Komurasaki agarrou-se ao braço de Raishin e voltou com ele para a mansão.

— Ei, Raishin. Eu quero te pedir um favor.

— Um favor? O que seria?

Ela hesitou por um instante. Komurasaki endureceu sua expressão facial e perguntou com um tom sério.

— Eu posso me juntar a você no seu treinamento?

 

Parte 5

 

Dez dias haviam se passado desde que Raishin tinha começado a viver na residência de Shouko.

As feridas em seu corpo estavam longe de ter se curado completamente— e novas feridas surgiam mais e mais.

Com os cortes, sangramentos internos, bandagens, compressas e band aids que pareciam estar conectados com os últimos dias, a aparência de Raishin parecia cada vez mais desgastada.

Mesmo assim, e sem afrouxar, Raishin continuava a treinar do começo da manhã até tarde da noite.

Hoje, do mesmo modo, ele permaneceu no jardim molhado pela neve derretida, fazendo sua boneca de madeira andar.

— Este homem está meio sujo, como sempre.

Quase imperceptível, uma garota apareceu em uma árvore.

Mesmo sem se virar, ele podia dizer quem era apenas pela voz. Raishin a ignorou e continuou treinando.

— Você está cheio de feridas, realmente parece um cachorro de rua.

— ...De quem é a culpa disso, assassina?

— Por favor, não diga coisas vergonhosas. Quem está tentando assassinar você?

— A lanterna de pedra que veio voando na minha direção enquanto eu dormia, e a cômoda que foi arremessada do quarto ao lado e rasgou a porta deslizante não foram tentativas de assassinato!?

Ele acabou se virando na direção dela instintivamente. Yaya se afastou, irritada.

— Você tem evidências definitivas de que foi a Yaya quem fez essas coisas?

— Existem evidências circunstanciais, sua idiota! Quem mais está aqui além de você!?

— Isso não vem ao caso. Não apenas seu poder mágico, mas sua circulação sanguínea também é insuficiente. Se alguém pudesse ser culpado apenas com palavras como essas, então os tribunais não seriam necessários.

— Cale-se! Graças a você, cheguei a um ponto em que posso identificar intenções assassinas! Eu não dominei essa técnica mesmo tendo treinado por muitos anos em um dojo de esgrima!

— Isso não é ótimo? Você deveria agradecer ao assassino misterioso.

— Sua desgraçada... você tem uma resposta pronta para tudo que eu digo...!

Raishin puxou o próprio cabelo. Yaya olhou para Raishin com hostilidade.

Provavelmente sua intenção era monitorá-lo, então não tentou de forma alguma ir embora.

— ...Se você está com tanto tempo sobrando, pode se juntar a mim.

— Eu me juntar a você? Em quê?

— No que mais seria? Treinamento.

Idiota.

Os lábios de Yaya se abriram sem emitir som. Como era de se esperar, ela pareceu surpresa.

— Quero aperfeiçoar minhas técnicas o quanto antes. Além disso, eu nem sequer conheço seu circuito mágico. Eu preciso entender isso logo.

— Por favor, não me menospreze. A Yaya não precisa de algo tão nojento quanto ficar fedendo a suor pós-treinamento.

— Mesmo que você não seja idiota, então por que isso seria? Vou fazer você tentar!

— Eu recuso. E a Yaya não será usada por alguém como você.

Haaaaaa...

Raishin deu um longo suspiro.

Então, de repente, ele se decidiu e olhou para Yaya.

— Eu sei que você não consegue me engolir. Mas eu tenho um acordo com a Shouko-san. Você já é minha boneca. Vou fazer você me obedecer, goste ou não!

Os olhares de ambos se chocaram, faíscas invisíveis se espalharam pelo ar.

Um pouco depois, foi Yaya quem desviou os olhos primeiro.

Yaya rejeitou duramente, parecendo boba.

— Mesmo se isso fosse uma verdade completa e absoluta, e mesmo supondo que a Yaya te empreste uma mão, nenhum treinamento é necessário.

— Hum? Por quê?

— Você só precisaria fornecer um poder mágico incrível, certo? A Yaya fará o resto. Eu não quero, mas é a ordem da Shouko.

— Não é assim tão simples! Aquele cara é um monstro, o mais poderoso em mil anos na Família Akabane— ele é um marionetista que dizem poder até mesmo reescrever a história da família!

Chamas queimavam em seus olhos, e seu corpo estava dominado pelo ódio.

O cheiro das chamas foi revivido. A lembrança de quando sua casa pegou fogo. De quando Nadeshiko foi queimada.

— Ele é bem versado na arte da guerra. Você certamente possui muita força física, mas vencer usando apenas toda a sua força—

Em um instante, ela fechou a distância entre eles.

Em sua consciência, ela estava atrás dele. Yaya parecia ter saltado, usando o trono da árvore em que estava para pegar impulso.

A árvore, que parecia ainda ser jovem, acabou sendo destruída. Quando ele ouviu o som da árvore se partindo, Yaya surgiu diante de Raishin.

Talvez, se ele estivesse em condições normais, ele poderia ter se esquivado dela.

No entanto, Raishin no momento era uma pessoa meio morta. Yaya facilmente agarrou o pescoço dele e começou a apertá-lo.

— Sua boca parece bastante proficiente, mas essa é toda a habilidade que você possui?

— Guh... ga... hah...!

Estrangulado, seu fluxo sanguíneo foi interrompido. Sua visão ficou branca e sua audição tornou-se distante.

— Que tal isso? Ainda não é o bastante?

— ...Isso mesmo!

Ele gritou freneticamente. E com resolução.

Seu corpo foi sacudido e violentamente atirado contra o chão. O prazer de poder respirar, no entanto, superava a dor. Enquanto tossia, Raishin respirava desesperadamente, em busca de oxigênio.

Yaya olhou para Raishin com um olhar de desprezo, e de repente se virou.

— ...Ei, onde você está indo?

— Eu vou lavar minhas mãos. Ter minhas mãos tocadas por um homem é repulsivo!

Ela foi embora. Raishin se deitou, olhando para cima, e sorriu ironicamente. Aquilo tinha sido muito difícil.

Enquanto ele olhava sem rumo para o céu de primavera e saboreava o frio da terra em suas costas, o rosto de uma mulher linda e fascinante de repente surgiu sobre ele.

— Parece que você está tendo dificuldades, jovem.

Raishin se levantou apressadamente e encarou Shouko. Embora ele fosse obcecado por vingança, e como assumia estar sendo uma espécie de aproveitador por todos aqueles dias, ele naturalmente se lembrou de sua cortesia.

Shouko deu uma risadinha e fez uma proposta atraente.

— Devo repreender aquela garota?

— ...Não, está tudo bem.

— Ara, por quê?

Raishin baixou os olhos, e inconscientemente agarrou a terra com força.

— Por causa do que a Shouko-san me disse… então, o que quero dizer é... eu sinto que ainda não é o bastante. Mais raiva... para colocar minhas mãos naquele homem? Eu preciso de algo assim.

Seu idealismo provavelmente seria ridicularizado, mas ele pensava que, para produzir um milagre, ele precisava de algo que fosse digno de um milagre. Mas isso não significava que um milagre aconteceria apenas por isso.

O modo como Yaya e eu estamos agora não é o bastante...!

— Vou convencê-la de algum modo. Um pouco mais...

— Fufu... você tem um jeito interessante de pensar.

As palavras de Shouko foram surpreendentemente gentis.

Shouko olhou na direção por onde Yaya havia ido e falou com uma voz que fazia parecer estar contando uma velha história.

— Desde tempos imemoriais, é dito que excelentes ferramentas escolhem seus próprios mestres. De espadas a cavalos e utensílios de chá, itens famosos reconhecem seus mestres como tal apenas quando estes mostram seu verdadeiro poder. Além disso—

Ela lançou um olhar fugaz para Raishin. E falou como se o estivesse testando.

— Marionetes e marionetistas são como cães e seus donos. Qual deles é o mestre? Ocasionalmente, pode-se compreender isso ao fim de um combate corpo a corpo sangrento.

— ...Se eu levar isso a sério e realmente fizer algo assim, não morrerei.

Se ele tivesse um combate corpo a corpo contra Yaya, ele seria facilmente morto.

No entanto, talvez.

Se ele não o fizesse, a estrada poderia não se abrir.

Raishin se levantou, limpou a sujeira da roupa, concentrou seu poder mágico e novamente encarou a boneca de madeira.


Nota:

1 – Tanto oshishou quanto goshujin significam “mestre”. Primeiro Raishin chama de Griselda de Oshishou, que significa mestre no sentido de instrutor, professor. Em seguida, Griselda pergunta a ele se não deveria chamá-la de goshujin, que significa mestre no sentido de servidão.



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