Volume 1

Capítulo 13: APRENDENDO SOBRE A NOVA TÉCNICA: O CHI

– A primeira coisa que precisa aprender, é: o chi é muito diferente da mana. Tudo o que sabe sobre mana, não deve ser aplicado aqui. Nada. A única coisa que podemos incumbir aqui é a concentração.

– Como assim? – Kai suspirou.

– Éter e Mana são energias parecidas quando se trata de obter resultados. Você só fica mais forte à medida que luta, que treina. Só no modo físico, nunca o mental. O chi é diferente; será necessário mais do que força física para obter resultados. A força física será o resultado e não o meio. Entende?

Ele assentiu.

– Terei que meditar, é isso?

– Você aprende rápido. – Mael sorriu. – Depois que conseguir compreender os textos do caderno, poderá iniciar de fato. Primeiro leia o que tem no texto, compreenda. Tudo o que tiver nele será de suma importância – ele retirou um caderno grosso e velho de seu bolso; continha várias inscrições na capa. Entregou à Kai. – Leia, absorva. Não memorize, aprenda de verdade. Depois disso... poderemos continuar.

– Você pode usar nossos quintais, Kai. E é mais do que bem-vindo a ficar em nossa casa durante sua tarimba. – Abwn se levantou e fez o mesmo movimento de limpar as pregas das vestes que Mael.

– O livro está traduzido. – Mael piscou. – Aproveite.

Pai e filho caminharam de volta para casa.


***
                             

O livro era muito preciso; o primeiro capítulo era uma breve explicação de como deveria ser feito o processo inicial.

Era muito direto ao dizer que o velho deveria ser rejeitado; o novo, absorvido.

A respiração era a base para esse tipo de controle, mas não devia ser o principal condutor. Um corpo não poderia ser controlado pela respiração, somente a mente e espírito, que compunham o chi.

Ao controlar o corpo somente pela respiração, estaria tornando os próprios movimentos um tanto lentos, pesados. A respiração deveria ser como uma parte coesa ao chi; ambos se comportando iguais. Portanto, ao estar centrado na respiração, o aumento do fluxo de chi seria considerável.

Então respiração seria o primeiro obstáculo.

As primeiras horas foram difíceis, mas ninguém disse que seria fácil.  

Kai se concentrou ao máximo, mas cada músculo, cada tendão, estava tenso. E mesmo que o livro indicasse fazer o contrário, ele não conseguia.

Sua mente voltava sempre para preocupações antigas; arrependimentos, coisas que gostaria de ter feito e não fez. Tudo veio como uma onda. Quanto mais tentava se concentrar, menos concentrado ficava.

Um dia se passou e a raiva lhe assolou.

Quando finalmente abriu os olhos, uma fraqueza o consumiu. Sua barriga roncou.

Ele olhou para baixo e viu Azalee lhe encarando.

– Aqui, jovem mestre – ela sorriu. – Lhe trouxe uma comidinha.

Então, flutuando, saiu desembestada para a casa. Mas será que ele deveria comer? Será que, pra um melhor entendimento, não deveria evitar tudo no mundo? Entrar numa labuta consigo mesmo. Tentar encontrar uma paz que nunca teve?

Então dias se passaram; Azalee veio dia após dia e ficou chateada quando viu que a comida nem fora tocada. Mas sempre voltava depois trazendo um novo punhado.

Foi somente depois de cinco dias inteiros que Kai teve uma epifania.

As palavras do livro fervilhavam em sua mente. A fome e a raiva eram apenas um obstáculo.

A respiração não controla seu corpo; é sua mente e seu espírito. Não deve deixar que a respiração faça tudo sozinha. A mente é quem comanda.

Então ele juntou os dois: a cada nova respiração, imaginava que sua mente se tornava um imenso nada; retirava tudo que lhe era inútil.

Pensou num imenso branco. E, aos poucos, seu corpo se juntou com a mente: seus músculos relaxaram. Uma leve energia lhe percorreu. Ele imaginou essa energia de forma azulada... etérea.

E mais uma semana se passou. A respiração controlada. Ele tinha chegado num melhor entendimento, no entanto.

O chi deveria ser retido para que se acumulasse. Uma vez acumulado, dilatava-se. Quando dilata, desce. Quando desce, acalma-se. Quando se acalma, consolida-se. Ao consolidar, começa a crescer. Quando começa a crescer, é novamente puxado e contraído para regiões superiores. Quando puxado, atinge o topo da cabeça. Em cima, exerce pressão para cima. Embaixo, empurra para baixo.

Em cima, exerce pressão para cima. Embaixo, empurra para baixo.

Após duas semanas de meditação, ele obteve um entendimento completo. A próxima etapa seria de movimentos.


***


Foi rapidamente entendido por Kai que a respiração era o principal condutor dessa técnica.

Através dela, energia era captada. Através dos pensamentos, essa energia era direcionada. Ou seja, quando o texto falou sobre em cima e embaixo, estava claramente se referindo ao processo de controlar essa energia.

Mas essas duas não eram nada sem um terceiro componente: movimentos suaves. Através disso, era promovida uma circulação internamente. Ou seja: pela respiração, energia captada; por movimentos suaves, uma circulação interna era promovida; pela mentalização, a energia era direcionada.

Juntas, essas três técnicas formavam a tríade de treinamento.

Foi fácil entender que uma complementava a outra; a prática deveria envolver captar energia, circulá-la de forma adequada e, ao mesmo tempo, coletar e armazenar tal energia. Não adiantaria de nada, afinal, captar, circular e a energia ir embora; ela deveria sempre ser guardada dentro do corpo.

A mentalização era muito eficaz também, pois, através dela, o corpo teria um aumento gradual interno. E era isso que essa técnica buscava: aumento interno.

De pé, Kai deveria praticar estes três ao passo que executava movimentos. Apenas assim poderia se acostumar inconscientemente.

Mas não foi fácil. O livro não era de muita ajuda quando se tratava do modo prático.

Isto é, Kai sempre perdia o fluxo; ou respirava errado quando fazia um movimento igualmente errado, ou se perdia tentando deixar que a respiração controlasse seu corpo, deixando-o lento e pesado.

Mas nem tudo esteve perdido. Notou que a respiração não partia sempre através da boca e nariz. Não; cada poro de seu corpo, musculo e parte da pele era um inalador natural.

Tais fluxos de inalar e exalar foram vagarosamente sendo impregnados no corpo dele. À medida que não mais se preocupava com a respiração, tendo feito disto algo natural, agora só precisava mesclar respirar com movimentar. E, claro, sempre ciente de manter um controle mental adequado. Tudo isso não seria de grande eficiência caso ele perdesse o controle por um instante apenas.

Mas, ao passo que avançou na mentalidade e respiração, ganhou uma acuidade mental elevada.

Percebeu que poderia trabalhar a respiração durante os movimentos. O melhor método seria se esforçar para compatibilizar os dois tempos de respiração com diferentes tipos de movimentos.

Durante a inspiração, quatro tipos de movimentos deveriam se mesclar: ao contrair o corpo ou os braços, movimentos para cima, movimentos de elevação e movimentos abertos. Para expiração, quatro movimentos inversos deveriam ser empregados: movimento de extensão, movimento para baixo, movimento de pressão e movimento fechado.

Ele notou que assim poderia distender progressivamente todas as partes do corpo.

A próxima etapa era Relaxamento e Pensamento e esta foi, talvez, uma das mais difíceis.

Ele havia conseguido relaxar antes para começar o processo de treinamento, mas nessa etapa era mais complicado.

Antes, tudo o que conseguiu foi afastar pensamentos ruins tempo o suficiente para poder respirar, entrar em consenso com a própria mente.

Agora, segundo o livro, ele deveria se entregar por inteiro. Deveria ser confiante, ter fé. Somente assim poderia ficar relaxado por completo.

Quando ficasse relaxado por inteiro, perderia o medo. Ficar relaxado por completo significaria deixar para trás preocupações pessoais, dúvidas que ele tinha constantemente desde que seu núcleo se foi.

Será que conseguiria deixar para trás os pensamentos sobre Gunter e Ardara? E sobre como seria sua vida ao final disso tudo? Será que conseguiria realmente manipular uma arte há muito esquecida? Ou será que falharia?

Não era medo que o inundava. Nunca foi. Sempre foi a ansiedade. E por uma semana inteira lutou contra isso. Sentiu sua energia se exaurir, mesmo tendo obtido controle total sobre a primeira técnica. Não conseguia dissipar suas ânsias. Mas lutou contra isso.

Então deixou-se levar. Acolhido pela essência, acolhido pelo cosmos. Foi como se seu corpo flutuasse. Como se alguém o segurasse pela cabeça e pelos pés e esticasse.

Sua mente entrou em completo relaxamento. E, apesar de estar totalmente calmo, sua guarda não baixou. Poderia interceptar um ataque mesmo com aquela calma? Pois ele se entregou ao universo.

No livro havia uma passagem que dizia o seguinte:

Quando uma garrafa de água, tampada, é jogada num lago, a garrafa não muda. Mas, quando a água da garrafa é jogada diretamente no lago, deixa de ser a água da garrafa e se torna a água do lago. Por isso, usando a imaginação, deve-se sentir moldável como a água, flexível, passiva em relação à forma do seu recipiente. Quando a água que é você for derramada no lago, você será o lago.

Ele seria o próprio chi. A força do pensamento era sempre o fim, afinal. O chi é energia; o pensamento usado em lugar da força. Assim, durante a prática e todo o corpo distendido, sorte que não subsiste a mínima energia grosseira, estagnada entre os ossos, os músculos ou as veias, amarrando-nos a nós mesmos; como disse o Tratado.

Somente na flexibilidade poderia efetuar passagem de um movimento para outro com rapidez e facilidade, executar movimentos com naturalidade. Ser um.

E o corpo era repleto por canais de circulação de chi, que por eles era empregada a tríade de treinamento. Quando a energia dura enchia seus canais, o sangue e o chi ficavam impedidos, os movimentos giratórios da circulação falhando em agilidade. Não. Trocando a força física pela força do pensamento, aonde quer que um pensamento fosse, o próprio chi iria.

Sendo assim, o chi e o sangue nunca precisariam carecer, nunca falhar, sempre em circulação contínua. Para isso, seria necessário ser só um. Estar relaxado. E, quanto mais treinasse, mais agilidade e flexibilidade um sujeito teria.

Ele lembrou que a força física era o resultado final e não o meio. Seria a completude de tudo o que ele estaria disposto a fazer.

Segundo o texto final do Tratado, aqueles que se familiarizassem com essa técnica, teriam seus braços feitos de ferro envoltos em algodão.

Kai estava apenas no início de sua labuta.  


***
                                

Um mês se passou para Kai tomar ciência destes dois métodos. Achou, por vezes, que tinha sentido algo; mas era só sua imaginação.

E, de fato, ele pensava no chi como uma energia etérea e azulada. Mas sua mente estava firme; estava relaxado. Conseguia meditar profundamente como no segundo método. Sentia os arredores, tinha uma percepção mais açucarada. Mas isso tudo de modo inconsciente.

Ele entrava num estado de semiconsciência para poder sentir ao menos as pontas de tal energia. Parecia gastar mais do que absorver. Mas tudo estava entendido. Ele não somente leu e memorizou. Absorveu, e isso seria crucial para a próxima etapa.

O próximo método tinha como primeiro exercício a respiração profunda; seu objetivo era ter consciência do chi. Só assim poderia praticar a tríade de treinamento com louvor. Ter uma meditação mais rápida.

Sentou-se numa postura simples e correta. Seu corpo inteiro relaxou – agora era mais fácil – como se estivesse dormindo; trabalhou para que não tivesse nenhum vestígio de tensão física. O primeiro e segundo métodos foram bastante eficazes.

Em seguida acalmou a mente e se concentrou em seu corpo inteiro, buscou ouvir sua respiração, o bater do coração. Depois disso, imaginou que o topo de sua cabeça estava sendo puxado por um fio para o alto.

Aos poucos, foi respirando mais profundamente, puxando o ar para baixo do umbigo, chamado Tanden.

Ele repetiu este processo durante três semanas, onde ficou num estado quase vegetativo. Mas estava concentrado. Uma sensação começou a ser percebida, como se acompanhasse a respiração profunda.

Kai abriu os olhos e sorriu. Estava sentindo o chi, a energia interna.


***


 Ele finalmente tomara consciência e saber do primeiro exercício. Agora deveria conciliar com o segundo.

Após ter conhecimento de seu chi, partiria para o segundo exercício: respiração com chi, que tinha como objetivo tomar consciência do chi fluindo pelo corpo.

Antes ele teve apenas uma sensação; agora, no entanto, precisaria ter total consciência do que fazia.

Então permaneceu sentado.

Depois de folhear as páginas sobre este método quatro vezes, Kai finalmente começou a entender melhor, isto é, se fosse possível.

A execução do exercício da respiração era ritmada com os tempos de quatro para inspiração, quatro para intermediário; quatro para expiração e quatro aguardando.

Então, durante o tempo intermediário – que era depois da inalação e antes da respiração – onde não havia mais ar sendo inalado, ele sentiu como se estivesse inalando.

E, depois da expiração, no tempo que aguardava a próxima inspiração, sentiu como se o ar estivesse sendo exalado.

Repetiu mais quatro vezes e, ao final, notou que a sensação de inalar e exalar quando não tinha movimentação de ar pros pulmões, era o fluxo de chi entrando em ação.



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