Volume 1

Capítulo 33: DESPERTE...

Kai acordou com um trovão distante soando em sua janela.

Uma chuva torrencial caia. Era incomum chover em Neve Sempiterna.

Ele se levantou e caminhou até uma escrivaninha, aturdido.

Estava tonto, como se tivesse tomado todas e sua cabeça ainda girasse muito.

Sentando-se na cadeira, pegou um espelho próximo e encarou o próprio rosto. Estava exausto.

Havia uma barba enorme, estava mais velho. Mais cabeludo.

Que é que estava acontecendo? Tendo lapsos de memórias constantes, perda da realidade. Lembrava constantemente de uma época que nunca existiu.

Será que estava finalmente enlouquecendo?

– Venha se deitar, querido. – Disse uma voz.

Ele se assustou a princípio, mas logo se suavizou.

Ao se virar, viu apenas uma cabeça para fora das cobertas.

Longos cabelos ruivos espalhados por sobre os cobertores e travesseiros. Aqueles olhos verdes e gentis, cheios de sono.

– É mais um daqueles sonhos terríveis? – Perguntou Ardara.

Kai assentiu. Ele suspirou e se ergueu.

Caminhando até a cama, notou a barriga de sua esposa.

Se encostou no travesseiro e levou a mão até a barriga, massageando-a.

– Como vai meu menino? – Indagou.

Ardara fez beicinho.

– Ainda não sabemos se é um menino ou menina..., mas, respondendo a sua pergunta, nossa criança vai bem.

Kai sorriu, cansado.

Ele levou os lábios até a testa da esposa e beijou-a. Sentiu o cheiro que estava tão acostumado.

Depois baixou a cabeça beijou os lábios da mulher. Doces e gentis.

– Que é que se passa nessa sua cabecinha hein, meu Lorde?

O nome o fez sentir certo arrepio. Ainda não estava acostumado com isso, mesmo depois de 10 anos.

Ardara se virou de costas e puxou o braço dele, convidando-o para uma conchinha.

– São apenas pensamentos, minha dama de ferro.

Sua esposa estremeceu ao ouvir o apelido e lhe cutucou com o calcanhar na canela. Ele sabia que ela não gostava de ser chamada assim. Isso lhe tirou uma gargalhada.

– Quero apenas ficar aqui, deitado com você pelo resto da vida.

– Então fique, não precisa partir.

Um trovão soou. Um clarão iluminou o quarto.

Alguns minutos se passaram até que uma batida soou na porta. Em seguida ouviu-se apenas a brechinha se abrindo.

Kai e Ardara olharam para trás e viram um pequeno garoto de cabelos negros e longos os encarando.

– Muito barulho. – Disse o menino, fazendo de tudo para não chorar.

Kai sorriu e abriu o braço esquerdo.

– Venha, Jovem Lorde.

O pequeno saiu correndo e pulou na cama. Kai o ajeitou no meio e os três dormiram solenemente.



***



Tang! Ting! Bing!

O som de espadas era ouvido por todo pátio de treinamento.

A Serpente Negra do Norte, como era chamado o Lorde de Neve Sempiterna, Kai Murphy, treinava com seu filho mais velho e primogênito, Aidan Murphy.

O menino era esbelto e tinha um porte físico que lembrava o pai na juventude. Tinha cabelos longos e negros, mas seus olhos eram verdes como os de sua mãe.

Já estava nos seus 16 anos.

Havia uma multidão de soldados observando o embate.

Num lugar mais afastado, Ardara observava tudo com a filha mais nova do casal, Siobhan.

A menina tinha traços esticados como os do pai, mas cabelos ruivos iguais aos da mãe. Os olhos eram irremediavelmente como o de um Murphy em seu mais puro gene. Verdes.

– Sua guarda está baixa. – Gritou Kai, dando uma rasteira em Aidan e batendo em sua costela com a parte achatada da espada.

O rapaz foi para trás, praguejando.

Kai se precipitou outra vez e desferiu vários golpes, obrigando o filho a defender cada um deles.

– Mais rápido! – BING. – Mais forte! – BING. – USE MAGIA.

BANG!

Aidan caiu no chão, suando muito. Kai colocou a ponta da espada no queixo do filho, obrigando-o a erguer o rosto.

– Do que adianta ganhar de recrutas? De dar uma de espertalhão? Se não consegue lidar com um Lorde velho e cansado, não é páreo para ninguém.

Kai fez um corte na bochecha do filho, que aguentou o olhar de claro desapontamento do pai.

– Não seja como Ruffael, filho. Ele morreu por sua arrogância.

Kai guardou a espada e deu as costas ao filho.

Passou por vários soldados que se curvaram ao seu lorde.

O homem ficara velho. Seus cabelos cresceram mais, e um tom branco se apossou da lateral deles.

Sua barba ganhou mais espessura, mas branco igualmente.

O velho lorde se aproximou da mulher e da filha.

Ardara não mudara nada, apenas algumas rugas no canto dos olhos e da boca.

– Precisava pegar tão pesado?

Kai lançou um olhar cauteloso a esposa. Era necessário.

– Seu pai teria feito a mesma coisa, querida.

– E desde quando você daria ouvidos ao que meu pai diria ou faria?

Ignorando o comentário mordaz, Kai acariciou a filha no topo da cabeça e encarou a mulher mais uma vez.

– Tenho certeza de que se tivesse de evitar a morte de Ruff, Enoryt ou Eileen teriam pegado mais pesado do que eu. Não quero que aconteça o mesmo.

Ardara acariciou a barba do marido. Ela tinha um olhar gentil.

– Meu pai foi duro com Ruff a maior parte de sua vida, Kai. Não cometa os mesmos erros. E Aidan não é Ruff... simplesmente não há comparação.

Kai a encarou, cansado.

– Eu sei querida. É só... o rapaz é arrogante, ele não precisa disso.

Ardara ergueu uma sobrancelha, debochada.

– Ele é igualzinho ao pai na juventude. Tem o rei na barriga, acha que é mais forte que todo mundo, mesmo sendo. É inteligente e astuto. Não vê como as coisas se repetem?

Kai suspirou.

– Tive de remar muito para perceber como isso me prejudicava, querida.

Eles se encararam um pouco. A pequena Siobhan puxou as vestes do pai.

– Papai, papai. – Disse.

Kai olhou para baixo.

– Oi, docinho.

– Quando vai me ensinar arco e flecha?

Kai olhou para a esposa, que sorriu.

– Então é arco e flecha que iremos aprender desta vez? Pensei que fosse controle de mana.

– Nãããão! – A menina bateu o pé, cruzando os braços e fazendo beicinho. – Eu vi alguns recrutas treinando arco e flecha, e eu quero aprender isso agora.

Ela estufou a bochecha, a fazendo parecer igualzinha a mãe.

Kai se abaixou para ficar na altura da pequena Shiv.

– Façamos assim: você e a mamãe estudam as opções e, quando você tiver certeza absoluta daquilo que quer, o papai ensina.

A expressão da menina suavizou, mas ela não era boba.

– Que tal o papai me ensinar tudo que ele sabe?

Kai franziu a testa.

– Tudo? Isso não seria um pouco demais?

– Mas é que eu quero ser útil para o papai... não quero que você me olhe como olhou para o irmãozão.

Surpreso, o velho lorde franziu a testa e lançou um olhar para a esposa, que tinha uma expressão cautelosa.

– Que olhar ele deu para o irmão, Shiv? – Perguntou Ardara, acariciando a cabeça da menina.

Siobhan olhou para o pai e depois para a mãe. Ela finalmente olhou para o irmão e, depois de algum tempo, para o chão.

– De pena.

Kai suspirou. Saber que a filha pensava isso o deixou triste.

Ele olhou para o campo de treinamento e viu alguns recrutas tentando ajudar Aidan a se levantar, mas o garoto recusou as ofertas com rispidez.

Entrementes, uma pessoa se aproximou da família.

– Senhor.

Kai se virou e havia um velho homem corcunda, com os olhos inchados e quase careca. Tinha uma enorme cicatriz no lado direito do rosto.

– Pois não, conselheiro Jona.

– O senhor pediu que o avisasse assim que o senhor da casa Lei chegasse... ele o aguarda no escritório.

Kai suspirou, ar gelado saiu de sua boca. Ele passou a mão na barriga de Ardara, que já estava parcialmente grande. Beijou a cabeça de Siobhan e se virou para o campo de treinamento.

– Aidan! Aidan! Temos que ir.

Enquanto o rapaz se limpava, Kai se virou para os outros.

Jona, Ardara e Siobhan o encaravam, quietos.

Não emitiam nenhum som.

Kai piscou algumas vezes. Ele sorriu, desconcertado.

– Que houve?

Não teve resposta. Alguns segundos se passaram, até que Jona falou.

– Acorde, Kai.

O velho lorde estranhou, tanto que franziu a testa.

– Estou acordado... – Disse, com um sorriso sem jeito.

– Você sabe que não está. – Disse Siobhan.

– Acorde logo, querido. – Continuou Ardara.

– Acorde, Kai Stone. Não deixe Greylous o dominar.

Kai deu dois passos para trás, assustado. Ele balançou a cabeça e acabou batendo em algo.

Quando se virou, Aidan estava ali, onde ele havia se chocado.

– Pai... – disse o rapaz, segurando o braço de Kai. – Tudo bem? Está pálido... e gelado. Está passando bem?

Kai olhou de novo para os outros três, mas estes não estavam mais estranhos.

– A-algum problema, milorde? – perguntou Jona.

– Querido, está tremendo, aconteceu algo? Está passando bem?

Engolindo em seco, ele balançou a cabeça em negativo. Suspirou fundo e sorriu, sem graça.

– Vamos ao escritório.


***


Kai estava sentado em sua cadeira de espaldar reto.

De frente para ele, no outro lado, estava Jim Lei.

Ele tinha envelhecido bastante. Agora era mais parecido com o pai do que antes. Exceto que não havia cicatriz.

Tinha olhos gentis e muitas rugas ao redor delas. Estava careca; tinha uma barbicha ruiva no queixo.

– Primo – Kai sorriu. – Como está? E Andorra? Soube que está forte como um potro.

– Andorra vai bem, milorde, agradeço. – Jim sorriu. – Soube que milady Ardara está à espera de mais um ruivinho.

– Sim. – Kai sorriu. – Sabe como é, quanto mais...

– Melhor... – Completou Jim, rindo.

– As coisas em Minas Cinzentas vão bem? Soube que descobriram um novo minério.

Kai falou, estático.

– Vão bem. Esse novo minério é tudo de bom, em breve terei o prazer de lhe mostrar pessoalmente.

Jim falou, um pouco exausto.

Kai o encarou.

– Desculpe, na empolgação de lhe rever, nem perguntei se queria um gole disto... – Kai pegou uma garrafa de um líquido âmbar com lascas flutuando dentro. – A primeira vez que bebi, tinha 17 anos... É uísque envelhecido da Península de Lima... nossa, faz tanto tempo.

Kai ficou divagando, pensando em sua juventude.

– Você quer? – Perguntou, saindo de seu enervar.

– Aceito um pouco, por favor.

Kai apenas olhou para trás. Aidan saiu de suas costas e deu dois passos.

Ele bateu palma uma vez. Dois copos cheios de cubos de gelo apareceram.

Depois a garrafa começou a secar, enquanto que os copos começaram a encher.

– Magia... – Disse Jim, os olhos brilhando. – Como eu amo magia.

Ele tomou um gole do copo e fez uma ótima cara.

Passados alguns instantes, Kai o encarou.

– E então, Jim, que é que veio fazer em Neve Sempiterna.

Jim olhou para seu primo. Ele não era chamado de a Serpente Negra atoa.

Ele tomou um outro gole do copo.

Suspiro.

– É só que... você sabe. Brutus... quero dizer, Lorde Carraig é difícil. Tem batido o pé sobre o próximo lorde de Minas Cinzentas. Sabe, ele não confia muito em mim...

– Eu já esperava isso..., mas o que se pode fazer? Os filhos e sobrinhos dele não se encontram aqui... e você é seu parente mais próximo, não é?

– Isso... meu pai é primo dele.

– Então... – Disse Kai, erguendo os braços. – Estamos todos em família, achei que tudo estivesse resolvido.

– Não está. Ele insiste que devemos ir atrás de seus dois filhos...

Kai coçou a cabeça.

– Pensei que Ágda fosse mais do que necessária para assumir o cargo.

– E ela é... mas você sabe como existe esse preconceito com mulheres assumindo o cargo... e ela está grávida, milorde. Eu não posso entrar nesta briga... Andorra também ainda é muito pequena. Não quero que minha família entre nesse concílio... por mim...

Ele se refreou. Tinha certo receio no que ia dizer.

– Fale, primo. Estamos em família.

Jim suspirou forte.

– Por mim, eu nunca teria saído de Neve Sempiterna... teria continuado ao lado de papai, de minha mãe...

– Mas você sabe que é necessário lá, Jim. Não é como se o cargo estivesse nas mãos de um estranho. Os velhotes da capital fariam um escarcéu se um único velho rabugento botasse pra correr aquele com as principais características de comandar uma cidade como Minas Cinzentas. Você sabe disso.

Jim tomou um gole de seu uísque. Kai tinha razão.

– Não nasci para comandar, primo... ademais, quem diria que Christer e Aleksander sumiriam naquela caravana às Geleiras? Muito azar.

O sangue de Kai esfriou. Ouvir sobre a expedição feita às Geleiras ainda o deixava muito triste. Era uma cicatriz ainda aberta.

– E o que quer que eu faça? Não posso assumir duas cidades ao mesmo tempo. Neve Sempiterna também é uma das Dez Grandes, assim como Minas Cinzentas.

– Eu sei..., mas não é isso que estou pedindo... você é o que detém mais poder econômico, militar e comercial dentre todas as Grandes Casas, logo depois de sua alteza Walsh. Quero pedir... não, implorar... por favor, me ajude. Deixe que eu venha com minha família para cá, para que Ágda tenha uma gravidez descansada, para que Andorra cresça onde eu cresci.

– E o que espera que eu faça? Não sou o rei, primo, está me dando mais crédito do que tenho.

– Converse com ele então. Veja, há Mairon... tem também Bron... eles são sobrinhos de Brutus... eles podem comandar aquilo lá. Com seu status e suas conquistas, sei que tem certos contatos. Você tem moral lá.

– Você se escuta? Mairon tem a vida dele, tem os próprios sonhos, nunca quis isso. E Bron... bom, Bron é ministro da fazenda em Porto Longevo, você sabe. Ele é quase braço direito do Lorde do Mar... sem contar que a vida de sua esposa está lá... duvido que Caitrin mudaria assim, sem mais nem menos...

– Isso é um pedido, Kai. Por favor, me ajude.

– Desculpe, Jim, mas pra mim é inviável...


Algum tempo se passou, Jim encarava o copo. O gelo deu uma leve mexida, havia raiva em sua face. Mas desgosto era muito mais evidente.

– É porque me odeia, não é? – Jim deixou escapar. – Porque eu e Ruff implicávamos com você quando éramos pequenos... isso tudo é vingança? Você se deleita ao dormir sabendo que minha mulher pode morrer e nosso filho também? Em Stone.

Kai engoliu seco...

Ele olhou para trás, Aidan estava parado, olhando para o nada. Ele tornou a olhar para Jim.

– Acorde, Stone. Há sangue em suas mãos, não perca para Greylous.

Kai piscou várias vezes.

– Pai.

Aidan gritou ao seu lado.

Kai despertou, era como se estivesse num transe. Ele olhou para o lado, seu filho estava ali, de cócoras e apertando seu braço firme.

Ele olhou para frente e Jim estava lá, preocupado.

– Aconteceu de novo, não é? – Aidan indagou. – Que é que está rolando? Você está suando frio... e estamos no inverno.

– I-isso não é minha culpa, é? – Perguntou Jim. – Talvez eu tenha pedido demais?

– Não... ele só precisa acordar.

Kai, que estava suando frio, olhou para Aidan.

Agora ele tinha uma feição fria. Aos poucos, ia se tornando uma feição de pena.

– Isso mesmo, Kai Stone. Acorde.

Aidan se levantou e ficou sério, olhando ao redor.

– Kai Stone... esse nome...

– Isso mesmo. É quem você é, não é?

– Sim... tenho certa lembrança...

– Então não se esqueça. Está chegando ao clímax, o momento chegará e você precisará agir... ele já está se movendo.

– Clímax? Momento chegando? Quem está se movendo?

– O xamã... Greylous, aquele que tomou seu corpo.



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