Chamado da Evolução Brasileira

Autor(a): TheMultiverseOne


Uma Cidade Pacata – Olhos Voltados para Mim

Capítulo 133: Crisântemos

No quarto branco, houve quase absoluto silêncio, interrompido somente pelos constantes barulhos da aparelhagem hospitalar, somados aos sons anormalmente altos das próprias respirações dela.

— Huh…

Montes de fios e acessos eram vistos conectados aos braços da adolescente em coma induzido, deixada segundo as diretrizes do processo de confinamento, sob um cuidado tão artificial.

Qualquer leigo daquelas ruas lá embaixo diria se tratar de “crueldade” tratar um ser humano de tal forma, contudo, ela não tinha como se importar menos — em especial, ao considerar o misto das circunstâncias prévias e atuais.

— Eu realmente não tô entendendo o motivo de tudo aquilo — falou, soando livremente debochada. — Tão pouca carne… Não tem quase nada para olhar!

Zombou por dentro ao deixar o curto sorriso sarcástico consumir suas feições, logo depois tomando para si um assento ao lado esquerdo da maca, em oposição à outra pessoa ali, com ela.

— Parece que tiveram de sedá-la por causa de alguns distúrbios elétricos na construção. O pessoal tá acreditando que ela tenha algo haver com o problema — citou, neutra. — Mas eu sei lá! Logo os dois vão virar história, de qualquer forma. É como as coisas são.

Ouvir tal tipo de comentário sair com tanta naturalidade encheu o coração da terceira na sala com algo difícil de ser definido e, em especial, que sequer o deveria ser, pelo bem de sua posição.

— Pessoalmente, eu prefiro que aquele pirralho sofra por ter me deixado afastada do trabalho… O trampo que o Menendez arranjou tá parecendo legal pacas e eu aqui, fazendo fisioterapia ao invés de pegar peso... Vê se pode!

As palavras de Melissa derramaram veneno. Inquieta, ela ajustou o posicionamento do braço enfaixado frente ao corpo, dentes a ranger sem pena.

O fato de Mark ter errado o lugar da facada só podia ser chamado de “milagre”.

— Sabe, né? Ele tentou fugir todas as vezes possíveis, depois de saber que a garota tá aqui também… Se não me engano, foram umas sete ou oito tentativas.

Um mero erro de lateralidade a salvou de jamais poder respirar outra vez. No pânico, o Menotte fincou a lâmina do lado direito do peito, causando danos significativos, porém nada letais, ao pulmão.

— De qualquer forma, serve bem ter posto ele na solitária. Vai aprender uma coisa ou duas, passando um tempinho lá… começando por respeitar os mais velhos!

Graças aos ferimentos, o processo de afastamento foi inevitável e mesmo com serviço médico e fisioterapêutico de ponta à disposição, um osso quebrado demoraria a cicatrizar.

— … Eu quero que ele se foda. Tô perdendo músculo, ficando toda dura... Odeio isso!

A última proclamação deixou ares pesados no ar e sem nem hesitar, chutou a metafórica “parede psicológica” e a destruiu, desprovida de tato ou medida.

— Diz alguma coisa. É um porre sentir que eu sou a única que tô existindo aqui.

A primeira encarada trocada em vários minutos amplificou a frieza da climatização ambiente.

— Você não deveria estar em casa agora, Melissa?

O aspecto frio dos olhos pensativos perfurou a iniciativa carrasca como um disparo a esmiuçar uma vidraça; quase passou a sensação de ser um ataque pessoal… quase.

— Não tem nada de bom para ver em casa… — Mas Melissa apenas ignorou, inclinando o queixo sobre o braço sadio. — Quer dizer… maratonar série tomando um pote de sorvete? Que vida triste…!

“Uma vida triste de verdade é só ter o trabalho como coisa interessante a se fazer”, pensou, decidindo guardar a farpa para si. — Entendi. Então, fique.

O clima não pôde evitar a automaticamente reverter para o deserto verbal habitual de quase todas as interações entre as duas.

— Vem cá, cê já tá olhando para essa guria faz um tempo…! Me explica qual é o rolo que vocês duas tiveram… Por acaso tá se sentindo mal por ela ou alguma coisa do tipo? Ou talvez seja só a minha cara?! Porque não é de hoje que eu penso sobre você ser fria para cacete comigo.

Marilyn quase bufou de desgosto, mas se conteve.

— Não vamos começar esse tópico de novo — anunciou. — Sabe que eu não tenho nada em específico contra você, Melissa. Não fique criando coisas que não existem.

Elas já tiveram o exato mesmo atrito não uma, não duas, mas várias vezes, onde nas mínimas discordâncias, a agente mais jovem logo tratava de encontrar um modo de passá-la a culpa.

“Que bom que eu não sou tão honesta quanto poderia, ou essa pirralha ouviria muita coisa.”

A confusão veio desde sempre — Perez nunca a favoreceu ou tratou de modo especial graças ao talento, ao contrário da maioria dos demais agentes —, e só piorou após a delegação de Gordon como supervisor.

Ambos decidiram que iriam mostrá-la a realidade de um mundo onde não se pode confiar plenamente em reputação interpessoal e diferente dos outros, empurravam trabalho de verdade por aquela boca grande.

Mas a questão é, Melissa podia ser um tanto pirracenta demais…

Não levou muito após a mudança para que começasse a insinuar a possibilidade de “algo” com o superior imediato e, para dizer o mínimo…

— Já conhece o caso dos Crisântemos, né? — resolveu ceder, para aliviar a súbita tensão.

— A máfia que vocês derrubaram há, tipo, uns dez anos?

— Essa aí. Então… acontece que…

Melissa Bauer conseguiu se tornar a única ameaça passiva de causar o término de um casamento tão belo.

— Os Crisântemos não foram derrubados de verdade — anunciou, sua voz tomando contornos obscuros. — Por mais que alguns membros importantes tenham sido mortos ou presos, a missão foi considerada falha, porque uma parte significativa só debandou e nunca mais foi achada.

O olhar, focado em Lira Suzuki, trouxe outra vez as memórias daquela noite.

— Mesmo que tenhamos matado Ulisses Costello, o problema não se resolveu. Eu estive lá, portanto, eu sei.

Nem investigar anos de crimes políticos e interromper planos de ataques terroristas se equiparou à tentativa falha de destruir um “simples” grupo internacional de venda de drogas e tráfico de pessoas.

E tudo isso se devia por conta dessa adolescente, na época, uma mera criança.

— Basicamente, foi o seguinte…

[...]

O temos em mira agora, a duzentos e vinte e oito metros, câmbio.

— Mira fechada em duzentos e vinte e oito metros, câmbio.

 O dispositivo de comunicação indetectável aos olhos desligou com um pequeno bip, abrindo espaço para o pequeno sorriso de escárnio e satisfação com o sucesso já garantido da operação.

Eles, enfim, dariam um ponto final à máfia mais proeminente dos EUA, com rápida expansão para o cenário mundial.

“Normalmente, isso não seria trabalho para a gente”, pensou ela, municiando as pistolas para o assalto armado. “Mas esses aí conseguiram ser problemáticos ao limite…!”

Os Crisântemos, como passaram a ser chamados, se tornaram um rápido grupo de interesse ao fornecer drogas para cada canto do mundo, embora dizer isso seria apenas arranhar a superfície.

Eles também articularam uma grande linha de tráfico de pessoas para a prostituição e, mais surpreendente ainda, de crianças.

"Gostos doentios... Tarados por crianças...!"

Em particular, existiam fortes suspeitas de que uma série de raptos de crianças nos estados do Texas e Califórnia estaria relacionada às ações do grupo.

“A gente vai ter tempo para descobrir.”

Além dos múltiplos esquemas ativos, lavavam o dinheiro por meio de empresas parceiras, que compartilhavam parte do lucro criminoso. De tal forma, passavam indetectáveis em transações financeiras e aquisição de bens.

A vontade de esbanjar, porém, acabou falando mais alto e serviria como sua ruína, posto o relato antecipado de um sujeito anônimo.

Uma grande festa, sem programa, entrou subitamente no calendário de um dos salões mais financeiramente exigentes da Califórnia; não investigar seria bem mais que mera estupidez.

Com uma taça de vinho branco, Ulisses Costello sequer sonhava que ao menos trinta ângulos de tiro diferentes e preparados para qualquer manobra aguardavam uma simples confirmação, vinda sem demora.

Iniciar assalto terrestre.

O corpo caído levantou alvoroço, visível para além das janelas. Já em posição, Perez e os demais vinte homens e mulheres invadiram agilmente pelas rotas planejadas.

— É a nossa hora de entrar…! — exclamou para os colegas, ao se infiltrarem para entrada de carga do salão de eventos.

Gritos e pânico depressa se tornaram a nova melodia em eco pelo lugar exuberante com aparência de palácio real.

A maioria das mulheres em vestidos colados e cortes espalhafatosos de cabelo corriam, desesperadas, enquanto algumas de suas irmãs e a grande maioria dos homens, em ternos formais, respondiam à altura.

Armas de grosso calibre e alto potencial destrutivo foram arrancadas de todo lugar — eram rifles, metralhadoras e escopetas — desde debaixo das mesas perfeitamente decoradas, até sob os grandes tapetes vermelhos ornamentais.

— Eles também estão armados…! — falou um dos agentes, envolvido no meio da troca de tiros. — Droga… eles se prepararam melhor que a gente…! Será que já tinham antecipado isso?!

O grupo treinado tentava avançar, mas a troca fervorosa abria espaço para a fuga de alguns por caminhos pré-prontos. Foi nesse instante que ficou claro o fato de os terem subestimado.

— Droga… E a gente aqui pensando que iam ser só um bando de festeiros…! — refletiu consigo mesma, escondida atrás de uma pilastra de mármore. — Vamos precisar de reforços…!

O poder de artilharia notavelmente menor os colocava em risco e embora os snipers estivessem contribuindo bastante com o abate à distância, a movimentação errática dos alvos significava muitos erros.

— Eles estão conscientes dos snipers… Será que treinaram até para isso?

Alguns resolviam tomar a linha de frente e morrer para salvar os membros em fuga, tentando tomar a vida do máximo de agentes até enfim caírem. 

O sangue frio da estratégia a enojou, porém nada a preparou para o momento que veio a seguir.

— … Mamãe… — Uma voz pequena, assustada, soou ao longe. — Mamãe… por favor, levanta…

— Huh?! — Os olhos de Perez quase fugiram das órbitas ao presenciaram a cena ao longe.

— Mamãe… eu tô com medo…! Levanta, mamãe…!

Era uma garotinha, trajada em um vestido vermelho fofo, cheio de detalhes de rosas. 

Dali, ela não aparentava ter mais que oito ou nove anos, e em sua frente, o cadáver sangrante de uma mulher adulta trajada em vestes iguais.

O corpo sangrava de um grande buraco feito na posterior do tórax — fruto de um tiro de escopeta —, já pálido e possivelmente frio, ainda continuamente chamado e movido pelo desespero da menina.

— Mamãe…!

As pernas de Marilyn a urgiram para correr e socorrê-la, arrancar aquela pobre alma do meio da carnificina, mas antes de poder sequer reagir direito, um homem de terno saltou para catá-la.

— Não…! Mamãe…! MAMÃE…!

— A gente tem que ir, Lira… A gente… tem que ir…!

O sujeito a envolveu nos braços, carinhoso e usou das pilastras para atravessar o inferno de projéteis; balas indo e vindo, inevitavelmente chegou até ela.

— … Parado…! — Alerta, Perez apontou a pistola carregada. — Não mova um músculo ou eu atiro! Coloca a garota no chão e fica de braços para cima! AGORA!

Visivelmente trêmulo, se recusou a cumprir a ordem, e ao invés, passou a tomar pequenos passos para trás, rumo a um dos corredores laterais do salão.

— Eu disse para parar…!

Sair da proteção da pilastra se tornou sinônimo de desejar a própria morte e com tantos tiros, revelar a localização a faria alvo definitivo.

— Me desculpe… — mantendo a garota o mais próximo de si quanto possível, falou. — Eu… eu sinto muito…

Ele arrancou do interior do terno um conjunto com algumas granadas.

— …! — Tal ato trouxe imediata atenção máxima por parte da mulher, que não hesitou em apontar-lhe a arma.

— Usa…! — Ainda mais incontrolável, aproximou o pé do pacote. — Contra eles…!

— Ei…!

O pacote foi chutado na exata direção dela, e entre o desespero da chance de explosão e a adrenalina da troca de tiros, o perdeu de foco e deixou fugir.

— Droga…! Eu…!

Cobriu os olhos e se preparou para a grande explosão, somente para notar, vários segundos depois, que sequer foram ativadas.

[...]

— E as granadas serviram de algo? — Melissa questionou, visivelmente entretida.

— Elas foram o motivo de termos conseguido sobressair sobre os Crisântemos. Foram suficientes para forçá-los a deixar as posições de conforto e se fazerem disponíveis para nossos tiros — respondeu, direta. — No final, a operação matou vários membros já identificados, mas muitos escaparam.

— Então, esse rolê todo é você me dizendo que essa garota aqui…

— É — interrompeu. — É ela.

Marilyn admirou a feição comatosa de Lira Suzuki, sendo impossível notar o quanto o tempo de dez longos anos a deixou praticamente intocada.

— Descobrimos eventualmente que o delator anônimo se tratava do mesmo homem que a levou e me entregou as granadas, além de ser o pai dela, Hidetaka Suzuki.

— Caramba, que reviravolta…! Roteiro digno de pipoca!

Por mais que os olhos, antes escuros, tenham mudado, o formato do sofrimento presente neles permanecia o mesmo do visto na fatídica operação.

— Ele quem nos informou o dia e o local da festa; era novo no ramo e segundo o próprio, entrou porque foi pressionado. Ulisses quis não só as empresas, mas a esposa dele, Alice Suzuki, e a tomou como bem desejou.

— Caprichos, caprichos… — completou a ouvinte. — E o motivo de não o terem preso também?

— A filha, é óbvio. Além disso, os negócios dele eram lícitos o bastante; não teve tempo de lucrar com a máfia… Ou seja, não ganhou nada — pausou brevemente, em reflexão. — Por fim, os registros dele têm se mantido consistentes. Monitoramos as contas bancárias e as transações de Hidetaka e nada suspeito surgiu.

— Huh… Loucura, loucura!

Pensou em pegar a mão da garota e apertá-la entre as suas, mas a presença de Melissa a inibiu, causando profunda insatisfação.

No fundo, ela jamais imaginou que sob essas circunstâncias ocorreria tamanho reencontro.

[...]

— Ah, pobre Lira…! Quem imaginaria que uma adolescente tão doce estaria envolvida em algo tão perigoso… Que aperto no meu coração…!

O ar agradável da madrugada no bairro de Kabukicho, Shinjuku, se via poluído pela atmosfera maluca do distrito de entretenimento. Eram quase três da manhã em horário local, e o espaço continuava cheio.

Casas de massagem disfarçadas, pachinkos, casas de jogos e apostas… O mundo ao redor brilhava com pecado, luz essa refletida na taça do caro champagne entre os delicados dedos da mulher de cabelos brancos.

— … Seu… monstro… A minha… filha… Minha Lira…

— Chore! Chore o quanto quiser, meu querido! Para isso, eu te dou toda a liberdade.

O quarto de hotel, isolado do mundo, prendia entre as quatro paredes a melancolia do mero homem de negócios, que nada podia fazer, além de se lamentar.

— Afinal, lembra de qual ficou sendo o nosso acordo depois daquele dia, não? — esgueirou-se na cama, falando no ouvido dele. — Deixe eu te lembrar…

O bafo alcoólico, gélido, fez doer a pele, e entre tremores e o puro pânico, sequer se atreveu e mudar o foco dos olhos.

— Eu não vou tocar na Lira, não vou proibir você e nem te restringir de viver sua vida; não vou entrar no caminho dos seus negócios e nem opinar sobre as suas escolhas. Para você, eu serei só um fantasminha…

— …! — Ele tremeu com violência, quando as unhas frias espalharam o perfume de flores de crisântemo por suas bochechas.

— Porém, como um fantasminha, eu nunca vou te deixar em paz, nunca vou te deixar sozinho e nunca vou te permitir, sequer por um segundo, se sentir verdadeiramente em paz com a vida, afinal, foi você quem fez isso por si próprio, não lembra? Você se colocou nesse buraco e vai permanecer nele.

— Socorro… Socorro… — murmurou, em lágrimas ainda mais intensas. — Seu… Monstro… Seu monstro…!

— Chore, chore!

Giulia o tomou entre os enormes seios, o acariciando de modo tranquilo e até amável. De forma sutil, ela repousou o queixo sobre o topo da cabeça de Hidetaka, deslizando as mãos pelo rosto molhado.

— Seu… demônio… Sua… desgraçada…!

— Pode me chamar do que quiser, querido. Fico feliz em saber que me xingar te faz sentir melhor!

— Você… arruinou a minha vida… Você…

Um enorme sorriso se abriu nos lábios excessivamente vermelhos da mafiosa.

— Você… tem que morrer…!

— É uma pena saber que pensa isso de mim, meu querido, uma mulher tão dedicada… Parece que vou ter que fazer aquilo de novo, para você se comportar.

— Haah?!

Da mão direita espalmada de Giulia se materializou um tipo de gás branco em pequena quantidade, suficiente para assombrá-lo, como em todas as vezes.

— Não… Não…! Me deixe…! — tentou se debater. — Não…! Isso não!

— Calma, querido! É só um pouquinho de amor meu! Vai se sentir bem melhor depois e talvez até esqueça da Lira!

A mulher de aparência magra e frágil o prensou contra a cama macia com uma exibição hercúlea de força, sequer o dando chance de tentar correr ou lutar de volta.

— Olhe para você, tão ansioso, preocupado… Vamos relaxar um pouco, sim?

E então, prensou a palma contra nariz e boca do empresário, deixando o conteúdo correr livre por seu sistema.

— Perfeitinho! Não se sente bem melhor agora?

— Unnngh…

Os efeitos vieram em poucos segundos e varreram a mente do pai preocupado de qualquer problema ou tribulação, deixando somente a mais pura tranquilidade, na forma de um sorriso.



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