Em Outro Universo Angolana

Autor(a): Tayuri


Volume 1

Capítulo 18: Astrid Perde Um Amigo E Uma Futura Inimiga

— Não durma! — Aiyden repetiu, pelo que seria a décima vez. — Astrid, não durma.

— Não vou — bocejou e coçou os olhos. — Só...só vou fechá-los um pouco. Já...já os abro...

— Não feche os olhos. Dormir pode ser fatal, você pode não acordar mais.

— Mas é que... — Fechou e abriu os olhos. Várias vezes. —  Tenho tanto sono... — Um enorme bocejo escapou de sua boca. Seus olhos tornaram-se a fechar e Astrid se sentiu relaxar. Suas dores pareceram se dissipar. O sono veio facilmente para os olhos até que um beliscão a forçou a voltar para realidade.

Sem soltar qualquer som, Astrid encarou seu companheiro de cela.

— Foi para te manter acordada!

— Não sei se sabe, mas existem outras formas de acordar alguém. Como por exemplo chamar pelo nome...

—  Eu chamei! Muitas vezes.

—  Dá próxima chama mais alto, mas não me belisque.

—  Então não durma — retrucou. —  Não irei te beliscar se você não dormir.

Sem poder se conter, Astrid soltou um bocejo e Aiyden soltou outro.

—  Não boceja.

— Não fiz de propósito.

Aiyden coçou os olhos. Soltou um longo bocejo e seus olhos piscaram, tornou a coçá-los e Astrid concluiu que ele cairia no sono, entretanto ele não o fez. O garoto encostou-se mais a parede e pela primeira vez desde que chegaram Astrid o viu realmente se encolher, chegando assim à conclusão que ele não era realmente imune ao frio.

Astrid olhou para baixo e seus olhos caíram no candeeiro que em algum momento enquanto coexistiam no mesmo ambiente, Aiyden havia o colocado em suas mãos.

A soldada o depositou no chão. Empurrou o objecto para o meio e falou:

— Vamos partilhar.

Aiyden a encarou e ela prosseguiu dizendo:

— Não é certo que apenas eu o use.

Aiyden permaneceu olhando para Astrid, por alguns instantes até que sem dizer alguma palavra, pegou o objecto e como se nunca o tivesse visto, ele o estudou por alguns minutos, até que por fim o colocou no chão. Tentou tirar uma das luvas, no entanto parou e como se mudasse de ideia não a tirou, ao invés disso retirou o casaco. Pressionou a mão sobre o emblema do Centro, que ficava em seu peito e alguns segundos mais tarde a luz azul do emblema se apagou e facilmente Aiyden tirou a parte de cima do traje.

— O que está fazendo? Você vai congelar de frio — alertou Astrid, antes de Aiyden pegar o candeeiro e o aproximar de seu corpo.

— Estou tentando ver se o que o Sr.Moore leu, funciona.

— Está funcionando!?

— Não está muito quente, mas acho que está melhor do que antes. Tomá — estendeu-o para Astrid. — Retire as luvas e envolva bem em suas mãos, com certeza irá te aquecer.

Astrid não disse nada, e assim Aiyden o colocou em suas mãos.

Cruzando as pernas, o soldado puxou o casaco para o abdômen, tapando assim o sangue que manchava o tecido de sua camiseta.

— Está ferido?

— Sim! Mas não é muito profundo. Eu provavelmente ficarei bem.

Provavelmente...

— O que está fazendo? — Astrid perguntou novamente, enquanto assistia Aiyden esfregar as mãos e depois batê-las em suas pernas.

— Tentando não congelar.

— Pensei que era imune ao frio. — Astrid tentou sorrir.

— Nunca disse tal coisa. Apenas falei que tinha uma boa resistência — falou ele, sem olhar para Astrid. — Nem que for para mover só os dedos, tente se manter em movimento.

— Está funcionando?!

— Ainda não congelei então, deve estar funcionando.

— Eh! Deve estar mesmo — pousou o candeeiro no chão, entre os dois. — Já que a tua imunidade se esgotou completamente, vamos partilhar.

Retirou o par de luvas que envolviam suas mãos, tirou as foices das costas e em seguida retirou o casaco, o depositou sobre suas pernas e quase timidamente começou a fazer o mesmo que Aiyden.

— Acho que não está funcionando.

— Ainda nem passou cinco segundos desde que você começou. E não faça movimentos preguiçosos.

— Não são preguiçosos. Estou tentando o meu me...

Soldada. Soldada! Está ouvindo? Astrid Axel está ouvindo? Astrid Axel!!

— São eles. — Foi tudo o que Aiyden falou. Astrid seguiu seu olhar e percebeu que ele olhava para o bracelete que lhe foi dado antes de ir à guerra.

Astrid Axel. Se estiver…

Apenas cortes e uma voz baixa passou a sair do bracelete, o qual já não estava em tão bom estado, provavelmente se Astrid o puxa-se com muita força, talvez ele se quebrasse e assim eles não a encontrariam. Ela não voltaria para o Centro. Não teria de treinar ou lutar contra ninguém. Voltaria para casa e por fim encontraria seu pai. Tudo voltaria ao normal.

Mas...

Ainda poderia ser a mesma?

Astrid olhou para a palma de suas mãos.

Matei pessoas...ainda posso ser...Mas não foi minha culpa! Eles queriam me matar primeiro. Não fiz de propósito. Eh...não foi minha culpa, é...é tudo culpa do Centro.

Astrid olhou para o bracelete. Colocou uma mão sobre ele e tentou puxá-lo.

Não foi minha culpa. Foram eles que me jogaram em uma guerra. Não queria então...Eu...

— Acha que pode sobreviver?

A voz de Aiyden chegou aos ouvidos de Astrid, puxando-a de volta à realidade.

— Se destruir o bracelete. Você tem confiança que irá sobreviver?

— Não vou?!

— Muito sinceramente, acho que não.

Astrid puxou a mão para longe do bracelete.

— Por que? Eu estaria livre, não é?

— Talvez! Mas se você não tiver um plano realista de sobrevivência é muito improvável que sobrevivas. E tendo em conta a tua condição atual, a probabilidade de sobreviveres torna-se ainda mais baixa.

— Então...se quero viver tenho de voltar, é isso?

— É. Infelizmente se queres prolongar a tua vida, o melhor é voltar para o Centro.

— Que merda! — soltou, quando seus olhos encontraram a parede.

— É mesmo uma grande merda.

Astrid riu, por breves segundos e depois só tristeza estava em seu rosto.

— Tenho a sensação que também posso morrer lá dentro.

— Isso é porque realmente podes. — Astrid o encarou. — Algumas pessoas morreram dentro do Centro.

Seu queixo tremeu, porém Astrid engoliu as lágrimas.

— Então vou morrer onde estiver.

— Ou...talvez sobrevivas onde estiveres. É tudo uma questão de ter um bom plano. Bons companheiros e estar sempre a um passo do inimigo.

— Você...

Soldada!

A voz desconhecida preencheu a caverna, dessa vez soando mais audível.

Astrid respirou fundo.

— Estou ouvindo!

A linha ficou muda por alguns segundos e assim a voz tornou a chamar o nome de Astrid, que sem hesitar bateu no bracelete. A luz da tela piscou, se apagou, acendeu e Astrid anunciou:

— Estou viva!!

.

.

Astrid e Aiyden deixaram a ala médica, lugar onde passaram o dia inteiro; Astrid por conta de uma febre muito alta e Aiyden por causa do ferimento que era bem mais profundo do que ele havia julgado.

Com as costas um pouco curvadas, Astrid caminhava, olhando para suas mãos, as quais sua mente não cansava de chamá-las de: assassinas.

Eles eram robôs! Uma parte de si gritou. Eles eram humanos. Outra retrucou e então Astrid perguntou:

— Eles ainda são humanos?

— Hum? Está falando comigo? — Perguntou Aiyden.

— Os ciborgues…eles ainda são humanos?

Por alguns instantes a expressão de Aiyden se tornou indecifrável, aos olhos de Astrid. Ele parecia ponderar sobre a resposta ao mesmo tempo que parecia que não pretendia respondê-la.

— Ou...eles eram apenas robôs?

— Bem…para mim, eles são humanos.

— Ah! Entendo.

Astrid olhou para frente e segundos depois tornou a encará-lo.

— Isso quer dizer que somos assassinos?

— Não creio que assassinos seja o termo correto para nós. Afinal lutamos para...que o reino não seja atacado. Protegemos os civis e até o pessoal do Centro de Ajuda.

— Por que nós? No…no exército somente é permitido pessoas maiores de dezoito anos, adultos! Então por que nós? Por que nós que somos apenas adolescentes é que temos de proteger os outros? Não somos nós que deveríamos ser protegidos?

— Mas nós temos. — Seus olhos se desviaram de Astrid. — Ou melhor alguns de nós.

— O quê?...Quem?

— Companheiros. Pessoas como nós. Pessoas que não pensam em nós como armas e sim como seres humanos. Apenas eles nos protegem e nós...os protegemos.

No rosto de Astrid só havia confusão.

— Mas você não tem companheiros. Digo, quer dizer...você não parece ter algum amigo por aqui.

— Mas já os tive. Em algum momento no passado, eu… os tive.

Os olhos negros e os azuis se encontram.

— Um morreu e a outra...sei lá. Simplesmente sumiu. — Contou e a boca de Astrid se fechou. — Podes não acreditar, mas... eles existiram mesmo. Meus amigos.

— Eu acredito! — falou Astrid, antes de ambos desviarem o olhar e Astrid se chocar contra alguém.

Astrid se segurou na parede. Seus olhos foram de encontro a quem se esbarra contra ela. Era Keva Rudson. Sua inimiga gerada por um mal entendido.

— Sai da frente!! — ordenou, no entanto a atenção de Astrid apenas estava em seu rosto, pálido.

— Keva...você está bem?

— Não é da tua conta.

A soldada deu um passo em frente e seu corpo parou, abruptamente.

— Keva? — Astrid chamou, após alguns segundos sem resposta.

De relance Astrid olhou para Aiyden o qual olhava para Keva, atento como se esperasse por algo.

Astrid tornou a encarar Keva e quando cogitou chamá-la pelo nome novamente, a menina cuspiu sangue. Astrid fechou os olhos, antes de sentir algo respingar em sua bochecha e pescoço. Era sangue. Astrid percebeu após abrir os olhos, após ver Keva no chão, cuspindo mais e mais sangue, enquanto seu rosto ia de pálido para muito pálido.

Keva abriu a boca. Nada além de um forçado: Re...Re....Saiu de sua boca.

— Re?

— Remédios. — Aiyden completou e sem dizer mais nada se agachou ao lado de Keva, vasculhou em seus bolsos e em um deles encontrou um frasco transparente repleto de comprimidos de cor azul.

— Que remédio é esse? O-o que está acontecendo com ela?

— Me ajuda a colocá-la sentada.

— Por que? O que ela tem?

Deitada no chão Keva, continuou cuspindo mais e mais sangue, enquanto seu corpo tremia de forma violenta. Astrid por sua vez se sentia, cada vez mais hipnotizada pelo líquido vermelho que saia de sua boca.

Keva estava morrendo.

— Astrid!!

Aiyden gritou, e Astrid se sobressaltou.

— Preciso de ajuda! — falou, em um tom baixo.

— Sim. Claro. Sim! — Acenou com a cabeça. Agachou ao lado de Aiyden e sem questionar seguiu suas orientações.

Astrid colocou-se atrás de Keva, levantou seu tronco até a altura orientada por Aiyden, que cuidadosamente a fez engolir dois comprimidos. Keva parou de cuspir sangue e Aiyden começou a fazer exercícios de respiração, os quais foram seguidos por Keva, e muito lentamente a tremedeira começou a deixar seu corpo. Sua respiração desacelerou até parecer normal.

— Também já fez isso antes? — Seus olhos se encontraram, entretanto Aiyden não lhe ofereceu uma resposta e somente voltou a olhar para Keva.

Alguns segundos morreram. Passos soaram no corredor antes silencioso e repentinamente duas ajudantes se agacharam perto de Keva, e sem nenhum aviso prévio a afastaram de Astrid e Aiyden, que antes que pudessem processar o que sucedeu, foram ameaçados por uma pistola, que pertencia a um guarda.

— Vão para as celas — ordenou, porém nenhum deles se moveu. — Eu mandei... — Suas palavras evaporaram, quando seus olhos se encontraram com os de Aiyden. O guarda deu um passo para o lado e Aiyden avançou o suficiente para segurar a maca, onde Keva seria levada.

— Solta! — ordenou uma das ajudantes, antes de levantar seus olhos para o homem de fato preto, que olhava como se estivesse distante. — Liberta-o — pediu.

— Não a levem.

As duas mulheres desviaram o olhar, ao mesmo tempo.

— Ela vai ficar bem então...não a levem para lá.

— A directora já sabe. Ela... — seus olhos foram para Keva, levou uma das tranças postiças para trás e apertou o braço da maca. — Precisamos levá-la. Sinto muito — disse, muito baixo.

As duas mulheres se entreolharam e ao mesmo tempo, empuraram a maca, no entanto, não foram a lado nenhum, Aiyden continuou segurando do outro lado.

— Aiyde...

— Deixe-a ir.

Uma voz familiar preencheu o corredor e automaticamente, Astrid se virou e viu o homem com o rosto de seu treinador.

— Ela vai ficar bem. So...so a levem para a ala médica. Ela com certeza irá melhorar.

Ian parou, ao lado de Aiyden.

— Mesmo que ela vá para ala médica, ainda assim será levada para o grupo zero. — Seus olhos foram para o rosto de Keva. — Você sabe disso, então...não haja como um idiota.

— Você disse que eu era um.

— Eu digo muitas coisas. E essa é uma daquelas que não é verdade. Então...

Ian colocou as mãos sobre as de Aiyden e com muito esforço as retirou da maca.

— A deixe ir.

— Mas... — Tentou, entretanto sua boca fechou, quando Ian olhou para o lado. — Ela...

— Eu sei! Não há nada que você possa fazer agora, então apenas... — Levantou seus olhos para Aiyden. — Feche os olhos! — As mãos de Ian deixaram as de Aiyden. As ajudantes partiram arrastando a maca de Keva, ao passo que Aiyden deu dois passos para longe de Ian Moore. — Liberte ele — acenou para o guarda com a cabeça. — A outras coisas para se preocuparem.

Sem qualquer gesto de despedida, Ian se foi. Astrid e Aiyden se entreolharam e a arma escorregou da mão do guarda.

.

.

Se Astrid afirma-se que a cela do grupo quinze normalmente irradiava a felicidade, ela estaria sendo uma grande mentirosa, porém desde que colocou os pés naquela cela, definitivamente não lhe passou pela cabeça um dia que aquele lugar pareceu tão deprimente. Certamente não se lembrava de ver seus companheiros tão lamentáveis. Tão tristes, quase como se...como se tivessem perdido alguém.

Ao lado de Aiyden, Astrid adentrou mais a sala compartilhada. Param no meio dela, com os olhos pairando sobre seus companheiros.

— Jase.

Astrid o chamou, ao som dos soluços de Chloe, a qual ela tentou não olhar.

— Jase. — Tornou a chamar. Jase a encarou. — O que... — Astrid parou, quando Jase soltou um pequeno sorriso, para logo em seguida voltar a olhar para a parede.

Sentindo-se mais exausta do que quando saiu da ala médica, Astrid se forçou a olhar para outra pessoa, mas rapidamente desviou o olhar de Chloe, pois só de vê-la encolhida, soluçando, Astrid não pode evitar sentir vontade de chorar. Por fim decidiu olhar para Aiyslnn, que era abraçada por Lucky, a qual soluçava baixinho em seu ombro, enquanto Aiyslnn sussurrava alguma coisa em seu ouvido.

— Logan não está aqui. — Aiyden anunciou, chamando a atenção de Astrid para si.

— Nem Edward...e-eles devem estar na ala médica. — Umedeceu os lábios e prosseguiu. — Eles devem estar se recuperando.

Aiyden coçou a nuca antes de dizer: — Acho que...eles não estavam lá.

— Ta-tavelz não estivessem, quando estávamos lá. Ou...ou então estejam apenas nos balneários, ou...no refeitório. Ou sei lá onde, mas... — Lágrimas começaram a descer por suas bochechas, entretanto Astrid limpou-as rapidamente. — Eles devem estar bem, não é?

— …Porque está me perguntando? — Mais lágrimas caíram dos olhos de Astrid.

— A quem devo perguntar? Quando todos... — Olhou para seus companheiros e nenhum deles parecia que diria algo. — A quem... — Levantou os olhos para Aiyden. — A quem você acha que posso perguntar, se não for você?

— Mas eu não tenho a resposta que você quer ouvir.

— Então... me dê a resposta que você tem.

Por alguns segundos o tempo pareceu congelar. Aiyden a assistiu deixar mais e mais lágrimas rolarem, sem se importar o suficiente para limpá-las.

— Eu acho... — As palavras saíram em um tom muito baixo. — Acho que...eles estão mortos.

O som dos soluços de Chloe aumentaram e Astrid se manteve de boca fechada, derramando várias lágrimas, enquanto fazia o som dos soluços de Chloe como seus, pois ela não sabia o quão alto deveria chorar. 



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