O Meu Caminho Brasileira

Autor(a): Rafael AS

Revisão: Rafael-AS


Volume 1

Capítulo 17: Relógio ensanguentado

Jovens brancos, de alturas e aparências diversas, compunham um enorme mar de cores monótonas com seus uniformes padronizados e sem-vida. O brasão da prestigiosa Academia Real de Magia de Bauchir, adornando os trajes, era o único detalhe que interrompia a uniformidade do cenário, capturando a atenção como um farol em meio à neblina cinzenta.

Este mar humano existia de forma independente à tempestade de neve que caía implacavelmente além de seu pequeno mundo. Literalmente. Uma barreira mágica desviava os flocos de neve, impelindo-os para as florestas um pouco distantes daquela praça, como se nenhum problema do mundo os ameaçasse.

Entre eles, fiz-me mar; não só disfarçado, mas era eu parte deles agora. Estudante de magia da prestigiosa Academia. Mesmo assim, meu peito ainda se estremecia com a lembrança de atravessar esse mundo apenas com vestimentas da enfermaria, como um louco que fugiu do manicômio.

Ainda assim, um calor afagava meu peito, muito distante de toda aquela realidade. Estendi a palma da minha mão e a encarei numa tentativa de relembrar e reviver a eletrizante sensação que foi, sentado à mesa do restaurante, encontrar a mão da Violette debaixo da mesa; em um instante de hesitação, trocamos um olhar, e logo um sorriso, que se estendeu a um aperto tímido de mãos voluntário.

A mão dela tão quente, e encorpou a minha de forma tão suave e delicada... Violette era uma garota de classe. Educada. Polida. Mas com um mundo tão profundo que se irrompe de pequenas brechas daquela aparência formal, e que me convidava a explorar uma vastidão incrível.

Hehe.” Um sorriso bobo marcou minha face.

É uma pena que tive que me afastar deles. Enquanto almoçava, Aithne me interpelou, dizendo que um tal de “sr. Tokewater” queria conversar comigo. A garota saiu sem mais explicações.

Parecendo ser questão óbvia, fiquei com vergonha de perguntar a alguém sobre o tal de Tokewater, então simplesmente segui para fora das instalações do restaurante após me despedir de todos e...

Entrei na praça, sem rumo?

Ri um pouco de tudo. Bem que aquela voz da minha mente podia me ajudar nessas situações... Como será que faço para a ativar? Será que há condições necessárias?

Aliás, com a Violette, será que as coisas não estão andando rápido demais? Ou melhor: será que ela só é amigável, ou está interessada em algo a mais? Ou ainda...

Eu ou o Flamel?

Viver integralmente no corpo de Flamel e ter que dar sequência nos relacionamentos dele me deixava com esse sentimento amargo no coração. É impossível saber se o que atrai alguém a uma amizade ou algo a mais comigo é por causa de mim, ou se possuem expectativas e fantasias sobre o Flamel antigo que conheciam. Altamente improvável que não olhem para mim com o vislumbre de todas memórias antigas.

Assustava-me isso. Pelas conversas com a Violette, no entanto, não parece que ela e Flamel eram próximos no passado. Ela nunca tocou em nenhum assunto que exigisse conhecimento prévio da vida dele, ou nem relembrou nenhuma memória...

Se for esse o caso... O calor do meu peito, que se tornava instável, voltou a se aflorar. Se for isso mesmo, então sou eu, e não Flamel, que lhe despertou interesse.

Meu sorriso cresceu. Mas, junto da luz cobrindo minha alma, as sombras também cresceram. Por que, afinal, ela gostaria de mim?

Única coisa que consigo pensar é naqueles olhos brilhando dela. O que ela tanto vê em mim? É capaz de detectar mentiras? De acordo com aquele livro de magia do Beytran, existem magias do tipo mental... Será que estou sendo manipulado?

Manipulado...

A imagem da minha mão segurando a de Violette se reproduziu mais uma vez nas minhas memórias. Aquele calor, aquele aconchego... Mas havia uma outra mão que segurei. Praticamente idêntica: branca, delicada, calorosa. De quem era mesmo? Nós andávamos pelo corredor... Cabelos loiros... Guinevere? Era ela? Lembro-me de estar tão desesperado, com tanto medo, e aquela mão me socorrer de jeito que...

A mão que minha mente exibia tornou-se cinza; a pele se rasgou em diversos pontos, um sangue negro e podre escorrendo; os dedos fofos tornaram-se ossudos, segurando minha mão com tal força sobrenatural que não importava quanto eu lutasse contra, não conseguia escapar.

Um tremor percorreu meu corpo inteiro, arrepiando os pelos da nuca, costas, braços, pernas... Meu coração se acelerou intensamente. Acima do braço, uma face tão distorcida, podre e desumana me encarou com olhos carmesins que pareciam concentrar toda a violência do mundo.

Meu estômago embrulhou, cambaleei e tropecei, caindo no meio de todos os estudantes, que apenas seguiram com seu caminho, me ignorando.

O que foi aquilo? Que memória era aquela? O que...

Meu sangue congelou por completo quando olhei para o chão. Abaixo de mim havia uma crosta vermelho-escura na divisa entre dois blocos de pedra.

— Afaste-se! — um grito masculino ecoou na minha mente. — Vou cuidar dela, e então vou te ajudar! Aguenta firme!

Meus olhos se encheram de lágrimas; uma delas escapou contra minha resistência, desceu pela bochecha e caiu em cima do sangue seco. Um luto repentino atacou meu peito. Assolou-me imagem de um cavaleiro em armadura brilhante, pondo-se na minha frente; com a mesma glória, caiu no chão, morto, uma faca atravessada no coração.

Olhei para cima, ainda no chão. Uma garota de cabelos da cor do mel passava ao meu lado; seus olhos me fitaram, e vi neles um lampejo dos olhos carmesins que pareciam se deliciar com o sabor da minha carne.

Rastejei para trás no chão e, mais uma vez, vi minhas canelas jorrando sangue, tal como na visão na enfermaria com Guinevere.

“O que é isso?... O que é isso?...”

Pus-me de pé, peguei minha mochila e encarei os arredores, assustado. Todos continuavam andando. Eu era inexistente. Mesmo a garota que me encarou já não podia mais ser vista.

Por quê?...

Queria fugir dali. Esconder-me, refugiar-me em um local distante, muito, muito distante. Essa praça é perigosa. Extremamente perigosa. Minhas pernas quase me moviam para de volta ao dormitório, de preferência ao quarto de Violette. Ela deve ter ido lá, né? Não seria muita falta de educação, eu acho... Posso só...

Não. Fixei minha atenção nas manchas de sangue entre as divisas das pedras, e percebi que elas se repetiam numa certa direção. Era um convite a uma jornada escura, como uma porta que se abre e revela apenas escuridão. Esse caminho pode levar-me de volta àqueles olhos carmesins. 

Algo me atraía naquela morbidade. Algo dentro de mim a ansiava, como se ela possuísse algo que me faltasse. Ao mesmo tempo que me horrorizava e causava-me torpor, aquele horror, aquelas imagens impeliam-me a explorar mais a escuridão. 

Aceitei o convite. Passo por passo, segui pela trilha de sangue que descansava escondida de todos aqueles olhos desatentos que passavam pela praça. Só eu sabia disso. Só eu via isso. Como ninguém notou?

O pedregulho deu lugar a um piso xadrez que revezava entre placas polidas de branco e de preto. Era a entrada da biblioteca.

Minha atenção se prendeu naquelas portas robustas de madeira que pareciam proteger quem estivesse lá dentro de qualquer coisa. Mas sei que não poderiam. Eram traiçoeiras. Por que essa impressão?

Adentrei na biblioteca e encarei as barras de madeira que poderiam ser usadas para trancar o local por dentro. Isso era seguro. Ainda assim...

Ao meu redor, estantes de livros se erguiam majestosamente, carregadas de livros das mais diversas cores e tamanhos. Contudo, quanto maior e mais robusta, maiores também eram as sombras, e os corredores obscuros faziam-se infindáveis.

Algo ou alguém poderia facilmente me espreitar por aqui que eu não teria o menor conhecimento.

O vasto salão de livros estava vazio. Ninguém lá havia. Caminhei até o balcão, mas meus olhos se fixaram em uma parede ao lado. Essa parede...

Aproximei-me dela e a encarei. Estava limpa, intocável. Via até meu reflexo contra ela. Por que estaria tão limpa assim? Havia algo de estranho...

Notei um livro caído no chão na estante ao lado. Peguei-o e...

Pretas. As páginas estavam pretas, queimadas. Imediatamente, recordei-me de uma pequena explosão magnífica e assustadora. Era como se o ar se comprimisse em um só ponto, e dele se produzisse uma explosão pequena mas concentradamente fatal capaz de erradicar o que quer que atingisse.

Aqui, nessa parede, aquele mesmo ser dos olhos carmesins foi massacrado. Os braços foram derretidos e se tornaram lama negra a cada explosão. Na frente da figura estava Aithne, dando joelhadas que deformavam o monstro a ponto de se tornar irreconhecível, sem rosto e talvez sem qualquer coisa que pudesse ser chamada de cabeça.

Meu pescoço se arrepiou, como se algo me observasse por trás. Vire-me abruptamente, mas nada havia de anormal por entre as fileiras de livros. Uma frase perseguiu minha mente, etérea:

Você tem que se virar~

O monstro. A mulher. O corredor. A porta do banheiro batendo. O toque na janela. A faca que cortava meus calcanhares. O forte cavaleiro que tentou me salvar, mas morreu com uma faca atravessada no peito.

Essas memórias nunca foram esquecidas. Sempre estiveram comigo. Quando vi o garoto na beira do rio, imaginei a mesma figura daquela mulher preparando para me matar. A ideia da morte me parecia tão próxima, e eu não sabia explicar por quê. Até imaginei que a Violette, que me aguardava fora do banheiro do meu quarto, poderia ter sido substituída por um monstro, tal como ocorreu com Guinevere.

Eu sabia disso. Eu sabia de tudo isso. As comparações, as referências, tudo me remetia a essas memórias expelidas para as profundas do meu ser.

Mas...

Coloquei o livro queimado na plataforma de madeira do balcão, e lá percebi um relógio de ouro ensanguentado. Peguei-o e o abri. Lá estava a foto de uma garota com seus pais. Era Maria, com seus pais, Simon e Amanda, informações essas que pareciam naturais ao meu cérebro, apesar de não me lembrar de como as consegui.

Do relógio, surgiu um centro de gravidade que puxou minha visão para dentro; da visão distorcida, o mundo ganhou clareza e vi uma jovem de cabelos negros estudando por horas afinco. Quando finalmente o relógio marcou 20h, ela suspirou, se levantou e se jogou na cama. Mas a mente era inquieta, pegou os papeis da mesa e os levou para cama. Dormiu em meio às anotações. Queria ser grande. Queria orgulhar os pais.

Dormiu de cansaço. Quando acordou, era 1:30 da manhã. Fitou o relógio e prometeu que seria melhor. Porém, tudo era em vão. Das sombras, os dois olhos carmesins que avistou marcavam seu fim. Seu feitiço mais forte seria destruído com uma insignificante pisada da criatura. Tudo que sobraria dela seria esse relógio, esse vão relógio...

Quando pisquei, estava de volta na biblioteca, segurando o relógio como se nada tivesse ocorrido. Fechei-o e pus de volta na plataforma. Juntei as mãos e fiz uma reverência silenciosa à garota que nunca veria os pais orgulhosos.

— Que descanse em paz, Maria — sussurrei, a dor em meu coração ressoando com as imagens terríveis que presenciei. Também fui perseguido e pego pelo monstro, mas, por acaso do destino, tive um cavaleiro e a Aithne me protegendo, e sobrevivi... Foram eles que fizeram meu destino ser diferente do da Maria. Só isso. Acaso.

Meus objetivos eram muito semelhantes aos de Maria. Trazer orgulho à família. Diferente dela, porém, encontrei ajuda.

— Obrigada. — Ouvi o sussurrar de uma voz feminina no meu ouvido. Virei-me para trás, mas não consegui a ver. Apesar do susto inicial, um calor inexplicável preencheu meu peito com as palavras sentidas. De alguma forma, no mais profundo do meu ser, longe de toda lógica da mente, eu sabia de quem era essa voz.

— Fique em paz, Maria.

Um vento leve soprou no local, me abraçando com gentileza. Respirei fundo e senti aquela brisa suave entrando em meu peito, percorrendo todo meu rosto com um toque leve e refrescante.

— Vou sentir sua falta. — As palavras fugiram da minha boca, meu coração vibrando a cada uma delas como se fossem algo natural de mim.

O vento cessou. Minhas roupas pararam de se mexer, mas a tranquilidade que vibrava em meu corpo permaneceu. A rosa desfez-se, embora o perfume continuasse a encantar.

Fechei os olhos e senti o calor que aos poucos se ia também. Uma lágrima, que não parecia ser minha, escorreu pela minha bochecha, com uma tristeza que assaltava meu coração forte demais para ser apenas das imagens que vi de Maria agora.

Abri os olhos e observei a biblioteca. O mesmo misterioso local, com tantas formas de me matar, agora também tinha tantas formas de me surpreender. Talvez seja na escuridão do desconhecido que as oportunidades e luzes mais brilhantes esperam para encantar corações desprevenidos.

Um pequeno sorriso repousava em meu rosto entre a amarga ironia e uma pequena paz melancólica que se misturavam no peito.

Suspirei e deixei os sentimentos fluírem. Não eram meus; eram de Flamel, muito embora isso não explicasse como vi a cena da morte de Maria...

Minha expressão se fechava enquanto refletia sobre o que acontecera. Esse mundo não tem lógica alguma. Primeiro, estou no corpo de outra pessoa. Depois, ainda tenho lampejos de memória dele — quando chamei a Aithne pelo nome, me senti tal como agora, tão natural. Também há uma voz na minha mente que me guia nas situações mais impossíveis. E agora tive contato com um... espírito?

Esse mundo nunca pararia de me surpreender.

Dei um passo adiante rumo às grandes portas da biblioteca. O desconhecido e absurdo desse mundo exalava perigo e armadilhas, mas também oportunidades e bênçãos. Em um lugar onde tudo é possível, o sonho e o pesadelo caminham lado a lado.

Quando abri as portas novamente, porém, assustei-me com a figura robusta de um homem. De pele marrom, braços grossos e peito estufado, ombros que saltavam mesmo debaixo do tecido branco da camisa de manga comprida, encontrei em seu rosto dois olhos negros que me encaravam diretamente abaixo de grossas sobrancelhas, que faziam um contraste com o cabelo raspado.

— Boa tarde. — A voz dele era bruta como uma bala de canhão.

Pôr-me diante daquele brutamontes era como encarar uma muralha impenetrável e imponente desarmado.

Recuei um passo e estendi meu peito, não sabendo ao certo o que nesse mundo poderia levar ao meu fim de repente.

Ele passou por mim, como se minha existência não lhe valesse a pena. Até que parou e se virou.

— Espera, é você, Flamel?! — Sua fala imediatamente soou mais informal, o que apenas me deixou perplexo.

— É? Sim?

— Que bom! Estava te procurando. — Ele sorriu e me ofereceu a mão. Apertei-a com receio de sua força, mas ele a segurou com educação e polidez.

Meus olhos fitaram o crachá colado no peito do homem.

“Tokewater, diretor de pesquisa em magia...”

Engoli em seco. Era ele que a Aithne me disse que me aguardava?!

Na minha frente, porém, Tokewater me encarava com olhos que se tornavam cada vez mais severos e dúbios...

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