O Meu Caminho Brasileira

Autor(a): Rafael AS

Revisão: Rafael-AS


Volume 1

Capítulo 19: A Grande Calamidade

Silêncio reinava pela biblioteca, a não ser pelas páginas virando do meu livro. Às vezes, eu observava o mundo escuro lá fora em contraste com o recinto iluminado. 

Essas pequenas pausas logo se cessavam. Meus olhos voltavam a saltar velozmente pelas páginas, absorvendo o conteúdo com tamanha velocidade que jamais imaginei ser possível.

O som de páginas sendo viradas continuava a reverberar pela biblioteca.

Exteriormente, era a ação mais monótona de todas. Sempre passar páginas. Mas o que meus olhos viam era um mundo que se abria diante de mim, com possibilidades, infinitudes, mistérios incompreensíveis, tragédias.

Algumas horas se seguiram até terminar o primeiro livro. Quinhentas páginas sobre introdução à teoria geral da magia. Embora ele lançasse mais perguntas do que respostas, era fascinante adentrar naquele mundo.

Meus dedos tocaram a mesa; fechei os olhos e me concentrei no tato, até que...

Lá estava. Um pequeníssimo calor, a despeito da superfície fria, abraçou a pele do meu dedo. Era mana. Sim, energia etérea, que todo material possui. É como se os átomos deles emanassem uma substância leve e quente, que o corpo quer absorver mais e mais.

Cada mana se comportava de maneira diferente, mas poderiam ser generalizadas nos famosos sete elementos de fogo, água, terra, ar, raio, luz e trevas, ou misturas deles. Claro, raio deveria ser “eletricidade”, já que o raio é apenas o clarão; só que o povo desse mundo não sabe disso ainda.

Respirei fundo. Como se tratava sempre de uma relação pessoal do mago com os elementos, o livro continha diversas metáforas mais subjetivas sobre como manipulá-los.

Isso só mostra o mistério da magia. Não há definições científicas — só sobre feitiçaria, que é feita de runas bem-estudadas, enquanto magia é manipulação da mana sem runas, de forma livre. Cada pessoa sente a magia de uma maneira diferente. O fogo para alguns está ligado com coragem; para outros, com ódio.

Um mundo vasto estava diante de mim, mas a luz do conhecimento o iluminava pouco. Entrar nele seria como descobrir uma caverna escura pelo simples tato.

E pensar que havia todo esse universo ao meu redor, e somente agora o conheço...

Não pude deixar de sorrir.

Levantei-me e guardei o livro em uma das enormes estantes; foi quando vi de relance um outro caído ao chão. Peguei-o e li a capa roxa com letras em vermelho escuro.

“A Grande Calamidade.”

Que livro brega. Muito história de emo revoltado. Encaixei-o de volta na estante entre outros livros e me pus a procurar por outra leitura. Meus olhos estavam um pouco pesados de sono, mas esse mundo era tão fantástico que-

Leia “A Grande Calamidade”, soou em bom tom minha mente.

Minha atenção se voltou para ele. Em meio a tantos livros chiques de capa de couro com letras marcadas, lá estava um livro de capa mole com o tom de roxo mais escandaloso que já vi. Isso é brincadeira, né?

Suspirei bem fundo e levei o livro à mesa. Abri-o e comecei a folheá-lo, mas logo minha atenção foi tomada de tal forma que somente pude parar de o ler três horas depois, os primeiros raios de Sol da manhã entrando pela janela.

Meus olhos arregalados fitavam o livro, minha boca aberta em espanto. Era um livro de história. Porém não uma qualquer. Retratava...

Um mundo em que o Homo sapiens sapiens não reinou e exterminou seus outros irmãos humanos. Uma realidade em que a minha subespécie ou raça humana é considerada inferior às demais, sem talentos ou forças características.

Essa era a situação desse mundo, que chamam de Veridis.

Nas origens de Veridis, tudo era primavera e abundância. Coexistiam em harmonia as cinco ou mais raças humanas: humanos, elfos-claros, elfos-escuros, elfos da natureza e anões.

Até que veio a seca. Com a falta de alimentos, brigas explodiram. Cada raça acusava outras de serem egoístas e esconderem comida. Todos, que conviviam sem estranhar seus corpos diferentes, passaram a notar as diferenças que se faziam escondidas dos olhos.

A única coisa que trouxe paz provisória ao povo foi estabelecer uma monarquia compartilhada entre as cinco raças, com um representante de cada. Ainda assim, logo acusaram de algumas se unirem em segredo para subtrair vantagens, e logo anarquia e revolta se alastrou.

Era irreconciliável. O destino de tais pobres humanos, que faziam reforçar ainda mais suas diferenças, foi uma eterna separação. Espalharam-se as demais raças pelos quatro cantos do mundo, enquanto a humana — a minha — permaneceu no centro do mundo.

Não obstante, algo mudou. No reino dos elfos-negros, no Sul, uma tempestade tomou os céus. Escondidos por detrás das árvores, espreitavam monstros antes nunca presenciados. Assassinatos, extermínios e chacinas ocorreram em massa, até restar poucos clãs da raça.

Ano após ano, aquelas nuvens trevosas se estendiam mais no horizonte, nunca perdendo aquela densidade carregada. Mais e mais monstros surgiam, mais numerosas eram suas vítimas dos mais crueis crimes, banhando de sangue e sofrimento todas as planícies por que passavam.

As terras do reino dos elfos-negros foram tomadas por completo. As árvores morreram, apodreceram. O solo fez-se negro e árido. Uma densa neblina escura isolava o Sul de todo o restante de Veridis, e impedia a entrada de qualquer um.

Os elfos altos e os da natureza simpatizaram-se pela tragédia que acometeu os elfos negros. Diferente dos humanos, eles se uniram e iniciaram uma longa guerra que se alastraria por séculos. Os anões queriam ajudar, mas se viam dependentes economicamente dos humanos, então apenas assistiram de longe os conflitos.

Quatrocentos anos após o início das guerras, os elfos começaram a perder. Os monstros tornavam-se mais fortes dia após dia, assumindo novas formas, novas forças e, principalmente, se misturando com a mana. Diferente dos humanos que usam mana, eles são mana, e todas as possibilidades místicas e impensáveis moram no seu peito.

Quando o império humano finalmente se pôs a lutar, já era tarde. Impossível parar tamanhas monstruosidades. Em pouco tempo, as cidades já não eram mais seguras: apesar de toda proteção, nos esgotos, nas paredes das casas, nas igrejas, em todo lugar poderia estar espreitando uma forma de vida sombria em busca de mais sangue.

Foi quando surgiu um grupo de cinco pessoas. Cada um de uma das raças, demonstraram poderes avassaladores nunca antes vistos. Com um sopro, eram capazes de abrir mares e cortar montanhas.

Mesmo assim, a luta contra monstros que se estendiam aos céus, ou que se teletransportavam com o simples desejo da mente, era árdua. Lentamente, um por um do grupo morreu em grandes guerras, até sobrar apenas um. Ele era um humano da minha raça.

Diferente dos mitos populares da Terra em que grandes guerreiros lideram multidões, nenhum soldado ou guerreiro de Veridis seria capaz de matar um daqueles monstros. Ele sabia disso. Num dia, o reino se reuniu para vê-lo partir sozinho em direção às terras dos antigos elfos-negros. Ele era a última esperança.

Rezas e festivais marcaram a experiência humana. Ainda hoje, feriados e costumes remetem aos rituais simbólicos que desejavam aos espíritos que ajudassem o grande herói.

Contudo, o tempo passava, e a nuvem cada vez mais se alastrava, sem sinal de recuo. Chegava já a assolar as primeiras cidades humanas, fazendo-as cair por completo. Nem os deuses tiveram coragem de presenciar as vis atrocidades que marcaram os dias mais horripilantes da história humana.

Até que, setenta e sete dias depois da partida, de repente o céu clareou. Por onde quer que avistassem, tudo era Sol e dia. Correram até as terras devastadas e encontraram o herói caído no chão, uma cabeça negra com uma coroa sendo segurada pela mão.

Comemoraram. Comemoraram como nunca. O herói sobreviveu e matou a “origem do mal”. Foi eleito rei da raça humana. O reino dos humanos, tomados pelo orgulho da própria raça perante as demais, roubou terras delas e se tornou império. Roubou inclusive o status de “humano”, e hoje nem se sabe mais que termo usavam para se referirem à minha raça no passado. Agora eram a própria espécie humana, e todo o resto era uma mistura de humano com outras seres.

O imperador, com grande carisma, reconstruiu todas as cidades e fez o povo festejar. Abundância passou a ser a marca do ser humano. Nada poderia retirar isso.

Um dia, o grande monarca desapareceu sem nenhum vestígio. Alguns diziam que enlouquecia com a idade. Outros, que foi morto por pessoas próximas. Há quem diga que ele nunca pôde esquecer o prazer e a liberdade da aventura e não conseguiu viver confinado na nobreza. Todas teorias podem ser verdadeiras.

O grande imperador e salvador era conhecido como “Marcus, o herói.”

Fechei o livro e encarei as paredes da biblioteca, enquanto recapitulava todas as informações que eram extremamente pesadas ao coração. Porque, afinal, esse era o mundo em que eu estava.

E, para a minha desagradável surpresa, a Academia Real de Bauchir não foi feita no centro de Veridis, no reino humano, mas no centro das “planícies desoladas”, alvo da Grande Calamidade, antigo reino dos elfos-negros.

Pensaram ser isso uma decisão estratégica boa. Afinal, a mana daqui é densa e facilita muito no desenvolvimento de magia e feitiçaria. E que problema haveria? Afinal, os seres humanos acreditavam que estavam bem, apesar de os monstros nunca terem deixado de existir.

O maior problema era que, tal como antecedeu A Grande Calamidade, os monstros têm se tornado mais fortes e aparecido misteriosamente em grandes reinos. Achavam que tinha acabado, mas o mal começava a assolar o gênero humano mais uma vez.

E estou bem no meio desse caos.

 

 

Segurava com força a adaga negra em minha mão. Ergui meu braço para trás e, rotacionando o quadril junto do impulso dos pés, apunhalei a madeira rígida da grande árvore diante de mim.

— Ha... Ha... — Suor encharcava minhas roupas.

Frustração inundou meu olhar ao constatar que apenas a ponta havia penetrado a casca, assim como nas inúmeras tentativas anteriores.

— Merda.

Pulei para trás e foquei minha atenção nos meus pés descalços na grama. Estava na área atrás dos dormitórios, à margem da floresta em que encontrei os lobos.

Senti um calor reconfortante da terra subir pelos pés e envolver meu corpo. Imaginei a runa do feitiço "fortificação corporal" dentro de mim, até que surgiu um vigor, uma força, uma vitalidade tão intensa que precisava ser extravasada.

Pulei impetuosamente e cravei a adaga na árvore, meu corpo ficando tão quente como brasas com o uso daquela mana da terra.

Porém, o resultado foi o mesmo. Nem o feitiço "fortificação corporal" — feitiço básico entre outros que aprendi enquanto madrugava na biblioteca estudando diversos livros —, foi capaz de me proporcionar a força que me faltava.

Não podia parar assim.

Tentei de novo. De novo. De novo.

Com o tempo, o cansaço me venceu, e sucumbi ao peso do meu próprio corpo, desabando no chão. Até respirar, o que movia os músculos em chamas do abdômen e das costas, tornou-se uma tarefa árdua e dolorosa.

— Ah... Ah...

Esse era minha falta de força. Talvez eu nem conseguiria afundar a adaga na cabeça do Cyle. Droga.

Trouxe a adaga ao meu campo de visão e a fitei. Era linda e permanecia igualmente afiada apesar de forçá-la tanto na madeira. Essa adaga...

A carta de quando a recebi me dizia para ser mais forte e sobreviver. Disse-me para treinar e aprender magia.

Não conseguia entender bem o porquê na época. Estava preso no luto de ter tido minha vida inteira roubada e ter sido jogado aqui dessa forma, em um mundo perigoso e caótico como esse.

Odeio esse mundo. Mas, justamente por odiá-lo, levantei-me mais uma vez e me preparei para atacar a árvore. Odeio tudo, mas chorar e ficar parado não vai resolver porra nenhuma. Preciso ser mais forte, treinar mais, crescer.

As páginas daquele livro não saíam da minha mente. Fui invocado justamente na maior academia de magia do mundo, no local mais obscuro e sombrio. Não pode ser coincidência. Tenho um destino grande nesse mundo? Será que...

Posso ser como Marcus, o herói?

Pus-me de pé com pernas trêmulas. Eu não pararia aqui. Não.

— Hah! — Ataquei a árvore com tudo, mas tropecei e bati a testa em cheio contra ela.

A dor na cabeça foi acompanhada do gosto de sangue que escorreu até a boca. Ainda assim, me levantei e tentei mais uma vez, e...

O quê?!

Tentei mover os braços, mas não consegui; eles ficaram presos no ar. Minhas pernas também não se moviam mais. O ar ficou pesado e difícil de inspirar.

— O que está...

— Flamel... — Chamou-me uma voz de uma garota estranhamente familiar. Tentei me virar para a ver, mas não consegui.

— Quem-

— Não faz isso... — Sua voz era triste e melancólica.

— Mas...

— Não. Você não precisa provar para eles nada.

— Para eles?

— Sim... Foi horrível seu irmão ter roubado seu lugar e você ter sido jogado aqui, mas... Por favor, não se destrói assim.

— Me destruir?

— Sim. Olha para você. Está quase desmaiando...

Somente então o ar se tornou mais leve e consegui me mover. Virei-me e me deparei com Aithne, com os olhos mais suplicantes do mundo; até me fizeram me sentir culpado de a ter feito assim.

— Não estou tentando me provar para ninguém. É só que...

— Não importa. Descansa. Se você se esforçar assim, não vai chegar a lugar nenhum. Infelizmente, não tem atalho. Você tem que todos os dias crescer um pouco.

— Eu sei, mas...

— Sem “mas”. — Ela fechou os lábios e cruzou os braços. — Você também passou a noite estudando, não é?

— Como você...

— Você sempre fica parecendo um zumbi quando faz isso. Anda. Vai tomar um banho. A aula da Hayek é hoje, e ela ama te ter lá.

— ...

Não tinha o que falar. Tudo era verdade sobre eu me destruir. Meus olhos estavam se fechando contra minha vontade, meu coração batia tão pesado com cansaço e sono, e eu aqui querendo treinar mais...

— Além disso... — Os olhos dela ficaram molhados. — O Tokewater me contou sobre você...

Tokewater. Merda. Ela sabe?

— O que ele te falou?!

Relembrei dele colocando a mão na minha cabeça. Espera, espera. Na hora nem me dei conta direito, mas ele estava lendo a minha mente, não estava? Então ele viu meus pensamentos? Meu Deus, se for isso então-

— Ele disse que conjurou um feitiço que te obrigava a dizer a verdade, e que você contou para ele que não sabia se era Flamel...

Uma lágrima escorreu no rosto dela, as bordas dos seus olhos avermelhadas.

E pensar que, naquele momento com o Tokewater, a dúvida da minha existência só foi redescoberta por causa de um feitiço desses... Era como se uma verdade fosse de mim arrancada à força, uma que nem eu estava preparado para ouvir.

— Eu... — tentei dizer algo, mas não consegui encontrar nenhuma palavra. Um silêncio agonizante preencheu minha garganta, justo quando mais precisava de falar qualquer coisa que a confortasse.

— A gente conversa sobre isso depois que você descansar... Ah, e o seu quarto está seguro. Tokewater o revistou com feitiçaria de alto nível. Depois... me procura na biblioteca.

— Aithne, podemos conversar agora, eu estou bem. Vem cá...

Apesar das minhas palavras, ela se virou e foi embora.

Incapaz de ficar mais em pé, minhas pernas cederam e caí no chão, mesmo querendo correr atrás dela...

Sem forças, encarei o céu. Diferente de Guinevere e Violette, Aithne tinha um passado com Flamel. Ela foi a primeira a me dar alguma pista sobre ele. Ele foi expulso de casa após ser traído e substituído pelo irmão...

Não sei o que vim fazer aqui, se fui invocado por acidente ou se tenho um destino grandioso sem saber. Mas algo me tentava...

O desprezo de Cyle. Saber que Flamel foi expulso. Tudo isso fazia meu peito rugir com um desejo de provar para o mundo que o Flamel é melhor que tudo isso.

Após descansar por alguns minutos, consegui me levantar. O dia já estava claro, em breve começariam as aulas.

Será que vou? Preciso dormir, estou tão cansado...

Dirigi-me ao meu quarto e adentrei nele com mais tranquilidade, já que Tokewater era diretor de pesquisa em magia da Academia e saberia identificar qualquer problema.

Encarei a cama e um desejo imenso de me atirar nela me preencheu, mas algo me parou. Era como se deitar fosse a escolha mais errada do mundo.

Meus olhos se dirigiram para o buraco na parede. Já perdi tantas oportunidades nesse mundo... Se eu tivesse lido esse livro antes e aprendido magia mais cedo, talvez até teria conseguido me defender contra o monstro...

Não posso ficar mais para trás. Não posso.

Entrei no banheiro, tirei minhas roupas e fiz água quente cair sobre meu corpo dolorido, agora já sabendo como usar runas simples como a do chuveiro mágico.

Debaixo do banho, chorei. Chorei em segredo, por um minuto apenas. Uma mistura de gratidão, arrependimento e vontade ardente de melhorar irromperam do meu peito, desejando vida e mudança, uma vida mais significativa.

Logo fechei a torrente de água e me vesti com as roupas que pareciam nunca se sujar.

Cansado mas com firmeza, saí do quarto e andei pelos corredores; entrei no prédio das salas de aula e parei na porta da minha. Segurei a maçaneta e senti o metal frio dela. Minha respiração estava ofegante e meu corpo clamava por descanso.

Mas isso não importa. Vou vencer. Se a minha vida está em risco nesse mundo, vou apostar nela com tudo.

Abri a porta da sala e passei por ela.

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