O Meu Caminho Brasileira

Autor(a): Rafael AS

Revisão: Rafael-AS


Volume 1

Capítulo 4: Preso em outro mundo

Enquanto caía no chão, coloquei as minhas mãos nele e preveni meu rosto de surrar a grama.

“Merda!” Na frente de todos, poderia virar chacota novamente.

Levantei-me o mais rápido que pude e encarei a arquibancada com o coração apertado. Houve algumas risadinhas, mas nada demais.

“Por que eu sempre terminava sendo exposto ao público assim?!”

Não havia nada a ser feito, além de sair dali o mais rápido possível. Apressei os passos, mas...

Uma sensação desconfortável fez minha nuca se arrepiar. Instintivamente olhei para o meu lado e encontrei Cyle sorrindo, com uma cara cheia de escárnio.

— Não consegue nem perceber uma pedra, seu inútil?

“Espera...” Olhei para trás e examinei o campo de grama curta, mas não encontrei nada visível em que poderia ter tropeçado. Para ele estar dizendo coisas assim, então...

Esse merda! Ele colocou o próprio pé para me fazer tropeçar?! Não bastava ouvir ele me criticando e me chamando de inútil o percurso inteiro até aqui, mas agora ele faz isso comigo?!

Meu coração se contorcia em raiva. Queria gritar contra ele, confrontá-lo, mas... era impossível. Estávamos cercados por todos, e não sei magia nenhuma se houvesse uma luta. Ainda assim, não ficaria calado. É impossível.

Se não posso bater de frente, então...

Estufei meu peito e ajeitei a minha postura. Face a face com ele, meus olhos demonstraram desprezo diretamente. Meu semblante e minha boca se contorcendo em repleto desdém, antes de meus lábios sorrirem, como se achasse aquilo tudo engraçado e pequeno, insignificante.

Após parecer surpreso por um segundo, ele me fitou com olhos tão venenosos quanto os meus.

Inútil — murmurou ele com convicção. Seu punho se fechou, como se preparasse para me bater.

Olhei seu cabelo lambido para trás, e ri em sarcasmo.

— Você precisa de ir tão baixo para tentar me fazer passar raiva? Esse cabelinho lambido aí combina com a sua personalidade de merda.

Pfft!

Surpreendido por este som, olhei para trás e vi Violette com as bochechas se contorcendo, segurando risada. Eu sorri. Por mais bobo que fosse, o cabelo dele deve ser o tipo de coisa que todos comentam sobre, mas ninguém tem coragem de dizer abertamente.

Quando olhei de volta para o Cyle, a face do rapaz do cabelo lambuzado em gel ficou vermelha. Parece que realmente acertei em algo bem sensível.

— Maldito! — sussurrou ele com tanta raiva que as veias do rosto e do pescoço ficaram expostas.

Cabelin Lambido.

Chamá-lo assim me fez regozijar por dentro, principalmente ao admirar sua expressão de vergonha, mesmo que meu sentimento se misturasse com a tensão e a ansiedade do coração pulsando — afinal, poderia eu agora receber toda a fúria do rapaz, havia chances reais de conflito.

Mas o melhor mesmo foi a reação da Violette. Justamente com quem ele tentou conversar, enquanto ignorava todos com desprezo, agora ria da cara dele.

Talvez isso sirva como um aviso muito bem dado de que não sou do tipo que apenas aceitará ele mexer comigo. Sei revidar, mesmo que indiretamente. Possivelmente isso fará com que ele pense duas vezes antes de mexer comigo.

Com um sorriso, entrei nos corredores internos abaixo da arquibancada. Foi quando...

Meu estômago queimou com um impacto que fez meu corpo bater contra a parede violentamente. Minha cabeça produziu um barulho horrível ao colidir contra o material de pedra, e a dor irradiou por toda a estrutura óssea do meu crânio.

Atordoado, olhei para frente com os olhos molhados. Cyle me encarava com um semblante furioso, seu punho já vindo contra meu rosto.

— Seu filho da p-

Tentei me defender, colocando os braços na frente do meu rosto, mas então senti meu estômago sendo afundado com o soco do Cyle. O impacto foi tão severo que minhas pernas vacilaram e caí de joelhos.

Engoli o vômito que chegou à minha boca e o encarei com ódio. Tentei me levantar rapidamente, mas...

Seu punho acertou impetuosamente o meu rosto e fez minha cabeça se chocar contra a parede em um som horrível. Senti como se meu nariz se afundasse dentro da minha face, enquanto todos os ossos eram comprimidos e quase quebrados contra o mármore.

Com meus joelhos ao chão, olhei para seu rosto, mas ele estava tão alto e distante do meu... Ele era muito, muito mais forte do que imaginei, e também mais rápido. Não conseguia fazer nada para me defender... Estava totalmente vulnerável à sua fúria.

Lágrimas começaram a sair sem controle. Queria fugir, revidar, lutar, mas...

Tudo aquilo aconteceu em segundos e... eu não era capaz de fazer nada. Absolutamente nada. Sua força era muito, muito maior que a minha.

Nunca lutei em minha vida, e, mesmo se tivesse, cada soco do Cyle parecia desconsiderar por completo a minha existência como ser humano. Não, mais que isso: ele queria exterminá-la. A intenção era clara pela força com que me atacava.

Era... era uma intenção assassina, descontrolada, sádica e cruel. Diante de tudo isso, eu não era capaz de fazer nada. Eu era apenas uma presa fácil.

Senti o gosto metálico da torrente de sangue que explodia do meu nariz dormente. Então aquele era o meu lugar naquele mundo... De joelhos, sem poder, sem memórias, sem forças e sem aliados. Sozinho e desamparado.

Merda... Fiquei tão entusiasmado tendo a simpatia de duas belas e educadas garotas, de ter um anão tão gente-boa me tratando com consideração... Mas era isso. Só isso.

Por um instante, me lembro do armário vazio no quarto desse Flamel. Todos aqueles nobres devem ter tantos artigos de luxo, enquanto eu, nesse corpo, nada tenho além do meu uniforme e um par de livros.

Em um mundo de status, eu não os possuo. Em um mundo de magia e talentos, eu era um ninguém. Em um mundo de pessoas, eu era um estranho, sem nem memórias...

Foi pretensioso achar que esse sonho, com tantas maravilhas, seria repleto de flores. Merda, eu realmente fiquei tão feliz estudando magia e me imaginando conseguindo controlar tudo aquilo, mas...

No fim, sou Flamel, o inútil. Nesse mundo, não me cabe sonhar. Esse é um privilégio dos fortes.

As lágrimas escorriam mais. Minha face inchada e ensanguentada deve ser nojenta de se ver.

Ainda assim...

A minha vida estava em risco completo. Preciso sobreviver... Preciso sobreviver... Não posso me deixar aqui! Foda-se tudo. Eu vou sair daqui vivo, custe o que custar.

Olhei para Cyle com olhos firmes, a despeito de tudo. Não vai ser aqui que vou morrer. Meu irmão... Meu irmão! Ainda não cumpri a nossa promessa. Caralho, sou um lixo, mas não posso morrer assim. Não até poder segurar aquela porra de retrato com orgulho de mim mesmo e contar para o Lucas que consegui, que me tornei tudo aquilo que prometi. Vou fazer isso acontecer.

Não vou morrer aqui.

A expressão de Cyle se tornou azeda com o meu olhar intenso. Por causa da visão turva e da tontura, percebi muito tarde o chute voando em direção ao meu rosto. Se acertasse, meu crânio se racharia por completo contra a parede dessa vez. Seria o fim de tudo, inclusive do último legado do meu irmão: a promessa que fizemos de sermos importantes para o mundo. 

Lágrimas escorriam mais e mais, mas minha feição era resoluta e determinada.

Era impossível defender o ataque, e contra-atacar era uma ideia ainda mais ridícula. A despeito de estar tão surrado e numa condição tão ruim, usei todas as minhas forças para...

Jogar-me para o lado.

O chute dele passou do lado do meu rosto, cortando a minha bochecha de raspão, e bateu impetuosamente contra a parede.

AI!!!

Ele começou a pular com um pé só enquanto segurava o outro, esperneando de dor.

— SEU MERDA!

Foi quando...

Bum!

Não conseguia mais enxergar direito. Caído no chão, o que eu pude ver era...

Uma imagem borrada de Dolgan em cima de Cyle. Vi o braço do anão subindo e descendo numerosas vezes, mas...

Não pude resistir. A dor intensa lentamente sumia à medida que tudo se tornava preto.

 

 

Meus olhos se abriram, mas a claridade os fez arder.

Ah...

Tentei me sentar na cama, mas a força que fiz para levantar a minha coluna fez com que...

— AHH!!! — Uma dor aguda percorreu o meu crânio. Quando gritei, ela só piorou ainda mais. Engolir o próprio grito foi agoniante.

— Ahh... Ahh... Ahh... — suspirava profundamente, tentando usar só a barriga para isso e sem tensionar nenhum músculo da face que transpirava pesadamente. Era a única maneira de reagir a tamanha dor sem aumentá-la ainda mais.

Assim que a dor começou a diminuir pude examinar um pouco o local em que acordei.

“Espera... Espera...”

Meus olhos percorreram o cômodo ao meu redor. Era uma enfermaria, cuja sala exalava a cor branca. Em um armário de portas de vidro, vi frascos com líquidos coloridos e fosforescentes que mais pareciam poções do que remédios.

“Não... Não pode ser...”

Não importava o quanto respirasse, parecia que nenhum ar entrava em meu pulmão. Sentia minhas mãos congeladas e meus olhos lacrimejando.

Eu...

Eu ainda estou naquele mundo, mesmo depois de ter desmaiado e acordado...

“Porra!”

No fim, fui incapaz de conseguir me sentar na cama. De forma tão desprezível e impotente, tive que voltar a deitar.

— Haha... — Tudo aquilo era tão irônico...

Fechei os olhos e tentei dormir. Porém, mesmo que meu corpo estivesse ainda tão cansado e dolorido, meu coração pulsava energicamente, como se lutasse para sair do meu peito. Isso era real demais para ser um sonho. Real demais... Real demais... Real demais...

Não, essa porra não é nem um sonho ou realidade, mas um pesadelo do qual não consigo acordar. Um pesadelo que me seduziu, mostrou coisas fantásticas, oportunidades incríveis com magia, tudo para apenas me revelar o quanto podem me esmagar cruelmente.

Era como se fosse um mundo de gigantes, mas, quando tentei ser um, descobri que era apenas um inseto. E realmente seria uma metáfora apropriada, pois, tal como ninguém tem pena de um inseto, Cyle não se importou nem um pouco ao tentar me matar em público, perto de outras pessoas. Era como se, de fato, fosse um inseto esperando ser morto.

Quando encostei a minha bochecha no travesseiro, senti a fronha molhada com minhas lágrimas.

Ah...

Quero sair dali!

Pai!... Mãe!... Eu quero abraçar a minha mãe de novo, descansar a cabeça em seu colo, sentir seus dedos acariciando minha cabeça... Nem isso. Só... Só quero comer aquele macarrão seu mais uma vez... Prometo que não reclamaria mais do tanto de molho que você coloca...

Merda...

No silêncio da enfermaria, meus soluços se misturaram às lágrimas.

— Por favor... Alguém... me tire daqui... — soou minha fraca voz.

Chorar não te levará a nenhum lugar, uma voz tão familiar penetrou meus ouvidos...

— Tem alguém aqui?! — Envergonhado por ter exposto o meu fracasso daquele jeito, meus olhos examinaram o ambiente, mas não encontrei ninguém.

A vida é injusta. Ela te colocará de joelhos, te machucará de formas inimagináveis. Mas recusar-se a continuar não te ajudará em nada, a voz continuou em minha mente. Espera... Essa voz é minha?!  

— E-eu estou ficando maluco mesmo... — Ri de mim mesmo.

Se quiser construir algo significativo, é necessário sacrificar-se, é necessário não se render ao caos. É necessário fazer a sua própria ordem em meio ao caos e à tragédia.

— Apenas pare, por favor...

Quanto mais a minha voz me dizia para seguir em frente, mais meu peito protestava. Que insensível! Que cruel! Porra, eu quase fui morto!

Não quero isso. Não, não. Não quero construir nada de “significativo”. Que caralhos de “ordem” em meio ao “caos”?! Quero é fugir dali, encontrar de novo meus pais, continuar a minha faculdade de Psicologia...

Quero fugir daquele mundo. Isso tudo porque encontrei apenas um homem mal-intencionado. Imagina se virasse vítima de um monstro como “O Pálido”?!

“Deus, pelo seu amor, me tira desse mundo!”

Você precisa-

— Ahh, que caralhos eu preciso o quê?! Cala a boca, porra! Eu- AHH! — gritei de dor, a minha cabeça latejando com seus ossos parecendo que estavam rachados.

Comecei a chorar ainda mais e recusei-me a querer mudar e a seguir aquela voz minha.

Chorei, chorei e chorei mais, talvez por mais de uma hora, até não haver mais lágrimas. Somente então meu peito se aliviou um pouco.

Ali, naquela enfermaria, com o corpo parecendo estar destruído, adormeci pelo cansaço, sem saber o que será de mim naquele mundo...

Discord da Obra



Comentários