O Meu Caminho Brasileira

Autor(a): Rafael AS

Revisão: Rafael-AS


Volume 1

Capítulo 45: O que poderia acontecer?

Talvez tenham se passado dez, quinze minutos juntos, ali, contemplando o rio. Porém, isso pouco importava. O que meu coração contava não eram os minutos do mundo, mas os instantes cheios de eternidade da respiração da Violette, que se tornava mais calma e amena. Cada inspiração dela eram os minutos para meu coração; cada suspiro longo, as horas.

Sentir a mana dela em mim se tranquilizando era tão gratificante...

— Hehe — escapuliu dos meus lábios.

Violette me encarou com uns olhões curiosos, antes de abrir um sorriso travesso e rir um pouquinho.

 — Aliásss, Melzinho... — falou ela, sua voz revivida com a energia habitual —, o que foi aquilo de me chamar de sua, heinnn?

Ela me pegou desprevenido e ri mais ainda. Como poderia resistir àquela fofura?

— Melzinho hehe. Aliás, Viol, não foi você que disse que seria só minha, hmmm?

— Eeee?

Ela riu e enfiou o rosto no meu pescoço, mordiscando a pele. Minha barriga se remexeu, como uma cosquinha.

Ei! 

Ela me encarou nos olhos e seu sorriso cresceu como se fosse uma meia-lua de felicidade, as bochechas dela rosadas com uma vergonha que ela sempre fazia questão de ignorar.

— Só eu tenho direito de falar isso. Quando eu disser que você é meu — ela lambeu os lábios, se aproximando do meu rosto, seu ar quente abraçando minha face — você diz que sim. Todo meu. — E roubou meu suspiro num beijo.

Fui pego de surpresa, mas só piorou quando ela começou a rodopiar comigo pela terra. Nossos pés iam e viam da margem do rio, encharcando os sapatos e correndo o risco de cairmos na água.  

— Ei!!!

Minhas risadas se tornaram gargalhadas, mas permaneci atento para impedir de nos derrubar acidentalmente no rio. Ela se aproximava cada vez mais das águas, a terra se tornando pedra escorregadia. Coloquei as mãos na cintura dela e tentei parar seus movimentos, só que...

Mmmmmm... — murmurou ela, feliz, me beijando de novo e de novo, até que...

O pé dela escorregou e deslizou no ar. Vi-a de repente cair de costas. Suas mãos que estavam na minha cintura escapuliram, deixando-a uma presa inevitável às pedras em que sua cabeça cairia diretamente.

Num susto, pisei firme na direção dela e a agarrei, segurando suas costas e a puxando de volta para meu peito. Ela me fitou com os olhos arregalados, o cabelo solto agora bagunçado e um toque de rubor escaldante nas bochechas.

— E-eu... — disse ela sem jeito, envergonhada. — V-você... — Colocou as mãos no meu rosto, me admirando como se fosse seu herói, seu cavaleiro resgatando essa dama do mal. E, como uma donzela apaixonada, lentamente aproximou seus lábios dos meus, para me dar a honra do primeiro beijo da princesa.

O problema era que, além de obviamente ela não ser uma princesa...

— Isso foi uma encenação, né?

— Quê? — Violette me encarou com aqueles olhões lindos meio confusos.

— Realmente espera que eu acredite que alguém habilidosa como você escorregaria fácil assim, e aceitaria seu destino sem nem tentar colocar as mãos para amortecer a queda?

Como numa mágica, a expressão boquiaberta dela se desfez com um sorrisinho irônico e sedento. O rubor em sua face, porém, cresceu ainda mais, tendo sido pega fazendo algo vergonhoso. 

— Fico impressionada com o quão inteligente que você é, Flamel... Merece até uma... recompensa...

Ela mordeu os lábios e, me olhando, me beijou talvez pela vigésima vez na última hora, e eu, pela vigésima vez, senti meu coração desmanchar no peito e um sorriso bobo crescer nos meus lábios.

— E quando eu vou poder te recompensar também, hm?

— Bom... — Ela pegou minha mão e a colocou em seu seio, tão macio e com uma forma harmônica com todo o corpo... A parte inferior dele mais proeminente, com um peso delicioso de apalpar. Quando percebi, sua boca estava no meu ouvido, sussurrando: — talvez você me recompense também quando não tiver medo de reivindicar o que é seu, Flamelzinho.

Antes que eu pudesse reagir e revidar, ela me empurrou e saiu correndo pelas águas do rio, molhando as calças e rindo igual uma idiota.

— Violette? — falei, meu rosto pegando fogo. — O que você está...

— Vemmm.

Ela voltou, pegou minha mão e me puxou junto, me fazendo atravessar aquela água gelada e me largando só do outro lado. Queria rir feito bobo junto dela, mas meu corpo tremia e agora estava ensopado. Em verdade, notei que as roupas não absorveram água, porém pouco impediram de aquela água ter me destruído.

— Onde você quer chegar com isso? Não vai me dizer que bateu a louca, é?

— Bater a louca? Que isso? — Violette levantou os braços para jogar o cabelo para trás, propositalmente jogando os seios para frente, seios esses agora que conseguia imaginar perfeitamente o quão gostoso era tocá-los... Queria saber ainda mais. Queria tocá-los debaixo da roupa, sentir toda sua extensão, ver o mamilo ficando duro...

Merda. Essa garota ainda vai ver. Vou fazê-la se arrepender de ficar me provocando assim. Deixa eu só ter a chance com ela de novo em um lugar recluso que vai ver o que é bom...

Percebendo meu olhar intenso nela, Violette abriu um sorrisinho traquina e se virou de costas. Abaixou a coluna, colocando as mãos nos sapatos, e manteve a bunda empinada. Deliciosamente empinada.

— Oh! Meus cadarços desamarraram... — disse ela da forma mais descarada do mundo.

Por um segundo, me senti encenando um pornô barato.

Andei até ela e cogitei sentir seu corpo, em testar seus contornos... Saber que ela queria o mesmo tornava tudo difícil de resistir. Porém, por ela querer isso, e descaradamente fazer de tudo para me guiar a satisfazer seus desejos, eu não aceitaria ser guiado de modo tão fácil e descarado.

Levantei a mão para trás e desci um tapa estrondoso na nádega dela, que talvez até os estudantes do dormitório ouviriam; minha mão explodiu em ardência, e a forma como a bunda vibrou me deu certeza que ela sentiu o mesmo.

AI!

Ela deu um pulo para frente, talvez uns cinco metros de pulo, como um gato assustado, e me olhou assustada por exato meio segundo, antes de sorrir e rir feito uma boba.

— Sua piranha. Se comporte igual gente.

Apesar das minhas palavras, nunca me senti tão feliz. O custo da dor na mão valeu a pena.

— Hehehehehe não esperava que o Flamelzinho fosse desses.

— Vai se ferrar.

Ela gargalhou ainda mais alto. Essa mulher...

Ainda vou fazê-la se arrepender por me tratar assim.

Esses eram os meus pensamentos, que tentavam expressar uma raiva que não existia em mim, porque eu sorria de uma orelha à outra.

— Mas então... — Andei até ela e, descaradamente, apalpei sua bunda, a acariciando gentilmente, sentindo seu contorno, um pouco tentando confortá-la também, apesar de amar a sensação... — Por que atravessou o rio?

Em vez de rejeitar meu toque, ela pressionou o corpo contra minha mão. Seu olhar, no entanto, não tinha qualquer resquício de diversão. Ela encarou a floresta com seriedade, um toque de tristeza subsistindo no brilho violeta da íris, como alguém que é assombrado por uma memória ruim.

Mordeu os lábios, repousou a cabeça no meu ombro e disse:

— Foi aqui que te encontrei naquele dia.

— ...

Minha atenção saiu da Violette para finalmente prestar atenção onde estávamos. Encarávamos a floresta na qual salvei o menino e os lobos quase me mataram...

Não sabia o que responder. Até aquele momento, não havia pensado sobre como ela teria me encontrado aqui, ensanguentado e com partes da minha carne faltando. Nem tenho ideia de como ela conseguiu fazer meu corpo se regenerar também. Com certeza deu um trabalho imenso...

Meu coração doeu um pouco ao me lembrar de ela estudando um grosso livro de alquimia enquanto eu dormia, procurando sem descanso por uma cura para mim. Essa Violette...

— Sabe... — Ela segurou minha outra mão com as duas dela, compartilhando seu calor, enquanto repousava a coluna no meu braço que descia à sua traseira, me impedindo de tirá-lo de lá mesmo se quisesse. O sentimento não foi voluptuoso, mas confortável e agridoce, como se ela procurasse conforto em mim. — Naquela época, achei que estivessem te perseguindo. Fiquei desesperada. Não sabia se deveria te levar ou não à enfermaria...

— Viol...

 Beijei a testa dela, com todo carinho que meu coração podia derramar. A garota soltou um suspiro, se relaxando.

— Quer me mostrar onde estavam os lobos?

— Para?...

— Não sei. Acho que queria imaginar como era o grandioso Flamel lutando bravamente contra uma alcateia para defender um garotinho indefeso — falou ela, pensativa, o dedo nos lábios.

As palavras dela me fizeram ao mesmo tempo ficar orgulhoso e envergonhado. Apesar disso, não poderia mostrar à minha adversária na guerra o quanto havia me atingido. Perderia a batalha facilmente se relaxar.

— Não vai me dizer que... Você estava com tantos ciúmes de eu ter o salvado que escorregou na pedra só para eu te salvar também?

— Ha-ha-ha-ha. Muito engraçado.

— Essa foi a risada mais falsa que já ouvi.

— E a sua piada foi a mais sem graça que já escutei.

— Mas acertei em cheio, não foi?

— Talveezzz. Hummm...

De um modo travesso e meio escondido, ela levou minha mão de fininho à frente do rosto. Seus lábios e abriram, e no instante seguinte fizeram meu dedo indicador mergulhar no oceano de sua boca, sentindo sua língua se enrolando em volta dele. Meu coração acelerou e o corpo todo se arrepiou.

— Viol?

— Hmmmm...

Ela prosseguiu chupando e lambendo o dedo, como se essa fosse sua missão mais importante do mundo. Segurei mais firme sua bunda, sentindo melhor o contorno, e...

Uma dor aguda cortou meu dedo. Imediatamente tirei a mão do rosto dela, e vi marca de dente na base dele.

— Violette!

Não doeu tanto, mas ainda assim...

E

— Hahahahahahahahaha — fez-se viva e quase contagiante a risada dela. Quase contagiante, se não fosse meu dedo doendo. — É isso que ganha por fazer umas piadas sem graça, Melzinho~

Ela se recolheu no meu peito, tão natural como se fosse seu novo lar. Ela me deu um, dois beijos, antes de respirar fundo e começar a perder a energia.

— Sabe... — Seu tom de voz murchou, profundo e hesitante. — Uma coisa me preocupa bastante sobre tudo isso.

— O quê?

— Na Academia... — morreu sua voz, baixinha como o sussurro da grama. — Não tem lobos.

— Não?

— Achei que você soubesse disso. — Violette se virou para mim, encarando meus olhos, lábios e pescoço, as pupilas dilatadas como se observasse a coisa mais especial do mundo e planejasse novos lugares para me beijar. — Às vezes acho que te pularam dois períodos por acidente... — Colocou o dedo indicador nos meus lábios, brincando com eles, roçando-os de cima para baixo.

No mínimo pela décima vez no dia, meu coração derreteu com o toque carinhoso dela, apesar de sua fala ter me deixado um pouco ansioso. Odiava como que me faltavam informações básicas que todo outro estudante possui sobre a Academia, e como que, se alguém duvidasse da minha identidade, isso seria um prato cheio para descobrirem a verdade.

Mordi os lábios. Só que com o dedo dela ali...

Mordi-o também. Seria minha maior vingança.

Ou melhor, tentei mordê-los, porque, meus dentes atingiram o ar. Naquela fração de segundo, ela leu meu ataque súbito e tirou a mão da minha boca.

— Tentando se vingar de uma maneira tão baixa, é? Achei que o grandioso Flamel fosse mais cavalheiro~

— Parece que fui pego~

Ri, sorrindo, e me surpreendi com o quão parecida com ela foi a entonação da minha voz. 

— Sim. Você foi. — Violette andou até mim e, segurando meus ombros, aproximou o rosto do meu, os lábios na base do ouvido. Com uma voz profunda e baixinha, sussurrou: — acho que tenho direito de te cobrar uma multa por isso, hmmm?

Engoli em seco, mas ela, sem esperar pela minha resposta, me confiscou outro beijo, seus lábios tocando os meus como se degustasse nosso amor.

Quando ela partiu de mim, o sorrisinho tímido dela, com as bochechas vermelhas, foi a coisa mais fofa do mundo. Era impressionante como ela, no fundo, era tímida, e claramente ficava envergonhada das coisas que fazia, mas ignorava tudo para brincar comigo.

Não consegui não rir disso. Agarrei a cintura dela, acariciando-a com os dedões, enquanto meus olhos contemplavam a mulher mais linda do mundo.

— Você é muito fofa.

— Não mais que você. — Ela lambeu os lábios, como se tentando sentir ainda mais do nosso sabor. Isso... Merda...

— Aliás... — tentei mudar de assunto. Até queria continuar e “fazê-la se arrepender de brincar tanto comigo”, mas a pouparia disso enquanto estivéssemos a céu aberto. Além disso, algo me preocupava... — Que história é essa de não ter lobos na Academia?

O rosto dela se escureceu, como o céu que abre o reinado da noite. Ela se virou e encarou a mata de robustas árvores que se erguia diante de nós.

— Na Academia, há um espaço para treinarmos batalhas reais. Claro, há a Torre do Desafio, mas ela é apenas uma projeção, uma simulação. As batalhas reais acontecem nas Florestas. Quando os instrutores vão preparar uma Floresta, colocam nela monstros reais para os alunos enfrentarem.

“Aliás...” O tom da voz dela se tornou mais alegre e provocador. “Não sei se vocêeee sabe, mas foi esse o exame que a nossa sala fez no período passado. Costumam deixar esse evento mais ao final de cada semestre, como uma forma de os alunos provarem a evolução que tiveram.”

A forma como ela se referiu à possibilidade de “eu” não saber me fez engolir em seco. Ela... Ela não sabia de nada, certo?

— Enfim — continuou ela —, para não deixaram os monstros vagando em lugares que não deveriam e acabarem machucando um aluno, os grandes mestres colocaram runas por toda parte, que escaneiam a área e imediatamente eliminam a ameaça fora de lugar. Se for muito forte para morrer, ao menos os professores são notificados. Lobos estão dentro da lista. São fracos, mas podem causar acidentes.

“Por isso...” Ela se revirou e fitou meus olhos, um olhar sério e triste, enquanto os cabelos eram balançados por uma rajada de vento, fazendo-os parecer como um fogo escarlate dançando no ar. “Toma cuidado, tá?... Alguma coisa muito errada está acontecendo, e parece estar à sua volta.”

— À minha volta?

— Sim. Os lobos, o monstro, o seu quarto... Ouvi dizer que você não está mais no dormitório. Terem te tirado de lá é um indício forte de que você não está seguro.

Respirei fundo, meus dedos se apertando no corpo dela, como se tentasse me conectar mais fundo naquele coração carinhoso.

Queria agradecê-la por tudo, beijá-la, elogiá-la, andar pela floresta e fazê-la a mulher mais alegre do universo, como uma forma de recompensá-la o tanto que se preocupava comigo. O problema era que, mesmo se quisesse tanto isso, precisava aproveitar a oportunidade para adquirir mais informação...

— E por que não estaria seguro?... — Meu coração doeu um pouco por me segurar. Prometi para mim mesmo que em breve daria para ela tudo que merece.

Porém, a Violette não me respondeu. Em vez disso, caminhou até mim, seus quadris balançando como uma dança a cada passo, e me abraçou. Apoiou os lábios no meu ouvido e sussurrou:

Não é você que anda guardando segredos? Você sabe melhor do que ninguém o porquê de estar em perigo, Mel.

Meu coração acelerou, nervoso. Ela sabia? Mas, se sabia, não continuaria me chamando de Flamel. Será que?...

Ela mordiscou meu pescoço, um afago tão doce que me fez relaxar e suspirar com prazer.

— Está tudo bem, Mel. Está tudo bem...

Com ela ali, me abraçando, não resisti. Desci as mãos da cintura às nádegas, apalpando-as e as alisando, observando todos os contornos divinos.

Mmmmm... — Ela se desmanchou no meu peito, seus suspiros longos que mais pareciam gemidos suaves sendo a mais bela sinfonia que já ouvi.

— Eu te... — As palavras dela saíram baixinhas.

Hm?

— Nada. — Ela se empurrou para longe de mim e estendeu a mão, me olhando meio sem jeito. — Aqui, pega minha mão?

— Para quê? Não vai me dizer que vai explorar a floresta ao lado do “foco dos problemas da Academia”? — falei, segurando a mão dela firmemente.

— Como você adivinhou? — disse ela, sorrindo ainda mais sem jeito. — Vamos! — De repente virou e começou a correr para dentro da floresta, me puxando junto.

— Violette! — gritei, desviando de alguns galhos ao chão e tentando não escorregar som os sapatos ensopados.

— Eu tô curiosa. Quero ver os cadáveres dos lobos. Me mostra onde estavam!

Ela seguia adiante desviando perfeitamente de todos obstáculos, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu, por outro lado, quase tropeçava a cada metro.

— Você é doida!

— Hehehe. Anda!

E assim adentramos na floresta. No lugar em que fui quase devorado vivo. No lugar que havia um menino que salvei e nunca mais vi. No lugar onde... onde agora estava com ela, a menina que mais admirava e fazia meu coração palpitar. A menina que me deixava louco, perdido, mas também feliz e bobo.

O que poderia acontecer de ruim, afinal?

O que poderia acontecer de ruim?...

Esse pensamento reinou na minha mente quanto mais avançávamos adentro e mais a floresta se tornava escura. O teto feito de várias camadas de folhas de árvore bloqueava a luz do Sol quanto mais fundo adentrássemos, até parecer que já era noite. Muitas sombras intransponíveis aos olhos humanos se levantavam ao nosso redor, podendo esconder os mais diversos seres.

O que poderia acontecer de ruim, afinal?...

Segurei firme a mão dela, e ela retribuiu com um aperto ainda mais forte. O calor, a força de sua mão... Era como se me dissesse que estava seguro, que...

— Eu estou com você — disse ela, o silêncio da floresta fazendo sua voz se destacar.

Sim... Sorri. Ela estava comigo.

— Estou com você, Mel.

O dedão dela acariciou meu pulso, num toque carinhoso e reconfortante. O sorriso na minha face desabrochou ainda mais. Com ela ao lado, sentia como se nada no mundo pudesse nos desafiar. Nada. Eu e ela, juntos, podemos... Podemos...

Minha mente travou quando chegamos à planície, bem-iluminada pela falta de árvores, na qual havia encontrado o menino. No meio dela, comendo o corpo apodrecido de um lobo, com dentes afiados maiores que meu antebraço, erguia-se uma criatura escura, negra, de olhos carmesins brilhantes.

O corpo era revestido por escamas tão grossas que pareciam placas de armaduras queimadas, como de guerreiros que uma criatura daquele porte teria devorado. Nas patas, garras escuras como a noite se enfiavam no chão tal qual estacas.

Ela era silenciosa. Silenciosa como a madrugada, comprida, de uns cinco metros, com uma cauda com um ferrão do tamanho de uma lança que se curvava acima das costas como um escorpião. O único som que conseguia escutar era a dos ossos do lobo se quebrando como se fossem feitos de borracha, na boca suja de tripas e sangue derramando.

— O que... — tentei falar, mas Violette tampou minha boca.

Olhei para a garota e me assustei com o quão frios estavam seus olhos. Era como se, em vez de assustada, estivesse estudando cada centímetro do inimigo, cada fraqueza que meus olhos destreinados jamais perceberiam. Lentamente, ela caminhou para trás, me puxando junto, tentando fugir antes que fôssemos percebidos, até que...

Crack.

Pisei em um galho que se quebrou. Era um barulho pequeno. Minúsculo. Imperceptível para a distância que aquela criatura estava. Apesar disso...

Os olhos carmesins se viraram para mim. Mesmo que algumas árvores me tampassem, ela me viu. Não havia dúvidas.

O barulho dos ossos sendo quebrados parou. No silêncio absoluto, a criatura se levantou. Caminhou pata por pata, uma sendo colocada depois da outra, tal qual um gato esguio, nunca pisando onde a pata da frente já não tivesse reconhecido como seguro. Um monstro grande, parrudo e ágil, que mais parecia uma puma observando secretamente a vítima antes de lançar um bote rápido e letal. O último bote que se veria na vida.

E a vítima era eu, os olhos dela mirando nos meus.



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