Um Alquimista Preguiçoso Brasileira

Autor(a): Guilherme F. C.


Volume 1

Capítulo 2: Dorminhoco Eterno

Um pouco depois de Xiao Ning ter completado 20 anos, uma grande catástrofe caiu sobre o Continente Central, o que levou os três grandes impérios e os dois reinos a ruína.

Em menos de um ano, todo o continente foi destruído. O próprio Império Dourado, levou apenas seis dias para ser varrido do mapa. Sua existência foi transformada em pó.

De acordo com o conhecimento de Xiao Ning, ele foi o único, de todo o continente, a sobreviver a esta catástrofe.

E o que foi este grande desastre? Bem, se for para explicar tudo, então teríamos de voltar milhões de anos no tempo. Mas, de forma resumida, foi quando o Deus da Desolação rompeu o selo, que o mantinha preso e anos depois, assim que seus soldados ficaram prontos, comandou os demônios em uma guerra que assolou o mundo inteiro.

Centenas de continentes foram destruídos. Milhares de impérios e reinos caíram. E o próprio Xiao Ning foi morto no meio da guerra por um dos demônios seguidores do Deus da Desolação... e nem era um dos mais fortes, era um daqueles que você sequer lembra o nome.

Bem, de qualquer forma...

Apesar de que toda a Família Xiao tenha sido destruída pelo Deus da Desolação e os seus seguidores, durante a Guerra da Extinção e ele mesmo veio a perecer, Xiao Ning não estava interessado em vingança.

Para ele, um homem que passa a vida correndo atrás de vingança, é um homem sem vida.

Além do mais, tinha o fato de que mesmo contando com a experiência da vida passada, não fazia ideia de como derrotar o Deus da Desolação. O maldito era poderoso demais.

O que ele realmente estava pensando neste momento, era se ajudava a aumentar as chances de sobrevivência da Família, quando o grande desastre começasse, ou apenas ia embora, para o próximo continente.

Sendo sincero, Xiao Ning não tinha porque ajudar os Xiaos. Tirando uma única pessoa, não havia mais ninguém pelo qual possuía alguma consideração. Mesmo se procurasse em todo o Continente Central ainda não se encontraria alguém com quem verdadeiramente se importe.

Por isso, se escolhesse ficar, não seria nada mais do que um mero capricho. Afinal, para alguém igual a ele, que vivia de maneira egoísta, guiado pelos próprios prazeres, o melhor seria partir para a próxima terra, para assim ter mais tempo de visitar seus lugares favoritos, antes que fossem destruídos.

A noite começou a cair e Xiao Ning, indeciso sobre o que fazer, decidiu deixar a decisão para o amanhã. Assim sendo, desceu a ladeira e foi direto para as entranhas da propriedade da Família.

No caminho, encontrou algumas pessoas, alguns jovens cultivadores, mas todos agiram como se ele não existisse. No entanto, não ligou para isso e continuou andando, já que existia a chance deles de fato não se conhecerem. Xiao Ning passou por alguns pátios luxuosos, que possuíam seus próprios jardins e também por casas mais simples, com lugar para poucas pessoas viverem.

Contudo, mesmo após contornar toda a propriedade, o lugar onde morava ainda se encontrava distante.

Xiao Ning continuou andando por um longo tempo. E então, próximo a um velho bosque, longe de qualquer sinal de vida, havia um pequeno casebre, feito de madeira maltratada pelo tempo.

A primeira vista, o casebre parecia abandonado. Capim crescia livre ao seu redor, como se não houvesse ninguém para arrancá-lo, nem pisoteá-lo. Nas frestas das paredes, viam-se bolos de teias de aranhas, com pequenas aranhinhas passeando despreocupadas. E se procurasse de perto, tenho certeza de que encontraria muitos outros insetos. Baratas? Havia aos montes.

Aquele casebre abandonado, esquecido por todos, não era nada menos do que a casa de Xiao Ning.

― Este lugar é tão pequeno quanto me lembrava! ― caçoou divertidamente, sem parecer desapontado ou frustrado.

Dentro, não havia nada mais do que um pedaço de pano em cima do piso de madeira e um buraco no centro, que se abria até o chão, com restos de cinzas. E sim, era basicamente só isso que existia ali.

Um único cômodo, com uma cama feita de farrapos e uma fogueira improvisada, que, muito provavel, tinha sido feita em uma noite fria demais para suportar. Fora isso, as únicas outras coisas por ali eram algumas panelas velhas e restos de comidas, dentro de um pote.

Xiao Ning abriu o pote, que parecia conter algum tipo de carne seca e deu uma cheirada:

Argh! Eu comia mesmo essas porcarias? ― exclamou, afastando a coisa malcheirosa do nariz.

Depois disso, pegou alguns gravetos que estavam escorados em um canto e os jogou dentro do buraco chamuscado, aberto no chão. Em seguida, olhou para um lado e para o outro.

― Como era mesmo que eu fazia para acender à fogueira? ― Murmurando essas palavras, fechou os olhos e tentou buscar em sua memória, o método que usava para inflamar à fogueira. Mas depois de um devaneio perdido e de vários balançar de cabeça, nada lhe veio à mente. ― Ah! Que seja, eu vou só usar uma técnica mesmo.

Sentou-se no chão e pensou profundamente. Não demorou muito para abrir os olhos e murmurar, enquanto olhava para os gravetos: “Acho que esta vai servir.”

Dizendo isso, tornou a fechar os olhos e se concentrar. Das profundezas sombrias de sua mente, um brilho longínquo, de cor alaranjada, surgiu. O brilho, no início, fraco, foi ganhando força e tornando a quietude da escuridão em um lugar quente, com leves crepitar se espalhando pelo ar.

De repente, das palmas das mãos de Xiao Ning, um fulgor fraco, de cor laranja, bruxuleou. E junto a ele, um calor quase inexistente surgiu, perdendo seu vigor à medida que se espalhava pelo casebre minúsculo.

Não havia erro, das mãos de Xiao Ning, chamas, da grossura de um polegar, brotaram.

― Com minha Energia Espiritual atual, esse é o poder máximo que eu consigo usar das Palmas Flamejantes? ― disse ele, com um tom claro de desaponto. Nunca foi um grande cultivador, mas isso já era vergonhoso.

Cultivadores aumentam seus níveis absorvendo algo chamado de "Energia Espiritual". Esse tipo de energia é encontrada naturalmente ao redor do mundo. É como o ar que respira ou o calor do sol.

Uma vez que a Energia Espiritual estiver dentro do cultivador, ela pode ser usada para fortalecer o corpo, estender a vida, bem... diversas coisas. Mas, o mais comum, é usá-la em Técnicas de Combate.

As Técnicas de Combate são basicamente um meio de transformar a Energia Espiritual em outra coisa, como em fogo, por exemplo.

E as Palmas Flamejantes, usada por Xiao Ning, era uma dessas técnicas. Ela consistia, de forma simples, em concentrar a Energia Espiritual na palma da mão e desse modo transformá-la em chamas.

Assim como os cultivadores possuem níveis, as técnicas também possuem e as Palmas Flamejantes, sem sombra de dúvida, estava entre as mais medíocres existentes.

Por esse motivo, Xiao Ning estava tão desapontado. Produzir chamas tão fracas era humilhante demais para alguém igual a ele. Se fosse água ou pedra, estaria tudo bem. Mas fogo...

― Talvez seja melhor eu aumentar um pouco meu nível de Energia Espiritual. Não quero ter que passar por todos aqueles problemas de novo. ― Enquanto pensava alto, Xiao Ning colocou a palma de sua mão em cima dos gravetos.

Não demorou muito e a fogueira ganhou vida. Mais alguns galhos foram jogados dentro do buraco e o fogo cresceu ainda mais.

Nesse ponto, o sol já havia se posto por completo e uma lua, que não brilhava tanto, ofuscada pelas nuvens, surgiu. Naquela parte isolada da propriedade da Família Xiao, a única luz que se via era um cintilante brilho laranja, que atravessava a janelinha, da assombrada cabana de madeira.

Dentro do casebre, Xiao Ning estava sentado, de pernas cruzadas, sobre os panos velhos, que compunham sua cama. Um pouco antes, ele comera a carne que se encontrava dentro do pote ― e que por sinal estava horrível ―, portanto, já não tinha fome. Agora, precisava se concentrar em outra coisa.

Para ser considerado um cultivador é necessário saber usar a Energia Espiritual. Mas o problema é em como fazer isso. Como absorver a Energia?

Bem, para isso, deve-se usar as Técnicas de Cultivação Espiritual.

As Técnicas de Cultivação Espiritual são parecidas com as Técnicas de Combate, só que, ao invés de transformar a Energia Espiritual em algo, ela é absorvida.

Mas fazer isso não é tão simples quanto parece. Quando se é um iniciante, primeiro, o cultivador deve ser capaz de sentir a Energia Espiritual interna e isso pode levar dias, até meses. Somente depois de concluir essa primeira parte que seria possível começar a praticar Técnicas de Cultivação Espiritual. E só depois, alguém passaria a ser conhecido como um cultivador.

É claro que, nem todos concordam nessa última parte. Alguns defendem que para ser um verdadeiro cultivador, é necessário passar do Reino Mundano para o Reino do Despertar. Só então a pessoa poderia ser tida como tal.

Mas outros dizem que para ser um cultivador, só é preciso praticar uma Técnica de Cultivação.

Por sorte, Xiao Ning já não era um completo iniciante. Afinal, ele estava na 2° Camada do Reino Mundano ― ou ao menos, assim pensava. Tudo o que precisava fazer era praticar para poder aumentar seu nível.

Porém, existem diversos tipos de Técnicas de Cultivação Espiritual e a que o Xiao Ning do presente estava praticando era fraca, podendo absorver apenas uma pequena parte de Energia por vez.

Mas, ele era alguém que viveu por milhares de anos em uma vida passada, portanto, o número de técnicas que tinha conhecimento era grande demais para se contar e entre elas haviam aquelas que poderiam ser consideradas divinas. Talvez, nem mesmo o cultivador mais poderoso deste continente saberia sobre elas ou sequer teria ouvido falar.

E Xiao Ning sabia exatamente qual das Técnicas de Cultivação Espiritual de alto nível iria praticar. Na verdade, era a mesma que praticava em sua vida passada.

Para ele, essa técnica era o seu maior tesouro, perdendo somente para o Tesouro Divino: Retorno do Herói. E isso não se dava ao fato dela ser muito poderosa, podendo absorver uma grande quantidade de Energia Espiritual de uma só vez ― que por sinal, ela podia fazer.

Não... O que realmente fazia Xiao Ning gostar tanto desta técnica era o fato de que ela o permitia fazer uma das coisas que mais gostava neste mundo ao mesmo tempo em que ficava mais forte. E isso era, dormir.

A Técnica de Cultivação Espiritual chamada: Dorminhoco Eterno, foi uma habilidade que ele obteve por coincidência enquanto explorava as ruínas de um antigo reino.

Naquela época, Xiao Ning ainda era um preguiçoso quando se tratava de cultivar. Apesar de que já estava com mais de quatro mil anos de idade, seu nível ainda era baixo. Mesmo tendo em mãos uma série de habilidades monstruosas, do mais alto nível, ele continuava a procrastinar, focando todo o seu tempo e esforço em outras coisas, que achava mais divertido.

Mas, um dia, ele pôs as mãos nesta habilidade maravilhosa, a Técnica do Dorminhoco Eterno.

Apesar do nome, meio inocente, ela era assustadora. Alguém que a praticava, poderia absorver a Energia Espiritual apenas dormindo. Mas isso não era tudo.

Praticar uma técnica, seja ela qual for, é muito mais do que apenas saber usá-la, é preciso entender as verdades por trás dela, estudar os mistérios que a faz ser o que é e entender sua origem. E conforme os enigmas são decifrados e os mistérios compreendidos, mais potencial ela demonstrará.

E a técnica, Dorminhoco Eterno, possuía um incrível potencial latente. No seu ápice, seria possível dormir por anos enquanto cultiva, ou ficar acordado, sem ser afetado pelo sono, e o mais surpreendente é que a expectativa de vida do usuário aumentaria de uma maneira irreal. Ser eternamente jovem não é um sonho quando se cultiva à Dorminhoco Eterno.

Enquanto estava sentado, de olhos fechados, Xiao Ning, em sua mente, viu um vórtice se formando, sugando toda a energia ao redor. Dois brilhos distintos, um ligeiramente pálido, o outro, forte e robusto, eram tragados pela espiral, que se tornava cada vez maior e furiosa.

As energias distintas pareciam incapazes de conviver em conjunto. Se chocavam uma contra a outra, tentando expulsar a invasora. Faíscas voavam junto a colisões violentas. Ranço e desprezo cresciam dentro delas.

O vórtice se transformou em um furacão furioso e incontrolável, que crescia conforme a energia densa colidia contra a fina. Era como se o ódio mutuo entre as duas estivessem se tornando mais profundo e irreconciliável.

Na cabana, o ar vibrou com uma sensação crescente de opressão. As madeiras velhas que compunham as paredes do casebre, começaram a estralar de maneira preocupante, como se os caminhos internos criados pelos cupins estivessem enfim ruindo. Logo após, um rangido agudo e fantasmagórico ecoou das tabuas do assoalho e a chama vibrante da fogueira tremeluziu, ficando a um fio de se apagar.

Mas, de repente, as energias conflitantes pareceram se acalmar e começaram a se misturar. Aos poucos foi perdendo força, deixando a mágoa para trás, e como se fossem velhas amigas inseparáveis, tornaram-se, em essência, uma só. Igual a um rio que flui seguindo um curso natural, elas se fundiram e giraram ao redor uma da outro, pacífica e eternamente. Seus brilhos, quase indistinguíveis.

Xiao Ning abriu os olhos e deles, uma luz fraca, com um tom pálido, foi projetada e desapareceu em um instante. Neste momento, ele se sentia revigorado. Dormir já não era necessário. Mesmo que ficasse acordado por uma ou duas semanas, não haveria problemas. A Técnica de Cultivação Espiritual: Dorminhoco Eterno, já havia sido ativada. Agora tudo o que precisava fazer era dormir para poder cultivar.

Uma grande desvantagem do Dorminhoco Eterno é o fato de precisar estar dormindo para cultivá-la. E como ela lhe dá uma grande energia, permitindo-o ficar acordado por dias, no começo, dormir se tornava uma tarefa árdua e torturante, o que poderia prejudicar o cultivo.

No início, se o praticante não possuísse uma determinação inabalável e uma concentração imperturbável, então, praticar a Dorminhoco Eterno era algo que beirava a autoflagelação. Seria necessário ficar acordado por semanas, ou gastar toda a energia, até que enfim tivesse algum sono. E quando dormisse, seria apenas por algumas poucas horas. E repetir esse ciclo, poderia levar alguém à loucura.

É claro que, por ser uma técnica extremamente poderosa, ela possuiria suas dificuldades.

No entanto, Xiao Ning detinha uma grande vantagem em relação a isso. Ele não tinha a determinação nem a concentração para praticar a Dorminhoco Eterno, mas possuía algo muito melhor, mais compatível. A preguiça!

Não importa à hora ou o lugar, contanto que houvesse um canto para se escorar a cabeça, para Xiao Ning, dormir seria tão natural quanto respirar.

Quando encontrou essa técnica pela primeira vez, sentiu que era o destino ― quero dizer, existe algo neste mundo que seja mais compatível com alguém feito ele?

Preguiça e sonolência eram seus estados naturais. E não importa o quão grande seja seu vigor restante, desde que feche os olhos, sem sombra de dúvidas, um bom cochilo lhe aguardaria.

Depois de ativar a técnica do Dorminhoco Eterno e sentir o seu corpo se encher de energia, Xiao Ning pensou em sair para descobrir exatamente em que dia estava e quanto tempo faltava para a grande catástrofe, assim como o início da sangrenta Guerra do Extermínio.

Mas, apesar de seu físico estar em pleno vigor, sentia-se mentalmente cansado, pois havia acabado de ressuscitar. Por esse motivo, jogou mais alguns gravetos na fogueira e se deitou sobre a cama de farrapos.

Não demorou muito tempo para cair no sono. E no momento em que sua mente mergulhou na quietude do adormecimento, uma luz fraca, de cor azul, envolveu seu corpo. A luz da fogueira foi ofuscada e a cabana se encheu de um ar reconfortante, luzindo uma sensação segura e tenra.

A Energia Espiritual, que vagava livre pelo ar, começou a ser sugada loucamente, como se o corpo de Xiao Ning fosse um grande redemoinho.

Esse era o poder assustador da Técnica de Cultivação Espiritual: Dorminhoco Eterno.

 


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