A Mansão de Alamut Brasileira

Autor(a): Gabriel B.


Volume 1

Capítulo 14: Pena de morte (2)

Fileiras de incontáveis estátuas cercaram os detetives. A câmera misteriosa que fotografava almas era até então a única arma útil para lutar contra aquela gama de habilidades, mas com o seu desuso, nada restou para a dupla além de suas vozes.

A estátua não mais avançava com passos, mas ao ritmo da Silhueta, que agora tornou-se constante.

— O que a gente faz agora? — falou Jessie, sem resposta.

Como uma jaula que gradualmente encolheu, a dupla foi trancafiada em meio aos diversos ídolos. Mas, talvez por sorte, os batimentos do coração daquela criatura cessaram, e então, as várias cópias levantaram seus punhos em perfeita sincronia e se espalharam aleatoriamente pela mansão em um piscar de olhos.

Agora havia sim espaço para transitar, mas era pequeno demais para correr. Todos aqueles ícones, com falsas chamas em seus lampiões, que sequer produziam luz, como se não existissem de fato.

— James… — sussurrou ela, tão paralisada quanto as esculturas aladas.

— Sim, ainda tô vivo — disse, travando em um semblante sério.

— Primeiro ela se multiplicou, e agora todas essas cópias estão de punhos erguidos prontos para descer a porrada na gente… Será que… e-esse é realmente o fim? — Jessie cerrou os punhos. — Todo esse esforço, tanto sofrimento pra terminar assim… Esse trabalho… é realmente uma merda.

Ela abaixou a cabeça. Sua face inexpressiva e branca como um fantasma pôde ser vislumbrada por James com um olhar de canto. Para a surpresa e pânico do detetive, a mulher corajosa que sempre agia antes dele havia se rendido à morte.

“Bosta! Vamos lá, James! Toma a iniciativa!”, pensou ele, rangendo os dentes. “Eu tive todo o esforço de esconder a descoberta das cinco ordens, tentando não sobrecarregar ela, e é assim que vai terminar? Seremos espancados por uma gangue de estátuas?”

Seu olhar vagou entre as imagens. Não havia nenhuma diferença entre elas. As asas, o lampião, e até as duas rachaduras verticais em seu torso.

“Aquilo deve ser a marca para o cumprimento das ordens”, asseverou. “Se as cinco se ativarem, vai ser o fim, sem dúvidas...”

“Eu tenho que tomar a frente… Vamos lá! É só falar de uma vez! Nem foi algo tão grave, não é? Ela vai me perdoar, ela sempre perdoou minhas burrices… Por que agora seria diferente?”

Sua atenção foi até aquele que havia se tornado o seu altar. “Não mentirás”, um mandamento tão simples de cumprir, e igualmente de quebrar. Da mesma maneira que James encarou o altar, a escuridão que o circulava o encarou de volta com um olhar ameaçador.

As situações estavam se repetindo. Mesmo após séculos se passarem, aquele sentimento permanecia encravado na alma de todos. Tais coisas passavam longe da mente daquela alma aprisionada na estátua, afinal, sequer mente ela portava. Porém, aqueles sentimentos antigos não se foram, pois ficaram atados em locais muito além do que seu coração já inexistente.

Aquele momento longínquo, quando seu olhar estreito conseguiu presenciar o próprio sangue escorrendo pelas mãos de alguém tão próximo, trouxe de volta a fria sensação da morte. O olhar sem remorso do vencedor da batalha, cravado nas profundezas do seu ser ainda lhe atormentava. Enquanto sua vida se esvaia, e seu corpo perdia todas as forças, ele ainda foi capaz de proferir as suas últimas palavras, após apenas observar o outro dizer algo que não foi sequer capaz de ouvir.

— Eu cumpri… a minha promessa, irmão.

Ele não era capaz de ver o rosto do parente, mas podia jurar enxergar um semblante surpreso.

— Lembra de quando éramos mais jovens, e você me disse para te aguardar? Como pode ver, eu não menti… Eu fiquei esperando, e agora posso finalmente te dizer...

Ele tentou encará-lo, mas nada viu além de um rosto coberto por sombras e um par de olhos repletos de sangue.

— Parabéns. Você finalmente me venceu.

Sua visão se escureceu, assim como a sua mente que agora adormecida, vagou sem rumo por um espaço vazio, aguardando uma luz para seguir. E agora, aquela alma que se perdeu encontrou a tão esperada luz, fraca, mas ainda assim estava lá, naqueles detetives.

— Eu menti, Jessie… — gaguejou ele. — M-Mas eu fiz aquilo por que eu tinha medo. O tempo foi passando e-

O som de algo quebrando ecoou, a terceira rachadura surgiu no torso das estátuas, apressando James.

— E eu não sabia o que você acharia de mim depois que eu te falasse isso. — Ele encarou a mulher, ainda imóvel e de cabeça baixa. — Eu...

O detetive tentou a todo custo olhar nos olhos da parceira, mas só foi capaz de abaixar sua cabeça.

— Eu menti naquele dia, quando disse que era… estéril.

James fechou seus olhos naquele momento, o que o impediu de perceber o movimento da estátua logo a sua frente. Porém, um golpe mais forte do que jamais esperou, estava prestes a atingi-lo.

Jessie ergueu minimamente sua cabeça, apenas o bastante para encarar o parceiro com um sombrio olhar de canto. Quase sussurrando, ela disse:

— Você acha que eu sou idiota? Eu já sabia disso desde o começo.

Ao abrir os olhos como se estivesse tendo um pesadelo, seu olhar deparou-se não com aquele par de esmeraldas escuras, mas com o punho de pedra manifestado por aquelas palavras.

James foi ao chão, atacado por uma dor que, naquele instante, transcendia o físico. Não sabia como estava sua face após o golpe. O sangue que escorreu por sua boca mal era notado por sua pele gélida.

— O-o que você di-disse? — falou, ajoelhado perante a estátua.

O altar do pecado de James, finalmente foi tomado pela luz dourada.

Jessie se virou, encarando de cima o homem encolhido e desacreditado aos seus pés. Seu semblante se escondia na escuridão, uma tão forte que nem o ouro emanado pelos altares era capaz de revelar.

— Eu disse que já sabia disso. — Seu parceiro nada falou, mas ela prosseguiu.

— Finalmente encaixou os pontos? — perguntou, em tom culposo. — A verdade não era o que você esperava, não é? Foi culpa sua…

Pelo vitral no auge das escadas, a luz do sol invadiu o salão, tão veloz quanto um piscar de olhos, e nesse mesmo ritmo desapareceu, mas não sem antes revelar curtas lágrimas que desciam em silêncio pela expressão séria que era forçada pela garota.

— Foi por causa dessa mentira, por causa disso, eu te traí.



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