Volume 1

Capítulo 23: GUERRA

Mael estava sentado na sua cadeira de espaldar reto, em seus aposentos no acampamento vitanti.

Ao redor da mesa redonda, outras três figuras debatiam as melhores estratégias de como agir dali em diante.

A última notícia era que dois patrulheiros haviam sido atacados nas redondezas dos postos avançados. Um deles havia morrido e outro voltou em segurança, mas muito abalado.

 E o pior de tudo: Bulgus haviam se juntado nessa batalha.

Pele-pétrea estava de fato indo com tudo.

– É possível que coloquemos mais proteção ao redor do acampamento. Que me diz, General?

Quem indagou foi uma jovem de cabelos castanhos e olhos claros. Usava um conjunto de robes de batalha por baixo de uma cota de malha e placa de metal vitanti. Seus cabelos eram da altura dos ombros.

– Acredito que a proteção da Grande Entrada seja suficiente... – Mael suspirou, retirando seus óculos. Ele apertou seus olhos. – Que me deixa encucado é nossos números; e, se Pele-pétrea, que teve uma perda considerável de Gorilas, está juntando as raças selvagens, quer dizer que tem um forte xamã ao seu lado.

– E por que pensa assim? – Indagou um outro de cabelo ralo e tatuagens no pescoço.

– É simples, Erde: não existe a possibilidade de raças selvagens lhe servirem. E Bulgus são uma raça inteligente, ainda que selvagens. Eles não se dão nem com a própria espécie, veja bem. Quando estive nos túneis e no treinamento com Kai, enfrentamos espécies de selvagens um atrás do outro. Uma centopeia nos atacou num lugar que devia ser protegido; elas não saem do seu casulo assim, é imperativo sobre isso.

– E isso te faz crer...

– Sim. Xamãs estão envolvidos nisso.

– Mas xamãs? – o terceiro vitanti olhou ao redor, exasperado. – Eles não são curoh...

– Por favor, Gergin, peço que não use essa palavra em minha presença. – O outro assentiu após algum tempo, envergonhado. Mael prosseguiu: – Entretanto, é comum que pensem que xamãs são humanos. Mas não são; estas criaturas são espíritos imortais de magos há muito mortos. Xamãs são seres vingativos que já perderam a humanidade e qualquer traço de vida e, se um deles está ajudando Pele-pétrea, quer dizer que tem uma vingança contra nós.

– Entendo – a primeira vitanti comentou, pensativa. – Quer dizer que estas criaturas estão sendo controladas por este xamã. Mas, pra invocar um, não seria necessário um grande feitiço invocatório?

– Correto, Arjuani. Aí entra minha outra teoria: humanos também estão nessa.

– Mas..., mas... – Gergin ensaiou alguma coisa.

– Não pense que, por não termos tanto contato com eles, o mesmo acontece com os Gorilas. Tenho todos os motivos para crer que os mercenários que atacaram a vila tessaya, foram contratados por Pele-pétrea; não se enganem só por se tratar de um gorila: ele é muitíssimo astuto.

– Então temos que supor que o número inimigo só cresce. – Concluiu Arjuani.

Mael olhou para ela, surpreso. Sua primeira impressão acerca dela não foi tão boa. Pensou que, por ela vir da região Leste, seria ignorante com as palavras e bruta com os punhos. Admitiu para si mesmo que fora injusto.

Ela notou a troca de olhares e desviou brevemente seus olhos.

– Exato – ele suspirou, por fim.

– Então nossa próxima estratégia é ir atrás das tribos vitanti que se espalharam. – Arjuani disse, decidida.

Mael sorriu.

– Eu gostaria que fosse assim tão simples. Acredito que não saibamos nem uma fagulha do paradeiro desses vitanti.

– Mas já conseguimos trazer de volta os tessaya, não é? – Erde indagou.

– Sim, mas esta foi apenas uma parcela dos tessaya. Podem existir mais ao redor da floresta; o que impede de ser o mesmo caso das outras tribos? Nós já estamos com poucos soldados, que não chegam nem perto do tanto de vitanti que existem no Reino da Orquídea; não teríamos tempo nem disposição para sair num rastreio dos outros vitanti.

– E o que sugere? – Gergin perguntou, disfarçando sua cautela.

Mael olhou para Arjuani; depois baixou a cabeça.

– A primeira largada foi dada: o ataque aos patrulheiros foi só o início. Pele-pétrea fez questão de exibir seus brinquedinhos e, conhecendo-o, sei que não é só isso que ele tem na manga. O próximo movimento é conseguir aliados o suficiente para combater essa primeira horda de monstros, pelo menos até que nossos soldados estejam todos treinados.

Ele olhou ao redor da sala; estava responsável por adquirir espaço, avançar à medida que tomavam mais e mais terras. Era injusto que ele fosse o único general em campo de batalha enquanto os outros três estavam dentro do Reino da Orquídea? Sim. Mas era inevitável não admitir que ele era o único com alguma noção de guerra.

Até pouco tempo atrás, os vitanti só lutavam com uma unidade púrpura, com vitanti que eram treinados desde o início para sobreviver à floresta de Bulogg.

Tempo era necessário.

Ele olhou nos olhos de seus comandantes, cada um esperando o veredito.

– Erde, quero que organize uma unidade e tente o mais rápido possível recuperar os postos avançados sobre as árvores. Gergin: você ficará responsável por criar uma rede de comunicação viável para que continuemos em comunicação constante, não podemos depender dos pardais para sempre. Vão.

Os dois vitanti se levantaram e prestaram uma rápida continência.

– E, rapazes... – disse Mael antes dos dois saírem. – Espero que nossa conversa sobre o xamã fique apenas entre nós. Ninguém além dos generais, comandantes e senhores da Orquídea devem saber da gravidade da situação... não até que tenhamos certeza de que se trata mesmo de um xamã. Isso é uma ordem.

Eles assentiram e saíram da tenda.

Mael se virou para Arjuani, que prendeu a respiração.

– Você fala muito bem, srta. do clã Hovado.

– Pensou que por ser do leste eu seria uma troglodita? – no mesmo instante ela levou a mão à boca e piscou várias vezes. – Mil perdões, general, não sei o que deu em mim...

Mael soltou um riso fraco que não lhe chegou aos olhos.

– Tudo bem, Arjuani. Admito que foi isso mesmo que eu pensei; mas estive equivocado. Tenho uma tarefa bem específica para você, na verdade.

Entrementes, um soldado entrou e se posicionou de lado.

Um segundo mais tarde, Kai passou pelo arco de entrada; usava um robe negro sob uma cota de malha com várias costuras brilhantes. Uma enorme espada pendia em sua cintura. Ele piscou e olhou de uma Arjuani estupefata para um Mael sorridente.

– Conheça Kai Stone, seu vice em comando.


***


Kai seguia logo atrás da vitanti, que resmungava em murmúrios. Estava a ponto de explodir.

Eles caminharam entre tendas alocadas ao redor e sobre as árvores.

O acampamento dos vitanti estava localizado na base leste da Grande Entrada, o que facilitava a comunicação com o Reino da Orquídea. Também era um ponto estratégico: não poderia ser atacado já que a própria Entrada emanava uma força protetora que se estendia por cerca de 15 km.

O acampamento em si estava muito animado. Kai reconheceu muitos dos soldados: Guerreiros Púrpuros.

Havia uma enorme sequoia que servia de telhado para o acampamento, também. Depois de dar uma boa caminhada, Arjuani finalmente parou e se virou.

– Quero deixar claro que não concordo com sua presença aqui. Acredito que sua raça e a nossa não batem por diversos motivos e um deles é a própria escravização que nosso povo sofreu para o seu. Se fizer qualquer coisa minimamente suspeita, eu te mato. Se falar sem meu consentimento: eu te mato. Se colocar meu batalhão em risco: eu te mato. Estamos entendidos?

Uma veia saltou na testa de Kai e ele suspirou fundo. Só queria acabar logo com aquilo, mas não estava nem um pouco afim de ficar calado. Ele deu um passo à frente e a encarou.

– Bom, eu gostaria de vê-la tentar.

Não foi necessário aura para emitir uma onda assassina. Ali ele mostrou que sua paciência era mínima. Ela recuou um passo; Kai continuou:

– E, já que estamos soltando o que nos dá na telha, há algo que gostaria de dizer também: se forem gentis comigo, serei a melhor pessoa que conhecem. Mas, se eu sentir ostracismo ou qualquer trivialidade para comigo, não vou ter nem um pingo de remorso ao retalhar. Lembre-se bem, eu não sou um vitanti, muito menos um guerreiro. Estou fazendo isso pois devo aos Eblomdrude e sou muito amigo de uma Echanti. Portanto, não queira me irritar.

Kai olhou ao redor e uma dúzia de vitanti o encarava. Estavam com armas e espadas em suas mãos, prontos pro combate.

– Calma, calma, pessoal – Arjuani ergueu as mãos. – Estamos do mesmo lado aqui.

– Mas comandante, ele te ameaçou.

– É como ele disse: basta deixa-lo em paz, não é? – ela se aproximou do ouvido de Kai e sussurrou: – Eu soube que tinha culhões, nekedoh; mas não tinha certeza se era só bravata ou idiotice. Se não quiser que seja somente a segunda opção, sugiro que tire lentamente a mão de sua espada.

Imediatamente, ele percebeu sua mão direita estava apertando tanto o cabo da Amencer, que os nós dos dedos estavam brancos.

Antes que ele pudesse responder, ouviu-se uma explosão tão alta que fez todos se assustarem.

Kai e Arjuani olharam em direção ao furdunço: uma série de gritos ecoou pelo acampamento. A vitanti e ele se encararam e, sem pensar duas vezes, começaram a correr.

Era com certeza um ataque, levando em consideração a dimensão da explosão.

Ele olhou para a vitanti, exasperado.

– Pensei que havia um escudo protetor ao redor da Grande Entrada – sua voz era carregada de ironia.

– Tsc. Eu também. Mas o que quer que... – sua feição mudou drasticamente. De repente ela pareceu mais assustada do que o normal.

– Que foi?

Ela demorou alguns segundos para responder enquanto eles passaram correndo por várias tendas.

Que foi? – Kai insistiu.

– Droga. – Ela gritou. – Um dos patrulheiros foi atacado por um Bulgu, só pode ser isso...

– Dá pra falar a minha língua?

Ela o encarou, lutando para não iniciar uma nova discussão. Passaram-se vários segundos enquanto corriam.

– Um Bulgu é uma criatura mágica que pode falar... as lendas dizem que quando eles identificam um alvo, nunca mais o perdem de vista. Deve estar atrás do patrulheiro sobrevivente.

– Mas vir até aqui? Seria suicídio. Ademais, ele passou por um manto de proteção de milênios de anos... como isso seria possível?

– Eu não sei! – Ela gritou. – Mas eles não ligam muito para isso. Uma lenda conta que eles podem destruir muralhas apenas com cânticos mágicos.

– Uma besta que fala? Era só o que me faltava... – Kai murmurou.

Logo chegaram no núcleo da explosão. Uma dúzia de vitanti olhavam entre si, aturdidos. Não sabiam muito bem o que esperar.

Uma árvore pegava fogo.

– É a enfermaria; colocamos Wine do clã Itaju lá, por se tratar do lugar mais seguro aqui no acampamento. Ele deve ser seu alvo...

– E cadê essa criatura?

– Normalmente quando eles atacam, logo se vão – ela assumiu um tom sombrio. – E nunca, em qualquer hipótese, deixam sobreviventes.

Kai balbuciou.

Sem pensar duas vezes, saiu em dispara enfermaria adentro, totalmente chamuscada sob os gritos agora ofuscados de Arjuani; várias enfermeiras e curandeiros saiam correndo, exasperados.

Ao entrar, partiu sem rumo, apenas seguindo um rastro. Sentia um leve odor assassino espreitando. Seguiu esse instinto.

Não demorou muito até encontrar uma ala com vários leitos.

Parado num extremo havia uma criatura cinza quadrúpede de, no mínimo, 20 pés de altura. Estava de costas para ele, mas não demorou nem um segundo para se virar.

Kai recuou um passo quando viu seu rosto: havia uma lâmina de machado bem no meio da face e quatro olhinhos vermelhos. Seus pés eram atarracados como pilões e seus braços rechonchudos eram redondos e disformes como cabos de machado. Ele mastigava um braço, a língua lambendo gotas de sangue ao redor da boca.

– Ora, pensei que tinha apagado minha aura – a criatura sibilou. – Não faz mal, posso te devorar também.

O que aconteceu pareceu impossível: ele estava muito distante, mas, quando deu um passo, apareceu frente a frente com Kai. Sua bocarra cheia de dentes pontudos e sujos estava aberta e pronta para arrancar um pedaço.

Kai reagiu a tempo e, em mortais triplos, se afastou antes que a boca se fechasse no espaço vazio.

Ele havia pressentido uma assinatura de energia se movimentando momentos antes do Bulgu aparecer na sua frente; mesmo assim, aquilo foi surreal.

– Oh! – A criatura sibilou. – Você é veloz, macaco pelado. Vejamos se...

Ele desapareceu outra vez e Kai tornou a notar uma movimentação. Ele se precipitou para a frente, mas, mesmo assim, fora atingido de raspão nas costas.

Sua pele começou a arder.

Ele se ergueu novamente, suando frio. Ao tocar nas costas, era como se estivesse em carne viva, ardendo e chamuscando.

Que tipo de criatura era essa que aparecia e reaparecia sempre que queria?

Kai despencou sobre um joelho, arfando e suando bastante. A criatura havia sumido outra vez.

Inconscientemente, ele levou a mão ao cabo da espada, apertando-a firme. Era necessária uma grande vontade para não a desembainhar. Lembrou-se do que Cineáltas disse a respeito dela: tinha uma grande vontade espiritual; era uma arma incomum.

Ele soltou o cabo e respirou fundo, focando em seus próprios sentidos. Fechou os olhos e iniciou o primeiro processo de treinamento do chi: inspirar e expirar, sentir seus arredores.

E não deu outra: era como se um rastro invisível rodeasse o lugar; ele claramente via esse caminho incorpóreo, como o aroma de uma comida sendo feita. Mas o cheiro era de enxofre, e não parecia ter início ou fim.

Aguçando seus sentidos, ele tocou neste plano indômito e, assim que o fez, o rastro incorpóreo se agitou. Imediatamente, uma assinatura de aura apareceu ao seu lado. Ele já esperava.

O chi fluiu por seus punhos e, com um único soco, acertou em cheio uma massa dura enquanto que uma grande dor assolou seu ombro esquerdo.

Ao abrir os olhos, ele viu o Bulgu rapidamente desaparecer outra vez, murmurando e balbuciando lamúrias.

Então ele entendeu um pouco da habilidade da criatura. Ela usava esses ‘caminhos’ para viajar de modo invisível e, mesmo que alguém obtivesse o dom de “ver”, não enxergaria a criatura caminhando. Mas o rastro que era deixado entregava de certo modo seu paradeiro.

Não somente: sempre que ele reaparecia, havia uma perturbação no tal caminho; então quem quer que fosse o oponente, poderia compreender. Mas, para isso, era necessário... não, era crucial que o oponente estivesse calmo.

Kai analisou seu ombro e um arrepio percorreu todo seu corpo. Havia bastante sangue e faltava um pedaço miúdo de carne no lugar mordido. Ele já começava a ficar tonto e lhe faltava ar, mas não podia desistir por enquanto.

Infundiu chi para o ombro, buscando amenizar um pouco mais a dor. Então respirou fundo outra vez, buscou ficar calmo.

Fechou os olhos e desta vez foi quase imediato. Identificou o rastro.

Desta vez, havia uma grande concentração de aura nele. Ele direcionou seus sentidos para ali e foi como se visse o rosto assustado da criatura.

Era como se seus olhinhos estivessem amedrontados. No meio de seu peito cinzento, havia um buraco fundo, um líquido incorpóreo fluindo. Kai o havia acertado.

O Bulgu murmurava alguma coisa; quando Kai notou o que era, no entanto, só teve tempo de abrir os olhos, se erguer e pular para o lado.

Uma enorme bola de fogo surgiu de onde o Bulgu estava, indo em direção ao rapaz. Ela queimava seus arredores e até o chão. Logo destruiu tudo que tinha na sua frente.

Entrementes, o Bulgu reapareceu, mais cansado. Ele diminuiu o espaço e ergueu os braços sem dedos acima da cabeça laminada.

– Parece que fiz um grande estrago aí – Kai provocou, pálido. Ergueu o punho direito e um chi azul etéreo fluiu.

O Bulgu abriu a boca feia e podre. Desceu os braços diretamente sobre Kai, que deu dois passos para trás.

O chão explodiu ao toque dos punhos da criatura. Kai aproveitou pra avançar sobre ele.

Deu um soco no lado da face laminada, o chi sendo transmitido através de seus braços para a criatura.

Ao toque, uma pequena explosão foi gerada. A criatura foi arremessada longe e Kai, aproveitando a abertura, diminuiu o espaço.

Chi fluiu da palma de sua mão e um disco elíptico se formou, bem parecido com o que ele usou contra a centopeia. A diferença, no entanto, é que este continha bem mais energia do que o outro.

Como estava a poucos metros da criatura, o golpe foi lançado à queima roupa e saiu espiralando, ar se condensando ao redor.

Seria um golpe mortal, não fosse a esperteza do Bulgu. Vendo que corria perigo, ele se realocou no ar e posicionou um dos braços à frente.

A técnica foi redirecionada pelo braço cinzento da criatura, mas não antes de arranca-lo.

O Bulgu finalmente atingiu o chão e soltou uma lamúria tão horrível que Kai não resistiu ao movimento de tampar os ouvidos.

Este era, definitivamente, um inimigo problemático.

– Você é atrevido, macaco... – o Bulgu sibilou. – É a primeira vez que encontro um sujeitinho tão... ardiloso.

Kai sorriu, mas sem ver graça. Na verdade, a última técnica exigiu uma concentração tão grande de chi que, mesmo com seus canais mais largos, fora impossível não sentir o rebote.

– Por que se aliou à Pele-pétrea? – perguntou, cansado. – Qual a vantagem que ele obtém sobre vocês?

– Pele-pétrea? Aquele chimpanzé não passa de um peão, uma peça pequena num enorme tabuleiro.

Kai franziu a testa. Então quem estava por trás dos repentinos ataques?

– Pele-pétrea, pf... – ele começou a gargalhar. – Aquele pulguento nem mesmo possui um neurônio que se equipare ao meu senhor, o poderoso, o excelentíssimo, o x-x-x-x...

De repente, o Bulgu começou a gaguejar. Os globos oculares reviraram e ele sorriu.

– Você é atrevido, macaco... É a primeira vez que encontro um sujeitinho tão... ardiloso.

As sobrancelhas de Kai se ergueram e um arrepio percorreu sua nuca. Era como se alguém o encarasse. Ele esquadrinhou o lugar, em busca do par de olhos que o espreitava. Mas a sensação logo se foi.

Que raios estava acontecendo? Será que esse Bulgu estava, de alguma forma, sendo controlado a distância? Se sim, o usuário se tratava de uma pessoa bem poderosa.

Kai finalmente entendeu que deveria levar essa batalha mais a sério. Ele imediatamente lançou a mão direita para trás e agarrou o cabo da espada. Ao puxá-la, sua lâmina bronze permeou o lugar, uma densa aura inundando o salão. Até o Bulgu sentiu.

– É um belo apetrecho que tem aí, macaco. Mas será necessário mais do que acessórios para me derrubar.

Entrementes, Kai lutava inconscientemente com a espada. Sua ambição tentava, outra vez, lhe sobrepujar. Ele achou que essa fase já tinha passado, mas rapidamente se lembrou de outra fala de Cineáltas: ele teria de mostrar que era fidedigno de portá-la e, até lá, o caminho seria arduamente tortuoso.

A lâmina pulsou como uma onda; o ar ondulou em resposta. E esquentou. De repente, não havia nenhum som. Kai estava totalmente concentrado.

Ele apertou o cabo da espada com as duas mãos e se colocou em posição de batalha. Fez toda força possível.

Entrementes, o mundo congelou. O Bulgu estava atônito; o ar parado e sombrio. Tudo estava terrivelmente calmo, Kai sabia exatamente o que iria fazer. Era como se estivesse caçando, como quando podia ouvir cada toque de seu coração.

Tudo tão terrivelmente calmo.

O rapaz respirou fundo e deu um passo à frente. Em seguida, deu um golpe diagonal no espaço vazio, e tudo aconteceu num piscar de olhos.

O ar rachou e uma lâmina de chi etéreo se formou. Ela percorreu exatamente em diagonal na direção do Bulgu, que apenas a observou. Ele estava prestes a erguer o outro braço, mas não teve tempo: seu corpo foi separado em dois, a parte do tronco caiu para um lado e a de baixo pro outro.

Sangue cinza se espatifou enquanto Kai olhava atônito para sua nova espada. Um enorme sorriso cresceu em seu rosto pálido antes dele sucumbir aos terríveis e sombrios sonhos que lhe aguardavam.



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