Volume 1

Capítulo 3.1: Vida Externa

Meus olhos vagavam pela paisagem que se estendia diante de mim, um lugar árido e implacável para a vida comum. Lembrava um pouco do planeta que já chamei de lar, mesmo que quase todos se lembrassem dele.

Suas superfícies rochosas, poeira e ausência de vida pintavam um cenário de monotonia extrema. O tédio que tanto sofri retornava aos poucos. Lentamente, como se uma sombra pairasse sobre os campos da felicidade, estava perdendo as esperanças de ver o céu sem nuvens.

— Será que há vida nesse universo?

A empolgação inicial, que uma vez me agarrou com tenacidade ao deixar o planeta vermelho, estava gradualmente cedendo espaço à dura realidade de mundos monótonos e vazios. Eu não conseguia evitar a pergunta que ecoava em minha mente: quanto tempo levaria para encontrar algo que valesse a pena?

— Não fique assim. Deve haver vida lá fora... Pelo menos é o que eu espero...

A interrupção veio do Livro, com seu tom persistente e otimista. Entre todas as alucinações que me assombravam, o Livro era o único que permanecia ao meu lado. Sempre que eu tentava sondar suas origens ou entender sua natureza, suas respostas eram frustrantemente simples: ‘porque sim’.

Ainda assim, a presença do Livro trazia um certo alívio, uma sensação fugaz de que eu não estava completamente só. Ergui o livro até meu rosto e o observei, pensando em todos os momentos em que ele me ajudou.

— O que foi? Tem algo errado com a minha capa?

— Tudo — respondo com um sorriso de canto.

— Essa observação, vinda de alguém que está usando apenas um pedaço de pano, é no mínimo irônica.

— Diferente de um produto fabricado como você, esta é a única peça de roupa que possuo… — retruquei sem muito ânimo — se é que posso chamar isso de roupa.

O pano branco mantinha-se imaculado, um feito notável considerando os anos que passou comigo. Ele resistiu a ser arrastado pelo deserto, jogado na lava e perdido nas profundezas de um lago congelado. Uso-o há tanto tempo que, em alguns momentos, esqueço que é uma peça de roupa. Claro, não faria mal se fosse um pouco mais comprido.

Eu coloco o livro cuidadosamente debaixo do braço enquanto ajusto a toalha ao redor da cintura. Foi exatamente nesse momento que meus olhos capturaram algo, algo que rompeu a monotonia dos meus pensamentos. Um brilho peculiar no chão prendeu minha atenção, como um sussurro no meio do silêncio opressor.

Não poderia ser gelo, disso eu estava certo. Não naquele ambiente abrasador, onde o calor intenso envolvia cada grão de areia como uma carícia escaldante. O que quer que fosse, parecia desafiar as próprias leis da natureza local.

Com o poder da telecinese, planejei pelo ar em direção ao objeto brilhante que se encontrava enterrado na areia. Meus pés afundaram suavemente no solo quando finalmente pousei. Observando o objeto com mais atenção, concentrei minha habilidade, erguendo-o do chão... Seria possível?!

— Metal!

Diante de mim, revelou-se uma placa de metal fragmentada, cujas partes lisas pareciam ser fragmentos de algo de maior magnitude. Isso só podia sugerir que alguém com profundo conhecimento de minérios a teria produzido com esmero.

Enquanto me inclinava sobre o objeto, não pude deixar de notar que a ponta da montanha adiante estava partida, como se tivesse sido vítima de um impacto brutal. Uma sequência de conexões começou a se formar em minha mente, mas antes que a euforia pudesse tomar conta, sabia que precisava da confirmação visual direta.

Marchando sobre a montanha, trilhei o rastro de arrasto que se estendia além dela, como se um dedo colossal tivesse esculpido uma trilha na superfície desértica. E então, à medida que seguia esse rastro, uma grandiosa silhueta começou a emergir diante dos meus olhos. Uma explosão de alegria borbulhou dentro de mim ao encontrá-la. Era a espaçonave que havia se acidentado neste planeta.

— Eu sabia! Nunca duvidei que houvesse vida nesse universo.

— Sei… Vou ficar calado para não acabar com sua alegria.

Minha excitação transbordava enquanto saltitava de um ponto ao outro, explorando cada detalhe da fuselagem da nave. O metal prateado, apesar da camada de poeira, ainda conseguia refletir um brilho notável. Cada vez que minha mão entrava em contato com a superfície, meu coração acelerava, e o som que ecoava, simultaneamente familiar e desconhecido, assemelhava-se a uma sinfonia aos meus ouvidos.

O tamanho da nave era imponente, como se esperava de uma verdadeira espaçonave. Sua forma oval havia sido alterada pelo impacto, deixando-a parcialmente afundada no solo, como se tivesse sido amassada. Só espero que essa não seja a seção de entrada.

Meus olhos percorreram cada centímetro da fuselagem, até que, enfim, uma abertura se revelou. A fenda, porém, era demasiado estreita para passar, levando-me a empregar minha telecinese para forçar a porta a abrir-se. Com um esforço gradual, consegui vencer a resistência.

Ao adentrar a espaçonave, deparei-me com um cenário de desolação alienígena. Corredores inclinados, testemunho da posição em que a nave se encontrava, e painéis que lançavam apenas um tênue brilho, sugeriam uma luta pela sobrevivência após um longo período de abandono. A poeira flutuava no ar, como se o tempo tivesse se imobilizado há eras dentro daquelas paredes.

Com cautela, evitando escorregar, movi-me pelos corredores. Os símbolos semelhantes a circuitos nas paredes emitiam uma luz fraca, e minhas suspeitas de que eles tinham um propósito mais profundo só aumentavam.

Encontrei uma porta entreaberta e, ao atravessá-la, deparei-me com os remanescentes da tripulação. Corpos estavam dispersos, assumindo diversas posições pela sala. Entrei flutuando, cuidadoso para não pisar sobre nenhum deles. Seus trajes eram predominantemente pretos, com detalhes em azul, com braços e pernas semelhantes aos nossos, mas com mãos de quatro dedos e crânios completamente distintos dos humanos.

— E para surpresa de ninguém, todos eles são alienígenas...

— Você esperava algo diferente?

— Pelo menos eu esperava que estivessem vivos.

A sala estava equipada com cadeiras e uma grande mesa, o que me levou a supor que aquela fosse a sala de reuniões. Alguns dos falecidos permaneciam nas cadeiras, enquanto outros jaziam caídos ou jogados no chão. Teriam perecido antes ou depois do impacto? E se foi antes, o que teria sido a causa de suas mortes?

Determinado a encontrar respostas, comecei a explorar a nave. Para minha surpresa, ao me aproximar, a próxima porta deslizou suavemente para o lado, revelando uma nova câmara.

Equipamentos complexos, agora empoeirados e inertes, alinhavam-se meticulosamente nas bancadas de metal. Monitores apagados projetavam sombras de gráficos e tabelas ininteligíveis. Um laboratório, possivelmente?

Meus olhos curiosos exploraram as prateleiras, esforçando-se para decifrar o propósito das máquinas enigmáticas. Seringas, frascos, tubos de ensaio... algum propósito científico estava certamente por trás de toda aquela parafernália.

Uma bancada atraiu meu olhar, onde um dispositivo piramidal se destacava. Seu design intrigante e as luzes intermitentes sugeriam uma máquina de alto nível. Talvez para análise de amostras ou síntese de substâncias? No entanto, a verdade permanecia vaga.

No chão, dois corpos vestindo trajes brancos jaziam em repouso. Provavelmente eram cientistas que trabalhavam ali antes do incidente. Seus corpos, assim como os de outros tripulantes, haviam se reduzido a ossos.

Após deixar para trás a câmara enigmática, continuei minha jornada pelos corredores retorcidos da nave em ruínas, sentindo que cada passo me aproximava de algo ainda mais intrigante.

Minhas investigações me guiaram por entre os corredores sinuosos da nave caída, até chegar àquilo que parecia ser o epicentro da tecnologia alienígena: a Sala de Controle. Nesse espaço, a complexidade tecnológica alcançava um ápice deslumbrante, com painéis luminosos e dispositivos desconhecidos criando um espetáculo hipnotizante de luzes e símbolos.

Movido por uma curiosidade insaciável, meus dedos trêmulos foram atraídos como ímãs em direção aos controles. Meus olhos navegaram pelas complexas interfaces que pareciam portais para um universo tecnológico até então inexplorado.

— O que você pretende fazer?

— Vou tentar desvendar mais sobre a nave.

— E você tem algum conhecimento sobre esses controles?

— Não... mas estou determinado a aprender — afirmei com um sorriso não tão confiante quanto gostaria. — Não deve ser tão complexo assim.

Com uma ponta de incerteza, estendi minha mão até o painel e pressionei cinco botões. No entanto, nada aconteceu. Onde foi que errei?

Apertei mais botões, um após o outro, todos sem sucesso. Frustrado, dei um chute num cabo solto que jazia no chão, e naquele exato momento, a máquina ganhou vida.

Luzes coloridas piscaram em sequências hipnóticas nos monitores, enquanto hologramas surgiram no ar, revelando formas geométricas desconhecidas que giravam lentamente. O painel vibrava sob minhas mãos, como se estivesse pulsando em sintonia com a nave.

Fiquei ali, fascinado, tentando encontrar algum significado naquela dança visual. Seria algum tipo de alerta? Dados armazenados? Uma forma de comunicação? Nada era claro.

Movido pela curiosidade, pressionei mais alguns botões. Um dos hologramas se expandiu, revelando uma representação tridimensional detalhada da nave. Pontos vermelhos piscavam em áreas específicas, talvez indicando possíveis danos ou disfunções.

Inclinei a cabeça, focando intensamente nos símbolos em constante movimento pelo painel. Eles eram completamente estranhos a tudo o que já tinha visto, mas senti como se estivessem quase ao alcance da minha compreensão.

Joguei a ideia de lado por enquanto e comecei a analisar os controles. Uma ideia audaciosa germinou em minha mente: e se eu pudesse fazer essa nave voar novamente?

Com minhas mãos firmemente posicionadas sobre o painel, fechei os olhos para me concentrar. Com um toque delicado, comecei a manipular os controles, seguindo o chamado do instinto mais do que do conhecimento.

A nave tremeu suavemente, como se estivesse acordando de um sono profundo. Abri os olhos e observei no monitor a nave ganhar vida. Novas áreas se iluminaram, e o distante zumbido dos motores energizados ecoou em meus ouvidos. Um sorriso de triunfo se formou em meu rosto.

— Consegui! E você dizendo que não sabia o que estava fazendo.

Contudo, minha alegria rapidamente se converteu em apreensão quando a nave, de forma repentina, me jogou ao chão. A nave acelerou bruscamente, provocando violentas vibrações.

Segurei-me firmemente em uma saliência no painel enquanto me levantava, batalhando para não ser derrubado novamente. Alarmes estridentes ecoavam, luzes verdes piscavam freneticamente.

Em um dos monitores, observei a superfície do planeta se afastando rapidamente à medida que a nave ganhava altitude. Estávamos deixando a atmosfera!

Em pânico, meus olhos buscaram freneticamente os controles, tentando desesperadamente encontrar uma maneira de reduzir a velocidade ou deter a decolagem. Pressionei botões aleatoriamente, mas as respostas da nave eram caóticas, ora acelerando ainda mais, ora sacudindo perigosamente enquanto mudávamos bruscamente de direção.

A nave acelerou subitamente, e fui arremessado para fora da sala de controle. Caí pelo corredor, colidindo com as paredes metálicas conforme a gravidade artificial falhava. Fiquei flutuando sem controle, enquanto a nave executava manobras bruscas.

Tentei usar minha telecinese para retomar o controle do meu corpo, mas a velocidade da nave era tão intensa que não conseguia direcionar minha trajetória. Flutuei desamparado pelo corredor, enquanto a nave continuava suas manobras frenéticas.

Finalmente, agarrei-me em algo e olhei de volta para o corredor da sala de controle. Xinguei minha má sorte. Era imperativo retomar o controle da nave antes que ela batesse em um asteroide!

Lutei para diminuir a velocidade usando minha telecinese, mas os poderosos motores resistiam. Minha habilidade psíquica parecia minúscula diante da imensa propulsão dos motores.

Apesar do fracasso inicial da telecinese, comecei a escalar de volta em direção à sala de controle. Meus dedos buscavam freneticamente qualquer ponto de apoio na superfície lisa. A nave tremeu novamente, quase me fazendo perder o agarre.

“Não vou perder assim tão fácil!”



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