Um Alquimista Preguiçoso Brasileira

Autor(a): Guilherme F. C.


Volume 1

Capítulo 7: O ressentimento de Shui

A Montanha Ancestral de Jade era tão alta quanto às nuvens; as profundezas de seu solo era rico, contendo minerais valiosos; e até mesmo os preciosos metais mágicos, com um pouco de sorte, era possível encontrar. E as terras férteis abrigavam uma abundância de Ervas Espirituais raras.

No entanto, mesmo com toda essa fortuna enterrada, escondida, não são muitos que se aventuram nessa região em busca de se enriquecer. Verdade seja dita, além das quatro Famílias que governam a Cidade da Fronteira do Caos, poucos se arriscam a subir a montanha. O motivo para isso é muito simples, aquela era uma área perigosa.

Por ali, podia não haver muitos monstros de altos níveis, mas o clima imprevisível tornava a jornada mortal. Não era incomum, em dias ensolarados, sem qualquer nuvem no céu, cair raios ou uma tempestade de neve começar de repente no meio do verão.

Por causa do clima, pouco amigável, grande parte da Montanha Ancestral de Jade permanecia inexplorada, intocada, com tesouros dos quais só se poderia imaginar, nos mais cobiçosos sonhos. A fúria repentina e a imprevisibilidade climática era tamanha que mesmo os poderosos Santos Místicos não ousavam subi-la, sem tomar muita prudência, antes.

Em consequência ao perigo, gerou uma regra comum entre as Famílias: “do meio, para baixo”. Ninguém ousava passar desse ponto, fazendo o cume se tornar um daqueles mistérios que com o decorrer do tempo viram fabulas, contadas as crianças, ou lendas, temidas pelos adultos.

Neste momento, Xiao Ning estava no sopé da montanha. Ele caminhava tranquilo, girando sua lança em uma das mãos enquanto admirava a paisagem. Essa era uma das poucas partes de todo o Império Dourado que, de alguma forma, permanecia vivo em sua memória. Mas, mesmo assim, ele não sabia muito bem onde encontraria os ingredientes do qual precisava, já que nunca havia se aventurado além das áreas baixas.

Para Xiao Ning, apenas uma pequena parte da base da Montanha Ancestral de Jade era conhecida, de resto, mesmo as áreas em que ocorriam as colheitas de Ervas Espirituais e escavações de minérios, lhe eram um mistério, quem dirá o topo.

Em razão disso, como de praxe, ele não fazia ideia de por onde começar a procurar as Ervas que precisava. Por sorte, seu conhecimento em herbalismo se provava notável, o que tornava apenas uma questão de tempo encontrar o que procurava ou um rastro indicando o caminho. No caso, a Erva que precisava era o Capim Malaqui.

 O Capim Malaqui era uma erva rasteira, semelhante a grama comum, mas com folhas verde-escuras, em um tom quase corvino, normalmente encontrado em áreas descampadas de solo úmido. Animais normais tendem a evitar esse tipo de planta, pois possuí um gosto forte e amargo. As únicas criaturas que se alimentam do capim são os Javalis de Pelos Vermelhos.

Como Xiao Ning sabia que precisava encontrar uma área aberta com uma fonte de água próximo, ele foi em direção ao único riacho que conhecia.

Chegando ao diminuto corpo de água, deu uma olhada em volta, mas já sabia de antemão que não encontraria o que procurava. Afinal, o lugar estava rodeado por árvores altas e arbustos volumosos. Ele só queria mesmo era ter certeza de que não deixaria nada valioso escapar-lhes os olhos.

Logo, continuou seguindo a margem do riacho, montanha acima. No caminho, encontrou algumas ervas que poderiam ser usadas de especiarias e como já estava cansado de comer os frutos vindos do bosque ao lado de seu casebre, não tardou a colhê-las. O bosque vinha lhe servindo muito bem ao fazer uma refeição agradável. Não era difícil encontrar frutas e alguns vegetais silvestres por lá. Porém, já se encontrava cansado dessa dieta e sentia-se ansioso para colocar algo com um gosto mais marcante na boca. Mas, condimentos ainda para colher, foi tudo o que encontrou. Nada de muito valioso foi visto. Provavelmente a área já havia sido explorada por completa.

Portanto, Xiao Ning não perdeu muito tempo por ali e subiu mais um pouco.

Depois de alguns minutos andando, deparou-se com uma queda d’água, não muito alta, tinha por volta dos três metros de altura e desembocava em um pequeno lago cristalino, cujo fundo cascalhento se fazia visível, repleta de peixes nadando.

Xiao Ning se aproximou do lago e se divertiu assistindo os peixinhos nadar de um lado para o outro, mergulhando e aflorando sem qualquer medo de predadores, muito embora, para seu azar, eram pequenos demais para render uma boa refeição. Vendo aquela água cristalina, sentiu-se tentado a fazer companhia aos nadadores. O dia só havia começado, ainda faltava um longo tempo até o pôr do sol, então, porque resistir à tentação?

Além do mais, esta seria uma ótima oportunidade. Depois de se banhar, aproveitaria para lavar as roupas. Suas vestes estavam chegando ao ponto de fazer arder o nariz, sempre que respirava fundo. Teve de começar a alternar a respiração, inspirando pela boca sempre que parava de ventar. Xiao Ning possuía apenas dois conjuntos de roupas. O que estava vestindo e aquele deixado no casebre, usado para preencher o travesseiro. E, bem... um preguiçoso com um vestuário tão limitado, não produzia o melhor dos odores, ainda mais depois de acumular tardes suadas de treinamento.

Não querendo perder essa chance, ele fincou a lança no chão, soltou o saco de pano e se preparou para tirar as roupas...

“Crack!”

Mas então, o barulho de galhos sendo pisoteados, não muito longe, ecoou.

Como a queda d’água não era muito forte, escorregando pelas pedras cobertas de lodo, não foi problema para Xiao Ning escutar a vegetação sendo remexida. Com um reflexo impressionante, de quem estava atento, arrancou a lança do chão e olhou na direção em que o som veio. Esperava por um monstro, mas o que apareceu, acabou pegando-o de surpresa.

De uma trilha pouco frequentada, enquanto arrancava os galhos travessos que cismavam de puxar seus cabelos azul-claros, uma garota de olhos azuis, vestindo uma armadura de couro e segurando uma espada não muito longa, mas também não muito curta, apareceu. Apesar de estar tendo dificuldade para atravessar os arbustos, sua expressão era alegre e descontraída, como se o cheiro da água corrente, agitando o fundo lodoso, despertasse seus desejos por um mergulho refrescante.

Aquela era Xiao Shui, a filha de Xiao Chang, o 9° Ancião.

Xiao Shui parecia estar se divertindo, arrancando os galhos do cabelo e espanando as folhas presas na armadura de couro. Porém, quando viu Xiao Ning parado próximo ao lago, seu rosto animado se contorceu em uma expressão carrancuda. Não queria saber de conversas ou trocar ofensas com aquele ali, assim, sem demoras, ela se virou e se preparou para ir embora. Mas no momento em que deu as costas, uma voz a chamou:

Ah, Xiao Shui! Eu não esperava vê-la por aqui! ― disse Xiao Ning, despreocupado, ignorando a carranca em seu rosto e chamando-a de forma casual, com uma voz descontraída.

― Não fale comigo, seu lixo inútil! ― retorquiu Xiao Shui, com desprezo. Assim que identificou aquele garoto que tanto detestava, quis se afastar o mais rápido possível. Mas ouvi-lo dizer o seu nome tão casualmente, por um motivo, que ela conhecia bem, fez seu sangue ferver.

Porém, apesar do palavreado grosseiro, Xiao Ning não se irritou. Na verdade, ele soltou um sorriso alegre, feito um velhote vendo uma criança fazendo birra.

Ahahaha! ― gargalhou. ― Parece que você não gosta muito de mim, não é? Ahaha!

― Não seja tão modesto, eu o desprezo! ― Xiao Shui enfatizou seu ódio, com um rosnado colérico. Talvez, se olhasse de perto, quem sabe, até seria possível ver um pouco de espuma escorrendo pelo canto da boca.

Mas Xiao Ning continuava tranquilo.

Ei, ei! Pessoas não deveriam se irritar assim, faz mal para a saúde. ― disse em um tom brincalhão, enquanto balançava a cabeça. ― Além do mais, o que de tão maléfico eu fiz para você me odiar tanto?

Xiao Ning não sabia a origem desse ódio repulsivo e raivoso, que a fazia olhá-lo com tanto desprezo. Não se importava em ser abominado pelas pessoas, não dava a mínima para esse tipo de coisa. Entretanto, sentia-se intrigado pela fonte daquele ressentimento mundano, pois embora sua memória estivesse debilitada pelo passar de cinco mil anos, tinha certeza de jamais ter feito algo grave para enfurecê-la de tal maneira.

Hunf! Não se faça de idiota! É justamente por você não fazer nada, que eu te desprezo! ― bufou Xiao Shui, dando uma justificativa pouco racional.

Hm... Como assim? ― indagou Xiao Ning, que desta vez de fato se sentiu confuso. Se ele não havia feito nada, então não deveria haver tanta raiva, certo?

Mas para a sua dúvida, Xiao Shui respondeu com uma voz esganiçada:

― Você tem alguma ideia dos problemas que meu pai enfrenta por causa de você? ― começou a desabafar, algo que há muito estava preso na garganta.

― Problemas? Que tipo de problemas? ― questionou, arqueando as sobrancelhas.

― Ninguém na Família quer você por perto. Todos querem você expulso. O único que o defende é o meu pai e por causa disso os outros Anciões estão tentando tirá-lo do cargo de 9° Ancião. Se não fosse pelo Patriarca, ele teria sido destituído. ― vociferou Xiao Shui, em um tom enraivecido. Seu olhar penetrante encarava Xiao Ning, querendo, se possível, fulminá-lo com os olhos. Quem sabe assim, de uma vez por todas, livraria-se daquela praga.

Oh! Eu não fazia ideia. ― comentou Xiao Ning com sinceridade. Ele de fato não sabia dessas coisas.

― Então, agora que você sabe, porque não cria vergonha na cara e leva os seus deveres dentro da Família a sério. ― repreendeu Xiao Shui. Terminando de dizer isso, ela se virou, mas antes de sair, acrescentou. ― O seu pai pode ter salvado a vida do meu pai, mas essa dívida foi paga há muito tempo.

Xiao Shui se preparou para partir. Não queria mais ficar na presença do vagabundo. Porém, mais uma vez foi impedida:

― Antes de você ir, poderia me dizer em que lugar eu encontro Capim Malaqui. ― perguntou Xiao Ning, em um tom de voz descontraído, como sempre. Parecia até que a reprimenda de Xiao Shui não havia surtido nenhum efeito, nem mesmo levou-o a refletir sobre o assunto.

Ela se virou e olhou para ele por um momento. Após uma breve pausa, respondeu com uma voz áspera:

― Se você subir por mais uns vinte metros, depois dessa cachoeira, e virar à esquerda em uma rocha coberta por musgo vermelho, logo à frente vai haver um campo com Capim Malaqui. ― Ela fez uma pequena pausa, olhou para a lança nas mãos de Xiao Ning e continuou. ― Aparecem muitos Javalis de Pelos Vermelhos por lá e este espeto nas suas mãos não consegue penetrar o couro deles.

Dando um último aviso, voltou para a trilha da qual havia saído e desapareceu, deixando Ning para trás.

― Obrigado pela informação. ― disse Xiao Ning, sorrindo, despedindo-se com um aceno. Ele não achava que Xiao Shui fosse assim tão ruim, embora o desprezo por ele fosse geníno.

Agora que sabia onde encontrar o Capim Malaqui, não perderia mais tempo. Quanto antes colhesse, mais rápido poderia retomar suas atividades com Alquimia. Dessa forma, ignorando sua vontade de nadar, jogou o saco de pano nas costas e tornou a subir a montanha. Aguentaria o fedor de suas roupas por mais um tempo. Colher os ingredientes era a prioridade agora.

Assim como Xiao Shui havia dito, subindo alguns metros depois de contornar a queda d’água, encontrava-se uma rocha, parcialmente coberta por um musgo vermelho, quase roxo, afundada na terra, logo ao lado do riacho que descia rumo a cachoeira pelo qual havia passado. Depois, virando a esquerda, seria necessário percorrer um caminho debilitado pelos arbustos que cresciam desenfreados, abrindo-se em vastos campos, que se entrelaçavam, formando uma rede verde com mais de quatro metros de altura.

Devido as raízes baixas e os galhos lenhosos dos arbusto, sem falar nas folhas que se abriam feito buquês, dando as mãos, o caminho de Xiao Ning foi difícil e tortuoso. Teve que abrir passagem socando e chutando, enquanto era a todo instante arrastado para trás, por mãos amadeiradas que enroscavam em suas roupas e roubavam sem nenhum pudor sua fronha. Após se deslocar por cinco metros, a sensação que se tinha era de já ter percorrido uns cinquenta. Nesse ponto, Xiao Ning se perguntou se não seria melhor voltar e procurar um lugar para contornar. Mas então, ouviu uma brisa leve farfalhar as folhas e um cheiro forte e amargo se sobressair ao aroma verde, do matagal quebrado.

Ele se apressou na direção do cheiro. Sabia que estava perto. Usando as mãos, quebrou os galhos que estavam bloqueando seu caminho. E, como uma cortina caindo, revelando os mistérios de um lugar raramente visto, um campo verde-escuro, povoado por uma vegetação rasteira, abriu-se.

Do outro lado do emaranhado de arbustos, encontrava-se uma pradaria extensa, com um pouco mais de duzentos metros de comprimento e cinquenta de largura. O relvado estava quase todo cercado por arbustos, tendo o lado oposto sendo bloqueada por uma vegetação arbórea, densa. Era surpreendente o fato de Xiao Shui ter encontrado um lugar tão bem escondido.

Quando enfim alcançou o campo, ficou impressionado. Havia tanto Capim Malaqui ali que seria possível encher o saco que estava carregando umas dez vezes e ainda sobraria muito para uma próxima viagem.

Antes de começar a colher, para ter certeza de que não haveria nenhum Javali de Pelos Vermelhos nos arredores, espreitando, esperando para atacar, ele deu uma volta pelo campo. Contornou os arbustos e foi em direção as árvores mais altas. Enquanto andava, seus pés se afundavam, denunciando uma fonte de água escondia, minando sob o solo. Xiao Ning fitava entre as árvores, procurando por movimentos suspeitos. E em dado momento, deixou sua cabeça se erguer, quando pensou ter visto, com o canto dos olhos, algo familiar.

Ele levantou o queixo, procurando entre os galhos mais altos de uma árvore que se encontrava mais à frente, fazendo divisa com o campo e o resto da vegetação arbórea, por algo que despertasse sua atenção. Foi quando viu, escorado em um galho, tomando banho de sol, um cogumelo amarelo do tamanho da palma de uma mão, cuja saliência arredondada e o caule estavam cobertos por furos transversais.

Vendo o cogumelo no alto da árvore, Xiao Ning apertou os olhos, checando, averiguando para ver se era de fato o que pensava ser. E quando teve certeza, exclamou surpreso:

― Aquele é um Cogumelo Ladrão!

O Cogumelo Ladrão é um parasita encontrado no topo de árvores altas, conhecidos por "roubar" o ar. Ele era usado muitas vezes para combater dor de barriga e azia, fora isso não havia muita utilidade. O que as pessoas não sabiam era que, além de ajudar na má indigestão, quando preparado corretamente, também servia para limpar o estômago, o intestino, entre outras coisas. E isso, de certa forma, poderia influenciar na hora de cultivar a Energia Espiritual. Pois, um corpo saudável é essencial para cultivadores.

Mas ainda havia algo mais importante a respeito do Cogumelo Ladrão... bem, pelo menos para Ning isso era mais importante. Quando assado, ele tinha um gosto delicioso.

Xiao Ning, além da Alquimia, desenvolveu muitos passatempos ao longo de seus cinco mil anos. Entre eles, havia herbalismo, medicina e culinária. Pode não parecer, mas todas essas três coisas estavam relacionadas a Alquimia. Ao menos, o tipo praticado por ele.

Por isso, quando viu o Cogumelo Ladrão, logo jogou suas coisas no chão e deu um pulo tão alto, o qual pessoas comuns eram incapazes de imitar, que em um instante chegou ao topo da árvore, saltando entre os galhos. Usaria esse ladrãozinho de oxigénio para fazer um delicioso jantar.

Depois de pegar o cogumelo e confirmar que não havia nenhum javali por perto, ele começou a colher o Capim Malaqui.

Sem se importar se sujaria os trapos que vestia, ainda mais, ele se ajoelhou no chão e com muito cuidado começou a arrancar as folhas. Era preciso ser cuidadoso, pois as folhas do Capim Malaqui eram finas e afiadas feito faca e se fosse descuidado, acabaria recebendo alguns belos cortes nas mãos.

Dessa forma, não teve pressa e continuou colhendo ao seu próprio ritmo...

Apesar de ainda faltar algumas horas para o pôr do sol, já passava do meio dia quando Xiao Ning por fim terminou de preencher o saco de pano. A fronha estava tão cheia que parecia um daqueles travesseiros de rico, gordos de tanto comer penas de ganso.

Acompanhado pelo aroma especialmente forte e amargo do capim recém moído, Xiao Ning jogou o saco de pano de lado, pegou sua lança e esperou...

Para fazer a Composição Alquímica que pretendia, ainda faltava um ingrediente. Portanto, esperou...

Uma brisa suave arrastava o cheiro do capim para longe. O campo estava calmo e silencioso. A única coisa que se ouvia era o remexer das folhas e o canto distante de pássaros. Mesmo as irritantes cigarras, não se faziam presente. Estava tudo uma verdadeira paz.

Foi quando, um “Crack!”; “Crack!”, reboou entre as árvores, contornando os troncos mais espaçados e indo em direção aos arbustos fechados. O barulho de algo pesado correndo se aproximava numa velocidade surpreendente. Dava até mesmo para sentir o chão tremer, com pequenas vibrações quase imperceptíveis, e seja lá o que estivesse se aproximando, estava cada vez mais perto.

Quando percebeu isso, Xiao Ning girou a lança e se preparou. Com os sentidos que vinha aguçando nos últimos dias, estreitou os olhos e se concentrou.

― 6°... não. 5° Camada do Reino Mundano. ― afirmou, olhando para a direção do barulho, acompanhando o movimento da coisa.

No momento em que terminou de avaliar, atravessando um arbusto, quebrando os galhos e arrancando as folhas selvagemente, uma criatura de pelos grossos, encrespados e vermelhos, com grandes olhos redondos e pretos como breu, apareceu. Ela tinha por volta de um metro de altura e passava dos dois de comprimento. Da sua boca, saltavam duas presas amareladas, um pouco curvadas, semelhante a ganchos retorcidos, com mais de vinte centímetros cada.

Aquele era o Javali de Pelos Vermelhos. Um terrível monstro, feroz, que geralmente os iniciantes no cultivo prefeririam evitar.

Mas ao vê-lo, Xiao Ning sorriu. Era o ingrediente que faltava em sua futura Composição Alquímica e estava correndo direto para suas graças.

Vendo o Javali de Pelos Vermelhos, com um olhar enraivecido, correndo ferozmente em sua direção, Xiao Ning não pôde deixar de comentar, dando um sorriso descontraído:

― É uma Besta Demoníaca assustadora. ― Não muito pela força, mas sua expressão era feroz e intimidante.

Monstros são classificados em dois tipos, as Bestas Demoníacas e as Feras Mágicas.

As Bestas Demoníacas são criaturas agressivas, que atacam qualquer coisa viva em seu caminho. Existe até mesmo uma lenda afirmando que as Bestas Demoníacas são descendentes dos demônios, enviados ao mundo para aniquilar a humanidade.

Por outro lado, as Feras Mágicas, apesar de também atacar os seres humanos, possuem um comportamento mais “dócil”, e são dotadas de inteligência. São criaturas muito raras de se encontrar. Sem falar que, elas são os únicos monstros em todo mundo que possuem o mítico Núcleo Mágico, assim como, as raras Essências Mágicas. Mas bem, esse é um assunto para outro dia.

De qualquer forma, mirando Xiao Ning como se fosse um intruso que invadiu sua casa, o Javali de Pelos Vermelhos correu em sua direção, bufando e grunhindo. Abaixou a cabeça, de forma que seu queixo quase raspou no chão, e soltou um ronco horrível, enquanto se preparava para dar uma cabeçada.

― É... definitivamente ele está na 5° Camada. ― Tornou a afirmar.

Xiao Ning sabia que não havia como ele penetrar no couro da Besta Demoníaca, não enquanto estivesse viva, ou consciente. Pois, como se já não bastasse à pele resistente e a camada grossa de pelo, ainda tinha o fato de que o monstro estava um nível acima dele. Além disso, sua lança era fraca demais para atravessar algo tão resistente.

Mas, na verdade, isso não era um grande problema, já que ele sabia muito bem como mataria a criatura.

Quando o javali estava a dez metros de distância, Xiao Ning, que continuava parado no mesmo lugar, flexionou os joelhos. E, no instante em que a besta balançou seu crânio duro como rocha, pronta para rasgar o garoto com suas presas, ele saltou, dando uma cambalhota.

Enquanto passava por cima do monstro, que para ele não era assim tão rápido, girou a lança e faíscas azuis pularam da mão que a segurava, dançando pelo cabo de madeira, até a ponta de Aço Rochoso. Sem perder tempo, como uma abelha ferroando o atormentador de sua colmeia, dardejou com a lança, que voou de encontro às costas do javali.

No entanto, como já era de se esperar, a lança, mesmo tendo uma ponta tão fina quanto agulha, foi incapaz de penetrar o couro do Javali de Pelos Vermelhos. Mas isso não era um problema. Pois no momento em que o aço, carregada de eletricidade a tocou, a Besta Demoníaca soltou um uivo de lamentação, atordoado, e, logo em seguida, embolou as patas e saiu rolando pelo Capim Malaqui.

Caído no chão, o javali ficou duro, com as patas estiradas e dando pequenos espasmos, grunhindo sem parar, desejando poder se levantar.

Xiao Ning olhou para ele e comentou, enquanto caminhava em sua direção:

― É por isso que eu gosto do elemento Relâmpago!

Porém, mesmo que o Javali de Pelos Vermelhos tivesse sido derrubado, ainda não havia como passar por aquela armadura natural. Não com a força e a arma que tinha em mãos. Mas para contornar tal obstáculo, conhecia um jeito.

Ele parou de frente para a Besta e com um movimento rápido e certeiro, perfurou seu olho esquerdo. O monstro nem mesmo sentiu dor quando seu cérebro foi atingido, fazendo os espasmos convulsionantes cessarem.

Agora que já possuía os dois ingredientes necessários, Xiao Ning já não tinha mais o que fazer na Montanha Ancestral de Jade. Ele podia retornar para o seu velho e caindo aos pedaços, casebre. Porém havia um problema, algo que ele acabou se esquecendo... como levaria aquela coisa gorda e pesada?

Mesmo o Javali de Pelos Vermelhos em sua frente possuindo mais de duzentos quilos, não seria tão difícil para um cultivador como Xiao Ning, o qual recentemente atingiu a 4° Camada do Reino Mundano, carregá-lo. O problema mesmo estava em seu tamanho. O normal, para algo tão grande, sem ter nada para transportá-lo, seria desmembrá-lo ali mesmo, mas havia se esquecido de trazer um cutelo ou uma faca adequada.

Assim sendo, não existia outra escolha, senão carregá-lo... Ah, mas também havia o saco de Capim Malaqui.

HaaaH! ― suspirou. Se não fosse pela Alquimia...

Sentindo-se meio desanimado, Xiao Ning amarrou as pernas do javali, prendeu o saco de pano na ponta da lança, jogou a besta desajeitadamente sobre as costas, realizando um malabarismo nada artístico para segurar a arma com o campim e começou a descer a montanha...

 


Niveis do Cultivo: Mundano; Despertar; Virtuoso; Espirituoso; Soberano do Despertar; Monarca Místico; Santo Místico; Sábio Místico; Erudito Místico.

 


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